A reunião ao redor da fogueira estava quase no fim, mas minha cabeça estava tão cheia que mal absorvi o que era dito. Jacob estava sentado ao meu lado, como sempre naquela postura tranquila, mas a presença dele queimava minha pele mais do que o calor das chamas.

Assim que todos começaram a se dispersar, ele se inclinou levemente.

— Te levo pra casa. — disse com aquela voz baixa e firme.

Revirei os olhos. — Não precisa.

— Precisa, sim. — o tom não era de discussão, era de certeza. — Mesmo você sendo uma loba, ainda é alvo da Victoria.

Cruzei os braços. — Você não vai aceitar um não, né?

O canto da boca dele se levantou num meio sorriso que sempre me desconcertava. — Não aceito.

Suspirei, derrotada. — Tá… tudo bem.

Me levantei, despedindo-me de Leah, Billy, Emily e Sue, tentando ignorar o olhar satisfeito de Jacob por ter vencido a “disputa”. Ele apenas esperou, com aquela calma irritante, e então começamos a caminhar lado a lado até onde o carro dele estava estacionado.

Quando o vi, parei no meio do caminho, surpresa.

— Carro legal. — não consegui esconder o encantamento.

Ele soltou uma risada curta. — Reed Rabbit.

Sorri de lado. — Nome de carro ou de coelho de desenho animado?

— Os dois. — respondeu, abrindo a porta do passageiro pra mim como se fosse um cavalheiro da década passada. — Senhorita Clearwater.

Meu coração vacilou por um segundo, mas não deixei transparecer.


O motor do carro ainda fazia um ronco suave quando ele parou em frente à casa do meu pai. Eu forcei um sorriso, pronta para me despedir, mas as palavras dele me pegaram de surpresa.

— Eu te amo, Nessie — disse Jacob, com aquela voz baixa e firme que parecia atravessar direto minha pele.

Meu coração bateu tão forte que quase doeu. Respirei fundo, tentando colocar um escudo entre nós.

— Isso é só por causa do imprinting — murmurei, evitando olhar para ele.

Ele não recuou. Pelo contrário, inclinou-se levemente, os olhos fixos nos meus.

— Você vai conseguir ficar longe de mim? — perguntou, como se soubesse exatamente a resposta.

Um nó se formou na minha garganta. Por mais que eu quisesse negar, sabia que não seria fácil. O imprinting que eu mesma tinha por ele — aquele laço que queimava e puxava o tempo todo — me chamava a cada segundo, como se meu corpo e minha alma fossem feitos para encontrá-lo.

Sem pensar, abri a porta e saí do veículo, precisando desesperadamente de distância. Mas antes que pudesse dar dois passos, senti sua mão quente envolver meu braço.

— Jacob… — comecei, mas não terminei.

Ele me puxou para si com força e cuidado ao mesmo tempo, como se temesse me machucar e, ainda assim, não conseguisse me deixar ir. Meu corpo colidiu com o dele e, por um instante, tudo desapareceu — a rua, a casa do meu pai, até o ar frio da noite. Só havia nós dois e aquela ligação inevitável queimando no fundo.


O ar ao nosso redor parecia carregar eletricidade.

O toque da mão dele em meu braço foi quente demais, quase queimando, mas não de um jeito que eu quisesse me afastar… pelo contrário. O maldito imprinting pulsava dentro de mim como se fosse parte do meu sangue, arrastando-me para ele sem pedir minha permissão.

— Nessie… — a voz dele soou rouca, quase um sussurro, mas carregada de tudo o que eu tentava negar.

Meu corpo inteiro entrou em guerra. Uma parte gritava para eu recuar, proteger o que restava da minha sanidade. A outra… queria se afogar nele.

E essa parte estava vencendo.

Ele me puxou de vez contra si, e eu não lutei. Não havia como lutar. O calor do corpo dele me cercou, o cheiro familiar e viciante tomou meus sentidos. Quando seus lábios tocaram os meus, todo o ar fugiu dos meus pulmões.

