Coração de loba
24 O retorno
Narrado por Renesmee
O barulho dos alto-falantes do aeroporto se misturava ao som ritmado das rodas da minha mala deslizando pelo piso. A cada passo que eu dava pelo setor de desembarque, meu coração batia mais forte. Não era apenas pela viagem ou pela ansiedade de rever rostos familiares… era pela lembrança cravada naquele mesmo corredor, anos atrás.
Meus olhos passearam pelo local, absorvendo cada detalhe como se fosse a primeira vez. Mas não era. Eu conhecia aquele chão, aquele cheiro, aquele céu cinzento que espiava pelas janelas de vidro.
Lembrei do dia em que fui embora.
Da forma como chorei em silêncio dentro do avião.
Do aperto no peito.
Do vazio no lugar onde antes batia o coração de uma garota inteira.
Parei por um segundo, engolindo a emoção que ameaçava transbordar.
— É passado, Renesmee… — murmurei para mim mesma, respirando fundo. — Já passou.
Sorri. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
E então a vi.
Leah estava ali, como prometido. Encolhida no casaco grosso, com os braços cruzados e aquele olhar sério que só ela conseguia carregar, mesmo com os olhos marejados.
Quando nossos olhares se encontraram, ela descruzou os braços e correu até mim. Não houve palavras, nem hesitação. Simplesmente nos abraçamos forte. Tão forte que por um momento eu esqueci o motivo de ter partido.
— Senti tanto a sua falta — sussurrou ela, apertando meu ombro.
— Eu também, Lee. Mais do que posso dizer.
E ali, nos braços da minha velha amiga, La Push começou a parecer voltar para casa de novo.
Narrado por Renesmee
A estrada para La Push se estendia diante de nós como uma cicatriz antiga que o tempo não conseguia apagar. As árvores altas margeavam o caminho e, por um momento, me senti com dezessete anos de novo — voltando para casa depois de uma tarde de surfe, com os cabelos molhados e o coração leve. Mas agora o silêncio no carro pesava, como se cada quilômetro rodado carregasse mais do que lembranças… carregasse segredos.
— O primeiro ano foi... intenso — comentei, tentando aliviar o clima. — A faculdade é outro mundo. Fiz novos amigos, gente de todos os cantos. Me envolvi em alguns projetos, até pensei em mudar de área, acredita?
Leah sorriu de leve, mantendo os olhos na estrada.
— Isso é bom. Você sempre foi brilhante, Ness.
— Tive que aprender a me virar sozinha. Foi difícil no começo, mas agora acho que me encontrei. — Suspirei. — Ainda é estranho dormir longe do som do mar.
Ela assentiu, mas continuava calada demais. Conhecia Leah o suficiente pra saber que aquilo não era só cansaço.
— Leah… — comecei, virando um pouco o corpo em sua direção — tem alguma coisa que você quer me dizer?
Seus dedos apertaram o volante com mais força. Seus olhos, ainda fixos na estrada, desviaram por um segundo.
— Não é sobre o Harry, né? — perguntei, sentindo meu estômago revirar. — Por favor, me diz que ele está bem.
— Não, não é sobre o meu pai — ela respondeu rápido, como quem quer tirar um peso antes que o outro desabe. — É sobre o Jacob.
— Eu não quero saber — cortei de imediato, sentindo o peito fechar.
— Nessie… — Leah falou com calma, mas firmeza. — Você pode não querer, mas precisa saber.
Apenas fechei os olhos por um momento. O nome dele ainda tinha o poder de me atravessar como lâmina.
— Vai doer mais descobrir por outra pessoa — continuou ela. — Eles vão se casar. O Jacob e a Bella. O casamento é em algumas semanas.
Eu não consegui responder de imediato. Só senti o ar rarefeito dentro do carro, como se todas as árvores lá fora estivessem me observando em silêncio.
— Que bom pra eles— murmurei, tentando conter a avalanche que vinha de dentro.
Mas por dentro… meu mundo tremia de novo.
O carro parou diante da velha casa dos Clearwater, e por um instante senti o peito aquecer com a lembrança de tantas tardes passadas ali, entre risos, bolinhos de milho e o cheiro sempre presente de chá de camomila. Leah desligou o motor em silêncio. Eu não disse nada, apenas empurrei a porta e deixei o ar de La Push me envolver como um cobertor velho e familiar.
Antes mesmo de alcançar a varanda, a porta se abriu.
— Renesmee! — Sue exclamou com os braços já abertos.
Sorri antes de me jogar no abraço dela.
— Tia Sue… que saudade.
Ela me apertou forte, como se quisesse colar todos os pedaços que o tempo tivesse quebrado.
— Olha só pra você, tão crescida, tão linda… Minha nossa, como o tempo voa. — Seus olhos marejados me fizeram engolir o nó que ameaçava subir.
— Eu senti sua falta — sussurrei, ainda em seus braços.
— E eu a sua, querida. — Ela se afastou para me olhar bem. — Entra, vem. Harry vai ficar tão feliz em te ver…
— Eu mal vejo a hora de ver meu tio — falei, sincera.
Antes que eu pudesse subir os degraus da varanda, ouvi passos apressados e, então, braços me envolveram com força.
— Nessie! — era Seth. Ele me girou no ar como fazia quando éramos crianças, e eu ri.
— Seth! Você tá enorme!
— Fiz dezessete — respondeu com um sorriso cheio de orgulho. — E tô mais forte que o Jacob, só pra constar!
Soltei uma gargalhada e balancei a cabeça.
— Você continua competitivo, pelo visto.
