Notas iniciais
Estou bem surpresa com cada comentário do capítulo 70. Se preparem que a fase de Henutmire como Rainha-Mãe e Regente está apenas começando... Ou terminando já que Amun prometeu uma nova rainha.

Ouvi o burburinho vindo da sala do trono quando Gab e eu entramos. Ele estava a meros passos distante de mim, mas se mantinha atento a cada passo que eu dava. Todos os servos, guardas, nobres e sacerdotes estavam na sala do trono esperando por mim. Posso ver que Djoser permanece ao lado do trono, mas não me olha com nenhum afeto. Tento ser forte ao lembrar que na sala do trono eu vi Hur morto e também vi Ramsés morrer em meus braços.


—Soberana. —Paser fala ao me entregar o vestimento que Ramsés sempre usou, uma capa azulada de seda. —A coroa deve estar sempre com a senhora. Mas seria significativo pôr essa veste no príncipe. —Paser fala segundo a tradição.


—O rei-menino deve ser guiado pela mãe, apesar de qualquer coisa. —Gab fala ao meu lado e então vou até Djoser.


—Me permita colocar isso em você. —Falo para Djoser. Eu então cubro suas costas com a capa que era de Ramsés. A seda azul escura parece realçar os olhos de meu filho.


Eu então me sento no trono e ao meu lado Djoser faz o mesmo. Olha para cada pessoa, vejo e ouço Paser fala algo ao ficar ao lado de Djoser com a coroa sobre sua cabeça. Essa a coroa de transição, aquela que Djoser irá usar até completar a maior idade e ser o rei. —Noto o quanto o olhar de meu filho está vago, perdido e solitário. —Djoser perdeu muitas coisas com tão pouco tempo. Sua vida era a de um príncipe híbrido normal que não precisava se preocupar com o seu futuro de rei. Djoser pensou até agora que seria um príncipe e que ajudaria Amenhotep a governar, esse era seu papel assim como Anippe.


Mas o sonho de Ramsés se realizou, a sua profecia de que Amenhotep e ele iriam morrer. Djoser é o futuro rei, um rei hebreu e egípcio. Me custa pensar o que meu pai pensaria se pudesse ver tal coisa. Um garoto de quase dezesseis anos, filho de um hebreu e de uma egípcia, com a coroa regente em sua cabeça e o nome da família real. Djoser é o primeiro rei hebreu, porém também egípcio.


—Proclamo o príncipe Djoser como futuro rei do Alto e Baixo Egito. Sendo sua regente a rainha Henutmire, irmã de Ramsés II e filha de Seti I, senhora das duas coroas, guardiã do Baixo Egito, mãe do príncipe herdeiro Djoser II. —Paser fala ao olhar entristecido para mim pela situação. —Que seu reinado seja longo.


—Que seu reinado seja longo. —Todos repetem em uníssono assim que Paser fala. Sinto o olhar de Gab em mim novamente, mas parece que ele sabe o que estou sentindo. E o que eu sinto é poder, e poder ao saber que agora sou rainha por mérito e que irei governar sozinha.


(...)


—Você precisa manter as condições, os acordos e tréguas que Ramsés fez em vida. —Gab me aconselha enquanto andamos pelo jardim. —Mas também precisa dar um jeito nos rebeldes que restaram.


—Isso não sei como fazer. —Falo ao sentir o calor do dia em meu corpo. —Alguma espécie de acordo?


—Yaffa vai vir. O papiro que Djoser mandou fará ela voltar diretamente para o palácio. —Gab fala. —Case-os.

—Eu estaria colocando o inimigo dentro do palácio. —Falo assustada.


—Faremos isso. E então iremos prender Amun. —Gab fala estrategista. —Iremos correr o risco sim, mas valerá a pena.


—Não se ele me matar antes. —Minhas palavras assustam Gab. —Já imaginou como seria se ele me matasse?


—Sim, e não quero mais pensar nisso novamente. —Gab fala assustado e então eu abro minha mão e lhe mostro um broche. Os olhos de Gab parecem faiscar ao ver o objeto em minha mão.


