Coração De Seda
69 Capítulo 69
Notas iniciais
Sento-me no terraço enquanto ouço os gritos dos rebeldes vindo do templo. Vejo várias piras e tochas iluminando a noite fria e o crepúsculo. Acabo servindo vinho para mim mesma enquanto observo cada canto da cidade de meu irmão. Vejo guardas em frente ao palácio, mas também vejo Gab sair dos portões acompanhado por outros guardas. Não nego que estou ansiosa para o final trágico que esses rebeldes irão ter. —Sei que o que estou fazendo é errado. Nunca desejei matar ninguém, mas Amun merece isso. —É incrível como Gab teve a capacidade de me surpreender mais uma vez, mas agora para algo justo. Nunca pensei em usar alguém para conseguir o que quero, muito menos Gab.
—Está vendo, meu filho? É isso o que acontece com quem mexe com sua mãe. —Falo ao olhar para o templo onde Amun deve estar com seus rebeldes. Ponho a mão em meu ventre e sorrio ao imaginar como essa criança deverá ser.
Todas as noites, antes mesmo de Hur partir para os braços de Deus, eu peço para que essa criança seja como ele. Principalmente agora que não o tenho mais comigo. Que irônico seria se eu ganhasse um menino e ele tivesse as características de Hur.
—Mãe. —Ouço Djoser me chamar com um semblante sonolento.
—Meu pequeno príncipe. —Falo ao segurar nas mãos de meu primogênito. —Como o tempo passa rápido, Djoser. Você está tão crescido. —Falo ao me dar conta de que o tempo de fato passou e que meu filho já não é tão "pequeno" assim.
—O que faz aqui? —Ele pergunta como se soubesse de alguma coisa. —Está tarde e frio.
—O frio não me incomoda. —Falo sem pensar e acabo fazendo meu filho me olhar de forma amedrontada. —Por que veio até mim?
—Por que eu conheço-a muito bem. —Djoser fala seriamente e então eu vejo o quanto meu filho se preocupa comigo. Mas por um momento eu penso que quem está falando é meu pai, a forma de falar é a mesma. —E algo me diz que não se contentou com a ordem de meu tio Ramsés. —Ele fala pausadamente enquanto eu suspiro pesadamente. —O que fez?
—Djoser, eu sou sua mãe. Você é meu filho, não meu pai. Quem deve satisfação é você, não eu. —Minhas palavras assustam meu filho, todavia trato logo de me redimir. —Me perdoe. Ultimamente venho falando coisas que não devo.
—Eu já senti isso. Mas acredite, a senhora está irreconhecível. Mas parece que minha mãe foi jogada ao Nilo no dia em que o Egito ganhou uma rainha.
—Sua mãe sabe nadar. —Brinco, mas meu filho não demonstra nenhuma felicidade em seu rosto. —Você não precisa se preocupar.
—Por quê? —No exato momento em que Djoser faz sua pergunta, escutamos um grande estrondo vindo do templo. Logo vejo fogo por todos os lados e o frescor da explosão chega até o terraço do palácio. —Mãe? —Djoser chamou por mim aterrorizado ao ver o fogo. Olho para a taça de vinho que acabei deixando de lado, mas agora eu então brindo ao ver os rebeldes arderem no fogo.
—Majestade? —Karoma chama por mim ofegante com o filho ao seu lado. —Príncipe? Ambos estão bem?
—Sabe o que foi isso? —Djoser pergunta ao apontar para o fogaréu imenso em frente ao templo.
—Que o falecido rei Seti não tenha desgoto ao ver o seu templo queimado. E que o Deus de Israel dê paz para todos ali mortos. —É a única coisa que Karoma fala assustada e ofegante. Acabo por me lembrar que aquele templo foi obra de meu pai. Não nego que destruir o que ele fez é prazeroso para mim.
—De onde meu pai está não se pode ver esse mundo, Karoma. —Falo ao beber mais um pouco do vinho. Karoma e Djoser me olham com espanto por eu estar bebendo. —Nem ele, nem Hur. —Minhas palavras foram jogadas ao vento ao ver o fogo se alastrar ainda mais. Brindo pela minha vitória, ela tem sabor de traição. Sabor de justiça, sabor de poder.
—Saiam! —Ramsés ordena ao chegar assustado e furioso comigo. Todos então saem e me deixam com Ramsés, não nego que gosto de ver o terror em seu rosto. —Isso é obra sua...
—Claro que é. —Respondo para sua surpresa. —Eu não poderia ir, mas Gab sim.
