Notas iniciais
Uma forte represa começa a ruir. A represa de dois corações. Sentimentos represados ha muito tempo começam a esvair-se numa torrente de sentimentos que não podem mais ser contidos.

O sono foi tranquilo e cheio de sonhos doces e suaves. Fazia muito tempo que William não dormia tão bem. Quando deitara, achara que não conseguiria dormir. Mas adormeceu quase instantaneamente. Seu primeiro pensamento foi igual ao último. Beatriz. Que poder tinha essa garota. Seu sorriso parecia música. E nesse instante sentia falta de sua presença. Queria estar perto dela. Conversar com ela. E ... com certeza queria mais do que a companhia e a conversa. Na noite anterior havia se controlado para não tocar seus lábios. Todo o seu alto controle estivera em alerta máximo para não beijá-la. Porque essa era a vontade quando se despediram. Pulou da cama e rumou para o banheiro.

Queria estar pronto antes do meio dia. Depois do chuveiro decidiu ligar pro hospital e se informar de como sua mãe estava. Infelizmente as informações não eram boas. O diagnóstico de traumatismo craniano se confirmou e ela estava na terapia semi-intensiva. Não havia previsão de alta. E isso lhe trazia um problema. Havia vindo pra resolver algumas coisas para a transferência da sua empresa e precisava retornar rápido, porque tinha negócios pendentes que precisavam ser resolvidos. Mas não podia deixar a mãe sozinha e sem assistência. Precisava pensar no que fazer.

Após vestir-se ligou pro seu restaurante favorito e reservou uma mesa pro almoço. Desceu e buscou um café na mercearia da esquina. Como não sabia qual café escolher para Beatriz, perguntou ao atendente se ele a conhecia e se sabia do que ela gostava. Ajudado pelo rapaz pegou um cappuccino e voltou pro prédio. Bateu na porta e aguardou.

Beatriz havia colocado o despertador do celular para despertar lá pelas onze. Queria um tempo pra banho e arrumar o cabelo. Seu sono havia sido muito tranquilo. Embora tenha sido povoado de sonhos. Esses sonhos foram agradáveis e até estimulantes. Estava ansiosa por reencontrar William. Após o banho, vestiu-se com um vestido de veludo carmim e sapatos pretos com saltos confortáveis. Não sabia se teria que ficar em pé ou fora de casa muito tempo. Separou um casaco e terminou de arrumar o cabelo. O dia estava lindo e ensolarado, embora continuasse frio.

Quando pensou em descer a campainha tocou. Na porta um sorriso lindo a esperava com um copo de café em cada mão. Pelo cheirinho identificou seu cappuccino predileto. Como ele conseguiu saber do seu gosto. Ou será que havia pego pra ele. Convidou-o para entrar.

— Pensei que um café faria bem. Como não sabia da sua preferência pedi ajuda do menino da confeitaria. Espero que ele tenha lembrado direito e que eu tenha acertado. Cappuccino sem creme extra e uma pitada de chocolate e canela. Acertei?

— Acertou. É o meu predileto.

— Bom Dia!! – Um sorriso amplo estampava o rosto de William.

— Bom Dia!! Alguma notícia da sua mãe?

— Sim. Infelizmente, nada animadora. Foi confirmado o traumatismo e ela ficará na terapia semi-intensiva. Levaram os equipamentos pro quarto. E assim poderei ficar com ela. Mas agora, estou com uma fome de leão e quero que venha comigo almoçar. Depois iremos ao hospital. Caso alguma coisa mude irão nos avisar.

— Certo. Vou pegar minha bolsa e estarei pronta.

— Está linda! – Beatriz havia se aproximado da porta onde ele estava parado. Olhos nos olhos. E ela resolveu baixa-los e verificar se o que precisava estava na bolsa.

Já no carro William demonstrou sua aflição a respeito dos dias seguintes. Explicou que precisava voltar porque havia deixado algumas coisas importantes pendentes. E embora esses negócios pendentes fossem muito importantes não queria deixar a mãe sozinha. Tinha que começar a trabalhar talvez de casa. Iria pedir que enviassem algumas de suas coisas e ele tinha com ele no computador pessoal o resto de que precisava.