O beijo não foi calmo, não foi tímido. Foi intenso, urgente, como se ele quisesse gravar naquele momento tudo o que não podia dizer em palavras. E eu… retribuí.

Sem pensar, sem medir, sem resistir.

Minhas mãos encontraram o peito dele, sentindo o coração acelerado sob meus dedos. Era errado, perigoso… mas parecia inevitável. Como se aquele fosse o único lugar no mundo onde eu realmente pertencesse.

Quando ele se afastou apenas o suficiente para respirar, seus olhos queimavam nos meus.

E eu sabia — estava perdida.


O ar parecia pesado, denso… talvez fosse o calor do imprinting ou o jeito como os olhos de Jacob me atravessavam. Ainda estava nos braços dele, sentindo o peito dele subir e descer rápido, como se cada segundo que passava fosse um risco de me perder.

— Não foge mais disso, Nessie — a voz dele veio grave, quase um pedido, quase uma ordem.

Meu coração disparou. Eu queria… queria tanto. Mas também tinha medo do quanto isso já estava me dominando. Os lábios dele se aproximaram de novo, e eu já podia sentir o calor da respiração quando uma voz rouca e conhecida cortou o momento como uma lâmina.

— O que significa isso?

Meu corpo inteiro se retesou. Olhei por cima do ombro de Jacob e vi Charlie, parado na calçada, olhar sério, braços cruzados. O nó na minha garganta se apertou.

Afastei-me de Jacob de repente, como se precisasse cortar aquele elo antes que ficasse ainda mais difícil. — Vai embora, Jake — pedi, tentando manter a voz firme, mesmo com a vontade de fazer exatamente o contrário.

Ele me encarou por um segundo, como se quisesse discutir, mas apenas assentiu lentamente, os olhos ainda fixos nos meus. Sem dizer mais nada, entrou no veículo e arrancou, deixando o som do motor se afastando junto com ele.

Fiquei parada por um instante, olhando o vazio na rua, até sentir o peso do olhar de Charlie sobre mim. Virei-me para ele.

— Entra — disse apenas, a voz firme, mas com algo que eu não consegui decifrar.

Eu obedeci, passando pela porta, sentindo os passos dele atrás de mim. A tensão era quase palpável. Apesar do título de “pai”, Charlie não tinha me criado. E, aos 22 anos, eu não precisava da aprovação dele… mas sabia que a conversa que vinha a seguir não ia ser fácil.


O ar dentro da sala parecia pesado, como se cada respiração viesse carregada de algo que estava guardado há anos.

— Então é isso? — a voz de Charlie ecoou logo atrás de mim, dura, com aquela mistura de autoridade e incredulidade. — Depois de tudo, você está com o Jacob? O mesmo homem que abandonou a sua irmã no altar?

Eu parei no meio da sala, sentindo meus músculos se retesarem. O eco daquele beijo ainda queimava nos meus lábios, mas agora era a raiva que pulsava no meu peito.

— Primeiro — virei para ele, segurando o olhar —, eu não devo satisfação da minha vida para você. Eu tenho vinte e dois anos, Charlie. Não sou uma criança que precisa da sua permissão.

Ele deu um passo à frente, o maxilar travado.

— Eu sou seu pai.

— Pai? — soltei uma risada curta e sem humor. — Não me faça rir. Você não foi pai quando eu precisei. Não foi pai quando deixou a minha mãe ir embora grávida, só para manter a sua imagem de “bom homem da lei”.

— Renesmee… — Bella apareceu na escada, a voz baixa, tentando intervir. — Vamos todos nos acalmar.

Charlie não desviava o olhar de mim, como se quisesse encontrar alguma brecha para me controlar.

— Não se mete, Bella — ele disse, sem tirar os olhos de mim. — Isso é entre eu e ela.