—Eu deveria prender Gab por participar disso. Mas sei bem que você o usou para sua vingança, Henutmire. —Ramsés fala convicto. Sorrio maliciosa ao ver o espanto no rosto expressado do meu irmão.—Você usou Gab para vingar a morte de Hur. Mal sabe você que Amun não estava lá!
—Como? —Pergunto incrédula. Meu plano não pode ter falhado, não pode.
—Amun está nos portões dos fundos do palácio, Henutmire. Ele está berrando aos quatro ventos que você matou Oritia e Radina. —As palavras de Ramsés me fazem pensar e pensar até entender que falhei. —Ele sabia que era mentira sua. Mas não imaginava que você e Gab fossem atear fogo no templo e ao seu redor.
—O que Amun quer afinal? —Pergunto incrédula e ofegante ao entender que de fato falhei.
—HENUTMIRE! —Ouço Amun gritar de frente ao palácio ao lado de outros rebeldes, talvez os últimos. —Assassina! Você matou a minha esposa! —Ele fala repetidas vezes ao me ver ao lado de Ramsés. —Que tipo de mulher é você?
—Talvez má. Mas não como você que matou uma criança e agora matou meu marido. —Falo para sua surpresa. —Aqui se faz, aqui se paga. —Minhas palavras fizeram Amun gritar de ódio e ajoelhar-se em frente ao palácio. —Pois agora mesmo, como sacerdote, eu amaldiçoou você.
—Vamos sair daqui. —Ramsés pede enquanto eu olho para Amun. Ele está louco. Amun está louco por minha causa.
—Um dia chegará, distinta na cor, uma nova rainha ainda mais bela e mais jovem que você. O coração dela será valente, não de seda como o seu, não tão nobre, mas capaz de enfrentar o pior dos mares e tempestades. Ela sentará no trono e usará seu nome como uma afronta, tomará tudo o que é teu e nada você poderá fazer. Você verá sua família sem rumo como uma embarcação sem carevela e a futura esposa de teu filho terá o ventre seco. —Amun então decreta a sua maldição sobre mim me causando espanto. Olho assustada para Ramsés, que incrédulo, não fala nada. Isso não pode acontecer... Ou pode? —É ótimo vê-la assim, soberana. A viuvez lhe cai bem. Principalmente quando eu sou o responsável por isso!
—Tirem ele daqui. —Falo espantada com cada palavra de Amun. Sinto meu filho se mexer com tanta rapidez em meu ventre que acabo ficando enjoada. Minhas pernas se tornam bambas ao relembrar que Djoser terá uma esposa com o ventre seco. —TIREM ESSE HOMEM DAQUI! —Grito enfurecida. Sou tomada por uma tontura muito forte. Se Ramsés não estivesse do meu lado, somente Deus sabe o que iria acontecer comigo ao passar mal sozinha.
—PRENDAM-O!—Gab surpreende Amun e alguns rebeldes ao voltar para o palácio. Vejo espada contra espada, um embate sendo travado em frente ao palácio.
—Henutmire? —Ramsés chama por mim ao me ver sem o controle das minhas pernas. Tento manter meus olhos abertos, mas eu acabo sentindo um grande peso nas pálpebras.
—Me leve até minha cama. —Peço assustada pela minha tontura. Ramsés então me carrega em seus braços e me leva de volta ao meu quarto.
—O que você está sentindo? —Ele pergunta ao me ver pálida. Sinto náuseas fortes, mas tento me manter firme diante da situação. —Já está na quarta lua?
—Quinta —Corrijo o meu irmão. —Essa criança é forte, aguenta tantas coisas desde que foi gerada...
—Permaneça deitada, Henutmire. —Ramsés ordena ao me ver pálida demais. Vejo preocupação no olhar de Ramsés, agora mais do que nunca eu preciso dele, assim como ele precisa de mim. —Algo de errado com a criança? Me diga onde é a dor...
—Já está passando. —Falo ao respirar fundo e me aliviar. Não sei como essa criança ainda insiste em crescer dentro de mim. Já passei mal tantas vezes, quase a perdi, mas mesmo assim esse bebê segue firme dentro de mim.
(...)
—Eu sempre soube. —Gab fala assustado-me em meu próprio quarto. Um sorriso estampa seu rosto. —Sempre soube que você era igual a ele.
—Do que está falando? —Pergunto ao olhar bem para os olhos de Gab enquanto ele permanece de pé em minha frente. Meus olhos permanecem em Gab, quase como se eu mesma estivesse tentando entender sobre o que ele fala.
—Nosso pai. —É a única resposta que Gab me dá. —Já ouviu Isso milhares de vezes, presumo.
—Não como você. —Falo o olhando por cima do ombro. —Não sou a única a me parecer com ele. E já não temo mais em ser pior ou igual. —Falo e suspiro. —Você também é como ele.
