Notas iniciais
olá, espero que gostem <3

Os galhos da floresta feriam a pele da mulher e sua garganta estava seca, mas todas aquelas sensações eram eclipsadas pelas contrações em seu ventre.

Se não estivesse enganada, só faltava mais um pouco, muito pouco, para chegar onde queria.

Não se permitia pensar que talvez ele virasse as costas para ela — cansado e relutante de se envolver em tudo aquilo novamente.

Certamente, ela pensaria duas vezes se estivesse no seu lugar.

Depois de tanta dor, de tanta perda, ele merecia a vida plácida que estava levando.

Não era justo que ela aparecesse na sua porta naquele estado, não era justo que ele fosse o único que poderia ajudá-la, porém não tinha outra saída.

Seu vestido estava grudando no corpo por causa do suor, a parte interior das suas coxas ardiam pela fricção de horas...

A magia tinha acabado há muito e agora ela dependia da última reserva de força bruta que lhe restava.

Tentava enganar sua mente e seu corpo com "só mais um passo, só mais um passo."

Mas esses passos já tinham virado muitos metros... muitos quilômetros.

Uma contração atravessou a base sua barriga de um lado a outro e a mulher teve que se apoiar em uma árvore enquanto abafava o grito, mordendo a saia do vestido.

Seus sentidos não a alertavam que ninguém estava por perto, mas ela sabia como os deorum eram silenciosos e astutos.

Tentando controlar a respiração, ela avançou mais um pouco, sentindo um líquido descer pelas pernas. Estava quase na hora.

"Só mais um pouco, querida, estamos quase lá", ela barganhava com a vida dentro de si através da mente porque sua voz não tinha mais forças para sair.

A mulher sentiu o vento fresco bater em seu rosto junto o cheiro de umidade.

Olhando para os lados, observou uma árvore enorme se erguendo às margens de um possível lago. Quase como se desesperada pela visão, sua garganta se fechou ainda mais, implorando por água.

Cada contração era pior do que a anterior e a mulher sentiu suas pernas fraquejarem a poucos metros da margem. Se desequilibrando, ela fez o possível para a queda não ser letal.

Ainda assim, pensou que a dor que percorria cada centímetro do seu corpo poderia matá-la.

Se arrastando até o lago, conseguiu limpar as mãos, matar a sede e jogar um pouco de água no rosto.

O alívio foi quase imediato, mas sabia que não duraria muito. Precisava se preparar para o nascimento iminente da criança.

Precisava encontrá-lo.

O fato era que ela sempre foi uma mulher muito objetiva e realista. Era improvável que conseguisse se levantar novamente e andar no mínimo mais um quilômetro e meio até o seu destino antes que criança saísse do seu ventre.

Teria que dar à luz ali. Sozinha.

Era demais.

Parecia que tinha vivido mil vidas, mas tinha apenas 24 anos.

Era jovem demais para tudo aquilo.

De todas as vezes imaginou e sonhou com aquele momento, seu amado estaria do seu lado.

Seus amigos.

Sua nova família.

A única que restava.

E agora estava sozinha. Ela, o entardecer e a criança inocente em sua barriga.

Engolir as lágrimas era como colocar um bolo de massa dura para descer a seco na garganta. Tinha certeza que se começasse a chorar não pararia mais e odiava sentir pena de si mesma.

Sabia que tinha que ser forte pelo bebê.

Com sorte, os Céus mandariam seu amigo em sua direção e tudo ficaria bem no fim.

Naquele momento, o sol fraco e frio se punha no horizonte e a noite começava a encobrir tudo.

Em instantes, toda a floresta viraria um breu e fazer com que a criança nascesse sem nenhum tipo de dificuldade não seria o único desafio dela.

Seria a noite mais longa da estação, afinal.

Ele não sabia porque estava ali.

Já era noite e uma bem fria por sinal. Se não tinha conseguido pegar nada durante a tarde, a noite não traria nenhuma surpresa ou milagre.

