Corazón Espinado
3 Da cobiça, o toque.
Notas iniciais
Após dois dias em alto mar, Belle mére está ansiosa. Rocinate passava relatos para o QG enquanto ela observava as águas que os cercavam por todos os lados: era tedioso. Estavam a dois dias de viagem ainda, e aquilo precisava de uma animação... Sua tripulação com certeza estariam bebendo e comemorando por qualquer motivo. Eram vivos... Como adorava pessoas vivas.
O homem loiro termina seu relato e se desloca pelo navio. Ela observa de canto de olho e enfim é tomada por uma enorme inquietação. Ela sorri de canto e então some para dentro do navio.
• • •
Rocinante passava algumas ordens para o seu imediato, quando escuta um som alto de cantoria vindo da parte interna do navio – do refeitório para ser exato – e logo em seguida a porta que dava para o convés é escancarada e a mulher rosada passa cantarolando com mais dois marinheiros apoiada com os braços em ambos os ombros, seu cigarro pendurado nos lábios e um caneco que transbordava cerveja.
“Binkusu no sake...”
Rocinante sente seu rosto ficando vermelho no mesmo instante. Aquilo era demais para seu navio.
– CONTRA ALMIRANTE BELLE MÈRE!
Ela vira a cabeça em direção ao Capitão e o encara em tom de desafio.
– Sim?
– Um minuto, sim? – a voz do loiro era irredutível. Aquilo era uma afronta.
– Bah... Garotos continuem as comemorações... – ela entrega seu caneco a um do marinheiros – Tenho assuntos a resolver com o bonitão ali. – ela estava um pouco alegre, mas nada que afetasse suas ações.
Rocinante segue-a com os olhos, até ela parar frente a frente com ele e levar os braços na cintura. O olhar da mulher era desafiador. Ela era um desafio para ele.
– Não somos adeptos a comemorações e bebedeiras nesse navio, Contra almirante. Peço para que cesse isso e se ponha em seu lugar, estamos lidando com..
– Pftt.. Conheço seu tipo, Capitão. – Ela cutuca com a ponta do dedo na altura do peito do loiro. – Gosta de tudo em seu devido lugar, de todos respirando suas vontades. Pfft... Que chatice o senhor proporciona aqui, Capitão.
– Contra-Almirante, peço que meça suas...
– O que, palavras? Não ficarei nesse navio parecendo que estamos velejando para nosso próprio funeral! VAMOS VIVER ENQUANTO TEMOS TEMPO PARA ISSO, SENHOR CAPITÃO! – Ela se vira dando as cotas para o loiro e caminha até a ponta da escada pisando duro. Ela vira o rosto e o encara. – Se quer mesmo continuar nesse ar fúnebre, sugiro que se tranque em seu escritório. Com a MAIOR palavra nesse navio, determino que SIM, estaremos vivendo por aqui. – ela caminha de volta para os marinheiros que ficam um pouco perdidos se continuavam ou não.
Rocinante encara os marinheiros terrivelmente contrariado, mas ele acena positivo com a cabeça respirando fundo.
“Maldita mulher geniosa.”
• • •
Por volta de oito horas daquela noite, a festa rola solta no navio. Algum dos tripulantes de Rocinante haviam arrumado um acordeão, e todos dançavam ao ritmo de Binks no Sake e outras músicas de pirata desde a discussão da tarde. Bebidas e gritarias rolam soltas no navio do capitão, que a contra-gosto seguira a sugestão da contra-almirante e recolhera-se ao seu escritório.
– Sinceramente, Sengoku-sama... – ele fala irritado com o Den Den Mushi que assume a forma de seu almirante – Ela é impossível. Está ouvindo todo esse barulho? É ela promovendo festas e bebedeiras em meu navio, cantando músicas de pirata a plenos pulmões... – esfrega a mão que não segurava o Den Den Mushi na face, demonstrando cansaço – Não era ela quem odiava piratas? – quase rosna em tom baixo. Ouve uma risadinha vinda do outro lado do Den Den Mushi.
–Eu sabia que isso aconteceria, Rocinante. A contra-almirante Belle mère é... uma força da natureza. Sinto muito, mas vai ter que arranjar um jeito de controlá-la ou juntar-se a ela na diversão. Você sabe, divertir-se não é nenhum pecado. – quase visualizando o sorriso sarcástico do almirante, o capitão loiro murmura um ‘sim senhor’ e desliga o Den Den Mushi, bufando.
– Reclamando de mim para nossos superiores, bonitão? – ouve uma voz sedosa atrás de si e quase cai da cadeira com o susto.
– Contra-almirante Belle mère... – Rocinante espanta-se, levantando da cadeira em que sentava e olhando para a mulher de cabelos cor de rosa que sorria atrevida com um cigarro no canto da boca – Pensei que estivesse lá em cima com meus subordinados. – diz, ainda ressentido. Seu olhar analisa a contra-almirante à sua frente, percebendo que alguns botões de seu uniforme da Marinha estão mais desabotoados do que seria apropriado.