—Seria mais simbólico se Hur tivesse feito-o, e eu não sei se está certo. —Falo ao olhar para o broche em minha mão. Era em formato de punho, a mão direita de um rei. —Príncipe Gab, eu lhe nomeio mão da rainha, o principal conselheiro do conselho deste palácio. —Minhas palavras são ditas assim como eu ponho o broche na veste branca de Gab. Os olhos dele estão perdidos, ambos com lágrimas. —Vamos deixar o passado no passado. Preciso de você para arquitetar o futuro para Djoser.


—Não sou a pessoa mais adequada. —Gab fala tentando lutar contra as lágrimas.


—Você foi uma vítima do que aconteceu no passado. Trate de ser o melhor que pode ser agora. —Minhas palavras são seguidas de um sorriso. —Me ajude a escolher um general, Bakenmut morreu e até então Ramsés não nomeiou nenhum.


—Ikeni. —Gab sugere. Como eu não pensei nisso antes? —Ele é de boa índole, um ótimo soldado. E acima de tudo é fiel ao reino.


—Fale com ele, diga que ele é o general agora. —Falo. Volto minhas atenções para o meu ventre, ultimamente essa criança é minha única companhia.


—Henutmire eu preciso lhe contar algo. —Gab fala e então ganha minha atenção. Ele me olha penoso, mas nenhuma palavra sai de sua boca.


—Diga, Gab. Estou te ouvindo. —Falo na tentativa de fazer com que ele fale o que tem para me dizer. Nossos olhares se esbarraram e então eu vejo que Gab está nervoso.


—Conversei com Djoser. —Gab fala parecendo mentir para mim. —Ele está confuso, você não deve levar em conta o que ele fala ou faz.

—Ele confuso ou não, eu sou mãe dele. —Falo sendo tomada pela raiva. —Está difícil para mim criar Djoser agora que estou viúva, Gab. De certa forma estou exercendo o papel de pai e mãe.


—Prometo que isso vai mudar. —Gab fala ao segurar em minhas mãos suavemente. —Djoser é um adolescente, não sabe o que fazer nesses momentos.


—Muito menos eu. —Falo ao dar as costas para Gab. —Isso está totalmente fora de padrão. Era para tudo estar como sempre foi.


—Ou não. —Gab fala sugestivo. —Talvez tudo teria que ser como é agora.


—Pode ser. Mas não é certo eu estar sem Hur. Ou é? —Pergunto. —Esqueça. Não precisa me responder.
—Se você soubesse como ele queria te abraçar agora...


—E você sabe? —Pergunto.


—Eu imagino. —Gab fala entristecido. —Hur tinha uma família. A mais invejada de todo reino.


—E agora ela desmoronou. —Falo acariciando o meu ventre. —É estranho saber que Hur está morto, mas que há um filho dele que cresce dentro de mim. —Falo muito pensativa, mas as lágrimas já não vem mais. —Não posso perder essa criança. Não ouso nem em pensar nisso.


—Não pense em coisas ruins, elas podem acontecer. —Gab fala e eu acabo me assustando. Sinto meu filho chutar contra meu ventre e com isso ponho a mão em meu ventre. —Me desculpe, foi modo de falar.


—Entendo. —Falo constrangida. —Uma boa noite de sono irá me acalmar um pouco.


—Ponha issa na água. —Gab fala ao me entregar uma ampola em minhas mãos. —Vai lhe render uma boa noite de sono.


(...)


Abro os olhos lentamente e vejo que ainda é noite. O dia ainda não amanheceu, mas eu acordo mesmo assim. Algo insiste em me tirar o sono. —Toco em meu ventre e faço carinho tentando tocar em meu filho. —Não vejo a hora de saber como meu filho é. Não vejo a hora de ouvir o seu choro, mesmo que me tire o sono.

—O que... —Falo sonolenta ao ver algo passar perto de mim, mas logo trato de limpar minha garganta e fechar os olhos para tentar dormir.

Sinto algo perto de mim, mas não abro os olhos. O quarto está escuro, não há nenhuma pira ou lamparina em função. Apenas a luz da lua reflete um pouco, invade o meu quarto. Sinto uma respiração próxima ao meu rosto, mas o sono se torna ainda maior e por isso não dou atenção. —Algo leve faz carícias em meu ventre e por isso abro os olhos lentamente. —Vejo uma mão em meu ventre e por isso tento distinguir se estou sonhando ou se estou de fato sóbria. Talvez a poção que Gab me deu deva estar me fazendo delirar.

