Coração Malandro
7 Capítulo 6
Notas iniciais
“Eu sou órfã”. Aquelas palavras ecoavam na mente de Ezra. Nunca imaginaria tal situação. Agora estava explicado o estado alterado de Mara. As palavras de Alex para muitos não fariam diferença, pois sabiam que era o jogo psicológico da praxe mas para ela, para ela fazia muita diferença.
–Ele não sabia, Mara. – disse Ezra. Ele sabia que por mais que Alex quisesse provocar Mara, caso soubesse que ela era órfã nunca teria dito aquilo.
–Eu sei que não mas mesmo assim custa ouvir. – respondeu Mara. Naquela situação não podia por grande culpa em Alexander. Até para Alexander seria demasiado cruel dizer algo do género sabendo que ela era órfã – Eu vou andando, não estou aqui a fazer nada. – voltou-se e continuou o seu destino inicial.
–Espera. – gritou Ezra. Mara imediatamente se voltou – Posso levar-te a casa? – perguntou. Mara ia protestar, ia dizer que ele era igual ao amigo mas Ezra não a deixou falar – Só te vou levar a casa, mais nada. – Mara acabou por concordar. – E já agora o meu nome é Ezra. – Mara acabou por sorrir pois nem se lembrara de lhe perguntar o nome.
Durante todo o caminho, Mara e Ezra falaram sobre banalidades. O assunto anterior não voltou a ser falado e Mara agradeceu por isso. E, por momentos, também se esquecera do que se passou. Ezra soubera distraí-la. E rapidamente chegaram a sua casa.
–Obrigada pela boleia Ezra. – agradeceu Mara.
–Sempre que precisares. – respondeu Ezra – E sabes que…
–Eu sei. – cortou-o Mara. Mara sabia que Ezra ia fazer referência ao que se passara mais cedo e não estava com a mínima vontade de voltar a esse assunto. – E preferia não voltar a falar desse assunto. – Ezra apenas concordou e despediram-se um do outro.
Mara entrou no seu apartamento dando de caras com Benjamin sem camisola como na noite anterior. Benjamin olhou para Mara e viu que ela não estava bem, os olhos inchados mostravam isso, ela estivera a chorar.
–Que se passa? – perguntou Benjamin.
–Tive um dia complicado. Preferia não falar disso. – respondeu Mara – Só preciso de um abraço. – e como se as palavras de Mara fossem uma ordem, rapidamente estava envolvida por aqueles fortes braços. Já Benjamin não sabia o que estava a sentir. Não conseguia ver Mara assim, nunca conseguiu. Sabia que ela raramente ia abaixo e para estar neste estado, algo grave tinha acontecido.
Benjamin levou Mara até ao sofá sem a largar durante um único segundo. Mara apenas se deixou levar sem protestar. Sabia que Benjamin a conhecia e não faria nenhuma pergunta até ela contar por conta própria.
–Sabes Benjamin eu nem me devia importar mas eu não consigo… — começou Mara – Tu sabes que eu já perdoei a minha mãe há muito tempo e percebo porque ela me abandonou…
–Sim eu sei Mara.
–Esse assunto foi hoje tocado na praxe…e eu não consegui controlar-me.
–É normal Mara, esse é um assunto delicado para ti. Mas tens de compreender que quem te disse isso não sabia da tua história. – afirmou Benjamin.
–Eu sei, o Ezra disse-me a mesma coisa. – disse Mara.
–Quem é o Ezra? – perguntou Benjamin tentando não transparecer o incómodo que sentia.
–Conheci-o hoje porquê? – perguntou Mara curiosa.
–Nada. Já não posso ser curioso? – perguntou Benjamin para disfarçar o seu incómodo.
–Podes. – respondeu Mara sorrindo. Para Benjamin já era um avanço. Um sorriso. Significava muito para ele. – Estava a pensar…
–Sim? – perguntou Benjamin curioso.
–Vamos sair. Vamos nos divertir. – disse Mara decidida – Vou ligar para o escritório e vou dizer que estou doente.
Mara nem deu hipótese a Benjamin para responder. Simplesmente pegou no telemóvel e ligou. De seguida chamou Benjamin e juntos rumaram ao shopping.
A tarde que Mara e Benjamin passaram juntos foi bastante animada. Mara conseguiu abstrair-se do que se passara mais cedo. Foram ao cinema ver uma comédia que estreara há pouco tempo. Depois, foram até ao McDonald´s jantar.
–Estava a pensar… — começou Mara chamando a atenção de Benjamin.
–Não achas que hoje já estás a pensar demais? Isso faz-te mal. – brincou Benjamin. Mara deu um soco no braço de Benjamin fingindo-se ofendida. – Mas diz lá miss criatividade.
–Vamos sair, beber até cair para o lado. – sugeriu Mara.
–Mara não achas…
–Por favor. – pediu Mara fazendo beicinho. Mara sabia que Benjamin nunca recusara nada pedido por ela por isso seria fácil convencê-lo.
Benjamin concordou com a cabeça e a Mara só lhe faltava gritar de felicidade. Mas ela ainda tinha um pouco de juízo, afinal estava num local público.
