Coração De Seda
68 Capítulo 68
Notas iniciais
Meu olhar é perdido assim como a confusão mental que agora tenho em meus pensamentos. Alguns dias se passaram após a morte de Hur, digo isso porque somente agora me dou conta de quanto tempo estou trancafiada em meu próprio quarto. —Ramsés declarou luto de quatro luas em todo reino, não haverá festa ou qualquer coisa do tipo. —Somente agora estranho-me com minhas vestes escuras. A própria Karoma decidiu que eu não usasse mais nenhuma outra roupa a não ser o preto rubro, nem mesmo branco.
Ramsés não me deixou ver Hur desde a vez que fui até a sala do trono, segundo ele eu irei ficar pior. Com isso eu mesma disse que não irei no cortejo fúnebre de Hur, Djoser irá com Ramsés. O corpo de Hur não será embalsamado, mas ficará no sarcófago que foi feito para mim, assim quando eu morrer meu corpo ficará junto ao dele. —Somente agora me dou conta do quanto é triste estar grávida e viúva. Essa criança não irá saber o que é ter um pai como Anippe e Djoser tiveram. —E pensar que algum mensageiro de Ramsés chegará até o povo de Moisés e dará a notícia de que Hur morreu para Anippe. Eu não quero nem imaginar o sofrimento de minha filha.
—Henutmire? —Ramsés chama por mim ao entrar em meu quarto. Meu irmão vem até mim e me abraça forte, com isso acabo chorando. —Eu sinto muito, Henutmire. Prometi que cuidaria de você e estou fazendo tudo errado. —Ele fala fracassado ao me abraçar ainda mais forte. —Apesar de qualquer outra coisa, eu sempre soube que Hur amava você.
—E eu ainda o amo apesar dele estar morto. —Falo enquanto choro nos braços do meu irmão. —Onde Djoser está?
—No jardim. —Ele responde. —Henutmire, não acho prudente fazer um cortejo. Pode acontecer alguma coisa durante e...
—Como quiser, Ramsés. —Interrompo o meu irmão. —Agora saia, por favor. Não quero a companhia de ninguém. —Falo ao me sentar em minha cama após dar alguns passos com o peso que carrego.
—Não vai ficar sozinha. —Ramsés fala e me deixa confusa. —Tem um filho no ventre. Não está sozinha. —Ele fala e então eu olho para o meu ventre. —Hur pode ter partido, mas deixou seus frutos. E você sabe se manter forte pelos seus filhos, Henutmire.
—Eu sei, mas também sei que não sou forte. —Falo. —Por favor, saia. —Peço exausta e então Ramsés beija minha bochecha e se vai do meu quarto, mas em seguida vejo Gab adentrar. —Gab, saia...
—Não posso deixar você aqui dentro sozinha como uma presidiária. —Gab reclama no momento em que meus olhos vão até ele. —Seu olhar está ficando sem vida.
—Minha vida está indo embora aos poucos, Gab. Aliás, metade dela se foi com Hur. —Falo exausta e então ele vem até mim.
—Olhe para você, Henutmire. Está péssima.
—É bom ver você também, Gab. —Ironizo e sorrio após tantos dias de lágrimas. Gab então desembainhou sua espada e a colocou sobre o meu ventre e um grito de susto saiu de minha garganta ao sentir a lâmina afiada e de duplo gume em minhas vestes.
—Não vai se alimentar por bem, vai se alimentar por mal. —Gab fala ao ver a bandeja sobre a mesa farta e intocável. —Sabe a quantos dias você está aqui?
—Não...
—Doze. —Gab fala secamente e eu me assusto. Gab não está mentindo, vejo isso nitidio em sua preocupação. Fazem exatos doze dias que eu não me alimento direito, muito menos vejo o sol, não vejo ninguém além dos meus irmãos e de meu filho. —Essa criança já deve estar morrendo dentro de você com tanta fome. —Ele fala friamente e então lágrimas brotam de meus olhos. —Você precisa se alimentar, Henutmire. Ou vai acabar se matando.
