Notas iniciais
olha eu de novo <3 Gostaria de agradecer a Anne Claksa que está seguindo a história, muito obg e espero que esteja gostando

Respirando fundo, a mulher de cabelos vermelhos se levantou da sua cadeira para entender qual era o motivo da comoção.

Aquilo era deprimente… toda aquela situação.

A partir do momento em que partia todos os anos no trem que saía do Setor Superior em direção àquele vilarejo miserável sentia seus anos de vida sendo consumidos.

Não eram poucos. Tinha tecnicamente a eternidade pela frente.

Muitos de seus colegas conseguiam ignorar aquilo de uma maneira tão fácil como um dar de ombros.

Marjorie costumava fingir bem que fazia o mesmo, mas quando recebeu o chamado há três dias para ajudar com as Audições de um Sacrifício fora de época — algo inédito até onde a mulher conseguia se lembrar — sentiu toda a sua disposição se esvair.

Não era como se aqueles humanos simplórios tivessem algum significado em sua vida, mas o modo como eles continuavam lutando era, no mínimo, uma coisa para se respeitar.

Contemplou por diversas vezes o modo como viviam, principalmente ali em um dos lugares mais pobres de Excelsior, e chegou a conclusão que teria acabado com sua própria vida mortal muito antes que alguém pudesse sequer submetê-la àquele tipo de sofrimento.

A deorumnae caminhou lentamente até a porta. Uma humana tentava se desgrudar da filha que a agarrava com fervor, aos berros. O rosto da criança estava vermelho de tanto chorar e era visível pela expressão da mãe o quanto ela segurava as próprias lágrimas.

A criança humana não ligava se estava ferindo a pele do rosto, do pescoço ou do colo da mãe ao tentar impedir que afastassem as duas. A mulher não ligava para os riscos vermelhos que começavam a aparecer em sua pele. As lágrimas empoçavam na beira de seus olhos, no entanto ela não permitia que nenhuma caísse. Em vez disso, tentava manter um sorriso fraco no rosto e convencer o filho que tudo ficaria bem.

Não ficaria, Marjorie sabia disso.

Ainda que aquela criança não fosse escolhida em nenhum dos anos em que estivesse elegível para o Sacrifício, nada ficaria bem.

Nunca. Não para eles.

Era uma pena.

Ela deu os passos que a separava da à mãe e do filho.

Viu os ombros da mulher se tensionarem e forçou um sorriso quase amigável.

— Um menino tão crescido chorando?

A voz calma e melodiosa da deorumnae fez com que o menino se calasse de imediato. Ele voltou os olhos grandes e assustados para ela. Suas mãos ainda agarravam sua mãe com força.

— Não quer que sua mãe fique triste por sua causa, quer? Olhe quanto dos seus amigos já estão aqui. Quer que digam que sua mãe tem um bebê chorão?

Cativado pelos olhos brilhantes de Marjorie, o menino balançou a cabeça quase que em transe. Ela deu um sorriso mais aberto e estendeu os braços para que ele viesse com ela.

A criança hesitou.

Marjorie inclinou a cabeça:

— Sua mãe vai estar esperando do lado de fora assim que acabar, não é, senhora?

Aproveitando que o filho não estava mais a encarando, a mulher mordeu os lábios com força segurando ainda mais o choro, mas respondeu um sonoro:

— Aham.

— Está vendo só? — Marjorie se inclinou chegando mais perto do rosto do menino e sussurrou: — Se se comportar direitinho darei doces para você. E para seus amigos também, que tal?

Conseguia perceber a resistência do menino se dissolvendo. Principalmente na última parte.

Era algo que achava engraçado na maioria dos humanos dali. A capacidade de pensar no próximo. Como eles estariam dispostos a ir mais longe contanto que fosse para o “bem maior”.

Comporte-se e seu amigo não será castigado.

Se você não se rebelar nem fugir, todos do seu vilarejo receberão uma recompensa. Caso contrário….

Os deorum não pensariam duas vezes em sacrificar todos para benefício próprio, a maior prova era o que faziam a cada ano com uma raça que nem era a deles.