— Sempre, ué! — Ele olhou para o carro e viu Salem. — Ei, vem cá, amigão! — Estalou os dedos, e Salem correu para ele, pulando animado. — Eu senti falta desse carinha.
— Ele vai adorar te ter por perto — falei, observando os dois entrarem.
Suspirei. Permaneci um instante na varanda, sentindo o vento acariciar meu rosto. As palavras de Leah ainda ecoavam na minha mente. "Eles vão se casar. O Jacob e a Bella."
Respirei fundo.
Mas não. Eu não ia pensar nisso agora.
Essa era minha casa também. Era meu tempo. Eu tinha escolhido não sangrar mais por quem não quis ficar. E, dessa vez, eu manteria essa promessa a mim mesma.
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Narrado por Renesmee
O hospital tinha aquele cheiro característico de antisséptico misturado com café requentado. Os corredores eram claros, silenciosos demais, como se o tempo ali dentro se movesse mais devagar. Leah me guiou até o quarto onde Harry estava internado, mas parou antes da porta.
— Vai sozinha. Ele vai gostar de ver você — disse, tocando de leve no meu ombro.
Assenti, respirando fundo antes de entrar.
O quarto era simples, com uma janela que dava vista para o mar distante. Ali, deitado, com fios ligados ao braço e um cobertor xadrez até a cintura, estava o velho Harry Clearwater. Seus olhos se abriram no instante em que me viu.
— Renesmee? — Sua voz saiu rouca, mas cheia de surpresa. — Minha menininha está aqui mesmo?
— Oi, tio — sorri, me aproximando com passos leves. — Eu voltei.
— Minha nossa... Olha só pra você. — Ele tentou se sentar, e fui até ele, ajudando com cuidado. — Você tá tão linda… igualzinha à sua mãe, mas com o olhar do pai.
Sentei-me na beira da cama, segurando sua mão.
— E o senhor continua com esse charme todo, hein?
Ele riu, aquela risada abafada de quem já passou por muita coisa, mas ainda encontra alegria nos pequenos momentos.
— Você não imagina o quanto isso aqui me alegra. Eu sonhei muitas vezes com esse momento. Te ver de novo. Te ver bem.
— Eu tô aqui agora, e prometo vir sempre — falei, apertando sua mão com carinho. — A Leah tá cuidando bem de mim. E o Seth… nem se fala.
— A família toda sentiu sua falta. Eu sabia que você ia voltar um dia. Você é sangue dos nossos. Sempre será.
Ficamos conversando por mais alguns minutos, até os olhos dele começarem a pesar. Me levantei devagar e ajeitei o cobertor sobre ele.
— Descanse, tio. Eu volto amanhã, tá?
Ele assentiu, os olhos ainda fixos em mim enquanto eu saía do quarto com o coração quente de afeto.
Mas assim que cheguei à recepção, meus passos vacilaram por um instante.
Lá estava ele.
Billy Black. Sentado em sua cadeira de rodas, os olhos escuros fixos em mim com a mesma intensidade que eu lembrava da infância. Por um segundo, pensei em virar e voltar, mas respirei fundo.
— Olá, Sr. Black — disse, com educação. — É… bom vê-lo.
Ele sorriu de leve, mas seus olhos não escondiam surpresa nem algo mais profundo — culpa, talvez?
— Renesmee — falou meu nome como quem saboreia algo esquecido. — Você cresceu.
— Cresci. — Assenti, mantendo o tom neutro. — Eu preciso ir agora, mas… volto amanhã para visitar o Harry.
Ele fez um gesto leve com a cabeça.
— Ele vai gostar disso.
Assenti novamente, sem estender a conversa, e segui em direção à saída. O sol da tarde estava mais fraco agora, escondido entre nuvens, e o vento trazia o cheiro do mar.
Narrado por Jacob
Estava no hospital esperando por meu pai. Os minutos passavam devagar demais, como se soubessem que minha mente já não andava tranquila. Desde a reunião com os Cullen, algo em mim estava inquieto… e piorou quando vi Sue se aproximando, empurrando a cadeira de rodas de Billy.
Ela parou diante de mim com um sorriso breve.
— Jacob. — disse, educada.
— Sue. — respondi, devolvendo o gesto. Havia um passado ali, mas nós dois sabíamos que ele já não importava.
Me aproximei do meu pai e o ajudei a se levantar, apoiando-o para que entrasse com cuidado na caminhonete. Assim que ele se acomodou, dei a volta e entrei pela porta do motorista. Estava prestes a dar partida quando ouvi sua voz.
— Renesmee esteve aqui hoje.
Parei com a chave ainda na ignição. Meus olhos se voltaram lentamente para ele.
— O quê? — minha voz saiu baixa, abafada pelo turbilhão de lembranças que vieram como um soco.
— Ela veio visitar o Harry. Vi quando saiu. Disse que voltaria amanhã. — completou ele, observando minha reação com atenção. Como se esperasse que eu fosse explodir… ou desabar.
A verdade? Eu não sabia o que sentir. Uma parte de mim congelou. A outra queimava. Renesmee… de volta. A garota que me amou .A mesma que eu feri profundamente.
Engoli seco e encostei a cabeça no encosto do banco por um segundo.
— Está mesmo de volta... — murmurei para mim mesmo.
— E agora, filho? — Billy perguntou em voz baixa.
Suspirei, liguei o motor e fixei os olhos na estrada à frente.
— Agora... agora eu tenho que encarar o que deixei pra trás.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não fazia ideia de como consertar o que foi quebrado.
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