Coração de loba
42 O começo da nossa felicidade
Narrado por Renesmee
O dia amanheceu com aquele silêncio pesado, quase sufocante. Peguei minha bolsa, passei a alça pelo corpo e desci as escadas, já decidida a ir embora. Charlie estava sentado na poltrona, com o jornal dobrado sobre o colo, mas não lia.
— Renesmee… — a voz dele saiu baixa, quase um pedido — me dá só uns minutos. Depois, se quiser, você vai embora… mas eu preciso falar.
Suspirei, já sentindo que isso não ia acabar bem. Antes que eu respondesse, Bella apareceu no corredor.
— Eu vou encontrar o Edward — disse, como se fosse uma desculpa para nos deixar a sós. Em seguida, sumiu pela porta.
Ficamos só nós dois. Charlie respirou fundo, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu queria… pedir desculpas — ele começou, hesitante. — Eu sei que nunca fui o pai que você merecia.
Olhei para ele, tentando manter a expressão firme, mas algo na voz dele me fez hesitar.
— Só quero proteger você, Nessie. Sempre quis. — Ele desviou o olhar para as próprias mãos. — Eu amei muito a sua mãe. E… ter você por perto é como ter um pedaço dela aqui, como se Elizabeth ainda estivesse comigo.
Aquela confissão atravessou minhas defesas. Senti a verdade nas palavras dele. O peso da raiva que eu carregava ficou mais difícil de sustentar.
— Eu também sinto muito — murmurei. — Mas… eu amo o Jacob, Charlie. E… peço desculpas pelas coisas duras que eu disse.
Ele se levantou devagar, se aproximou e pousou um beijo leve na minha testa.
— Essa casa sempre vai ser sua — falou com firmeza, antes de se virar e seguir para a cozinha.
Fiquei parada no meio da sala por alguns segundos, respirando fundo, até que finalmente me movi. Saí pela porta, sentindo o ar frio bater no rosto. Entrei na caminhonete, fechei a porta e, assim que fiquei sozinha, a primeira lágrima caiu. Depois outra. E, antes que eu percebesse, eu estava chorando com a testa encostada no volante, tentando colocar em ordem tudo o que sentia.
O ar frio de La Push me envolveu assim que estacionei, e foi só então que percebi onde estava. Em frente à casa dele. Não tinha planejado vir… mas parecia que meus pés e mãos tinham tomado a decisão sozinhos.
Saí da caminhonete, sentindo o vento salgado vindo do mar, e caminhei até a porta com o coração martelando no peito. Bati uma, duas vezes.
A porta se abriu devagar, e lá estava ele.
— Ness… — Jacob sussurrou, como se meu nome fosse feito de vidro.
Eu não esperei. Me joguei contra ele, abraçando-o com toda a força que minhas mãos frágeis podiam dar. Senti o calor dele me envolver, o cheiro familiar, e foi como se o mundo lá fora tivesse ficado mudo por alguns segundos.
— Tá tudo bem… — ele murmurou no meu ouvido, com aquela voz grave que sempre conseguia me acalmar. Entrou comigo, como se já soubesse que eu não tinha forças para andar sozinha.
Jacob me fez sentar no sofá e se agachou à minha frente, atento a cada respiração minha.
— Eu não aguento mais… — minha voz saiu trêmula, carregada de um peso que eu vinha carregando sozinha. — Às vezes eu sinto que… que vou surtar.
Ele tocou meu queixo com cuidado, como se tivesse medo de me quebrar, e levantou meu rosto até nossos olhares se encontrarem. Seus olhos eram firmes, mas tinham uma doçura que me desmontava.
— Isso tudo pode passar, Ness… — disse com convicção. — Pode ser melhor. Tudo pode mudar… basta você aceitar.
O ar parecia denso, quase elétrico, como se cada batida do meu coração ecoasse alto demais no silêncio da sala. O olhar de Jacob queimava o meu, e eu podia sentir que ele sabia — sabia o quanto eu estava dividida, o quanto lutava contra algo que, no fundo, já tinha vencido.
Aquela proximidade me puxava como um ímã irresistível. O cheiro dele, o calor, a segurança que seus braços transmitiam… tudo me cercava, prendendo-me numa armadilha da qual eu já não queria escapar.
— Ness… — ele murmurou, e o som do meu nome na voz dele foi como um estalo dentro de mim.
Antes que eu pudesse pensar, nossos lábios se encontraram de novo, e o beijo não tinha mais nada de hesitante. Era urgente, carregado de tudo que negamos por tempo demais. Eu sentia minhas mãos se agarrando à camisa dele, trazendo-o para mais perto, como se o mundo inteiro pudesse sumir desde que ele permanecesse ali.
Jacob me deitou lentamente no sofá, o corpo dele cobrindo o meu, o peso e o calor me ancorando no presente. Sua boca explorava a minha com fome contida, mas havia também uma doçura quase insuportável, como se ele estivesse dizendo, sem palavras, que eu era dele — e sempre seria.
Foi nesse instante que a ficha caiu.
Não havia forma de lutar contra isso. Contra nós.
O imprinting não era uma prisão… era a única liberdade que fazia sentido.
Eu fechei os olhos, deixando a última barreira cair, sentindo meu corpo relaxar sob o dele. Não importava mais o que diriam, o que aconteceria depois. Naquele momento, só existia Jacob.
Eu estava deitada sob o corpo quente de Jacob, respirei profundamente, sentindo cada batida do coração dele sincronizar com a minha. Era como se, finalmente, todas as peças do meu quebra-cabeça interno tivessem se encaixado — mesmo aquelas que eu teimei em ignorar por tanto tempo.
— Eu pensei que podia resistir — murmurei, a voz falhando um pouco —, mas você me venceu.
Ele sorriu contra os meus lábios, os olhos brilhando com uma mistura de ternura e alívio.
— Eu nunca quis vencer uma batalha com você, Nessie — disse ele, com a calma firme que eu tanto precisava ouvir —. Só quero estar aqui, ao seu lado, pelo que você quiser, do jeito que você precisar.
Meu peito se apertou com aquela promessa silenciosa, e um calor diferente, mais suave e profundo, se espalhou pelo meu corpo. Não era só desejo ou atração — era algo que ia além, algo que eu só podia entender porque era real.
— Então… o que acontece agora? — perguntei, com um sorriso tímido, ainda sentindo o toque dos seus dedos na minha pele.
Jacob beijou minha testa, a sua voz firme como uma âncora.
— Agora, a gente enfrenta o que vier. Juntos.
E naquele instante, soube que, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava sozinha. Que o imprinting não era uma cadeia, mas a ponte para um futuro que eu estava pronta para viver — mesmo com todos os seus desafios.
Eu o abracei forte, finalmente entregue, finalmente em paz.
— Eu te amo — confessei sentindo o peso das palavras, o alívio e a esperança.
— Eu também amo você — ele disse me apertando em seus braços.
E ali, no sofá simples de uma casa no meio da floresta, eu entendi: era só o começo da nossa felicidade.
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