Claro, havia exceções entre os humanos, no entanto. Tinha presenciado várias durante todos os anos assistindo ao Sacrifício e era uma coisa que estava aumentando a cada ano, na verdade. Se espalhando como uma doença.

Marjorie se perguntava se algum dia, seu povo os quebraria o suficiente para não haver diferença de caráter entre os deorum e os humanos.

Perguntava a si mesma se isso seria uma coisa boa para o seu povo ou apenas o começo de sua própria ruína.

O menino soltou a mãe, colocando os pés no chão.

A deorumnae continuava com as mãos estendidas e o garotinho agarrou uma suavemente, com hesitação.

Era um erro que todos eles cometiam desde a primeira vez que se voluntariou para aquele trabalho.

Todas as crianças lhe davam sua confiança, mais cedo ou mais tarde.

Elas deveriam pensar duas vezes.

Corinna observou a deorumnae guiar o menino para a frente da sala enquanto a mãe se virava e finalmente se desabava em lágrimas longe das vistas do filho.

Lembrava da primeira vez que entrou ali.

Mais quieta, porém tão assustada quanto o garoto.

Aquela mulher já estava ali, na época. Com o mesmo rosto, o mesmo cabelo, embora mais longo. Algo no seu olhar parecia mais jovem então e Corinna imaginou que era assim que envelheciam. Não em aparência, mas através do olhar.

Lembrava também de ter ficado tão fascinada com ela quanto o menino. Tudo nela era como um sonho colorido e fantástico, mas ainda assim eram os olhos que te cativavam. Não só a voz, nem as roupas de qualidade, nem o cabelo de um tom vibrante de ruivo. Eram os olhos castanhos com um anel dourado ao redor da pupila.

Corinna nunca se sentiu tão especial quanto no momento em que, ao hesitar na entrada, a mulher veio até ela, segurou suas mãos e falou com seu sotaque forte como o vestido da menina era lindo e que procuraria no mundo inteiro um igual se fosse possível.

Claro que era apenas um jeito de ganhar a confiança de Corinna, mas naquele momento ela se sentiu incrível.

Anos depois, assistindo-a puxar conversa com quem precisava e depois os ignorar como se não passassem de insetos zunindo ao redor, Corinna percebeu que era apenas uma estratégia para conquistar os humanos mais jovens.

Era bem melhor do que um chicote nas costas, mas ainda assim uma estratégia.

— Desgraçados…— Kallien murmurou ao seu lado enquanto também observava a mulher de mão dadas com a criança como se fosse o ser mais benevolente do mundo.

A menina olhou para o amigo com um olhar de censura. Se ele falasse um pouco mais alto, poderia ser um problema. Assim como todo o resto, os deorum tinham uma audição muito mais aguçada do que um humano normal.

Corinna pensou em voltar ao assunto sobre a possibilidade de Kallien se livrar daquele Sacrifício se casando com alguém — alguém que não fosse ela — mas ele deve ter visto o pensamento estampado em sua face porque ergueu um dedo como se tivesse acabado de se lembrar de algo.

— Quase ia deixando passar. — ele disse, cutucando-a com o cotovelo enquanto procurava um objeto nos bolsos.

Ela tentou não parecer interessada demais no que Kallien queria lhe mostrar, mas seus olhos foram capturados pelo pequeno saquinho cinza de veludo que ele tirava do bolso interno da roupa.

Já tinha visto aquele tipo de embalagem antes, Callandrea sempre costumava aparecer com uma do tipo. E na maioria das vezes, era usada para guardar réplicas de joias que ainda assim, para qualquer humano, custavam muito caro.

Sentindo seu corpo inteiro ficar tenso, Corinna começou a protestar:

— Kall…

O rapaz apenas segurou o saquinho com cuidado virando-o de cabeça para baixo para que o conteúdo escorresse para fora em direção a sua palma.

Corinna prendeu a respiração.

A corrente era na verdade uma tira de couro fina e gasta, provavelmente um pouco mais larga que o diâmetro do seu pescoço. Ela ficou quase instantaneamente aliviada por não ser nada que aparentasse custar mais do que sua própria vida, mas então ela viu o minúsculo pingente.

