Notas iniciais
Aqui estou em em pleno dia dos pais trazendo mais um capítulo...

Se escuta os gritos dos homens, na verdade bestas, na verdade eu estou inerte como uma mulher que acaba de ver toda sua vida sendo queimada sem sequer existir fogo. Ah, como o fogo é genuíno perto do que estou sentindo agora. Se eu mesma tivesse a coragem de queimar todo o exército de meu irmão para que ele não fosse atrás do povo de meu filho. Eu mesma faria isso com minhas próprias mãos, não duvido dessa minha capacidade. —Olho para meu ventre com a única intenção de esquecer a angústia que há em meu peito. —Mas é então que Hur dá espaço para que eu me despeça de Djoser. Olho frivola para Ramsés e para Gab, mas rapidamente volto a olhar para meu filho.

Seus olhos azuis violeta pairam envergonhados sobre minha presença, mas ao mesmo tempo posso ver medo em meu filho, assim como também há medo em mim. De todas as pessoas mais importantes em minha vida, Djoser no momento é a que mais me importa. A juventude que há em seus olhos é a prova de que terei um futuro, mas ao lembrar que ele partirá para a guerra, vejo esse mesmo futuro ameaçado.

—Quando você nasceu eu já imaginei que você iria para alguma guerra mais cedo ou mais tarde. —Falo ao ajustar a coroa de meu filho em sua cabeça. Djoser é meu vestígio de juventude, mesmo com a idade que já tenho. Todas as vezes que olhava para ele e Anippe, eu entendia que meu coração batia fora de meu peito. —Mas eu não pensei que seria tão cedo. —Falo olhando para cada detalhe do rosto de meu filho. —Nem que seria contra os hebreus. —Falo. Djoser é o raio de inocência que uma dia me pertenceu. Ainda posso me lembrar da pequena criança que um dia embalei nos braços.

—Eu vou voltar para casa, mãe. Mas antes disso leia o papiro que lhe dei. —Djoser pede antes de beijar minhas mãos prolongadamente com carinho em forma de respeito.

—Djoser. —Chamo-o antes de ver seus fios de cabelo brilharem com os raios de sol. Seus olhos pousam sobre o meu rosto me fazendo crer que ele está com muito medo. —Volte para casa, volte para mim, meu filho. —Djoser não falou absolutamente nada. Ele apenas me abraçou forte como se estivesse se despedindo de mim, como se também soubesse que algo de muito ruim está para acontecer. Os raios de sol iluminam sua bela pele. Parece-me até que as nuvens mais claras estão em seu rosto e o azul do céu em seus olhos.

Os deuses não tiraram um pedaço do céu para dar cor aos meus olhos, mas Deus quem fez isso. E foi a partir de mim que outros tiveram essa proeza. O céu está nos olhos de meus filhos, assim como meu pai um dia disse sobre mim.
Djoser tentou memorizar o meu perfume ao inalar todo o aroma assim como eu faço com ele. Meu peito está preso com tanta angústia, sinto como se o ar quisesse me faltar em meus pulmões a qualquer momento. Por quê é exatamente isso que está acontecendo! —Os braços de meu primogênito vão se desligando aos poucos dos meus e seus olhos mas parecem estar perdidos assim como os meus pensamentos. Sim... Meus pensamentos de certa forma são refletidos no olhar de Djoser.
Não verei meus filhos de lados opostos em uma guerra desleal, mas sinto que Djoser se sairá mal e perdedor. O inimigo de Ramsés é o escolhido por Deus, e certamente o Senhor não vai desamparar Moisés. —A cada distância que Djoser dá ao lado de Ramsés, meu coração vai parando de bater aos poucos. —Vejo Gab me olhando com uma profunda tristeza nos olhos, mas não falo nada, não faço nada além de sentir dor.

—Eu volto com o seu filho vivo. Mesmo que eu tenha que perder a minha vida, Djoser voltará com a sua. —Gab fala temeroso em não cumprir com suas promessas. Vejo em seu olhar que ele deseja me falar algo a mais, mas meras palavras são jogadas em meio ao tempo.

—Você não merece a minha confiança. Mas é a vida do meu filho, Gab. A vida dele vale mais que a minha e a sua juntas. —Falo, de certa forma enfrentando Gab.