Seguiram até a um bar chamado Black and White, muito conhecido por Mara e Benjamin. Quando Benjamin ainda morava no orfanato, ele e Mara saíam às vezes para esse bar. Claro que essas saídas noturnas não eram do conhecimento de ninguém pois eles tinham toque de recolher. Mas se havia algo em que eles eram bons, esse algo era em quebrar regras. Nunca chegaram a ser apanhados. Saíam quando toda a gente estivesse a dormir e voltavam de madrugada depois de uma noite bem passada, a beber, a dançar, a divertir-se.
Mara tinha na mão o seu sexto copo de vodka laranja. Não podia negar que já se encontrava bastante animada, aliás como muitos ali presentes. Durante aquelas poucas horas, Benjamin manteve-se sempre ao seu lado. Decidira que não beberia para assim conseguir controlar Mara. Mas pior que controlar Mara, ele tinha de se controlar a si próprio. Mara não notara, mas a forma sensual como dançava estava-o a deixar louco. Não sabia quanto tempo aguentaria mais.
–Tenho de ir à casa de banho. – falou Mara alto por causa da música tirando Benjamin dos seus desvaneios. – Já volto.
Mara seguiu até à casa de banho. Mesmo sem querer, era impossível não esbarrar nas pessoas por quem passava afinal havia muita gente presente no bar. O grande problema disso foi que Mara acabou por esbarrar na última pessoa que queria ver à face da terra, Alex.
–Eu até ia pedir desculpas pelo encontrão mas depois de ver quem era mudei de ideias. – disse Mara atropelando-se um pouco em cada palavra que dizia. Alex, que nesta noite não tinha ingerido bebidas alcoólicas quase nenhumas, reparou que Mara estava alcoolizada. Assim, Alex largou a rapariga que estava consigo e seguiu Mara. Ela poderia não gostar dele nem um bocado mas ele sabia que uma rapariga, sozinha, nas condições em que se encontrava Mara não era bom sinal.
–Mara espera. – chamou Alex conseguindo agarrar no braço de Mara.
–O que é que tu queres? – perguntou Mara irritada. A presença de Alexander naquele local só a fazia lembrar-se o que tinha ocorrido mais cedo.
–Não devias de andar por aí sozinha. Alguém pode querer aproveitar-se de ti nesse estado. – avisou Alex.
–Falou aquele que anda atrás de todos os rabos de saias. – cuspiu Mara – Agora, muito obrigada pela preocupação e adeus. – Mara voltou-se para continuar o seu caminho mas voltou a ser agarrada por Alexander.
–Mara, eu… — começou Alex. Ele queria falar com ela sobre o que acontecera mais cedo mas também tinha noção que dificilmente Mara se lembraria daquela conversa e ele realmente queria que ela se lembrasse do pedido de desculpas que lhe devia.
–Será que dá para me deixares em paz? Eu só quero ir à casa de banho. – choramingou Mara. Alex estranhou esta atitude, ainda por cima vinda de Mara, mas suspeitava que fosse mais um efeito do álcool sobre ela.
–Não a ouviste? Larga-a. – ordenou uma voz desconhecida a Alex.
–E quem tu pensas que és para me dares ordens? – indagou Alex.
–Benjamin. – chamou Mara. Conseguiu soltar-se de Alex e correu para os braços de Benjamin. Alex nem teve tempo de reagir. Afinal Mara não tinha vindo sozinha. Seria o seu namorado? Alex achou melhor ir embora, não queria arranjar problemas com esse tal de Benjamin.
–Está na hora de irmos para casa. – disse Benjamin.
Seguiram para fora do bar em direção ao carro de Benjamin. O caminho até casa foi um total silêncio.
Benjamin carregou Mara até ao apartamento com muitos protestos da mesma, afinal Mara afirmava que se encontrava em perfeito estado para andar sozinha sem auxilio nenhum. Já no apartamento, colocou-a no chão.
–Eu conseguia perfeitamente subir as escadas sozinha. Mas muito obrigada na mesma. Agora vou dormir. – disse Mara.
Ao caminhar para o quarto acabou por tropeçar nos seus próprios pés. Só não caiu no chão porque Benjamin estava perto dela precavido para que algo do género acontecesse. Benjamin encarou Mara, ela estava muito próxima dele. Demasiado próxima, pensou Benjamin. Para ele já tinha sido muito difícil resistir a Mara no bar mas agora que ela estava tão próxima não conseguiu controlar-se. Benjamin beijou-a. E Mara correspondeu, pelo menos no início. Até se aperceber que quem estava a beijá-la era o seu melhor amigo. Benjamin começara a depositar beijos no pescoço de Mara quando esta o afastou e fugiu para o quarto sem que Benjamin tivesse tempo de reagir. O problema é que Benjamin não sabia como reagir. Aquele beijo o deixara ainda mais confuso. Simplesmente não conseguia entender como se sentia. Aquela era a Mara, a sua melhor amiga, a mesma de sempre. A mesma de sempre não porque, para Benjamin, algo mudou. Antes ele tinha a certeza de todos os sentimentos que tinha por Mara. Eram sentimentos de irmãos. Mas, após o reencontro com Mara, algo mudou. E aquele beijo ainda deu mais certeza a Benjamin. Porque depois de ter experimentado o beijo de Mara, ele ficou com a certeza de uma coisa. Queria que aquilo se tornasse a repetir.
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