Era um círculo que pendia da tira e que não era maior do que metade da unha de seu dedo, mas no centro, reluzindo, estava uma pedra preciosa.

Outras pessoas poderiam ficar em dúvida sobre se era ou não de verdade, mas não Corinna.

Desde que conseguia se lembrar era fascinada por apreciá-las. Em Fortuna, não havia muitos livros de estudo sobre elas, mas a menina admirava todo o tipo de ilustração que pudesse encontrar. Apesar de nenhum vilarejo ter permissão para manter contato um com o outro além de comércio, existiam boatos que Nix era repleto de minas de onde vinham todas as pedras preciosas que os deorum exibiam como pedras relacionadas às suas famílias.

Corinna tinha o sonho impossível de um dia ir até lá e vê-las pessoalmente. De alguma forma, cada vez que sua amiga ou qualquer outra menina de Fortuna saía pelo centro exibindo uma pedra, com apenas uma olhada, Corinna conseguia discernir se era ou não verdadeira. Geralmente não era.

No entanto, aquela pequenina que Kallien acabara de revelar era. A menina tinha uma certeza que não sabia de onde vinha, por isso sua boca se abriu e fechou algumas vezes antes de conseguir emitir qualquer som.

Kallien sem perder tempo se posicionou às suas costas, abaixando um pouco a gola do casaco de pele que a menina usava.

Ele posicionou o colar no pescoço dela e encaixou o fecho. O pingente se aninhou exatamente na clavícula e embora Corinna esperasse um contato gelado com sua pele, ficou surpresa ao senti-lo com a temperatura levemente mais alta do que a do seu corpo.

Onde estava o pingente, Corinna não conseguia vê-lo, então apenas tocou com os dedos. Com cuidado.

Seu amigo deu um passo para voltar ao seu lado.

— Quando fui acompanhar meu pai na última Feira Geral, vi um dos comerciantes vendendo. A primeira pessoa que passou pela minha cabeça foi você. — A voz de Kallien soava ao longe nos ouvidos da menina. Ele analisava o colar e se parabenizava por ter escolhido tão certo. Queria ter podido comprar um colar muito mais valioso com um pingente muito mais extravagante, mas, além de não ter os recursos para isso, duvidava que Corinna fosse usá-lo.

Ali num local onde ela não poderia vê-lo exceto com a ajuda de um espelho, Corinna sempre teria um pedaço físico de Kallien com ela. Além do seu coração, que já estava de posse dela há um bom tempo, embora a jovem fizesse de tudo para não reconhecer aquele fato.

Mesmo sem vê-lo em seu pescoço, as palavras de Corinna eram genuínas ao dizer:

— É lindo, Kall. — Sua voz saía num sussurro. — Eu… eu não posso simplesmente aceitar algo assim. Deve ter custado uma fortuna.

O rapaz cruzou os braços com um sorriso:

— Ah, mas você vai ter que aceitar. Além de ser seu presente de aniversário, o comerciante não vai devolver minhas moedas.

Ela ergueu o olhar para o amigo ainda tocando o pingente o que mostrava para o menino o quanto ela havia gostado.

— Não deveria. — Corinna rebateu, mas ele conseguia perceber que sua resistência já não era tão firme assim.

Ao redor deles, algumas pessoas espichavam o pescoço para tentar ver o que poderia estar escondido sob os dedos da menina, preso à tira de couro, mas nenhum dos dois notou aquilo.

Também não notaram enquanto, do outro lado do cômodo, a deorumnae observava toda a cena e inclinava a cabeça, curiosa.

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Notas finais
Oi, oiii, preciosos!! mais um capítulo para vocês!!! nesse cap começamos a conhecer um pouco do outro lado da história, o que estão achando? Se estiverem curtindo ou saiba de alguém que adora uma fantasia, não esqueçam de indicar para os amigos, deixar comentários, votos, favoritar, recomendar e etc... nós vemos em breve! Me sigam nas redes: @whodat_emmz ou @emmieedwards no twitter/x @emmiewrites no instagram Até mais, bjinhos xx
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.