Notas iniciais
Contínuando...

Duas luas se passaram e Gab ainda não conseguiu capturar o vil sacerdote que matou meus irmãos e meu marido, não nego que estou ansiosa para tal coisa. Mas também sei que Amun pode estar tramando algo contra mim, ele não ficaria todo esse tempo sem fazer algo contra mim. O que mais me tranquiliza é o fato do povo aceitarem Djoser como príncipe regente e não se sentirem inferiores por terem uma mulher no poder, com isso tenho mais tempo para assuntos que realmente importam para o reino.

—Aparentemente está tudo bem com a criança. —Paser fala ao me examinar pela última vez ao dia.

—Já vão levar o corpo de Ramsés para Abul Simbel? —Pergunto ainda deitada em minha cama.


—A mumificação demorou bastante. —Paser fala e então uma certa dúvida se instala em minha mente. —O rei foi envenenado. —Paser revela. —O veneno fechou sua traquéia e com isso veio a asfixia.

—Eu já imaginava. —Falo ao me sentar um pouco tonta. —Gab achou mais prudente que os servos comam amostras de todas as comidas oferecidas a mim e Djoser.


—É uma tática de prevenção, senhora. —Paser convicto de que Gab está certo. —O cortejo do rei...


—Será feito. —Falo para sua surpresa. —Ramsés era um rei, merece um cortejo.


—Não acha arriscado? Temos rebeldes soltos e a senhora pode entrar em trabalho de parto durante o cortejo. —Paser fala e então me faz rir.


—Essa criança não será como Djoser, Paser. —Falo e então faço meu amigo rir. —Estou na oitava lua, não tem como essa criança nascer antes.


—A princesa Anippe assim fez, senhora. —Paser fala e eu acabo me lembrando de quando Anippe nasceu. Hur estava presente, não se importou ao me ouvir gritar de dor, não sentiu qualquer sentimento de vergonha ao me ver dar a luz. —Falei algo de errado? —Pergunta ao me ver pensativa.


—Acabei me lembrando de Hur. —Falo ao acariciar o meu ventre. —Fazem luas que ele morreu.

—Hur não morreu. —Paser fala emocionado ao olhar para o meu ventre crescido. —De certa forma ele ainda vive.


—Tal poesia não supre a falta dele, Paser. —Falo um pouco incomodada. Ultimamente estou irritada, mesmo que tudo esteja em ordem. Eu estou irritada demais e isso pode atingir a criança. —Me perdoe, Paser. Mas ultimamente não tenho a mesma paciência que antes tinha.

—É normal que mulheres grávidas mudem de humor. —Paser fala.


—Não as que são viúvas. —Falo deixando claro a minha revolta. —As vezes eu me pergunto porque Hur morreu. Nosso destino era a união, era para ele estar vivo. —Falo. —Eu o amava do jeito que ele era, apesar das poucas discussões, eu amava Hur. Nem mesmo o pior dos venenos me fez tão mal.


—Não pense tanto, senhora. —Paser pede preocupado. —Agora me diga, já sabe o nome que dará para essa criança?


—Se for menino levará o nome do meu irmão. Levará o nome do tio que foi morto ainda criança. —Falo me referindo á Kamés. —Ramsés pediu enquanto morria que a criança se chamasse Lyanna caso fosse menina.


—Seja lá o que for, que venha com saúde.


(...)


—Então é isso. —Falo ao enrolar o último papiro e suspirar aliviada. —Os camponeses devem permanecer no campo, ninguém entra na cidade.


—É uma tentativa arriscada. —Gab fala ao me observar sentada em minha cama.


—Paser pediu para que eu ficasse em repouso agora que a criança pode nascer a qualquer momento. —Falo ao ver a curiosidade de Gab. —Ele insiste em dizer que a criança pode nascer antes da nona lua.


—Ele é o sumo sacerdote, sabe o que faz. —Gab fala ao olhar fixamente para mim.


—Por que me olha tanto? —Pergunto.


—Eu descobri o significado do nome que pretende dar para essa criança, caso for uma menina. —Gab fala. —Lyanna significa "Deus responde".


—Espero que ele de fato me responda. —Falo angustiada com tanta tristeza. —Nada é como antes. No momento apenas a tristeza que tenho pela morte de Hur e o ódio por Amun me fazem viver.


—Não diga isso. Você em breve terá um filho, e isso é motivo de amar. —Gab fala tentando me motivar. —Você não perdeu nenhum de seus filhos, eles estão vivos. Isso é motivo suficiente para você viver.