—Você e eu somos d'ele. Mesmo que você não queira aceitar, está no sangue ser possesso e autoritário. Você sempre odiou a forma como nosso pai se comportava, mas agora faz o mesmo. —Gab me provoca e então eu lhe lanço um olhar pleno de ironia. —Eu e você matamos Oritia. Matamos os rebeldes hoje à noite.
—Não, você matou. O fogo estava na suas mãos. —Falo.
—Não, Henutmire. O fogo e sangue estão nas suas mãos. Você é a rainha que mais usou o fogo e teve o sangue como consequência. —Gab acaba me ofendendo com suas palavras, mas eu evito demonstrar isso.
—Eu não sou uma assassina.
—Não, você não é. —Gab fala ao se sentar ao meu lado. —Somos. —Ele enfatiza antes de tocar em meu rosto. Tento evitar o contato, mas ele sente novamente o calor da minha pele. Em outra época eu teria evitado esse toque de Gab, mas agora que sei que ele é meu irmão não tenho mais o que temer.
—Saía daqui. —Falo ríspida, todavia Gab fica ainda mais próximo de mim. —O que você quer de mim,afinal? —Não obtenho resposta alguma, Gab permanece mudo.
—Até agora nada. —Gab responde em tom de ameaça. —Mas o meu silêncio custa muito.
—O ouro compra o silêncio temporário. —Falo no mesmo momento que deixo meu rosto mais próximo ao dele. —E a morte o silêncio eterno. —Minhas mãos foram até o pescoço de Gab. Acabo caindo por cima do seu corpo enquanto oprimo seu pescoço em minhas mãos. —Isso é para você aprender que ninguém me ameaça... —Falo entre os dentes. Mas Gab me surpreende ao conseguir se livrar de minhas mãos. Ele me segura pelos pulsos com força tentando me impedir de fazer qualquer outra coisa.
—BASTA! —Gab grita ao me ver debater sobre a cama com ele. —EU DISSE BASTA! —Ele repete bravo comigo, mas eu não paro de me debater. —Você vai machucar o bebê. —Suas palavras me fazem parar até então. Como ele pode se preocupar comigo e não com ele mesmo se eu estivesse prestes a acabar com sua vida?
—Mas o que significa isso? —Djoser pergunta ao entrar em meu quarto e ver Gab sobre mim. —Saia de cima dela agora mesmo! —Meu filho ordena ao desembainhar sua espada, própria para sua idade.
—Djoser... —Gab tenta argumentar ao ver o quanto exaltado meu filho está, mas ele não escuta nada. —Me ouça...
—CALA A BOCA! —Djoser grita e me assusta. Gab então recua aos poucos e com isso me sento na cama novamente. —SAIA DAQUI! SAIA! —Djoser ordena ao apontar sua espada sobre a garganta de Gab.
—Djoser, para com isso. —Peço ao ver que meu filho é mesmo capaz de matar Gab. —DJOSER! —Grito aflita ao ver meu filho empurrar Gab aos poucos. A espada é a única coisa que separa Gab de Djoser. —Meu filho, solte-a. —Peço ao me pôr ao lado de Djoser e segurar a espada com ele. —Solte, Djoser. Solte-a agora mesmo. —Peço aflita ao ver a ponta da espada sobre a garganta de Gab. Os olhos dele transmitem medo, medo por saber que Djoser é jovem demais e tem toda a irritabilidade que precisa para matá-lo.
—Ouça sua mãe, Djoser. Você entendeu tudo errado. —Gab fala, mas Djoser se irrita ainda mais.
—Entendi tudo errado? Eu vi muito bem que você pretendia algo mais! —Djoser esbraveja nervoso. —Você ia tomá-la a força? É isso?! —Ele pergunta tomado pela repulsa e pelo ódio que antes sentia por Gab.
—Djoser não foi nada disso, meu filho. Gab estava apenas me segurando porque eu quase o matei. —Falo.
—Por que ele iria lhe fazer algum mal... —Djoser fala ao entender tudo errado novamente. Garanto que seu eu fosse uma espada, seria uma de vidro. Porque agora eu me sinto prestes a estilhaçar. —Não é isso?
—Não! Não foi nada disso que você está pensando! —Gab se defende um pouco mais confiante de si mesmo. —Sua mãe poderia se machucar e por isso a segurei.
—Eu tentei matar Gab. —Falo e assim meu filho se assusta. Ele abaixa sua espada e com isso se volta para mim. —Eu...
—Por quê o mataria? —Djoser pergunta assustado.
—Eu de certa forma chantagiei sua mãe. —Gab fala.
—E eu odeio ser chantageada. —O desafio ao falar isso.
