Corazón Espinado
2 Do olhar, a cobiça.
Notas iniciais
Os dois marinheiros andam lado a lado pelo corredor, a porta que levava ao escritório do almirante Sengoku há muito deixada para trás, no mais completo silêncio. O capitão Rocinante, com as mãos nos bolsos e olhar perdido, viaja de volta de aos bons anos com seu parceiro. A contra-almirante Belle mère, ao contrário, olha constantemente para o homem ao seu lado com o canto dos olhos. Percebe que precisa dizer alguma coisa, mas o quê?
–Hã, eu... – ela gira os pequenos pergaminhos em sua mão, com o nervosismo – Sinto muito pela sua perda, capitão. – diz, concluindo que o melhor seria prezar a boa educação ao invés da praticidade.
–Hm, obrigado. – Rocinante murmura, tirando as mãos dos bolsos e acendendo um cigarro.
–Vocês trabalhavam juntos há muito tempo? – Belle mère não consegue, pela segunda vez naquele mesmo dia, controlar sua curiosidade. Precisava saber de tudo que lhe interessava e foi com hesitação que admitira para si mesma, no momento em que começou a seguir o rapaz muito alto, que descobrir tudo por trás daquele capitão com sorriso estranho e encantador lhe interessava.
–Sim, para falar a verdade. – o loiro responde, sorrindo minimamente com o palito entre os dentes – Desde que eu entrei oficialmente na Marinha. – ele dá uma tragada e a fumaça é deixada para trás quando os dois viram em um corredor. – Acho que você deve saber que eu fui criado pelo almirante Sengoku e...
–Pela Tsuru-san, não é? – Belle mère sorri – Homens podem ser bastante bisbilhoteiros quando querem. – ela dá de ombros. Rocinante a olha pela primeira vez desde que os dois saíram da sala de Sengoku, com uma sobrancelha levantada.
–Hã, acho que não são seus subordinados que escutam por trás das portas de escritórios de almirantes.
Mesmo sendo aquele um comentário amigável, a contra-almirante não pôde deixar de corar e sorrir amareladamente. O mais alto solta uma curta risada, acenando desaprovadoramente com a cabeça, e os dois retornam ao silêncio; dessa vez, mais confortável. Rocinante termina seu cigarro, jogando-o em um lixeiro no fim do corredor. Os dois então chegam de volta ao refeitório, onde a tripulação de Belle mère come e joga conversa fora junto a outros marinheiros.
–Imediato! – ela grita por cima do barulho das conversas e risadas. Imediatamente a tripulação da mulher fica de pé e um homem negro bastante musculoso se aparesenta à frente dela.
–Aye, Belle mère-sama! – o homem bate continência e Rocinante não deixa de admirar-se pelo respeito que a de cabelo rosa parecia ter entre aqueles marinheiros.
–O almirante Sengoku colocou-me em uma nova missão, dessa vez junto ao capitão Rocinante. – ela indica o loiro ao seu lado com um gesto – Preciso que você assuma o comando da missão atual e traga todos os meus homens de volta em segurança. Entendido?
–Sim, Belle mère-sama! – o imediato assentiu – Quando retornarás?
–Em breve, espero. Quando completar a missão, volte para o QG e reporte imediatamente para o almirante Sengoku, sim?
–Sim senhora! Não levará alguns de seus homens para ajudar junto à tripulação do capitão Rocinante?
–Não será necessário. – o loiro interrompe rapidamente, em seu melhor tom frio. O homem assente e Belle mère olha com o canto do olho para o capitão.
–Dispensado, imediato. Volte ao resto da tripulação. Confio em você. – ela sorri, tranquilizando o subordinado. Ele assente novamente e retorna à mesa, deixando a contra-almirante olhando indignada para o capitão.
–De meus subordinados cuido eu, capitão Rocinante. – sibila, encarando o mais alto com revolta. Ele tenta desviar o olhar e troca o peso de um pé para outro para depois replicar, outro de seus sorrisos enigmáticos no rosto e um novo palito de cigarro no canto da boca:
–De quem entra e sai do meu navio cuido eu, contra-almirante Belle mère.
A mulher bufa e, dando-lhe um último olhar cortante, gira nos calcanhares para sair do refeitório. Rocinante ri levemente e senta-se à uma mesa para um copo de sake, pensando:
“Kam-san, deseje-me boa sorte com essa mulher.”
Após algum tempo ele termina seu copo de sake. Seus pensamentos estavam focados em boas lembranças juntos com seu companheiro... Aquilo estava desgastando-o. Por fim ele se levanta e vai rumo ao vestiário, afinal uma boa ducha o faria bem.
–Um bom banho e estarei preparado para partir. Ela está ocupada com nossos preparativos mesmo...
No vestiário ele abre seu armário e pega suas suas coisas. Caminha devagar até a ducha: o lugar estava tranquilo, o melhor horário para ter tranquilidade e escutar seus pensamentos.
Ele estala os dedos. Quiet.
Liga a o chuveiro e enfia a cabeça embaixo do fluxo de água, pensativo. Só então tira a toalha e entra por completo. Seus pensamentos ainda estavam em Kam. As lágrimas deslizam por seu rosto, mas se misturam à água que corre gentilmente por seu corpo. Um soco silencioso na lateral da parede do box.
Ele deveria ter ido naquela missão. Ele, e não Kam. Era mais apto para ser silencioso graças à sua Akuma no Mi.
E agora aquela mulher geniosa. Ele teria que ir com ela numa missão contra um inimigo forte. Ao menos ela parecia ter força... e curiosidade. Ela era completamente solta, parecia fazer o que queria... Heh, ela tinha sorte.
