Coração Dividido
4 Capitulo 4
Notas iniciais
Vários meses se passaram depois da tortura do conselho dos magos negros, e Rowin ainda estava em paz, mas não por muito tempo. O elfo do conselho dos magos negros era um cidadão comum no reino de Álfheim que espionava todos os passos do rei, a procura de alguma informação que fosse a certeira que eles buscavam.
Mais um dia de sol, mais treinamento para Radathra e seus dois irmãos. Os sete arcos dourados estavam a postos na arena do reino, observando a disputa entre os três irmãos, para avaliar o progresso de cada um colocando-os contra o outro.
A bela princesa escarlate estava na arena, encarando seu oponente. Seu irmão mais velho Órion que era muito maior e mais forte do que ela que a encarava sem nenhuma emoção no rosto, exceto talvez, um pouco de raiva em seus olhos verdes esmeraldas.
A jovem princesa deu inicio a luta, partindo para o ataque. Começou uma sequencia de tiros com o arco, dando cambalhotas no ar e girando, ao mesmo tempo em que atirava as flechas uma atrás da outras pelos vários ângulos que o seu giro no ar proporcionava na direção do oponente a sua frente. O elfo irmão da princesa, simplesmente bloqueou as flechas atirando no mesmo ângulo outras flechas que esmagaram todas as que iam a sua direção sem precisar sair ao menos do lugar. Radathra não tinha muitas esperanças mesmo em vencê-lo atirando. Apesar de sua mira ser quase imbatível, seu irmão era um pouco superior nisso, por já possuir experiência em batalha e conseguir adivinhar qual seria seu próximo golpe.
Por esse motivo, ela colocou seu arco rubro em suas costas, e sacou uma espada longa da bainha que estava em suas costas. A lâmina era fina de um aço duro como o minério de orichalco do povo do mar, comprida com uma bainha lisa. A lâmina toda vez que pressentia uma luta, brilhava em vermelho em ressonância com o espirito de luta da mestra que a empunhava. Algumas palavras élficas antigas de poder estava gravada na espada, enquanto Radathra assumia sua postura.
Igualmente, Órion também recolheu seu arco colocando-o as costas, e sacou sua espada.
Diferentemente de sua irmã, a espada dele era meio larga, feita do mesmo material que a dela, e tinha um leve brilho verde que ressonava com o espirito de batalha de seu mestre que fazia seus olhos de esmeralda brilhar como uma estrela quando estava pronto para a batalha. Por um segundo nada se movia. Ambos os irmãos se encaravam absorvendo todo o ambiente ao redor, e analisando o melhor momento para iniciarem o ataque. Ambos respiraram profundamente, apertaram as espadas e partiram num súbito em direção ao outro respectivamente. Todos os elfos tinha seus sentidos muito elevados se comparado com as outras raças do continente e talvez até do mar. Ambos lutavam numa velocidade inumanamente veloz, com suas espadas quase invisíveis. Somente poderia distinguir, por causa do brilho das espadas de cada um: uma verde e a outra vermelha. Para um elfo destreinado, não iria conseguir nem ao menos perceber o rastro dos lutadores. Mas os sete mestres do ar, eram velhos generais de guerra e assistiam a disputa concentrados avaliando todos os pontos de habilidades de seus dois discípulos atentamente, procurando melhoras e pioras em ambos.
Melan o senhor do céu, e líder dos sete, observava que a princesa tinha uma leve vantagem sobre o irmão por ser menor, fazendo com que fosse mais veloz. Contudo, ela ainda era fraca quando a disputa passava para força, onde Órion com os braços enormes e poderosos a subjugava um pouco mais rápido. Pouco a pouco a velocidade de ambos caía com o cansaço tomando lugar em seus corpos exaustos. Num milésimo de segundo, Melan percebeu que chegara a hora da decisão. Ambos os irmãos estavam ofegantes, e só tinha força pra mais um único movimento. Com um rápido movimento de espadas, o combate cessou. Os sete mestres se aproximaram dos herdeiros do rei e deram o veredicto.