—Nunca irei entender como é amar um filho. Até porque não tenho nenhum. —Gab fala penoso consigo mesmo. Posso ver minha expressão de desprezo refletida nos olhos de meu irmão. —Mas posso sentir o que é isso é entender ao ver você e Djoser, ao saber de você e Seti. Isso é o que tenho mais próximo de ser pai, ou de ser filho. —Suas palavras me comovem até certo ponto, ao ponto de pena, não de compaixão.
No fundo, eu e Gab temos uma relação de amor e ódio. Amor por parte dele,ódio pela minha parte. —Até mais ver. —Ele fala com um sorriso malicioso em seus lábios. Maldita seja a mudança de humor de meu irmão, nunca sei quando pode estar sendo verdadeiro ou não.

—Radina não foi com eles. —Falo e então olho para o vago. Vejo Gab ao lado de Djoser, a vida é mesmo irônica. —Assim como eu. —Sou amparada pelos braços de Hur e Karoma. Sinto um forte enjôo e então fico plenamente tonta.
—Me soltem! —Esbravejou rude como uma louca que acaba de entrar em pânico. Vejo no olhar de Hur o puro medo ao me ver tão mal. —Se quisessem ter feito algo por mim, teriam impedido Ramsés de levar Djoser com o deserto! —Falo ao ver o exército partir de frente do palácio.

Vejo a imagem de meu filho desaparecer em meio ao exército fervoroso de Ramsés assim como toda a minha parte de bons sentimentos. Sinto como se minha mente esteja prestes a explodir com tantos pensamentos perturbadores. O mundo levou todos os meus três filhos e agora só me resta essa fagulha de vida que está ocupando espaço em meu ventre. Será que é essa a tarefa de meu filho? Servir de consolo porque Moisés se foi para cumprir a missão de Deus. Servir como a fagulha de lembrança do quê um dia tive em meus braços,Anippe e Djoser. Será que meus filhos foram tudo uma ilusão e agora Deus quer me compensar com outro filho?
Eu não escolhi sofrer como sofro agora, mas pelo o que sinto e vejo serei obrigada à isso mesmo. De quê me adianta ter tido dois filhos se agora os perdi? Eu entendo que o lugar de Moisés não é no Egito. Mas Anippe e Djoser são meus filhos, são meu sangue. São tudo aquilo que um dia planejei ter e tive apenas ao lado de Hur. Não posso negar que estou com raiva de mim mesma. Antes eu tivesse ido embora com minha família mesmo que grávida de uma criança que a cada dia consome todo o vigor da minha vida.

—Venha, Henutmire. —Hur pede ao me ver tão perdida em meus pensamentos em frente ao palácio. Ele segura firme em meu braço, mas eu não dou um passo sequer para sair daqui. —Por favor, meu amor. Vamos lá para dentro ou você vai...

—Vou fazer o quê, Hur? —Pergunto tomada pela dor. —Me deixe em paz! —Falo antes de dar as costas para todos. Eu definitivamente não estou em mim. O grande ódio que sinto por Ramsés ter levado meu filho e de Gab estar protegendo Djoser e não eu, só não é maior que meu medo em saber que meu filho estará morto nessa guerra.

(...)

—Não vai ganhar nada assim, Henutmire. —Hur fala ao me ver acolhida em minha cama abraçada á uma almofada. —Fale alguma coisa para mim. Você começa a me preocupar. —Ele fala ao notar que permaneço muda sem sequer olhar para ele. Sua mão massageia as minhas costas levemente.

—Eu quero meu filho de volta. —Falo ao olhar para o vago e lembrar do rosto de Djoser. Sinto a mão de Hur em meu ombro e então trato logo de secar minhas lágrimas.

—Djoser vai voltar. —Hur fala na esperança de me iludir e então eu o olho com uma certeza de que isso não vai acontecer. —O que pode acontecer ao nosso menino? —Ele pergunta docilmente.

—Tudo. Djoser...

—Henutmire, me ouça. —Hur me interrompe bruscamente e então eu paro de falar imediatamente. —Djoser vai voltar para nós. Ele sempre volta.

