Narrado por Renesmee


Desci as escadas do prédio e vi Antony encostado em um Volvo prata impecável. Estava recostado com os braços cruzados, usando uma jaqueta preta, com aquele jeito despreocupado que ele sempre fazia parecer natural. Quando me aproximei, ele abriu um sorriso.

— Belo carro — elogiei, enquanto abria a porta do passageiro.

— Você tem bom gosto — ele piscou. — Era do meu avô. Restaurei com minhas próprias mãos.

— Claro que era — brinquei, me acomodando no banco. — Agora tudo faz sentido.

— Pronta pra ver arte como se tivéssemos 80 anos?

— Com você, até parece que tenho metade disso. — Coloquei o cinto e ele riu.

Seguimos pelas ruas de Seattle até o Seattle Art Museum, um prédio imponente com uma escultura metálica gigante logo na entrada. Era uma exposição temporária de arte impressionista contemporânea — coisa de gente culta, ou pelo menos de quem queria parecer.

Caminhávamos lado a lado pelos corredores com paredes brancas e iluminação suave, observando quadros que misturavam luz, sombra e um caos de emoções. Antony fazia comentários sarcásticos sobre algumas obras que claramente ele não entendia, e eu ria com sinceridade. Estar ali, distraída, me fazia bem.

Até que meu celular vibrou no bolso.

Peguei e olhei a tela. Leah.

— Com licença — falei, mostrando a tela para Antony. — Prima. É importante.

Ele assentiu e se afastou discretamente para ver uma instalação de esculturas flutuantes.

Afastei-me um pouco e atendi, sorrindo.

— Oi, Leah! — atendi com alegria, já esperando alguma piadinha ou provocação carinhosa da prima.

Mas o silêncio do outro lado me alertou. O tom da voz de Leah era diferente, abafado por algo que parecia tristeza.

— Nessie… é o meu pai. O Harry… ele não está bem.

Senti o coração disparar.

— Como assim não está bem? O que aconteceu?

Ele foi hospitalizado hoje cedo. Está no clínico de Forks. Os médicos estão observando, mas… ele tem chamado por você. Quase toda hora. — A voz de Leah fraquejou, e eu senti a dor dela atravessar o telefone como uma corrente elétrica.

Olhei ao redor, o barulho das pessoas e da arte se tornando uma névoa distante.

— Eu vou pra aí amanhã. Sem falta. — minha voz saiu mais firme do que eu imaginava. — Diz pra ele que estou indo. Que ele me espere.

— Tá bom… obrigada, Nessie. Ele vai ficar tão feliz.

Desliguei devagar, ainda com o celular preso entre os dedos. Quando voltei para junto de Antony, ele percebeu meu semblante alterado.

— Aconteceu alguma coisa?

Assenti, apertando os lábios.

— Um parente meu está hospitalizado. Vou precisar viajar amanhã pra La Push.

Antony pareceu mudar de expressão mas respeitou meu silêncio. Apenas assentiu e disse com calma:

— Espero que ele fique bem, Renesmee.

Olhei para o céu acima do prédio da galeria e senti o aperto no peito crescer. Precisava estar lá. Precisava ver meu tio Harry.


O carro de Antony estacionou diante do meu prédio com suavidade. A cidade já começava a vestir o manto dourado do fim de tarde, e eu sentia o coração mais apertado a cada minuto.

— Então… você tem parentes em La Push? — ele perguntou, com curiosidade discreta enquanto colocava o câmbio em ponto morto.

Suspirei, voltando o olhar para ele.

— Só um. O único que realmente me restou por lá. — dei um pequeno sorriso melancólico. — É o pai da minha prima Leah. Ele sempre foi muito carinhoso comigo.

Antony assentiu, compreensivo.

— Bom… espero que ele fique bem. E... obrigado por ter vindo hoje. Mesmo com tudo isso. — ele deu um meio sorriso. — Posso marcar outro encontro quando você voltar? Só como amigos, é claro.

Sorri de volta, sentindo que, apesar de tudo, a tarde tinha valido a pena.

— Claro, Antony. Eu adoraria.

Ele esperou que eu saísse do carro, e eu o agradeci novamente antes de seguir para a portaria. Um aceno silencioso antes de ele partir, e então entrei no prédio.

O apartamento estava calmo como sempre. Salém, meu gato preto preguiçoso, se espreguiçava no encosto do sofá, como se soubesse que algo estava fora do normal.

— Oi, meu amor — murmurei, pegando-o no colo assim que entrei. Seu miado baixo foi reconfortante.

