Corações Represados
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Longe dali, uma Beatriz zonza tenta entender onde está e o que está acontecendo. Procura adequar seus olhos a semiescuridão e tenta identificar alguma coisa conhecida, mas em vão. Olha ao redor e vê que o lugar é muito pequeno. Há um cobertor sob seu corpo. As paredes são altas, escuras e cobertas de mofo. O ar estava úmido e mal cheiroso. No alto das paredes havia umas janelinhas muito pequenas e estreitas. Mesmo que pulasse não conseguiria alcançá-las, pois ficavam a uns dois metros e meio do chão. E não tinha onde subir. O espaço onde estava não passava de uns dois metros e meio por três.
Percebeu nesse instante que sua cabeça doía e sua boca estava muito seca. Seu estômago também reclamava. Não sabia que horas eram, mas lembrou-se de que havia saído do hospital para encontrar-se com William e que tinha sentado num banco ao lado do estacionamento. Depois algo foi colocado sobre seu rosto, não conseguia respirar direito e tudo ficou escuro. Não conseguia lembrar-se de mais nada.
Apoiou-se no chão com as mãos e sentou-se. Sua cabeça latejava. O estômago estava enjoado. Pressionou os lados da cabeça com as mãos na esperança de aliviar um pouco a dor e o mal estar que sentia. Encostou o rosto na parede fria e isso parece ter ajudado um pouco a recobrar o equilíbrio.
Olhou novamente ao seu redor. Havia uma porta de ferro em um canto. Levantou-se e foi até ela só para sossegar sua necessidade de preservação. Testou a porta que como esperava estava trancada. Do outro lado do cômodo havia um ralo. Esperava que não saíssem baratas e ratos daquele buraco.
Andou um pouco e flexionou as articulações. Precisava pensar. Só havia uma explicação. Evelyn. Com certeza esse momento era ação daquela louca. Mas teria agido sozinha? Como a trouxera até ali. Onde ficaria este lugar? Pensou em gritar, mas temeu enraivecer a maluca se estivesse por ali.
Analisando a situação calculou que ela não havia decidido de uma hora para outra. Não havia saído da conversa com o William e decidido sequestrá-la. Era pouco tempo para providenciar um lugar e rota de fuga e tudo o mais que ela devia ter providenciado. Aquele ato devia ter sido pensado e planejado nos últimos dias. E provavelmente obteve ajuda de mais alguém.
Ficou quieta e procurou ouvir com atenção para tentar localizar algum barulho familiar, mas ouvia apenas o vento que estava forte uivando lá fora, alguns passarinhos de vez em quando e mais nada. Pareceu ouvir ao longe o latido de um cachorro, mas não tinha certeza se ouvira mesmo ou fora sua imaginação lhe pregando uma peça.
Voltou a sentar sobre o cobertor e encostou-se na parede. Fechou os olhos e pensou em como William devia estar preocupado. Será que ele falaria pra Isadora. Talvez não. Isso poderia prejudicar sua recuperação. Teria chamado a polícia ou tentado negociar com Evelyn. Alguém teria visto o que acontecera com ela. Ou simplesmente tinha sumido como fumaça sem que ninguém tenha percebido. Com certeza devia haver câmeras naquela região, mas elas teriam registrado o que lhe aconteceu? Eram muitas perguntas e não havia respostas para elas.
Tinha que manter a calma para poder aproveitar alguma oportunidade que surgisse para fugir. Olhou para suas roupas e agradeceu sua mania de conforto. Tinha vestido pela manhã uma calça de lã, uma camiseta e por cima um blusão comprido de lã. Pegara a jaqueta acolchoada pois achara que ventaria e estaria mais protegida. E poderia tirar quando estivesse no hospital ou no restaurante para almoçar. Calçara as botas de camurça forradas por cima de uma meia grossa. Não imaginava que sua escolha da manhã agora estava sendo muito útil para protege-la do frio que fazia naquele lugar.
Fechou o zíper da jaqueta e procurou se acomodar melhor. Ouviu um barulho de uma porta de ferro abrindo e fechando ao longe. Ela devia estar em um barracão. Ficou atenta mas não ouviu mais nada. Seus pensamentos voltaram-se para as lembranças maravilhosas vividas naquelas últimas semanas.
Não conseguira se apaixonar por ninguém na escola. Achava os garotos da bonitos e até legais, mas não provocavam nenhuma grande emoção. Na faculdade estava sempre tão ocupada trabalhando e estudando que não se permitira prestar atenção em ninguém e nem dera chances aos poucos que se aproximaram.
Sempre duvidara que pudesse haver algo de verdadeiro na expressão “amor à primeira vista”, mas fora o que acontecera com ela e William. Em tão pouco tempo sentia-se envolvida de tal forma, que era impossível dizer que não o amasse de verdade. Vivera momentos mágicos e incríveis com ele. E o melhor de tudo era sentir que era plenamente correspondida por ele.
Olhou para as janelas lá no alto. O dia devia estar acabando pois a escuridão engolia a pouca luz que entrava por aquelas aberturas. Um calafrio lhe percorreu. Não era medrosa, mas temia o que poderia estar a sua frente. O tempo passou e a escuridão era total. Estava com fome. E esperava que o frio não piorasse muito. Com certeza aquele cobertor não seria suficiente para aquecê-la naquele piso gelado.
O vento aumentou e ela começou a ouvir um barulho que parecia uma janela batendo em algum lugar do lado de fora da sua porta. Também parecia que ouvia passos andando de um lado para outro e depois vozes abafadas. Alguém parecia muito alterado. Mas não conseguia entender o que era dito. Nem se era homem ou mulher que falava.
Muito tempo se passou. Aos poucos os barulhos cessaram e tudo ficou em silêncio novamente. Deitou-se sobre o cobertor e procurou esquecer que seu estômago estava lhe torturando. A sede também era muito grande. Devia ser pelo que usaram para lhe drogar. Recostou-se e procurou entregar-se as lembranças com William, na esperança de que lhe trouxessem consolo e o sono. Aos pouco o sono lhe alcançou e a venceu. Adormeceu profundamente. E seus sonhos foram povoados de uma mistura de doces lembranças e fugas dolorosas e angustiantes.
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