—Hur? —Indago ao piscar os olhos várias vezes para ver se de fato é Hur quem está acariciando o meu ventre. Fecho os olhos por causa do sono que sinto. —Estou sonhando? —

Pergunto ao ver o rosto de Hur próximo ao meu. Mas ele não fala nada, apenas me beija no rosto.
Eu toco em seu rosto e ele sorri para mim, mas logo eu tento me sentar na cama. Hur então deita-se ao meu lado e permanece acariciando o meu ventre e passa a sorrir. Ele cela seus lábios em meu ventre ao retirar o pano de minhas vestes e então deixa exposto a minha pele clara.


—Durma. —Hur pede ao beijar os meus lábios, todavia não correspondo. Acabo fechando os olhos, mesmo que eu tente em insistir e ficar acordada. Mas ao mesmo tempo isso parece ser um sonho. —Eu estou bem, meu amor. Siga em frente...


—Eu sinto sua falta. —Falo emocionada.

—Eu sei, Henutmire. —Hur fala ao segurar minhas mãos. —Mas você deve seguir em frente. E deve parar de pensar em mim, isso está me fazendo sofrer...


(...)


—Você deve ter tomado uma dose muito alta. —Gab fala enquanto Karoma me ajuda com a maquiagem dos olhos. —E deveria ter muito sono.

—Foi um sonho. —Falo estarrecida pela situação. —Não há outra explicação.

—Sonhos são assim mesmo, senhora. Nós mostram o que queremos, mas nunca mostram o que devemos fazer para realizá-los. —As palavras de Karoma me fazem pensar. Todavia Gab parece repreender minha dama com seu olhar intimidador.


—Belas palavras, Karoma. —Gab fala com um certo peso na voz. —Mas não são realistas.

—Não em parte. —Falo ao olhar para o anel que me foi dado por Hur. Eu nunca deixo de usá-lo, nunca o esqueci. Esse foi o mesmo anel que ele me deu ao pedir-me em casamento. —Pode ir, Karoma.


—Sim, senhora. —Karoma fala antes de se retirar.


—Está com a aparência melhor. —Gab fala ao olhar bem para meu rosto. —E a criança?


—Apenas pesa e se move. —Falo. —Ontem poderia jurar que Hur estava nesse quarto, Gab. Senti o toque dele e então a criança se mexeu.


—Fruto de sua imaginação. —Gab fala e eu acabo concordando com ele. —A fórmula foi mais forte do que pensei. Me desculpe, não teria dado para você se soubesse que poderia ter efeitos colaterais.


—Ele me pediu para seguir em frente. —Falo pensativa ao lembrar de meu sonho.
—É o que deve fazer. —Gab aconselha enquanto olho para o meu ventre. —Quanto mais você pensar em Hur, mais você vai sofrer.


—E tem como não pensar nele? —Pergunto calma. —Tudo me lembra Hur. Éramos um só, agora eu me sinto morta como ele. —Meu olha se desviou e então mudo de assunto. —E Djoser? —Pergunto subitamente.


(...)


—Está enfurecido. —Falo ao ver Djoser treinar com Ikeni. —Talvez seja comigo.


—Ele é jovem, tem todo direito de se irritar com facilidade. —Gab fala tentando me tranquilizar.


—Conheço Djoser, ele veio de mim. Isso dele não uma irritação boba. —Falo ao ver meu filho ir com toda sua fúria para cima se Ikeni. —Eu já fui assim. Não que eu tenha manejado uma espada. Mas eu já fui assim.


—A raiva que você tinha de nosso pai parece se voltar contra você agora. É isso que quer dizer? —Gab pergunta ao olhar seriamente para mim.


—Exatamente isso. —Falo um pouco assustada com a forma que Djoser luta contra Ikeni. —E como está a segurança do reino?


—Era exatamente sobre isso que eu queria falar. —Gab fala ao se pôr em minha frente. —Como você é a única e absoluta soberana do Egito, vários reinos vão querer fazer um certo tipo de aliança.

—Um matrimônio. —Falo estarrecida pela situação em que me ponho. —Já sei onde quer chegar...


—Muitos já não aceitavam Ramsés. Agora que você é a rainha absoluta e viúva, vai receber várias propostas. —As palavras de Gab me dão náuseas. —É um assunto indesejado, mas não podemos deixar de falar.