—Mas agora é uma guerra. —Falo ainda mais amedrontada por mim e pelo meu filho. —Hur, você acha que Deus vai fazer alguma mal á Ramsés e todos os outros? —Pergunto ao me aproximar de meu marido. —Por quê se ele fizer isso, Djoser vai sofrer com a sua fúria. Você acabou de perder Uri e eu não sei se algum dia terei alguma outra notícia de Moisés e Anippe, então...

—Não antecipe os fatos. —Ele pede esperançoso. —Eu prometi cuidar de você no dia do nosso casamento e é isso que vou fazer. —Hur fala antes de me envolver em seus braços. —Mas agora você precisa governar enquanto Ramsés está fora. Não pode deixar o trono sem ninguém no comando.

—Eu me lembro que sentei naquele trono quando estava com Djoser no ventre. —Falo. —Mas também lembro de ter sentado nele com nosso filho já um pouco crescido.

Flash Back On

—Gosta do trono, Djoser? —Ramsés
pergunta ao me ver sentada no trono com Djoser no colo.

—Tudo parece ser meu, tio. —Djoser brinca e então eu corrijo o meu filho.

—Mas será de Amenhotep. —Falo, mas mesmo assim Ramsés me surpreende ao pôr sua coroa na cabeça de Djoser.

—Você carrega o nome de um rei, sabia? De uma dinastia diferente e ainda antiga. —Meu irmão fala ao se ajoelhar ao lado do trono. —Sabe quem você é, Djoser?

—Sou Djoser, segundo de meu nome, príncipe hereditário, luz dos olhos da deusa Ísis e herdeiro da força da mão de Osíris. Filho da princesa hereditária, neto de Seti I e sobrinho de Ramsés II. —Djoser fala e então nos faz rir.

—E pode ter tudo para você caso algo aconteça á Amenhotep. —Ramsés fala e então Djoser me olha com espanto. —A coroa pesa?

—Ela é leve. —Djoser fala ingênuo e nos faz rir. —Era do meu avô? —Sinto uma ponta de tristeza em mim ao ouvir Djoser falar de meu pai.

—Era sim. —Ramsés responde um pouco entristecido ao lembrar de nosso pai.

—Como ele era? —Djoser pergunta e então eu engulo o seco assim como Ramsés. —Ele tinha os mesmos olhos da minha mãe?

—Não. —Respondo. —Seu avô tinha os olhos negros como os de seu tio.

—E ele era como a senhora? —Djoser pergunta ao olhar para a coroa em mãos e ver cada detalhe. —Ele era uma pessoa boa? —A pergunta de Djoser me fez olhar para o vago e sentir meus olhos queimarem ao lembrar de meu pai. —Anippe! —Djoser grita ao ver a irmã entrar na sala do trono acompanhada por Hur. Meu marido me olha assustado ao me ver no trono e por isso me levanto imediatamente.

—Tio! —Anippe grita ao subir cada degrau e pular nos braços de Ramsés.

—E esses cabelos? —Ramsés pergunta assim que Djoser me entrega a coroa em mãos. —Loiros e claros como o sol. Enfeitados por essa coroa tão delicada.

—Me perdoe, soberano. Sei que não é adequado para Anippe ter cabelos longos, mas não nego que prefiro-os assim. —Hur se desculpa.

—Não há problemas, Hur. Anippe pode sim ter os cabelos longos até a medida nos ombros e usá-los assim quando não houver estranhos e aliados no palácio. —Ramsés fala ao fazer cócegas em Anippe. —Ela me lembra você. Anippe e Djoser são a sua continuação. —Noto uma certa tristeza em meu irmão. —Nem eu, nem Amenhotep herdamos os traços dos nossos antepassados. —Ramsés fala ao lembrar que a mãe de nosso pai tinha os olhos mais azuis de todo o Egito. —Kamés, ele...

—Tinha os olhos mais claros que os meus. —Surpreendo a todos com minha revelação. —Mais claros que os de Anippe.

—Isso é improvável. Anippe tem os olhos de uma tonalidade muito mais clara que os seus. —Hur fala surpreso e faz Anippe rir. É incrível que com apenas seis anos Anippe seja tão segura de sua beleza.