– A vitória desta vez, pertence à Radathra. Olhe para o seu braço Órion. – disse um dos sete mestres quando tinha percebido a cara de indignação do garoto. Órion olhou para onde apontaram, e chocou-se ao ver um grande corte superficial onde a espada de sua irmã tinha acertado naquele último segundo. Olhou para ela, e notou que além dos arranhões, ele não tinha conseguido acertá-la nenhuma vez.
Gritando de frustação, num gesto impensado pela raiva, e pegando-a desprevenida, num golpe rápido atingiu o braço dela com a espada lhe tirando um grito de dor na face em choque ao olhar para o irmão. Em seguida, com os olhos se enchendo de lágrimas de dor e fúria, ela sacou novamente sua espada com o braço bom, e partiu para cima dele que também ia à direção dela como resposta.
Antes que ambos se matassem, o rei que estava sentado olhando gritou em alto e bom som aos quatro cantos da arena com sua voz magicamente amplificada.
– JÁ CHEGA! OS DOIS PAREM IMEDIATAMENTE COM ESSE ATO COVARDE E RIDICULO! – gritou Theraradel conseguindo interromper seus filhos, fazendo-os largar as espadas e taparem os ouvidos.
Descendo das arquibancadas, o rei dirigiu-se até ambos e os derrubou no chão os imobilizando com a cara enterrada na pedra quente da arena, enquanto lutava para mantê-los ali presos, enquanto se debatiam para tentar esmagar um ao outro.
– Melan? Uma ajuda aqui, por favor? – ordenou Theraradel para seu braço direito que revirou os olhos, e com um estalar de dedos, fez com que correntes surgisse da terra, e aprisionassem os dois com algemas que não poderiam ser quebradas por ninguém exceto os mestres e o rei.
– Órion, porque você atacou sua irmã depois que a disputa tinha acabado? – perguntou Theraradel com a voz fria que não era a voz paterna que ambos estavam acostumados, e sim a voz de seu rei que exalava autoridade e poder.
– Não sei meu pai. Raiva talvez. Que essa aí tenha se atrevido a me arranhar. – disse Órion com uma voz cheia de amargura.
– Essa aí, uma ova seu desgraçado. Eu sou sua irmã. Esqueceu-se disso seu demente? – gritou Radathra entre lágrimas.
– Não se atreva a falar comigo assim, sua... – disse Órion antes de ser acertado por um tapa de seu pai.
– Já basta. Parem os dois. Não me ouviram? – disse Theraradel olhando firme para a face de ambos que emanavam raiva e desgosto.
– Chega disso. Se não querem me obedecer, irão os dois para a prisão até esfriarem a cabeça. Arco dourados, leve-os. – disse o rei desaparecendo depois de emitir uma forte luz dourada.
– Ai, ai sempre é isso. Vamos lá garotos. – disse Melan enquanto em conjunto com os outros seis, tele portaram os irmãos para a prisão com celas vizinhas.
Radathra e Órion cobriram os olhos quando os mestres do ar começaram a reluzir como o sol, e quando abriram perceberam que estavam em suas velhas celas que ocupavam quando acontecia o mesmo na infância. Só que dessa vez, não tinha sido a raiva infantil de sempre, e sim uma sede de sangue verdadeira. Ao perceber isso, Radathra começou a chorar, enquanto soluçava baixinho.
Órion estava na cela ao lado, ouvindo sua irmã chorar, e sentindo um remorso pelo que fizera. Ele não queria ferir sua irmã, e nem dizer tudo o que disse a ela. Mas ele sentia ciúme quando recentemente soube que a irmã estava aprovada no treinamento de todos os mestres do ar, enquanto ele ainda precisava da aprovação de seu segundo mestre Melan. Ele não podia aceitar que sua irmã, uma mera fêmea, pudesse ser mais poderosa e talentosa do que ele o herdeiro do reino ao trono. Ele era egoísta, e orgulhoso o que fazia com que muitas vezes magoasse muito aqueles que ele tinha afeto. Incluindo sua irmãzinha de cabelo vermelho e seu irmãozinho caçula. Ele tinha segurado ambos no colo ao nascerem, e passou a cuidar deles por muito tempo quando o pai estava ocupado com o reino. Ele não podia mais descontar sua frustação por sua falta de talento comparado com a irmã. Ele ouvia seu choro triste e desolado com soluços de dar dó, e sentiu culpa pelo que fez.