Mas ele estava enganado.

Deveria ter percebido algo não-natural quando todo o pensamento de voltar para o casebre onde morava era sobreposto por uma distração sem sentido, como o formato peculiar de uma folha. O cheiro de resina de alguma árvores.

Algo ou alguém queria que ele permanecesse ali.

A questão era: por quê?

Será que tinham o achado depois de tantos anos? O que poderiam querer com ele?

Tudo que tinha já fora tomado.

O que mais poderiam tirar dele?

A sua vida? Ela não valia mais tanto assim para ele, talvez fosse até mais cômodo se simplesmente dessem fim a sua existência vazia.

O cheiro metálico de sangue atingiu o rapaz tão forte que foi como um tapa. Tão forte que ele sabia que só uma grande quantidade causaria aquele odor.

Mas quem ou o que estaria ferido ali?

Não era como se mais alguém se arriscasse entre aquelas árvores além dele e ocasionalmente a visita que recebia de tempos em tempos.

Uma visita que, na verdade, não aparecia há um bom tempo.

Poderia ser ela?

O coração dele acelerou e, em vez de virar e voltar para casa, ele desbravou ainda mais a floresta.

O som de um choro de bebê fez com que o homem se arrepiasse e seus pés trabalhassem mais rápido.

Ao chegar na clareira, a luz do luar incidia sobre a última pessoa que esperava ver ali.

A mulher gemeu algo como:

— Graças a todos os deuses.

Ele paralisou como um animal arredio.

Fazia anos que não a via. A última vez que isso acontecera estava marcado para morrer. Para falar a verdade, não estaria ali se não fosse por ela.

Levou alguns minutos para ele notar o ser que se contorcia nos braços dela, ou o seu vestido ensanguentado.

O rapaz se aproximou com cuidado e se agachou ficando na altura dos olhos da mulher.

Apesar do frio da noite, a testa dela pingava de suor, seu rosto tinha uma coloração pálida comparada ao tom quente de sempre, os lábios estavam secos.

Ela havia dado à luz ali. Sozinha.

Onde estava o...?

— Preciso que...a ajude. — Ela inclinou a cabeça na direção do bebê. — Estamos aqui há algum tempo e...ela precisa... se aquecer.

Ele notou a mão ainda um pouco ensanguentada da mulher e a lâmina com a qual ela devia ter cortado seu vínculo com a criança. Ele só poderia imaginar a dor e o desespero que ela passou sozinha.

Apesar de ter uma feição mais madura do que no último momento em que a vira, ela parecia apenas a mesma garota delicada e ao mesmo tempo decidida que havia crescido com ele.

Agora tão frágil. Tão desesperançada.

O que fizeram com você?

— Evian. — ela chamou sua atenção. — Por favor...não temos muito tempo. Precisa tirá-la daqui.

Sua voz saiu estranha aos próprios ouvidos quando ele disse:

— Estou pensando numa forma de levar vocês duas, sem que você perca mais sangue ou...

Ela balançou a cabeça, quase choramingando, o que fez o neném se agitar de novo:

— Não se preocupe comigo. Ela é...mais importante. Por favor...— A amiga fez uma pausa. — Não quero que veja isso como uma cobrança pelo que aconteceu no passado. Estava feliz em te deixar viver em paz... Mas não tenho outra escolha. Não tem mais ninguém. Ela não tem mais ninguém.

Ele tinha tantas perguntas, mas nenhuma parecia apropriada para aquele momento.

— Justamente pelo que fez por mim, não posso te deixar aqui, querida.

A mulher inclinou a cabeça com um sorriso fraco e tocou o rosto do rapaz com os dedos trêmulos e gelados.

— Você sempre foi um melhor amigo para mim do que eu jamais poderia ser. É por isso que confio a vida dela a você. A única pessoa a quem sou capaz de recorrer. Não é a minha vida que está em perigo. É a dela. Não se preocupe comigo. — ela repetiu.