—Mas Kamés tinha os olhos azuis. Mais claros que o céu da primavera e que o Nilo quando transborda. —Falo nostálgica. —Nunca soubemos porque ele morreu. Foi uma febre sem explicação que o levou.

—Para onde vamos quando morremos? —Anippe pergunta ingênua e então eu permaneço muda.

—Para perto dos deuses, Anippe. —Djoser é o único no local que pode nos responder. —Não é, mãe?—Djoser pergunta ao puxar o meu vestido. Ramsés e Hur me olham de uma maneira estranha, mas mesmo assim eu respondo ao meu filho.

—É sim, meu filho. —Falo ao passar meus dedos finos e magros pelos cabelos negros de Djoser. Esse traço meu filho herdará da familia de Hur. Meu filho passa a sorrir ao ver que acabo de garantir que ele está certo, esse é seu maior orgulho.—Tenho essa certeza. Assim como tenho certeza que os deuses tiraram um pedaço do céu e puseram em seus olhos.

—E nos meus também? —Anippe pergunta querendo ganhar atenção. Não nego que apesar da pouca idade Anippe já seja portadora de uma beleza altiva. As vezes me nego a crer que minha filha seja real. Suas bochechas rosadas contrastam em sua pele clara e macia como a seda, assim como seus olhos chamam a atenção por serem tão vivos e atentos.

—Claro que sim. —Respondo antes de voltar minhas atenções para Djoser. Meu primogênito é de fato uma mistura minha e de Hur, sem tirar nem pôr. Diferente de Anippe que herdou todos os meus traços com uma personalidase totalmenge diferente de qualquer outra pessoa da familia. —Os deuses abençoaram vocês dois. —Minhas palavras fazem Djoser sorrir e olhar para mim como se Hórus olhasse para Ísis.

Flash Back Off

—Agora irá sentar no trono com esse anjo que está aí dentro. —Hur fala ao pôr suas mãos em meu ventre e me fazer sorrir. —Vamos, Henutmire. Você precisa estar bem para quando Djoser voltar.

—Ele não vem. —Falo tão segura que o próprio Hur me olha assustado. —Nunca mais veremos ele,Hur. O coração de uma mãe não se engana.

—Perdão, senhora das duas coroas. —Paser fala ao entrar afoito em meus aposentos. —Mas eu preciso lhe comunicar algo muito grave.

—O que aconteceu? —Pergunto assustada. —Fale de uma vez, Paser!

—Radina fugiu. —Paser revela me deixando chocada. —Isso não é nada bom já que ela sabe a verdade sobre o príncipe Gab.

—Como Radina fugiu tão facilmente, Paser? —Pergunto incrédula. —Tem idéia de para onde ela foi?

—Não deve ter ido para muito longe. —Hur fala sugestivo. —Ela não iria conseguir ir para a Núbia sozinha.

—Ela não está sozinha. —Falo assim que um ideia surge em minha mente. —Radina teve ajuda para fugir. Alguém do palácio ajudou-a em troca de algo.

—Uma conspiração? —Hur pergunta.

—Alguém que é a favor de Gab sem ele mesmo saber. —Falo

—Ou então estão usando Gab para tomar o trono. —Paser fala após muito pensar. —O que faremos?

—Fechar os portões da cidade, Paser. Ninguém entra ou sai até Ramsés voltar. —Ordeno.

—Não é perigoso? —Hur pergunta assustado. —Talvez essa pessoa que ajudou Radina esteja no palácio e podem te fazer algum mal.

—Vou dobrar a minha segurança. —Rebato nervosa e então Hur me olha assustado com a possível ideia de alguém atentar contra minha vida. —Faça o que pedi, Paser. Mande fechar os portões da cidade o mais rápido possível.

—Acha que assim Radina não irá sair? —Paser pergunta um pouco nervoso.

—Ela não sairá da cidade sem ajuda e se sair morrerá lá fora. —Falo. —Eu prefiro não acreditar que Gab esteja envolvido nisso.

—Ele não está. —Hur me surpreende com suas palavras. —Ele partiu, como poderia ajudar Radina se ele mesmo corre o risco de perder a vida nessa guerra?