– E estava... – ela aproxima-se dele, deixando o decote mais visível devido à altura do loiro – Mas a festa estava ficando chata sem você nela... Rocinante-kun.
O capitão, tentando manter seus olhos no rosto da mulher e não movê-los alguns centímetros para baixo, percebe o nível elevado de álcool dentro do corpo dela.
–Belle mère, você... – anda alguns passos para trás quando a contra-almirante tentar aproximar-se mais, até ter a parede às suas costas – Deveria dormir agora. Sem mais festa para você.
– Blá blá blá! Seja mais divertido, Rocinante-kun. – a rosada brinca com a gravata do loiro, sorrindo atrevida – Eu poderia ajudá-lo com isso.
– B-Belle mère...Digo Contra almirante, você está exagerando e acho que...
O loiro é impossibilitado de falar: Bellemére podia ser mais baixa, mas um certeiro puxão na gravata do loiro trás seu rosto contra o dela que não perde tempo e preenche os lábios do jovem com os seus.
Rocinante fica completamente estático. Aquilo pegou-o de surpresa e ele definitivamente não estava preparado para isso.
Ela conduzia o beijo enquanto ele hesitava, mas aos poucos se deu por vencido: uma de suas mãos se acomodou na nuca dela e a outra envolvendo a cintura esguia da bela mulher. Ele a trás mais para perto de si, correspondendo ao pedido de seu corpo que ansiava por mais dela, por mais daquele pequeno furacão.
“Mas ela está alcoolizada e não tem consciência disso.”
“Mas ela está sempre me provocando...”
“Mas isso não quer dizer que ela quer..”
“Ela veio até aqui..”
“Alcoolizada, Rocinante...”
Nesse momento o beijo ganha mais ferocidade por parte dela, que começa a deslizar suas mãos pelo bem delineado corpo do Capitão. Rocinante levas suas mãos suavemente até os ombros da mulher e a afasta vagarosamente.
– Belle mère, isso está errado. – ele diz em um tom mais suave, quase fraternal.
– Errado? Não senti isso no beijo... – Ela esquiva das mãos do loiro e se aproxima novamente repousando uma mão no peitoral dele e outra no rosto , acariciando-o. – Vamos Rocinante-kun... Acha que nunca percebi seus olhares para mim?
– O-olhares...? – seu rosto ferve um pouco mais e fica ruborizado: ela o pegara em cheio. – Está enganada, eu...
– Você me quer tanto quanto eu te quero. – Ela puxa o rosto dele para perto do seu.
Novamente em cheio. Aquelas palavras deram um nó em seus pensamentos. Ele devia seguir seus instintos que clamavam por mais do sabor daquela mulher tão decidida?
Ela não hesita e rouba um beijo do loiro. Mas dessa vez, quem conduz não é ela. Ele a envolve em seus braços e então gira o corpo dela invertendo as posições: ela encostada na parede.
Ela sorri e sussurra entre o beijo algo parecido como “Se entregando, huh?”, enquanto Rocinante desliza suas mãos até as dela e as levanta para cima prendendo-as com uma mão. Nesse instante a rosada sente algo gelado em seus pulsos: estava algemada.
Pode sentir o sorriso do homem em seus lábios.
Ele dá um selinho nela e se afasta, ainda segurando com sua mão as dela.
– Problema contido, huh? – ele pisca para ela.
– Hey Rocinante-kun, me solte... – ela fala manhosa. – Seu hentai... – fala extremamente manhosa e com direito a biquinho.
– Amanhã você vai me agradecer por isso, Belle mére... – ele a pega no colo e a carrega até seu quarto que era conjugado com o escritório.
– Ei Roci-kun... vamos, não me deixe assim... – ela ainda fazia sua voz manhosa, só que agora sussurra no ouvido do homem.
– V-vamos Bellemére, pare com isso. Amanhã você realmente vai me agradecer. – seu corpo respondia a cada palavra sussurrada daquela mulher. Ele a deixa na cama a cobrindo. Fecha a porta atrás de si e passa a chave, após pegar um cobertor e travesseiros para si.
“Você vai me agradecer... Mas, eu nesse momento, me odeio.”
Ele se ajeita no sofá que ficava próximo a porta do quarto e tenta dormir em vão. Sua mente borbulhava junto com seu corpo em pensamentos daquele furacão que acabou de passar e bagunçar tudo na sua caixola.
