Notas iniciais
Dois dias passavam como um sopro.
No primeiro dia da Audição, Corinna estava na floresta antes do sol brilhar completamente no céu. Seu pai ainda dormia quando ela pegou um casaco, o arco e saiu silenciosamente.
Não havia descansado muito bem e suas pálpebras ainda estavam pesadas, mas ela subiu na sua égua e partiu entre as árvores.
Não tinha a real intenção de caçar nada, sua atenção não estava boa o suficiente para notar os detalhes sutis, só precisava…
Precisava…
Corinna não sabia exatamente o que precisava: de mais tempo? de conforto? de um momento de reflexão?
A Casa Central estaria aberta para receber os humanos elegíveis a partir do meio-dia, pretendia voltar para casa bem antes disso.
Sem precisar guiá-la, Tabbris, sua égua, a levou por um caminho conhecido.
Se a memória do seu pai não o enganasse, a enorme árvore, de tronco extremamente grosso no centro, da clareira era onde ele havia encontrado a menina ainda bebê.
Ela e sua mãe.
Evian sempre contava como tinha ficado em choque no momento por causa da quantidade de sangue ao redor da mulher. Aquele não havia sido um parto nada fácil. E ela estava sozinha; a noite fria e um bebê recém-nascido eram suas únicas companhias.
Sofrera as dores do parto, mas teve forças o suficiente para cortar o cordão que a ligava ao bebê. Teve força para segurá-lo nos braços e implorar a Evian por ajuda.
Implorar que salvasse sua filha.
Corinna não tinha o nome, nem nenhuma lembrança da mulher. No entanto, cada vez que visitava aquele local, parecia sentir como se resquícios da mãe estivesse por ali. Ao redor.
Não se sentia sozinha.
A menina desmontou do animal e rodeou o pequeno lago adjacente.
Seu pai disse que não sabia por quanto tempo ela e a mãe tinham ficado ali sozinhas, mas a proximidade com o lago deveria ter sido um fator determinante para que a mulher ficasse consciente por tanto tempo, depois de perder tanto sangue.
Quando era pequena e se machucava, Corinna gostava de pensar que o lago era mágico, então corria para lá a fim de se sentir melhor.
Naquela época não importava que as feridas continuassem ali depois de se banhar, a sensação era como se ficasse intacta de novo.
Pelo menos por dentro.
Nunca se ressentiu da mãe por deixá-la.
A mulher deveria ter tido algum motivo sério para fazer aquilo pois não parecia ser alguém ruim. Seu pai, pelo menos, toda vez que falava dela deixava transbordar um carinho em seus olhos, quase uma reverência em sua voz.
Com cuidado, a jovem tirou a calça, a camisa e o colete. Com um pé, ela testou a temperatura do lago. Com um salto, ela se deixou ser puxada pelas águas.
A temperatura gélida era como agulhas em sua pele.
Sentia-se como se tivesse sendo desfeita e feita novamente. Às vezes, Corinna queria poder ficar ali para sempre, com aquela parte desconhecida e misteriosa de si mesma. Tentando se decifrar. Tentando se tornar…algo. Alguém substancial.
Sentia como se, por não saber parte da sua história, não sabia de verdade quem era. Ou o que deveria fazer. Para onde deveria ir. Que decisões deveria tomar.
Kallien veio à sua mente, sabia que parte dela achava-se egoísta por não aceitar a oferta do amigo.
Não apenas salvaria sua própria pele como também a dele.
Porém algo dentro de si sempre recuava quando pensava sobre essa opção.
Corinna submergiu na água e voltou para a superfície. Olhou para o céu quase completamente coberto pelas copas das árvores, apenas algumas frestas de luz passando entre as folhas.
Ela fechou os olhos.
Um Sacrifício em pleno inverno… o que os deorum poderiam estar planejando dessa vez?
A menina ouviu um galho estalar nas redondezas e ficou imediatamente alerta.
Seu pai àquela altura já estava a caminho da escola do vilarejo e, além dele, não conhecia outra pessoa que se aventurava por aquele lugar.
Controlou a própria respiração para ficar menos barulhenta a fim de ouvir qualquer sinal, qualquer outra coisa.
Talvez os deorum estivessem patrulhando, mesmo que não tenha testemunhado nem uma única vez em sua vida que eles se dignaram a estar ali.
Apoiando as mãos, Corinna saiu do lago, olhando nos arredores.
Talvez fosse apenas um animal qualquer, tentou convencer a si mesma, mas ela sabia o que tinha ouvido.
O estalar foi pesado demais para ser de um animal pequeno, e os grandes costumavam ficar mais escondidos dentro da floresta.
Ela olhou em volta, vestindo as roupas:
— Olá? Tem alguém aí?
Parte de si estava convencida de que havia mesmo alguém ali, não era a primeira vez que tinha a sensação de que por mais longe que fosse nunca estava completamente sozinha.