—Faça isso você mesmo. —Falo ao olhar para a espada que ainda está em meu ventre. O tecido negro contrasta na lâmina, assim Gab vê a noção do perigo. Ele então solta sua espada no chão e olha para o nada.
—Isso vai passar, Henutmire. —Gab fala como se soubesse de alguma coisa. Ele se ajoelha diante mim e então tenta tocar em meu rosto e procura as palavras certas. —Acha que Hur ficaria feliz se soubesse que você está se matando aos poucos? Você tem dois filhos e mais um que ainda vai nascer.
—Saia daqui, Gab. —Falo ao ver que ele tem razão. —Você não pode entender.
—HENUTMIRE!—Gab grita ao me segurar com extrema força em meus braços. Olho para ele assustada e sinto meu coração bater forte depois de tanto tempo. —Não me obrigue a fazer algo que eu não queira e nem possa fazer! —As palavras de Gab me deixam confusa, porém com medo dele. Suas mãos tremem assim como os meus olhos, ambos estamos com medo.
—Me solte. —É a única coisa que falo. Gab então me solta com delicadeza, assim eu me sento novamente, mas ainda olho para Gab. —Eu não quero ouvir ninguém. Não quero ver ninguém, será que ainda não entendeu isso? —Pergunto incrédula. —Você e nem ninguém foi capaz de prender Amun!
—Ele fugiu com medo do seu recado.—Gab fala me surpreendendo. —A cidade está um caos, Henutmire. Os novos escravos...
—Escravos? —Pergunto confusa. —Do que está falando?
—Escravos hititas. —Gab fala e então eu entendo em parte. —Quando voltei com meu exército, acabamos por guerrear com os hititas. —Gab explica. —Os que sobreviveram se tornaram escravos.
—Que horror. —Falo ao imaginar outro povo sendo escravizado pelo Egito.
—Eles estão reerguendo a cidade. —Gab revela. —Mas eles não podem reconstruir você. —Ele fala com um pouco de pena. —Por favor, confie em mim.
—Confiar em você? —Pergunto confusa.
—Sim. —Gab confirma. —Isso logo vai acabar, Henutmire. Confie em mim. —Ele pede enquanto fica ao meu lado. Vejo no olhar de Gab que ele sabe de alguma coisa, mas não quer me contar.
—Não pode acabar. Hur morreu sem conhecer o filho, Gab. —Falo. —Eu sou rainha? Me diga, Gab. Meu marido está morto!
—Henutmire...
—SAIA!
—ME OUÇA! —Gab pede com tanta fúria que vejo em seus olhos o desejo de me esbofetear. —Chorar não vai trazer Hur de volta! —As palavras de Gab são duras demais para mim. —Você é a rainha do Egito, aja como tal! —Ele fala ao me chacoalhar forte. —Não fraqueje agora. Todos do palácio estão preocupados com você, Henutmire. Reaja ao ataque de Amun.
—Como irei reagir? —Pergunto e então vejo Gab olhar para a minha coroa.
—Mostrando o que você é. —Gab fala seriamente e então vejo seus olhos brilharem ao ver que eu entendi.
(...)
As portas da sala do trono foram abertas e com elas várias lembranças. Meu olhar estava vago, vago em meus pensamentos e no que eu seria daqui para frente. Vejo várias pessoas, nobres e servos na sala do trono. Meu vestido ainda é o mesmo vestido negro que simboliza o luto. Se usa apenas o negro em sinal de luto quando se tem respeito, muito respeito a pessoa que faleceu, essa regra é clara no Egito. Nem mesmo no funeral de meu pai usei um luto tão forte. —Olho para a pedraria de meu vestido e então noto pequenas pérolas avermelhadas. Como se minhas lágrimas fossem de sangue. —Gab se colocou ao meu lado direito e Ikeni ao meu lado esquerdo, toda a segurança sobre mim foi reforçada a pedido de Ramsés.