Ele desliga a ducha e se enrola na toalha. Com um gesto desfaz a barreira de som e caminha entre os armários.
CLAM.
Ele para no mesmo segundo. Devagar caminha em direção ao barulho. Quem estaria ali naquela hora? Ao se aproximar mais, vê um vulto esguio: sem perder tempo ele parte para cima do vulto e o imobiliza contra a parede.
–VOCÊ??!! – Rocinanante fica perplexo. – Sua curiosidade te trouxe aqui também?
–Não, só a possibilidade de me lavar mesmo. – Belle mère está com os pulsos presos no alto, seu cigarro ao seus pés pois tinha caído com o movimento brusco e com uma cara de assassina. – Pode me soltar? Em outros lugares, bons costumes pedem que se tratem melhor uma dama...
–Ah... Sim, desculpe. – ele a solta e se dá conta que ela estava enrolada numa toalha também. Rocinante fica rubro no mesmo instante e vira-se de costas para ela. – Hum..er..o-o que faz aqui?
–O vestiário feminino ficou interditado depois que Hina decidiu dar uma lição numa das novatas... – Belle mère ajeita sua toalha e admira por um instante as costas do jovem loiro: eram completamente marcadas por cicatrizes.
–B-Bom... Precisamos partir... T-te vejo no navio. – sentia seu rosto queimando; como aquela mulher o afetou assim? Ele sai rumo a seu armário.
–Certo... E Capitão Rocinante...
–S-Sim? – ele tentava ao máximo manter a voz calma. Então para mas não a encara.
–Não comente com ninguém sobre esse nosso encontro, sim? – a voz dela era calma e até um pouco provocativa. Ela se abaixa e pega seu cigarro no chão, o jogando na lixeira durante o trajeto até as duchas.
Rocinante fica estático. O que ela queria dizer com encontro? Não era nada claro. Era apenas um casual encontro.. Mas a forma como ela pronunciou... Maldita mulher que o confundia! E ainda teria um bom tempo vivendo com aquela linda rosada... Não. Estava mais para uma rosa selvagem. Ele sai dali coçando a cabeça com uma mistura de sentimentos, alguns minutos depois, já vestido.
Acende um cigarro, procurando tirar a imagem da contra-almirante apenas de toalha de sua mente já confusa, e deixa seus pés guiarem seu caminho até o navio. Aquela mulher... Ela bagunçara sua mente como um furacão que atinge uma cidade. Ele ouve, ou assim imagina, a risada descontraída de seu parceiro morto. Redmond Kam provavelmente está mesmo rindo dele neste momento, onde quer que esteja, enquanto acompanha o rumo dos pensamentos do capitão.
“Maldito seja, Kam-san.” Rocinante range os dentes, ainda desorientado e sem reparar onde anda. “A culpa disso é totalmente sua. Se você estivesse vivo, eu não estaria metido com aquela contra-almirante lin... Não, com a contra-almirante Belle mère e tudo estaria...”
BAM.
O homem ouve o som de uma risada, dessa vez bastante real. Abre os olhos para reparar que seu rosto está estatelado em uma madeira que poderia ser a rampa que o levaria para o convés de seu navio. Droga.
Ele se levanta em meio às risadas da contra-almirante que sentava-se, já vestida, na murada de seu navio. O resto de seus marinheiros já acostumara-se com sua essência desastrada, então eles apenas sorriem e voltam às suas atividades.
–Aquele foi um belo tombo, huh? – Belle mère o brinda com um sorriso de lado, o canto direito de sua boca preenchido por um cigarro. Ele percebe enquanto toca o próprio rosto à procura de hematomas que ela segura-se para não voltar a rir.
–Sempre acontece. – ele dá de ombros – Ouch! – olha para a mão depois de sentir uma fisgada de dor na testa. Um pouco de sangue molha as pontas de seus dedos.
–Opa! Deixe-me te ajudar com isso. – ela desce da murada e entra rapidamente em um compartimento do navio, voltando logo depois com um pano úmido e um curativo. “Ela mal chegou aqui e já se apossou do lugar”, pensou Rocinante com uma ponta de satisfação que nem em um milhão de anos admitiria para alguém.
A contra-almirante aproxima-se dele e pede que se sente na murada mesmo. O capitão obedece, uma pequena risada escapando de seus lábios. Agora a mulher consegue encará-lo sem ter que levantar a cabeça, tamanha era a altura do homem loiro, e limpa o machucado com cuidado. Sem perceber ela morde o lábio inferior com a concentração e Rocinante não consegue parar de olhar aquele pequeno gesto. Ele poderia...
–Fique quieto! – Belle mère reclama quando o paciente mexe a cabeça repentinamente, como para que se livrar de um pensamento inoportuno.
–Desculpe.
Depois de mais alguns segundos, o curativo estava feito.
–Muito bem, para onde devemos ir? – a contra-almirante bate uma palma, pulando a murada e entrando no navio. Rocinante dá a volta, entrando do jeito convencional e olhando por cima do ombro da mulher para o mapa que ela examina.
–Huh... – uma ruga de preocupação surge na testa da rosada – Cara, vai ser difícil chegar até essa ilha.
–É para isso que fomos treinados. – o loiro pisca para ela com um sorriso de lado e em seguida grita para seus subordinados:
–MUITO BEM, SENHORES! IÇAR VELAS, LEVANTAR ÂNCORA, SOLTAR AMARRAS! TEMOS UM PIRATA PARA CAPTURAR!
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