—Hur tem razão, soberana. —Paser fala e então eu suspiro pesadamente e tranquila por saber que Gab não tem nenhum envolvimento com isso. —Quem poderia estar ajudando Radina?

—Seja lá quem for não quer nem eu nem Ramsés no trono. —Falo. —Melhor dizendo, não quer Djoser nele.

—Como eu não pensei nisso antes... —Hur fala pensativo e então seus olhos brilham. —Djoser é o herdeiro do trono, mas tem sangue hebreu.

—Não querem nosso filho no trono exatamente por isso. —Falo atordoada. —Mas eu sou a única dos irmãos que tenho um filho homem. Gab não teve filhos e Ramsés acaba de perder um.

—Um impostor. —Paser concluí farto. —Esse impostor está se aproveitando que o Egito está abalado para poder fazer um tipo de rebelião.

—Não acha melhor pedir a Ramsés que tenha outro filho com outra esposa e livrar Djoser de ser o futuro rei? —Hur pergunta sugestivo.

—Só vou poder fazer isso se Ramsés voltar dessa guerra, Hur. Só Deus sabe o que vai acontecer quando Ramsés encontrar o povo de Moisés. —Falo aflita. —Por um lado quero que meu irmão e nosso filho se salvem, mas isso seria desejar automaticamente a morte de Moisés e Anippe.

—Quer que eu seja sincero, soberana? —Paser pergunta temendo minha reação. —Esse Deus não vai gostar nada de saber que seu povo está sendo ameaçado. Mas mesmo assim, a senhora deve acreditar que o príncipe Djoser voltará vivo.

—A realidade é outra. —Falo ainda mais aflita ao entender o quê Paser quer me dizer. Acabo perdendo o equilíbrio de minhas pernas e desabo na poltrona para o susto de Hur e Paser. Maldita seja a hora em que não fiz nada para impedir que Ramsés cometesse mais alguma loucura. —Mas enquanto á Radina fugir, eu concordo com as palavras de Amun.

—Amun? —Hur pergunta um puco enciumado. Seus olhos ficam acirrados ao imaginar algo.

—Sim. Ouvi Amun dizer que tudo o que os deuses deram para mim e Ramsés... —De imediato me lembro de cada privilégio que eu e Ramsés tivemos por ser filhos do rei. —Negaram á Gab. —Termino de falar e então Hur e Paser se olham assustados. —Falei algo de errado?

—Acho que sabemos quem pode ter ajudado Radina. —Paser fala pausadamente.

—Acha que Amun...

—Henutmire, está mais claro que qualquer outra coisa. —Hur fala incrédulo. —Amun queria casar Yaffa com Djoser porquê assim ela seria da família. Mas no momento em que Amenhotep morreu e Djoser se tornou o herdeiro, Yaffa foi embora deixando Amun apenas com o desejo de ser o pai da ex-noiva de nosso filho.

—Sem contar que Amun sempre viu a senhora com outros olhos. —Paser fala e então Hur me repreende apenas com seu olhar. —Isso é motivo suficiente. —Paser fala enquanto eu sinto meu sangue ferver. E é então que eu faço a minha única pergunta.

—Onde está Amun?

(...)

—Sumiu? —Pergunto incrédula para Paser. —Os guardas vasculharam bem?

—Amun ainda está preso na cidade, soberana. —Paser fala. —Os portões foram fechados.

—Mesmo assim. —Falo tentando conter minha irritação. —Amun e Oritia fugiram e deixam claro que ajudaram Radina.

—Como eu nunca vi isso antes. Amun sempre quis entrar para a família real de um jeito ou de outro. —Paser fala desconfiado.

—Paser.

—Sim?

—Como sumo sacerdote acha que poderiam usar Hur para me atingir? —Minha pergunta deixa Paser um pouco aflito.

—Isso é certo. —Paser responde e então eu desabo no trono. —Deve reforçar a segurança para ele, senhora. Amun tem segundas intenções, minha rainha.

—Isso é certo também. Mas ele nada pode fazer com Hur se ele não estiver aqui. —Falo pensativa. —Se as coisas piorarem terei que tirar Hur daqui para sua segurança.

—Mas a senhora não pode afastar Hur agora que ele será pai novamente. —Paser argumenta. —Mas a segurança é muito mais importante.