Sempre havia olhos sobre ela.
Desde quando conseguia se lembrar.
No início sua mente criou um amigo invisível, algo para ajudá-la a não se sentir tão deslocada.
Mesmo que, de alguma forma, conseguisse se parecer com o pai, ambos ainda tinham biotipos muito diferentes do resto do vilarejo.
O tom mais quente da pele, os cabelos escuros, a altura acima da média. Se fossem características separadas era possível encontrar várias outras pessoas parecidas, mas a combinação delas faziam os dois serem destoantes dos demais.
Mesmo que ninguém nunca tivesse ousado dizer isso na frente de Evian.
No entanto, as crianças sabiam ser cruéis. E, bem antes de Kallien e Callandrea praticamente a arrastarem para o seu convívio, Corinna era muito sozinha.
Então costumava imaginar que tinham alguém para conversar. Na sua cabeça fazia todo sentido, e o amigo imaginário parecia ter uma personalidade própria fascinante.
Ainda que a menina se esforçasse para ver aquilo como o que era — uma ilusão — poderia jurar que quando seu amigo não voltou do nada durante dias para ela, a ausência e o sentimento de perda pareceram reais.
Corinna se perguntava que, se fosse real, não poderia ser seu amigo tomando conta dela.
Era ingênuo e infantil e ridículo acreditar em algo assim.
Principalmente porque aquilo significaria que seu amigo tinha o poder de não ser visto e poder em Excelsior significava magia.
E magia quando estava relacionada a humanos fosse direta ou indiretamente significava morte.
Ela colocou novamente as roupas, percebendo como a égua estava com as patas inquietas.
— Ei, menina, — falou suavemente, passando a mão no animal. — Já vamos voltar, está bem?
Corinna andou com cuidado entre as árvores procurando qualquer sinal que indicasse que não estava sozinha.
Não encontrou nada.
Respirando fundo, ela se sentiu uma idiota esperançosa ao dizer:
— Quando foi que passou a ter a necessidade de se esconder de mim?
Por alguns minutos, ela esperou uma resposta que também não veio.
Era uma idiota. Louca.
Talvez isso fosse o que tinha de errado consigo. Não batia bem da cabeça.
A menina montou em Tabbris se ajustando na sela. Estava prestes a seguir o caminhou de volta para casa quando uma brisa fresca a envolveu.
Era diferente do vento gelado e ela conseguia perceber que vinha de uma direção diferente da que ele estava naturalmente soprando.
Ela olhou por cima do ombro, mas a clareira ainda estava vazia.
Não sabia dizer o que esperava encontrar.
❖
Com passos hesitantes, as pessoas se aproximavam da Casa Central que naquele dia estava com as portas duplas imensas abertas.
Algumas mães tentavam consolar as crianças mais novas. Outras choravam com medo do que poderia acontecer com os mais velhos.
Poucas tentavam dar conselhos sobre o que fazer ou não para não ser um Escolhido. Todos já sabiam que não era uma questão de dar as respostas certas ou ter a melhor estratégia para se safar.
Se a escolha dos deorum tinha alguma lógica e não fosse aleatória, nenhum humano tinha decifrado ainda.
Corinna caminhou resignada, subindo os degraus sem olhar ao redor, apenas olhando para frente.
Do que mais odiava em toda aquela situação, ver a miríade de expressões distintas no rosto de cada um elegível para o Sacrifício era uma das coisas principais.
Era ainda mais doloroso ver crianças que mal estavam entendendo o que estava acontecendo, entrando com um sorriso no rosto como se tudo aquilo fosse apenas uma aventura nova, uma quebra na rotina sofrida de cada dia.
Todo ano Corinna rezava para quem pudesse estar ouvindo dos Céus que nenhuma criança fosse escolhida. Que não tivesse que ver mais um caixão de vidro minúsculo sendo exibido nas ruas do vilarejo poucos meses depois do Sacrifício ser iniciado.
Alguns anos suas preces eram ouvidas, mas a maioria era discrepante demais para que ela não pensasse que os “anos bons” eram apenas o puro acaso da sorte.
Sorte.
A menina encarou Fortuna em sua pose magnânima sobre o pedestal. O rosto impassível, os olhos cegos e vagos, uma mão ornamentada com anéis e joias, a outra, enrugada portando uma adaga.
A antiga deusa que dava o nome ao vilarejo onde Corinna morava não passava de uma lenda, uma história antiga. Um mito. Ou isso, ou então a divindade tinha decidido passar o resto dos seus dias apenas abençoando os deorum e amaldiçoando os humanos.
Ainda assim, sempre que pisava ali naquele salão, desde a primeira vez que virou elegível para o Sacrifício, se sentia impelida a encarar a figura de mármore.
O único motivo de a garota não se destacar no meio do salão era que muitos outros jovens passavam pela imagem e se ajoelhavam brevemente tocando seus pés, falando alguma prece rápida ou segurando por alguns instantes as moedas de ouro que ficavam num cesto na base.