— Não, não é — retruquei, sentindo minha voz subir. — Porque você nunca esteve “entre eu e você” quando era necessário. Eu cresci sem você, Charlie. Não adianta querer bancar o protetor agora só porque é conveniente.

Bella desceu mais um degrau, os olhos passando de um para o outro, aflita.

— Por favor, não façam isso…

Eu já estava de pé firme, como se minhas próprias palavras fossem minha armadura.

— Amanhã mesmo eu volto pra reserva. E quando eu for, não vai ter mais essa cena ridícula. Eu não devo nada pra você. Não devo explicação, não devo obediência… nada.

Ele parecia engolir algo amargo, mas não respondeu.

Eu virei de costas, subindo para o meu quarto, deixando o peso das minhas últimas palavras ecoar pela sala.



Abri a porta do quarto devagar e a encontrei parada no batente, os olhos vermelhos, aquele sorriso meio culpado que sempre tentava usar como máscara. Bella. Minha irmã — a garota que, anos atrás, tomou Jacob de mim como se fosse um troféu. O peso daquela história ainda queimava entre nós, mais fresco do que eu queria admitir.

— Nessie, eu... — ela começou, a voz baixa, hesitante. — Eu vou falar com o Charlie. Vou — fez um gesto como se resolvesse tudo com palavras.

Meu riso saiu cortante, sem humor algum.

— Vai falar com o Charlie? — repeti. — E o que você vai dizer? Que a sua dor foi grande, que você teve o direito de errar porque era apaixonada? Vai pedir desculpas por me tirar algo que eu nem tive tempo de viver?

Ela recuou um passo, as mãos ligeiramente levantadas num gesto de rendição.

— Não é assim… eu sei que…

— Não. Não começa, Bella. — Fechei a porta com mais força do que pretendia. — Sempre que algo dá errado aqui, tudo gira em torno de você. Sempre houve espaço pra suas decisões, suas quedas, suas escolhas — e quando deu errado, alguém pagou a conta. E eu paguei. Sempre eu.

Ela abriu a boca, tentou falar, mas eu não deixei.

— Você quer agradar o Charlie agora? Quer que ele a veja como a filha certa? Ótimo. Faz isso. Só não espere que eu acredite que, de uma hora pra outra, ele se importa com a minha felicidade. Ele nunca se importou quando eu precisei. Ele deixou minha mãe grávida e foi viver a vida “exemplar” do xerife. Ele não perdeu noites por mim, Bella. Ele não me carregou no colo quando as coisas desabaram.

Bella deu um passo à frente, a expressão ferida e ao mesmo tempo determinada.

— Renesmee, por favor. Eu tentei de um jeito. Eu errei muito, e eu sinto — ela sussurrou. — Eu não quero brigar com você. Eu vou falar com ele porque não quero que você vá embora. Ele não sabe nada sobre a verdade por isso nao entende.

Senti a raiva subir como fogo. Era mais do que raiva — era todo um passado que eu não queria reviver.

— Então fala. Fala com ele se isso te acalma. Mas fala sabendo: eu não quero mais sermões. Eu não quero consertos que cheguem tarde. Não quero suas falsas tentativas de proteção. Eu vim morar aqui esperando um lugar — e descobri que esse lugar nunca foi pensado pra mim.

Bella tentou tocar meu braço, com aquela postura de quem quer consolo e também quer perdoar.

— Sai do meu quarto, Bella. — disse, a voz dura, sem hesitar. — Agora.

Ela hesitou, com o olhar turvo. Depois virou, devagar, e desceu as escadas. Ela ainda murmurou algo — uma promessa? Um pedido? — mas eu não quis ouvir. Tranquei a porta, encostei as costas nela e respirei fundo.

Sozinha, senti a mistura de cansaço e alívio: cansada de sempre ter que explicar minha dor, aliviada por finalmente ter posto um limite. Aqui dentro, naquele quarto, eu decidia o meu espaço. Lá fora, as relações continuariam estilhaçadas — e eu não tinha mais paciência pra colar os pedaços que ninguém parecia notar.