—Claro que é. —Respondo e então volto minhas atenções para o papiro em minhas mãos. —Agora me deixe sozinha, Paser. —Peço.

—Com licença, soberana. —Paser pede antes de sair e me deixar sozinha com o papiro em mãos e meu filho no ventre.

—Vamos ver o que Djoser escreveu para nós, meu filho? —Pergunto ao ver o grande volume que nem mesmo o pano de meu vestido consegue esconder. Abro lentamente o papiro e tento ler imediatamente, mas lágrimas surgem em meus olhos...

"Mãe, se estiver lendo esse papiro é porquê devo estar longe do Egito agora. Faz muito tempo que venho tendo sonhos estranhos, não deveria falar isso aqui já que esse papiro seria um presente de aniversário, mas está parecendo mesmo uma despedida ou até mesmo um consolo para a minha distância. Me desculpe se não encontro as palavras certas para pôr aqui, me perdoe caso eu lhe assuste, mas a verdade é que os sonhos que venho tendo deixam claro que nossa ligação é muito forte.
Sempre, sempre que tive-a ao meu lado, ou até mesmo vindo até mim, com seus passos lentos e rasteiros, e a voz doce e compreensiva que somente a senhora possui, eu sabia que a senhora era uma pessoa de alma sublime. Não digo isso somente por ser minha mãe, a princesa, filha do rei e o grande amor da vida de meu pai. Não, não é só isso.
Vou lhe contar algo que talvez seja o decreto de minha insanidade. Mas em um dos meus sonhos foi como se eu tivesse voltado no tempo, voltado para ver-me em seu ventre. Mesmo em seu ventre eu já poderia imaginar o seu rosto. Mesmo sem estar em seus braços eu poderia sentir seu perfume, já queria os seus abraços. Porquê é exatamente isso o que penso em ter todos os dias quando acordo. Em todas as vezes que te vejo, em todas as vezes sem porém.
Sou grato pela vida que tenho, mas sou mais grato ainda por ser seu filho. Me considero um privilégiado por ter vindo do ventre seco de uma mulher que tanto sofreu com tantas mentiras. Mulher essa que sofreu ao perder todos os filhos ainda no ventre, por não saber o que é a dor que se sente ao ter um filho. Mas o amor que a senhora teve por Moisés e a dedicação que teve com Uri por ser filho mais velho de meu pai não seriam de perto o que a senhora sentiu por mim ao me ver sair de duas entranhas, assim como Anippe veio. Mas eu sei o quanto sou valioso para a senhora.
Naquele dia em que a princesa do Egito interrompeu o cortejo do faraó com seu grito assustando todos, todos pararam para me ver chegar. Pararam para ver o príncipe que lutava em crescer dentro do ventre nascer. Lamento por todas as dores que sentiu naquele momento, sei que quase perdeu sua vida, mas nem por isso desistiu de mim, confiou em si mesma e se esforçou para me trazer ao mundo. Meu choro trouxe o seu sorriso, o sorriso de ter se tornado mãe mais uma vez.
Creio que a senhora ainda consegue se lembrar de cada vez que eu me movimentava em seu ventre, consegue sorrir agora ao se lembrar de cada sensação? Eu fazia isso para a senhora saber que eu estava ali apesar de cada briga ou confronto que a senhora tinha. Eu estava ali lhe fazendo companhia, insisti em crescer para que então as pessoas soubessem de quê a senhora não andava sozinha. Também estava ali quando meu pai tocava em seu ventre tentando me sentir, mas eu quem sentia-o, sentia também o amor de vocês dois me envolvendo.
Mãe, não se assuste ao me ver partir. Alegre-se com a certeza de que irei voltar ainda mais forte. Eu só desaparecerei quando o sol e a lua se encontrarem no céu e a noite não chegar, quando os mares secarem e as aves desaprenderem a voar pelos ares. Quando o céu deixar de ser da cor dos seus olhos, deixarei também de ser teu filho, deixarei de ser da casa de Seti, do sangue de Hur e primogênito da senhora do alto e baixo Egito. Nenhum reino, nenhum faraó, ou qualquer outra coisa que deva temer será capaz de destruir isso. Eu sou unicamente o teu filho, sangue do teu sangue, carne da sua carne. Sou o teu futuro e a senhora é o meu início. Mas isso nunca terá fim...
Guarde esse papiro como lembrança. Guarde-o sabendo que ele é meu coração em forma de palavra..."