Inacreditavelmente ainda havia humanos que tinham alguma crença de que, se permanecessem fiéis e subservientes, um dia os deuses antigos viriam os salvar. Ou pelo menos aliviariam seus fardos.
Ela não tinha nenhuma ilusão do tipo. Se os deuses estivessem observando o modo como os humanos viviam, não se importavam mais do que se estivessem vendo vermes sendo pisados.
No entanto, não poderia negar que a estátua — sempre muito bem preservada — tinha certo apelo.
Corinna estendeu a mão e tocou uma das moedas de ouro. Sentindo seu peso e a temperatura que parecia aumentar suavemente na sua palma.
Girou o objeto na mão observando a forma e…
— Acho que se colocarmos o suficiente no bolso e formos discretos, conseguiremos fugir para bem longe.
A menina quase deu um pulo ao ouvir Kallien sussurrar ao pé do seu ouvido.
— Kallien, pelos Céus! — Ela pôs a mão sobre o coração acelerado. — Quase me matou de susto.
O rapaz apenas deu um sorriso de apreciação enquanto a amiga lançava um olhar repreensivo em sua direção.
— Nunca te vi como uma pessoa devota, Cori. — Ela estalou a língua e olhou sobre o ombro de Kallien, torcendo para não encontrar a amiga atrás dele. Como se lesse seus pensamentos, o menino respondeu: — Callandrea deu um jeito.
Sua expressão denunciava que ele não gostava nenhum pouco do tal “jeito” que a irmã tinha encontrado para fugir do Sacrifício.
Corinna não poderia julgar. E, na verdade, Kallien também não.
Ambos tinham visto o estado de desespero que a menina ficou quando por uma troca de sobrenomes ela quase havia sido escolhida na primeira Audição aos 11 anos.
Desde então Callandrea pulava de um casamento para outro para fugir de ter que participar. Os homens eram todos senhores doentes e ou velhos demais que apenas queriam uma companhia para seus últimos dias, mas Kallien não gostava da ideia de que um dia sua irmã, por desespero, parasse nas mãos de um aproveitador.
Ainda assim, os três sabiam que a alternativa era muito pior. Além disso, ninguém acreditava que poderia de verdade dissuadir Callandrea. Com os pagamentos, ela recebia um bom dinheiro. Com sua virtude intacta, ela era uma das pretendentes mais cobiçadas do vilarejo embora não desse muita bola para os pretendentes da sua idade.
Ela dizia que quando chegasse a idade em que estivesse finalmente livre do Sacrifício, seria livre de fato e teria um casamento de verdade.
Até lá…
❖
Corinna e Kallien caminharam lado a lado até a sala de espera. Por mais que tentasse parecer relaxado, a jovem sabia apenas pela postura dos ombros do amigo o quanto ele estava preocupado.
Esperava que não fosse por causa dela.
Depois de registrarem seus nomes com o guarda na entrada, ambos entraram na sala completamente fechada onde outros jovens já aguardavam.
O hino de Excelsior tocava baixinho e meio distorcido. Em um canto haviam as crianças, em outro os pré-adolescentes e em outro os mais velhos.
A menina duvidava que o lugar onde estavam fosse ficar com muitas pessoas, a maioria dos jovens da sua idade recorriam ao casamento para se safar mesmo que aquilo significasse mais chance de crianças indo para uma competição mortal.
Os mais velhos que se submetiam aquilo geralmente tinham irmãos, primos ou sobrinhos mais novos. Ou apenas eram teimosos como ela.
— Por que recusou a proposta de Aelana? — Corinna disse de repente se recostando na parede.
Kallien a olhou de súbito.
— Quem te contou sobre Aelana e…? — As palavras morreram em seus lábios. — Callandrea e sua boca grande.
Corinna deu um sorrisinho.
— Mesmo que ela não tivesse contado, eu saberia. Além disso, sua irmã só quer o melhor para você.
O amigo bufou.
— Espero que ela não tenha te dito nenhuma baboseira.
— Apenas o que uma irmã que se preocupa com um irmão diria. — Ela abaixou o tom de voz. — Não precisa passar por isso por causa de mim, Kall. Não quero que fique preso a mim.
— Não estou aqui por você, Corinna. — ele rebateu, tentando soar ríspido. — Sei que tenho chances de ganhar. Acha que não tenho o direito de querer dar uma vida melhor para minha família ao vencer?
Respirando fundo, Corinna observou o movimento da sala.
Não era a primeira vez que tinham uma conversa como aquela.
— Estou dizendo que Aelana é uma boa garota. Vai ser uma boa esposa. Gosta de você desde sempre. — Ela voltou os olhos para o rapaz enquanto apontava os fatos com calma.. — Consegue me dizer que se não me conhecesse, ainda recusaria a proposta dela?
Kallien não teve tempo de responder porque um choro estridente cortou a sala.
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