“Parabéns Rocinante. Você tem uma BELA mulher ALGEMADA em SUA CAMA te desejando, e você está aqui dormindo no sofá. Uma mulher bêbada, impulsiva, fora de si. Uma mulher que conheceu a menos de 4 dias e que está tornando tudo mais complexo. Já não bastava os planos que tinha, que já eram completamente suicidas, agora uma mulher tão geniosa como essa mexendo com você. Fazendo você dormir no sofá, ficar sem reação e ainda por cima sem dormir, por causa de um contato... E que contato. Nunca tive problemas com elas... Mas essa MALDITA ROSADA, era um furacão... Como Sengoku falou: uma força da natureza. ”
• • •
Belle mère acorda naquela manhã com uma dor de cabeça terrível. De olhos fechados, atribui a dor à ressaca e resmunga para a claridade que a janela circular do quarto proporcionava, virando o corpo para o lado oposto. Ela tenta agarrar um travesseiro próximo, mas percebe que suas mãos estão imobilizadas. Sonolenta, ergue as mãos até sua linha de visão e finalmente abre os olhos. Algemas.
A mulher arregala os olhos e tentar sentar-se, apenas para desequilibrar e cair com o rosto contra um travesseiro. Claramente não é seu, que cheira doce e floral como seu perfume. Aquele tem algo de amadeirado, masculino.
Ela insiste, usando as duas mãos algemadas como apoio, e finalmente consegue se sentar. Olha em volta, espantada. Aquele definitivamente não era seu quarto.
Tentando não pensar na quantidade de coisas constrangedoras que provavelmente fizera no dia anterior, levanta-se preguiçosamente e se põe a examinar o lugar. Tem uma leve ideia de onde se encontra, lembranças da noite anterior ali para aquilo, mas ainda recusa a ideia.
O quarto é bastante organizado e limpo, as paredes brancas e janelas redondas com parapeito azul denunciando a profissão do ocupante. Em uma parede há duas portas, que ela imagina serem o banheiro e a saída. Na outra, paralela à cama, há um armário de duas portas e duas prateleiras cobertas de livros e mapas. Ao lado da cama, um criado mudo com alguns porta-retratos e uma gaveta dão o toque humano que o quarto meticulosamente arrumado precisava.
As fotos em cima do criado mudo chamam a atenção da rosada, que se senta de volta na cama para observá-las. Percebe uma chave perto da primeira fotografia e tenta usá-la para abrir as algemas e liberar-se. Consegue logo na primeira tentativa e volta o olhar para as fotos, jogando algema e chave distraidamente em cima da cama. A primeira parece a mais antiga, onde dois garotos loiros de idades parecidas sorriem junto com um casal jovem. Parecia uma família feliz.
A segunda imagem retrata apenas um dos garotos, o que não usa óculos escuros, usando um uniforme da Marinha muito grande para ele. Ele fugia do Almirante Sengoku, que o perseguia irritado, enquanto Garp e Tsuru riam.
A última fotografia mostra dois jovens marinheiros abraçados, um loiro e um ruivo, rindo enquanto brindavam com canecas de saquê. A contra-almirante então, ao observar o marinheiro loiro e seu sorriso calmo, precisa admitir o que já parecera óbvio assim que acordara: sabe de quem é o quarto.
Percebendo que está vestida, tenta novamente não pensar em qualquer uma das coisas idiotas que sabe que fez na noite anterior e abotoa os últimos botões de sua blusa. Escolhe uma das portas e sai do quatro, a testa franzida devido à dor de cabeça que persiste, e adentra o escritório do Roci-k... Capitão Rocinante. Algumas coisas estão fora de lugar, ela percebe, como se a sala tivesse sido palco de alguma discussão ou luta. Belle mère suspira envergonhada, as lembranças da noite anterior tomando sua mente dolorida, e sente suas bochechas esquentarem. O que ele deveria estar pensado dela agora?!
Vira para a esquerda e então encontra o dono do escritório e do quarto adoravelmente adormecido no sofá. Não parece muito confortável, as pernas encolhidas devido à altura descomunal do homem, mas ainda tem um de seus típicos sorrisos calmos no rosto. Qualquer um teria aproveitando-se do estado inconsciente e atrevido da rosada na noite anterior, mas não ele. O correto capitão Rocinante.
“Ele não é mais qualquer um, é?”
Pega-se rindo sozinha.
O impulso de afagar-lhe os cabelos loiros bastante bagunçados toma conta de Belle mère.
“O que você fez comigo, Rocinante-kun?”
Pergunta-se, cedendo aos próprios desejos e embrenhando seus dedos finos na cabeleira macia do capitão. Ele se mexe um pouco, fazendo a contra-almirante retirar a mão rapidamente e morder o lábio apreensiva. Mas o homem apenas põe um dos braços próximo à cabeça e volta a ressonar tranquilamente.
A rosada ri e murmura, aproximando-se do rosto do loiro:
–Obrigada, Rocinante-kun. – Deposita um leve beijo em sua bochecha e sai do escritório silenciosa, certamente indo até a cozinha preparar algo para comer, ou mesmo procurar o médico do navio para um comprimido contra a terrível dor de cabeça que a atacava. Mas ela não percebe, porém, o rubor nas bochechas do capitão que supostamente dormia e o aumento de seu sorriso.
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