—Príncipe Djoser, segundo de seu nome, príncipe hereditário, luz dos olhos da deusa Ísis e herdeiro da força da mão de Osíris... —Ao terminar de ler o papiro de Djoser me lembro o quanto ele e Anippe se sentiam orgulhosos pelo nome que carregavam. Não é apenas o tesouro que eles podem herdar que o orgulham.

—O tesouro...—Penso ao lembrar da herança que eu e Ramsés recebemos com a morte de nosso pai. —Ramsés ganhou o trono e o poder, mas para mim foi dada a maior parte do ouro e o templo de Sekemet no Alto Egito. Me lembro bem de cada detalhe daquele templo. Lembro-me das pedras esculpidas com as figuras dos deuses e dois leões esculpidos em marfim logo na entrada do Alto Egito. Uma obra poética e religiosa...
—Meu Deus. —Falo assombrada ao entender exatamente o motivo de Amun estar conspirando contra o trono. —Ele quer tudo. —Falo e então envolvo meus braços em meu ventre. —Amun sabe o quanto tenho. E agora que sou rainha quer me tirar e tirar Ramsés do poder. —Falo, me levanto do trono com o maior esforço que posso fazer por conta do peso de meu ventre. Como essa criança pode pesar tanto em tão pouco tempo?

Sinto meus tornozelos inchados pior que o de costume. Não me lembro de ter ficado assim quando esperava Djoser, muito menos quando esperei Anippe. Mas parece que a criança que carrego é mais forte que qualquer outro filho que suportei dentro de meu ventre. Mais pesada, começa a roubar todo o vigor que ainda me resta de vida e o ar que tenta ir para meus pulmões. Já perdi as contas de quantas vezes fiquei tonta ao me levantar todas as manhãs. O que me faz sorrir é saber que darei mais um descendente á Hur, somente isso. O preço que está me sendo cobrado é alto demais.

—Precisa de ajuda? —Hur pergunta ao entrar na sala do trono e me ver de pé. Ele corre até mim e então me ajuda a voltar para o trono. —Empalidece com facilidade. —Hur argumenta observando meu rosto. —Essa gravidez é arriscada ao extremo, Henutmire...

—Acha melhor eu me livrar da criança? —Pergunto rudemente desconfortada com a falta de ar. —Sabe que eu não faria isso,Hur.

—Eu não disse isso. —Ele fala manso e então eu ponho minha mão sobre minha barriga. —Mas me preocupo. A sua barriga...

—Está maior comparado as outras vezes que engravidei. —Falo assustada. —Talvez seja pelo fato de meu corpo não ser mais o mesmo. —Minhas palavras pesaram nos ouvidos de Hur. —Olhe para mim. —Peço calma e então Hur me olha ao ajoelhar-se ao meu lado. —Vai ficar tudo bem comigo. —Falo ao tocar em seu rosto com a mesma delicadeza em que se toca em uma seda escarlate.

Escarlate, lembro bem de quando Anippe usou-a com a melhor seda do baixo Egito. Ficaria desproporcional para sua idade aquele vestido de Seda escarlate, mas era o aniversário de Ramsés e Anippe não queria parecer mais uma criança.
Ainda posso me lembrar de cada detalhe. Anippe mudava seus hábitos e passou a usar aquela seda ao me ouvir mencionar que a cor favorita de minha mãe era o vermelho-vinho. Cores quentes era o quê Anippe usava, nunca o azul para não parecer uma cópia minha pelo palácio. De azuis já bastavam os seus olhos que são réplicas dos meus.

—Sei que nunca volta atrás com suas palavras. —Hur fala ao tocar em meu ventre e acariciar sem parar. —E sei que já me prometeu amor verdadeiro pelo resto de nossas vidas...

—Onde quer chegar? —Pergunto bruscamente e então Hur me olha seriamente.