—Henutmire... —Ouço Ramsés falar do trono ao me ver presente. Seu olhar de espanto foi ainda maior ao ver que agora uso a coroa novamente. A coroa feita por Hur com a ajuda de Uri. Ela agora não pesa tanto quanto antes, mas vale ainda mais por ter sido esculpida nas mãos de Hur. Nefertari morreu e pediu em leito de morte que eu fosse a rainha regente, Hur assim fez essa coroa para que fosse única e a coroa que um dia repousava na cabeça de Nefertari não fosse mais usada. E Ramsés então me nomeou rainha do Egito, a senhora das suas coroas. Mas mal eles sabiam que isso iria despertar a fúria de algumas pessoas, e que custaria a vida de Hur. Em parte, também custou a minha vida.
As pessoas abriram o caminho para eu passar e então dei passos lentos enquanto todos me olhavam boquiabertos. Estou mais pálida e com os olhos vagos, mas ainda assim estou sadia. —Vejo Paser olhar para o meu ventre e então Ramsés me ajuda a subir cada degrau até chegar no trono. —Gab permanece junto aos outros assim como Ikeni. Eu então olho para cada um, mas olho procurando o rosto de Hur. E como não encontro as lágrimas brotam, mas secam. Secam porquê ninguém além de Hur poderia enxugar minhas lágrimas. Qualquer vestígio de amor morrerá com Hur naquele dia. Não amarei ninguém como o amei.
—Uma vez Amun falou que uma rainha não deve chorar. —Minhas palavras causam espanto em todos. —Irei seguir suas palavras apenas por um motivo: Se deve manter inimigos perto de si mesmo. —Minhas palavras chocam cada um ainda mais. Ramsés me olha surpreso, mas nada fala. —Mostrarei para ele quem chora nessa guerra.
—O que devemos dizer em resposta para Amun, senhora? —Ikeni pergunta formalmente ao ver roda a raiva nítida em meus olhos.
—Diga para Amun que irei responder por cada crime que cometi. —Minhas palavras fazem todos se chocarem ainda mais. Todos começam a falar espantados e então Ramsés me segura pelo braço, mas logo o solta. —Estarei em frente ao templo hoje à noite esperando que os deuses me julguem. —Um sorriso falso se formou em meus lábio ao mencionar os deuses. Eles irão me julgar, não Deus. E somente temo a Deus.
—Henutmire, mas você não é fiel ao Deus de Israel? —Ramsés pergunta incrédulo. Apenas menciono o nome dos deuses para não mencionar o santo nome do senhor em vão. Falar de Deus é um luxo que poucos têm em mãos.
—Eu sei o que faço. —Falo ríspida para o meu irmão mais novo. Eu então sento no trono e olho para todos que agora estão calados. Sinto um olhar de dúvida e sombrio sobre mim, e quando inclino meu rosto, vejo Djoser com sua bela coroa sobre os fios negros. Os mesmos fios negros de Hur.
Eu espero que hoje a noite eu tenha a mesma coragem que tenho agora. Se ela me faltar, irei me lembrar de Hur morto em meus braços e do choro de meu filho. Irei me lembrar de cada dor que agora sinto, irei me lembrar de cada acontecimento. Eu estou morta por dentro, já não sei mais o que é alegria, já não sei mais o que é amor. Agora eu sei por que tanta amargura em meu pai: Foi a perda de Kamés que o fez assim. Agora acontece o mesmo comigo. Perdi Hur e com isso já não vejo o que é certo ou errado.
(...)
—Mãe. —Djoser chama por mim ao me ver na oficina de Hur.
—Sim? —Pergunto ainda olhando para cada ferramenta que Hur usava. Nada foi tirado do lugar desde que ele morreu.
Djoser me pegou de surpresa e então me abraçou forte como se não houvesse palavras em sua boca. Eu sei a dor que ele está sentindo agora, ela é maior que a minha. Djoser acaba de perder seu pai, o maior exemplo de sua vida por culpa de um louco. Somente ele sabe a dor que está sentindo, a dor que já senti.
—Sinto muito. —Meu filho fala enquanto está choramingando em meus braços. Meu filho então me mostra um pequeno cordão de couro claro com uma pedra azul clara e sorri para mim. —Meu pai me contou que quando nasci, ele fez um colar para a senhora.