As frases saíam o mais firme possível, como se convencê-lo fosse uma tarefa para qual ela tivesse se preparado bastante.

Ainda assim parecia errado deixá-la ali. A criança ainda precisaria de uma mãe. Precisaria de alimento. De cuidados que, depois de muito tempo, ele não havia pensado que teria que oferecer um dia.

O casebre mal cabia ele e estava num estado deplorável.

Definitivamente não estava preparado para receber um bebê ainda que por alguns dias.

Ela pareceu ler a hesitação no rosto dele e tirou forças de onde não tinha, a cor voltando minimamente para a sua pele.

— Eu vou ficar bem. Não morrerei hoje, Evian. Não agora. Não aqui. Só preciso que você a coloque em segurança primeiro. — A mulher ponderou um pouco antes de acrescentar: —E então volte para me buscar, está bem?

Tirando a mão do rosto do rapaz, ela estendeu a criança toda embrulhada em pedaços de tecido que havia arrancado do próprio vestido.

Pelo olhar frenético que ela tentava disfarçar, ele percebeu que a amiga não estava apenas fugindo, mas também sendo caçada. Cada minuto parecia que era crucial.

Ele aninhou o pequeno pacote nos braços, impressionado com o calor que a criança havia preservado.

O homem encarou o bebê que suspirou suavemente, ainda com os olhos fechados.

Era a coisa mais preciosa que ele já havia visto.

Tão pequena. Tão indefesa.

— Se eu pudesse escolher uma única pessoa no mundo em quem ela devesse se espelhar, — a mulher começou, encostando a cabeça no tronco às suas costas, a respiração voltando a ficar difícil. Como se a única coisa que estava a mantendo com alguma força fosse a proximidade com o bebê.— Seria você...Agora vá e volte logo.

Ele correu como nunca na sua vida, mas o casebre, que sempre pareceu tão perto, agora parecia estar a mundos de distância.

Depois de acomodar a recém nascida entre diversas peles, acender a lareira e rezar para que ela ficasse bem quietinha, ele voltou a correr de volta para a sua amiga.

A primeira coisa que notou antes mesmo de chegar na clareira foi a ausência.

A ausência do cheiro de sangue.

A ausência dos choramingos abafados.

E então, a ausência dela.

Como se nunca estivesse estado ali.

Por um momento, achou que estivesse alucinando. Procurou por qualquer pista ou evidência de que ela esteve ali ou nos arredores, mas sem sucesso.

A única coisa que havia restado era a menininha dormindo pacificamente na sua sala.

Sua amiga havia conseguido evitar que ele fosse morto muitos anos antes e naquele momento tinha acabado de lhe dar um propósito para ele continuar vivendo nos anos seguintes.

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Notas finais
Oi, oiii, para quem quer que apareça por aqui! Esse é um projeto meu de muitos anos atrás, que eu já reescrevi 2343434 vezes e estou reescrevendo mais uma vez. Depois de dois romances finalizados, achei que dar uma espairecida em outro gênero me ajudaria a combater esse bloqueio criativo que já vai fazer quaser um ano. Pra quem me acompanha há algum tempo (é o momento de vcs huashusa) essa é a nova versão da minha antiga história "Hearts Of Sapphire" os personagens são os mesmos, mas temos algumas alterações nos plots e nos POVs. Como ainda não sei o futuro desse projeto, por enquanto ele vai ficar sem data certa de atualizações, simplesmente aparecerei com um capítulo novo quando tiver rsrsrs, e também não divulgarei, mas sintam-se livres para indicar para os amigos, deixar comentários, votos, favoritar, recomendar e etc... Tenho um carinho muito grande por esse plot e espero que finalmente eu consiga finalizá-lo!! Me sigam nas redes: @whodat_emmz ou @emmieedwards no twitter/x @emmiewrites no instagram Até mais, bjinhos xx)