– Rada? – chamou Órion gentilmente.
– O que é? – perguntou Rada ainda fungando.
– Me desculpe pelo que eu fiz. – disse Órion sinceramente.
– Por quê? – disse Rada com uma voz estridente.
– Por que o que? – disse Órion tentando despistar sua pergunta.
– Você sabe muito bem o que. Por que você não gosta de mim, Ori? Eu lhe fiz alguma coisa ruim? – perguntou Rada em voz baixa que transmitia sua imensa tristeza.
– Não, eu amo você Rada, e a nosso irmãozinho Liadrel. Eu apenas estava com inveja tá? Por você ser mais poderosa do que eu. – disse Órion com um suspiro cansado.
– Do que você está falando Ori? Eu não sou mais talentosa do que você. Na verdade você é melhor do que jamais serei. Sabe por que eu consegui te atingir? – perguntou Rada olhando diretamente para o irmão pelas grades da cela que balançou a cabeça.
– Porque ao contrário de você, eu estava seriamente naquela disputa. Sabe, eu sempre admirei você meu irmão. Todas as vezes que você nos levava para caçar, eu achava e ainda acho incrível sua beleza e sua força todas às vezes. Incluindo nas vezes que nós caíamos e nos feríamos, nas vezes que você se colocava a nossa frente para nos proteger de monstros. Eu quando agarrava seu braço me sentia segura sob sua asa. Eu sempre amei muito você Ori, e decidi que um dia seria tão forte quanto você, para que assim você não precisasse se arriscar tanto nos protegendo sozinhos. Liadrel e eu resolvemos então, pedir aos arcos dourados que nos aceitassem como discípulos, para que pudéssemos treinar. E a cada treino, eu somente pensava em como queria ser capaz de proteger você, assim como fez conosco. Eu só queria que você me reconhecesse como uma forte aliada que você poderia contar quando precisasse. Eu não pensei que isso faria que você passasse a ter raiva de mim. – terminou Radathra com lágrimas caindo pelo desabafo.
Órion estava sem palavras para a confissão de sua irmã. Ela mesma tendo o superado há muito tempo, tinha feito tudo aquilo por ele. Simplesmente porque ela queria demonstrar de alguma forma seu amor por ele, e queria que ele a reconhecesse como alguém que poderia protegê-lo. Ele ficou tocado pelo imenso amor que seus irmãozinhos nutriam por ele, e sentiu-se um idiota.
Aproximou-se da grade, e com um feitiço fez com que as barras desaparecessem. Sentou em frente a ela, e a puxou para seus braços, lembrando-se de quando a tinha pego no colo ainda bebê.
– Ori? – disse Rada aninhada nos braços fortes de seu irmão.
– Hm? – disse Órion alisando sua cabeça e seus belos cabelos vermelhos como sangue.
– Você ainda me odeia? – perguntou Rada.
– Não, não odeio. Sinto-me um idiota por ter machucado minha princesinha escarlate. Perdoe seu irmão idiota. – disse Órion dando um beijo em sua cabeça, e soltando-a.
Ela virou-se para encará-lo com um sorriso.
– Que bom. E não se preocupe que eu sempre soube que você era idiota, e já me acostumei com isso. – disse Rada com um sorriso provocador, fazendo seu irmão dar um sorriso zombeteiro.
– Ainda bem que você sabe não é pimentão? – disse Órion rindo.
– Não me chame disso seu... – disse Rada pulando rapidamente em suas costas, e bagunçando seu cabelo loiro sedoso também rindo.
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