—E agora ele é de Halima. —Minhas palavras fazem Djoser me olhar assustado.
—Que seja. —Ele fala. —Sei que ele não vai poder fazer o mesmo quando essa criança nascer. Mas essa safira é um presente meu para esse meu irmão ou irmã. —Ele fala.
—Uma vez Anippe e eu pegamos três diamantes azuis desta oficina. Essa é uma topázio azul. —Meu filho fala ao colocar o diamante médio moldado em forma oval, devidamente colocado no cordão. —E é para a criança que está em seu ventre.
—E os outros dois diamantes? —Pergunto curiosa ao ver o topázio brilhar na palma da minha mão. É um azul claro como o céu.
—Uma é de Anippe, ela a levou consigo para Canaã. Era uma safira, também azul. —Djoser fala risonho. —Todas as três são azuis, mas uma mais clara que a outra. —Ele fala ao mostrar a sua.
—Tanzanita. —Falo maravilhada ao ver a tanzanita azul escuro de Djoser. —Topázio,safira, tanzanita... —Falo. —Todas da mesma tonalidade.
—Sabiamos que era da cor favorita da senhora. —Djoser fala risonho e então segura em um das minhas mãos. —Meu pai se empenhava muito quando queria presentar a senhora.
—Seu pai me ensinou tudo aquilo que eu precisava saber, Djoser. Ele me deu inúmeras jóias de todos os tipos de diamantes. —Falo nostálgica. —Mas eu poderia comprar tudo o que ele me deu. Menos o amor e os filhos. —Falo ao andar pela oficina. —Hur me contou histórias que nunca ouvi antes. —Falo e então olho entristecida para Djoser. —Ninguém sabe quando será a última vez que iremos ver quem amamos.
—Mas meu pai sabia... —Djoser fala baixo e então eu fico confusa, será que ouvi bem?
—O que você disse? —Pergunto.
—Que meu pai não sabia de nada. Não poderia imaginar que nunca mais iria nos ver. —Djoser explica e então eu sinto a tristeza invadir meu peito novamente.
—Eu penso que talvez ele tenha pensando em nós quando estava morrendo. —Falo ao imaginar o desespero de Hur e sua dor. —Talvez ele tenha pensado que algum dos rebeldes já tivesse me feito algum mal, ou... —Não termino meu pensamento. —Ou então ele apenas se sentiu inútil e irresponsável por não estar conosco. —Falo. —Ele tinha pressa em vir até a oficina, mas eu não queria deixar ele vir. Mas parecia que eu estava sabendo de alguma coisa, como se eu estivesse sentindo que algo iria acontecer.
—Não se atormente mais, mãe. —Djoser pede e então me abraça novamente, mas desta vez com uma vontade de me proteger. —Não vai ao encontro de Amun, vai?
—Sim. —Minha voz é calma e doce, não parece estar transmitindo toda a raiva que sinto. —Amun vai pagar pelo o que fez com seu pai.
—Vingança não, por favor. —Djoser pede como se estivesse me vendo a beira de um precipício sem motivo algum. —Meu pai não aprovaria isso.
—Não fale mais isso. —Falo ao colocar minhas mãos em meus ouvidos e chorar. —Eu queria-o aqui e não morto como uma lembrança em minha mente. —Djoser vem até mim e limpa cada lágrima minha, e em seguida me abraça novamente. —O que vai ser de mim agora? Grávida e viúva. —Falo atormentada pelo meu medo. Então me desprendo de Djoser e volto a olhar cada canto da oficina até ser trazida á realidade com a chegada de Gab. —Me deixe com seu tio. —Peço para Djoser. Meu filho assim faz, até que Gab começa a falar.
—Quero que faça um favor para mim. —Falo ao voltar minhas atenções para o topázio em minha mão. —Quero que você mesmo vá buscar Anippe.
—Mas a mensagem de Djoser e de Ramsés ainda não chegou até o povo de Moisés. —Gab fala. As palavras de Gab me fazem pensar no quanto o povo hebreu já deve ter andado.