Sentei no sofá com ele aninhado nos braços e olhei ao redor do meu lar silencioso.

— Vamos preparar as malas, Salém… — falei baixinho, passando a mão em sua cabeça felpuda. — A gente vai viajar. O vovô Harry precisa de mim.

Ele ronronou, como se aprovasse a ideia.

E eu… eu sabia que estava voltando para onde, de certa forma, tudo começou.


Narrado por Jacob


A brisa cortava a floresta com um cheiro antigo, familiar… e perigoso.

Meu celular vibrou no bolso da calça jeans enquanto eu terminava de revisar relatórios da Black Motors. Quando vi o nome de Sam na tela, soube que não era uma ligação qualquer.

— Preciso de você nos limites do território. Agora. — a voz dele era firme, sem espaço pra perguntas.

Desliguei sem responder, meu coração acelerando. Já fazia tempo que a floresta não chamava dessa forma. Corri porta afora, tirando a camiseta no caminho, e no instante seguinte minhas patas tocaram a terra úmida da trilha. Senti meus ossos se remodelarem, músculos se esticando enquanto a forma humana dava lugar ao lobo.

A conexão com a mente da matilha veio como um raio. Sam estava à frente, seu pensamento era direto — "Eles estão de volta. Os Cullen."

Senti um arrepio percorrer meu lombo. Uma onda de confusão tomou conta da mente coletiva. Quil, Embry, Paul, Jared, todos falavam ao mesmo tempo.

— Por que agora?

— Depois de tantos anos?

— O que eles querem?

Minhas patas firmaram-se no solo enquanto atravessava a floresta com velocidade. A paisagem voava ao meu redor, mas tudo o que eu conseguia sentir era a tensão crescente.

Finalmente, alcancei os limites do território. A linha sutil que dividia La Push das terras que um dia foram amaldiçoadas por sangue frio.

A matilha já estava formada em um semicírculo, e todos pararam ao me ver. Me posicionei ao lado de Sam. Do outro lado da linha, os Cullen.

Carlisle foi o primeiro a dar um passo à frente. Ergueu as mãos em sinal de paz.

— Não viemos causar problemas — disse com aquela voz calma de sempre. — Só queremos conversar.

Meus músculos latejavam. Me obriguei a respirar fundo e, com esforço, permiti que meu corpo voltasse à forma humana. O ar ficou frio em contato com a pele nua, mas isso não importava.

Me aproximei da linha, os olhos fixos naquele rosto pálido e familiar que surgia atrás de Carlisle. Os cabelos de bronze, os olhos dourados. Edward.

— O que vocês querem… sanguessugas? — rosnei, deixando claro que aquele não era um reencontro amigável.

O silêncio que se seguiu era denso como névoa. As palavras viriam. Mas o tempo da paz... talvez não tivesse voltado com eles.


— Então… resolveram voltar — falei, cruzando os braços, ainda despido após assumir minha forma humana. A brisa cortante não me incomodava, mas o cheiro adocicado dos Cullen sim. Principalmente o dele. — O que vocês querem, sanguessugas?

Edward deu um passo à frente, o rosto impassível, mas os olhos ainda carregavam o mesmo peso de antes.

— Estamos monitorando a atividade de Victoria — disse ele.

Ri com escárnio, sacudindo a cabeça. Típico.

— Ah, claro… a vampira que vocês deixaram para trás quando resolveram fugir e deixar a Bella totalmente desprotegida. Essa mesmo?

Edward apertou o maxilar.

— Eu não pude leva-la comigo. Era a única forma de mantê-la viva.

— Viva? — repeti com sarcasmo. — Essa não é a proteção que a Bella precisava. E você sabe disso.

— Eu fiz o certo, Jacob — ele rebateu, com mais firmeza. — E devia estar feliz com isso… afinal, vocês vão se casar, não é?

Minha mandíbula travou. O peito subiu num impulso cheio de raiva e orgulho ferido.

Antes que eu pudesse responder, Carlisle se adiantou.

— Chega. Isso não é sobre o passado. Não percam o foco.

Edward hesitou, mas recuou um passo.

Carlisle continuou:

— Victoria ainda não atacou porque sabe que sozinha não tem chances.

Franzi o cenho.

— E o que você quer dizer com isso, Carlisle?

O patriarca dos Cullen encarou cada um de nós por um instante. Seu olhar parou em mim, firme.

— Ela está criando um exército, Jacob. De recém-criados. E eles não estão longe.