—Quero que me prometa algo, Henutmire. E essa promessa você vai ter que cumprir como todas as outras. A palavra de uma rainha vale muito, mas a palavra da mulher que eu amo vale muito mais. —Hur fala em um tom tão sério que acabo me assustando. Espero pelo seu pedido com ânsia, mas a única coisa que me vem são seus lábios plenos de desejo. —Me prometa que viverá quando nosso filho nascer, Henutmire. Me prometa que será forte. —O pedido de Hur me faz gaguejar de medo. Como posso prometer isso se eu mesma estou insegura sobre a minha própria vida? —E então? —Hur insiste que eu prometa-o.

—Não posso te prometer tal coisa. —Minhas palavras foram dura para ele. —Mas...

—Não vou conseguir criar essa criança sem você. —Hur me interrompe novamente. —Uri está morto, Anippe está longe novamente e Djoser está em uma guerra. Mas o que é mais preocupante é que posso perder você.

—Eu vou suportar, Hur. —Falo, mas é então que ele se levanta e me dá as costas, mas não vai embora. —Suportei Djoser atravessado em meu ventre, suportei Anippe...

—Não compare. Sabe que agora é diferente. —Hur volta suas atenções para mim e então eu me levanto do trono, mas deixo o papiro de meu filho cair de encontro ao chão frio. —Mas eu não quero abrir mão dessa criança. Seria um monstro se assim fizesse. —Ele fala ao pousar seus olhos em meu ventre. —Nem tão pouco de você. —Suas palavras ecoaram pelo ambiente. Mas foi então que o abracei forte tentando impedir que qualquer medo o deixasse ainda pior. Seu braço esquerdo me envolvia enquanto o direito se move e então sinto sua mão massagear minhas costas.

—Eu prometo ficar ao seu lado até minhas forças se esgotarem. —Já estão se esgotando, Henutmire. Você sabe que o seu vigor está escorrendo pelos seus dedos como água por causa da criança que exige toda sua energia. Deixe de ser tola e veja que está morrendo para esse filho viver. Falo para mim mesma enquanto repouso nos braços de Hur. Sou péssima em mentir, mas se eu disser agora que estou bem certamente irei gritar como uma louca também. Nada está bem. Tudo está mais do quê errado e eu não sei o que fazer.
Acabo me aninhando ainda mais nos braços de Hur enquanto ele sente o meu perfume extraído da flor de lis. Lágrimas começam a se formar em meus olhos ao imaginar onde Djoser pode estar com Gab e Ramsés, mas evito chorar para não chamar a atenção de Hur. Todavia ele nota que estou melancólica e amedrontada.

—Não se ama qualquer outra coisa como o primeiro filho. —Hur fala se referindo á Uri, mas eu acabo me lembrando de Djoser, o meu primogênito.

—Será que eu também vou perder Djoser da mesma forma que todas as outras mães perderam seus filhos? —Pergunto. Moisés é tecnicamente o meu primeiro filho, e Yunet,mesmo que morta, querendo ou não, é o único que levou o nome de Disebek. Djoser é meu verdadeiro herdeiro, o meu legítimo primogênito. —Então é isso? —Pergunto ao me lembrar que posso estar sendo castigada. —Por ter roubado tudo o quê deveria ser de Gab, o verdadeiro primogênito de meu pai, terei o meu primeiro filho arrancado de mim?

—Não diga isso. —Hur me interrompe assustado, talvez porque também acredite nisso. —Não se trata disso. —Ele insiste. —Não ligue para o que digo, Henutmire. Minha dor por ter perdido Uri está te fazendo sofrer antecipado. —Meu olhar caiu firme e feroz em Hur ao notar que ele tem a absoluta certeza de quê também irei perder meu primeiro filho.

—Não posso perder Djoser. Me entende? —Pergunto já com o olhar vago de medo. —Posso perder Moisés e Anippe que estão a caminho de Canaã. Mas Djoser não. Somente eu sei o quanto ele vale e o quanto é significativo para mim.

—Ramsés e Gab vão voltar com ele. —Hur fala esperançoso novamente. —Djoser é nosso filho. Ele não pode ter um final trágico ainda jovem...

Notas finais
Finalmente o papiro de Djoser foi revelado, choramos todos aqui. Espero vocês para a abertura do mar...