—Não tenho tempo a perder, Gab. Eu quero Anippe comigo, entende? Não é seguro para ela estar perto de Yaffa. —Falo. —Quero meus filhos comigo, ao meu lado. Será como se Hur estivesse comigo.
—Você... —Gab pensa muito antes de falar algo para mim. —Não tem nenhum crime para confessar, Henutmire. O que pretende fazer? —Gab pergunta e então eu sorrio com uma certa malícia.
—Amun sabe que não, por isso não vai ir até o templo. —Falo. —Ele irá mandar alguém. E esse alguém levará a minha mensagem. —Balanço meu corpo levemente de braços cruzados e olho bem para Gab. Um sorriso quase infeliz, mas pleno de deboche estampa meu rosto ao ver Gab entender tudo.
—Está se deixando levar pelo ódio, Henutmire. —Gab fala ao segurar levemente em meus braços, mas eu não me movo. —Não percebe o quanto isso faz mal? Você não pode se deixar levar pela vingança.
—Posso, Gab. Posso por que eu não tenho mais o que perder, entende? —Pergunto infeliz por dentro, mas fria por fora. —Amun matou Hur e eu não vou deixar isso barato. Ele matou o pai dos meus filhos, acha que não devo me importar? Claro que devo. Eu devo minha vida a Hur também. Sabe-se lá o que seria de mim se eu não soubesse dos sentimentos dele naquela noite. —Falo. —Eu poderia estar morta, Gab. Teria morrido aos poucos.
—Está morrendo aos poucos agora. —Gab me surpreende com suas palavras, mas eu sorrio.
—Eu posso estar morrendo. Mas há algo dentro de mim que vive. —Falo ao sentir meu filho se mover dentro de mim. É como se a criança soubesse o que está acontecendo agora. —E somente esse algo me mantém de pé, Gab. Quando essa criança nascer, você poderá dizer que estou morta. Morta em todos os sentidos. —Dou as costas para Gab nesse momento e então toco novamente em cada ferramenta que Hur manuseava bem e com rapidez.
—Vou deixar você sozinha. —Gab fala e então agradeço mentalmente. Ele então dá lentos passos até sair da oficina e fechar as portas, assim fico de fato sozinha e com a certeza de que ninguém vai me interromper.
—É uma pena você não conhecer o seu pai. —Falo ao me sentar na mesma cadeira de madeira em que Hur se sentava ao trabalhar. Dou leves carícias em meu ventre e desabo ao chorar sozinha.—Coitado de você, meu filho. Ainda não chegou ao mundo e já sofre com tanta injustiça. —Sinto uma tristeza gigantesca dentro de mim. Uma tristeza que dói tanto na alma quanto no peito, essa dor é grande demais para mim. É pesada demais para eu suportar.
(...)
—Sabia que iria encontrar você aqui. —Ramsés fala ao entrar na oficina. Lágrimas ainda escorrem pela minha face e isso preocupa Ramsés. Digo isso pela sua expressão de espanto no rosto do meu irmão. —Passou o resto do dia chorando, não foi? —Ele pergunta ao vir até mim e olhar bem para meu rosto. —Seus olhos estão inchados de tanto chorar, Henutmire. Me assusta o fato de que você passou o dia chorando, minha irmã.
—Tenho esse direito. —Falo friamente, porém ainda choro ao lembrar de Hur. Ao me ver chorando e em soluços, Ramsés parece não segurar as lágrimas e por isso vira seu rosto para que eu não possa ver.
—Venha comigo. —Ele pede ao me fazer levantar da cadeira. Sinto uma leve dor em minhas costas por ter permanecido sentada por tanto tempo. —Você passou o dia todo aqui sem sequer se alimentar.
—Eu não tenho fome. —Protesto enquanto enxugo minhas lágrimas.
—Você pode não sentir fome, mas está grávida e isso requer atenção redobrada. —Ramsés fala seriamente. —Você está se matando aos poucos.