No restaurante comeram com calma. Beatriz contou que por conta da crise, havia sido despedida na contenção de despesas da empresa em que trabalhava. Como era solteira e uma das mais novas, foi a escolhida para ser demitida. Começaria a procurar trabalho na segunda. Não sabia direito onde iria procurar, mas tinha que ir atrás de algo. Tinha economias que poderiam mantê-la durante um tempo, mas não queria ficar sem trabalhar por muito tempo.

Quando estavam terminando a sobremesa, William teve uma ideia.

— Por que você não trabalha comigo um tempo?

— Como? Não entendo nada de software!

— Mas é amiga da minha mãe. Mesmo ficando aqui e trabalhando em casa. Não poderei estar com ela o tempo todo. Seria bom que alguém a acompanhasse. Você poderia fazer isso?

— Claro, mas não sou enfermeira.

— Há enfermeiras suficientes no hospital. Seria apenas para acompanha-la e ela sentir-se bem e amparada por alguém que gosta e tem confiança.

— Como você sabe que ela gosta de mim?

William sorriu de uma forma que derreteu o coração de Beatriz. Seus olhos se encontraram e ela não saberia dizer se entendeu o que viu neles. Sabia que dentro de si havia uma grande confusão de sentimentos e ela nem queria coloca-los em ordem nesse instante.

— Ouvi falar de você com muito carinho da última vez em que vim visitá-la. Não nos conhecemos, porque você estava viajando ou tinha algum compromisso que não permitiu que nos conhecêssemos. Sei que ela gosta e confia em você. Portanto eu também confio. Pode começar na segunda-feira pela manhã? Quem sabe até lá ela já esteja melhor e acordada.

— Não sei se é uma boa ideia. Vou pensar e depois te respondo.

— Está bem. Voltaremos a esse assunto.

Chegaram ao hospital e as informações eram de que o quadro não havia se alterado. Sentaram-se e conversaram durante parte da tarde. Quando o médico apareceu, comunicou-lhes que Isadora ficaria desacordada durante algum tempo ainda, pois isso ajudaria na recuperação e talvez evitasse uma cirurgia, caso o cérebro dela não desinchasse.

Como não havia nada mais a ser feito. William convidou Beatriz para darem uma volta. Foram até o shopping. William achou que seria bom comprar alguns livros para que Beatriz pudesse ler para Isadora.

Foram até a sessão das poesias e depois na seção de clássicos da literatura. William parecia conhecer bem os gostos da mãe. Compras feitas ele quis tomar um café. Dirigiram-se, então para a praça da alimentação.

Ao deslocarem-se para lá as mãos dos dois se esbarraram e William de forma natural segurou a mão de Beatriz. Ela apesar de sentir-se sem jeito manteve sua mão na dele.

Após o café. Ainda era cedo e da onde estavam podiam visualizar a entrada do cinema. William perguntou se ela gostaria de acompanha-lo. Entraram e acomodaram-se. O filme era uma comédia romântica muito divertida. Lá pelo meio do filme William passou seu braço pelos ombros de Beatriz. Tudo parecia tão natural como se sempre houvesse sido daquela forma.

Na saída do cinema os dois saíram de mãos dadas e seguiram para o carro. William não queria voltar pra casa. Queria prolongar aquele momento. Dentro do carro olhou profundamente nos olhos dela.

— Não sei o porquê, mas sua presença, a sua companhia me faz um bem enorme. Agrada-me poder conversar contigo. Ouvir sua voz...

Enquanto falava segurou as mãos de Beatriz e olhou em seus olhos. Sua cabeça aos poucos se aproximou da dela. E a teria beijado se não fosse o menino que bateu no vidro do carro. O momento mágico havia se quebrado, mas retornariam a ele mais tarde.

Notas finais
Quão terno e avassalador uma torrente de sentimentos, sempre represados, pode ser quando rompe as barreiras que as limita.