Foi como um grande transe, uma hipnose sem fundamento, mas parece que eu e Gab de fato nascemos para nos odiar. Apenas dois dias de diferença, poderiam alegar que somos gêmeos, mas como se somos de ventre distintos? Apesar de qualquer coisa, Gab é meu irmão. Mas eu acho que algo nele me faz odiá-lo, odiar ao ponto de matar. Mas ao mesmo tempo eu vejo que algo meu está nele, mas eu não sei o que pode ser. —Os olhos de Gab são meus. Digo que são meus porque neles eu me vejo refletida. Então é isso. Gab é uma extensão minha, mesmo que eu seja mais nova que ele, Gab tem a única missão de me servir.
Gab poderia sim se passar por meu irmão gêmeo. Os fios loiros dele são mais ou menos como os meus que agora insistem em crescer. Os olhos são claros como os de Kamés, mas não tão claros quanto os de Anippe, apenas mais claros que os meus. O meu olhar é o dele, o meu olhar é o mesmo que os olhares de meus filhos. —Gab,Anippe e Djoser são a minha extensão. —Eu sou a rainha e Gab é o filho bastardo que herdaria o trono caso eu o assumisse como irmão, mas isso seria tomar o trono de Ramsés.
—Você é a rainha do Egito, a que tem fogo e sangue nas mãos, não pensei nisso antes de testá-la. —Gab fala me deixando confusa. —Queria ver sua reação ao ser ameaçada. —Eu e então entendi tudo, ele estava me testando. —E você não tem um coração fibroso que deve pulsar. Você é o coração de Seda...
—Amun tinha razão. Meu coração é mesmo de Seda e não valente como a próxima rainha. —Falo apavorada. Quem será essa mulher?
—Vai mesmo acreditar nele? —Gab pergunta.
—Tenho medo que essa mulher tome tudo o que é de Djoser e que faça mal para Anippe e para essa criança que carrego. —Falo assombrada com a possibilidade. —Amun disse que minha família ficaria sem rumo, Gab. Eu não sei se quero ver meus filhos perdidos...
—Não acredite em Amun, mãe. Nada vai acontecer conosco. —Meu filho assegura inocente.
—Temos um exército, temos escravos para reconstruir tudo aos poucos. Você é a rainha e tem fé em Deus, nada vai nos fazer mal ou destruir. —Gab fala como se quisesse me dar falsas esperanças.
—As palavras de uma pessoa com ódio é mais forte que um exército. —Falo pensativa. —Anippe deve voltar para o Egito. Não quero minha filha no deserto após essa maldição de Amun.
—Anippe está no acampamento dos hebreus, nada vai acontecer com ela. —Djoser ressalta mais uma vez.
—Mas Yaffa está com ela. —As palavras de Gab fazem Djoser olhá-lo com fúria. —Sabe-se lá o que ela fará com sua irmã.
—Nada. Yaffa não é como o pai, não é um monstro como ele. —Djoser fala e então eu quem o olho seriamente.
—Yaffa é filha do homem que matou o seu pai. —Minhas palavras ferem Djoser. —Esqueça essa moça, não sinta nada por ela, Djoser. Yaffa vai te trazer apenas dor.
—Amun não matou o meu pai. —Djoser fala ao me enfrentar pleno de fúria. —Quem matou o meu pai foi a senhora. —Olho incrédula para meu filho ao vê-lo me culpar pela morte de Hur. —Se a senhora tivesse se negado a ser rainha, nada disso teria acontecido, mãe. —Senti as lágrimas brotarem de meus olhos ao ver que Djoser me culpa pela morte de Hur, meu filho me odeia por pensar assim. —A senhora é a assassina do meu pai...
—Djoser! Pare com isso! —Gab pede ao me ver chorar. —Amun matou o seu pai, ele fugiu agora e você culpa a sua mãe? Ela é inocente, foi apenas mais uma vítima de Amun.
—Você não sabe de nada. —Djoser fala pleno de ódio ao se voltar para Gab. —Você não é nada! —Ele ressalta destilando seu ódio contra Gab. —Você já fez muito mal para nós, não queira se redimir agora.
—Djoser, você é hebreu, acredita em Deus. Como pode não acreditar em mim? —Gab pergunta.
—Quem você pensa que é para me julgar? —Djoser pergunta por entre os dentes.
—Não estou julgando você, Djoser. Estou tentando entender porque você não acredita em mim. —Gab fala na defensiva.
—Por que você mente. —Djoser fala como se soubesse de algo. —Você sabe manipular, você sabe esconder a verdade melhor do que ninguém. —Meu filho fala e então Gab me olha apreensivo. —Você é um monstro. Os dois são...
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