—Eu sei que estou agindo mal, mas eu não tenho força para nada. Nada que me faça bem. —Minhas palavras fazem Ramsés me abraçar em seguida em forma de proteção.
—Não vá até o templo enfrentar Amun, Henutmire. Isso vai te fazer muito mal. —Ramsés fala enquanto me abraça ainda mais forte. —Vai te fazer sofrer ainda mais ao ver o assassino do seu marido. —Ele fala vagamente.
—Há justiça na vingança, Ramsés. E eu não vou me importar em sujar minhas mãos com o sangue de Amun. —Minhas palavras fazem Ramsés me olhar amedrontado, ele nem parece ser o faraó que antes foi. Acho que os papéis se inverteram. Ou eu estou criando expectativas demais?
—Não vou permitir que você vá. —Ele fala sério, todavia eu vejo medo de me contrariar em seu olhar. —Você vai estar se arriscando.
—Não me importo.
—Dane-se você! Que seja! —Ramsés fala sem paciência e então eu me surpreendo. —Mas você não vai para lugar algum com essa criança no ventre.
—Veja como a vida é irônica. Você está se preocupando com o filho de um hebreu. —Falo plena de deboche. —Essa criança é meu filho, não seu.
—CHEGA! —Ramsés grita bravo e então eu ponho uma de minhas mãos em meu ventre totalmente assustada. —Você não vai e ponto final! Não estou pedindo, estou ordenando. Não ouse me desafiar! —Ele fala e então me dá as costas. Posso ver pelo movimento dos seus ombros que ele acaba de respirar fundo. —Isso tudo está um caos.
—Em relação a escravidão no Egito nada mudou. —Falo. —Soube que agora temos escravos hititas.
—Era isso ou a decadência. —Ramsés fala sem saída. —Não posso deixar tudo desmoronar. Embora eu já tenho desmoronado com a morte de Nefertari e Amenhotep. Não tenho mais pelo o que viver como você tem, Henutmire.
—Sabemos... —Falo irritadiça com o rumo da conversa. —Por favor, Ramsés. Não fale mais na morte de Hur, não quero mais ouvir o nome dele, não quero ouvir ninguém repetindo que ele morreu. Não até eu entender porque ele me deixou, por que ele foi embora. —Minhas palavras fazem Ramsés me olhar de uma forma estranha.
—Está falando em qual sentido? —Ramsés pergunta amedrontado e me deixa confusa.
—No sentido dele ter me deixado sozinha no mundo. —Minhas palavras parecem deixar Ramsés tão amedrontado que ele mesmo esbarra em uma pequena caixa de madeira que está junto as ferramentas. —Ramsés, está tudo bem? —Pergunto ao ver que meu irmão está pálido ao extremo.
—Não foi nada, Henutmire. —Ele fala e então eu fico menos preocupada. —Eu apenas entendi o que disse, mas...
—Melhor assim. —O interrompo mais uma vez. —Já não basta saber que na hora que essa criança nascer, Hur não estará lá.
—Eu vou fazer com que ele esteja. —Ramsés fala ao tocar em meu rosto.
—Como? —Pergunto risonha ao ver a inocência no olhar de meu irmão.
—Pedirei ao Deus de Moisés. —Ramsés fala com a voz embargada. —Pedirei para ele que a alma de Hur esteja presente no momento em que essa criança nascer. —Meus olhos ficam úmidos ao ouvir Ramsés, mas rapidamente faço por onde não chorar. —Por favor, Henutmire. Não vá até o templo agora a noite.
—Noite? —Pergunto incrédula. Agora vejo que perdi a noção do tempo. —Não adianta, Ramsés. Eu irei.
—Pelo amor que você tem por Hur, minha irmã. Não vá. —Ramsés pede ao mencionar tamanho sentimento. Eu me vejo sem saída, Ramsés acaba de colocar o meu amor por Hur como forma de me impedir de ir até Amun. Me vejo sem outra opção a não ser não ir. Maldito seja esse poder que esse amor tem sobre mim! Por causa dele não posso fazer justiça. —Faça isso por ele. Apenas por ele. —Ele pede e então eu abaixo o olhar. Acabo aceitando que de fato é errado ir até o templo e enfrentar Amun.