—Eu entendi. —Falo ainda incomodada com o assunto. —Mas a resposta é não. Nem que eu esteja totalmente desprotegida.


—Você não pensou em tudo. Podem achar que estou te usando. —Gab fala e então eu entendo tudo por completo. —Vão achar que estou prestes a fazer do Egito e da Núbia um reino só.


—Em parte é. Toda a família de Nayla morreu, você é o príncipe regente da Núbia. Assim como o verdadeiro rei do Egito. —Falo. —Mas você não vai tomar esse reino para você.


—Para que tomar um reino se não tenho herdeiros? —Gab pergunta com fundamento em uma suposta sucessão. —Você tem herdeiros. Djoser é o mais velho, ele quem deve reinar ao atingir a maior idade.


—Claro que sim. —Falo penosa pela situação de Gab. —Quem diria que eu seria mãe de um rei?

—Esse sempre foi o seu destino, apenas demorou para se realizar. —Gab fala convicto de si. —O destino de Djoser é ser rei, não um hebreu em meio ao seu povo no deserto.


—E o de Anippe é esse destino? —Pergunto. —Ou será que ela deve mesmo voltar?


—Anippe tem a alma nômade. Ela se habitua a qualquer lugar lhe imposto. —Gab fala. —Ela foi para Pilhae e se acostumou, agora está no deserto. Só Deus sabe para onde Anippe irá. Talvez Egito, talvez Canaã. Aquela menina tem muita liberdade, ninguém pode prender Anippe sem mais nem menos.


—E é isso que me preocupa. —Falo. —Sinto que minha filha não irá voltar, tampouco irá entrar em Canaã. Algo me diz que Anippe irá aprontar mais uma das suas.


—O que ela poderia fazer? —Gab pergunta confuso.


—Pode voltar a ser como era. —Respondo. —A morte do pai pode fazer com que ela volte a ser como era. O deserto ficaria muito pequeno para Anippe...


—Quando vamos praticar o arco e flecha? —Djoser pergunta para Gab, ele me ignora completamente.


—Quando você quiser. —Gab responde. Eu então anseio para falar com Djoser, mas temo que ele fale comigo.


—Djoser...


—Espero por você, tio. —Djoser me interrompe bruscamente e então se retira do local.


—Eu não sei se vou aguentar isso. —Falo para Gab. Lágrimas insistem em cair dos meus olhos e com isso deixo nítido minha tristeza.


—Tenha calma. —Gab pede ao ver que meus soluços estão se tornando ainda mais auditivos e perceptivos.


—Calma? Como pode me pedir isso, Gab? Djoser mal me olha, me ignora como se eu fosse nada. —Falo. —Já não basta eu ter perdido tantas pessoas, agora vou ter que conviver com isso também?


—O mensageiro voltou. —Paser fala ao vir até nós. —Não conseguiu alcançar o povo hebreu.


—Eles estão andando muito rápido. —Falo.


—Assim vai ser impossível encontrar Anippe e Yaffa. —Gab fala preocupado. —Se pelo menos eles ficassem fixos em algum lugar...


—É muito improvável. —Falo. —E agora?


—Eu ainda não sei. Vamos ter que contar com a sorte, Henutmire. —Gab fala atordoado. —De uma maneira ou de outra teremos que trazer a filha de Amun o mais rápido possível.
—Essa menina... —Sussurro ao entender o que pode acontecer. Amun falou-me que uma nova rainha iria chegar e tomar tudo o que é meu. Se Yaffa de fato se casar com Djoser, ela será a rainha. A maldição de Amun de fato o favorece e me desfavorece. —Tragam Yaffa o mais rápido possível. —Falo ao elaborar um plano. Essa garota não irá se tornar a rainha, não enquanto eu estiver lúcida. Mas se eu for forçada a aceitá-la, conto com essa criança que carrego. Se for um menino, darei um jeito de fazê-lo príncipe regente e assim Djoser perde todos os seus direitos.—Eu quero essa garota sob o meu olhar o quanto antes. —Falo. Se é guerra que Amun quer, guerra ele terá.


"Você julga o mal até provar dele. E depois disso, você julga quem o julgou. A vida é assim: Você pode até sobreviver hoje com o bem, mas amanhã você morre."

Notas finais
Djoser, hein? Tá ficando pior que Anippe... Até mais!