—Acha que estou ridícularizando o meu luto? —Pergunto irônica. —Nefertari morreu grávida. Amenhotep e Uri morreram na décima praga. Hur foi morto pela incompetência de Ramsés. Incompetência pela falta de segurança de meu irmão, ele não sabia o risco que corríamos. E com isso foi morto por um homem que o envenenou com vinho. —Desabafo. —O vinho que Djoser quase bebeu,Gab. Acha que isso é pouco? Ainda tenho Anippe longe e perto de Yaffa. Minha filha está ao lado da filha do homem que matou meu marido. E ainda preciso viver com o fardo de um rainha.


—Você tem sangue azul. Já fez coisas que seriam impossíveis de se fazer. Você, sozinha, está erguendo o Egito. Coisa que nenhum faraó faria sem ajuda. —Gab fala me fazendo rir. —Acho que não deveríamos ter um próximo rei no lugar de Ramsés, mas sim uma rainha.


—Rainha? —Pergunto incrédula. —Algo contra Djoser? —Pergunto.
—Temo que ele seja tão estúpido como Seti e Ramsés. —Gab fala me assustando. —Eles foram perigosos porque não eram cientes da dor que poderiam causar. Mas Djoser é, e isso o faz ser mais temível.


—Meu filho não é um monstro, não será nunca. —Falo atordoada com a possibilidade. —Apesar do comportamento dele comigo. —Falo deixando claro que apesar de qualquer coisa, eu amo Djoser. —Eu amo ele. Eu amo meus filhos.


—Ama até que ponto? —Gab pergunta.


—Amo ao ponto de transformar essa cidade em cinzas. —Falo me referindo ao templo que queimei. —Se meus filhos não existissem eu já teria me jogado do alto deste palácio. O mundo é muito amargo para uma mulher que já perdeu tanto como eu.

—Dói perder, não é? —Gab pergunta como se quisesse me perguntar outra coisa. —Digo, perder quem se ama.


—Dói ainda mais saber quem foi o culpado disso. Dói saber que o culpado está livre. —Finalizo.

—Djoser? —Gab indaga ao ver meu filho entrar em meu quarto completamente insano.

—O que você está fazendo? —Pergunto ao ver que meu filho na verdade está bêbado.

—Nada que faça mal a vocês. —Djoser fala pleno de ironia e começa a rir.

—Você bebeu? —Pergunto ao me aproximar pouco de Djoser.

—Não se aproxime, ele está bêbado. Pode fazer algum movimento brusco e te machucar. —Gab fala ao me puxar para ficar distante de Djoser.

—Ultimamente vocês dois são bem próximos... —Djoser fala pleno de malícia. —De um momento para outro...

—Estou ajudando sua mãe, Djoser. —Gab fala estarrecido pela situação.

—Claro. Naquele dia vocês não estavam brigando neste quarto. —Djoser fala pensativo. —Eu imagino que tipo de ajuda você deve estar dando para minha mãe,Gab. E imagino ainda melhor a forma como ele retribui essa ajuda. —As palavras maliciosas de meu filho são consideradas uma falta de respeito gritante para comigo. Não me controlo, pela primeira vez em toda minha vida levanto a mão para esbofetear Djoser. Me arrependo amargamente de ter feito tal coisa, mas não demonstro. Meus olhos se fixam os dele, agora eu posso ver o quanto errei em Djoser.

Sinto uma angústia tomar conta de mim ao ver a reação assustada de Djoser. Lágrimas insistem em cair de meus olhos, mas ao lembrar que ele insinuou que eu e Gab somos amantes, as lágrimas secam. Eu poderia esperar isso do mundo inteiro, menos de meu filho. Gab então olha envergonhado para Djoser, mas ao mesmo tempo se mostra assustado pela minha atitude.—Fecho o punho ao lembrar notoriamente do peso que feriu o rosto de Djoser. —Quem diria que eu um dia fosse capaz de fazer isso.
—Você não tem o direito de me caluniar, garoto. —Minhas palavras assustam Djoser. Parece que o efeito do álcool passou. —Saia deste quarto, Djoser. —Falo ao sentir tamanha decepção. Meu filho pode ver que agora já não o vejo como antes.

—SAIA DO MEU QUARTO AGORA!

—Ele não sabe o que diz, Henutmire. —Gab tenta ajudar Djoser.

—Não quero ver você por um bom tempo, Djoser. Não quero sequer ouvir sua voz. —Minhas palavras ferem meu filho. —Não me dirija a palavra. Você não é apenas órfão de pai, menino. Saiba que agora mesmo você não tem mais uma mãe...


—Mãe...


—FORA DJOSER! —Grito pela última vez.

Notas finais
#ForaDjoser