—Tudo bem, Ramsés. Eu não irei. —Minhas palavras fazem Ramsés sorrir de alívio.
—Eu não sou a melhor pessoa, muito menos a adequada para falar isso. Mas desde que você se vingou de Yunet, você não é mais a mesma.
—Ele fala pensativo. —E eu não quero que a princesa que há em você se vá. Mesmo que agora você seja a rainha.
—Eu já disse tantas vezes que o poder muda as pessoas, e acabei me deixando levar por ele. —Reconheço o meu erro e então sorrio. —Hur já havia me alertado sobre isso, mas eu não dei importância.
—Isso! Sempre pense como se ele ainda estivesse aqui lhe dando conselhos, Henutmire. —Ramsés fala risonho e então eu estranho a sua forma de agir. —Vai pensar melhor assim. Hur me pediu que ajudasse você e...
—Você e Hur conversaram antes dele ser morto? —Pergunto curiosa e com um sorriso enorme em meu rosto, todavia vejo tristeza em Ramsés. —Eu pensei que eu tivesse sido a última pessoa a conversar com ele, Ramsés.
—Mas não foi... —Ramsés fala como se procurasse as palavras certas. —Eu falei com Hur muito antes dos rebeldes invadirem o palácio. E ele me pediu para sempre cuidar de você.
—Assim até parece que Hur sabia que iria morrer. —Falo curiosa e ao mesmo tempo pensativa. Que estranho... Assim parece mesmo que Hur sabia que iria morrer. —E o que mais ele disse? —Pergunto sendo levada por uma necessidade súbita e isso faz com que Ramsés fique prestes a chorar.
—Que te amava muito e que iria fazer até mesmo o impossível para deixar isso ainda mais claro. —As palavras de Ramsés me surpreenderam, mas ao mesmo tempo me deixa com uma dúvida. Hur era sim de deixar claro todos os dias e com todas as palavras que me amava, mas a conversa que ele teve com meu irmão é duvidosa. —Mas você mesma disse que não quer mais ouvir sobre a morte de Hur e que isso é doloroso demais.
—Isso mesmo. Não quero mais ouvir falar nisso. —Falo ao acariciar o meu ventre como de costume. —Eu quero viver na ilusão que ele está vivo.
(...)
—Gab. —Falo ao entrar tranquila e calma no quarto de meu irmão.
Faltaria muito pouco para eu ir até Amun, mas Ramsés me fez prometer pelo amor que tenho por Hur que não iria. Eu não iria... —Preciso de sua ajuda. —Meia palavra bastou para Gab vir até mim preocupado.
—O que foi? Você se sente mal? —Gab pergunta me olhando da cabeça aos pés. Isso me leva a crer que meu irmão ainda tem algum sentimento por mim. E pela primeira vez irei me aproveitar disso.
—Ramsés me fez prometer que não iria até o o grande templo de Anúbis enfrentar Amun. Ou seja, não haverá armadilha alguma. —Falo. —Mas eu não posso deixar a morte de Hur sem uma punição. Amun tem que pagar! —Falo ao segurar nas mãos de Gab.
—Não vá sem Ramsés saber, Henutmire... —Gab fala apreensivo. —Você está grávida e isso é perigoso demais.
—Eu não posso ir, Gab. —Falo ao tocar em seu rosto delicadamente e prender seu olhar ao meu. —Mas você pode. Faça isso por mim. —Peço docilmente. Gab então segura firme em minha mão e olha penoso para mim.
—O que quer que eu faça? —A pergunta de Gab me faz sorrir maliciosamente. Nunca pensei que fosse precisar de Gab para tal coisa.
—Eu faço qualquer coisa.
—Até mesmo brincar com fogo? —Pergunto seriamente e então Gab fica ainda mais próximo de mim.
—Pode me dizer o que deseja. —Gab fala e então eu fico convicta de que posso contar com ele.
—Me ouça bem...
Fale com o autor