Coração De Neve
10 Capítulo 10 - Quione
Notas iniciais
O Dia amanheceu rapidamente e logo os poucos raios de sol que conseguiam transpassar a copa das árvores estavam a nos acordar. Ajeitamos nossas roupas que estavam cheias de gravetos, permanecendo em silêncio por bastante tempo. Achei que ela tivesse levado o beijo na brincadeira, mas creio que algo está a incomodando. Não temos para onde ir e não possuímos nenhum pertence e isso inclui celulares. Começamos a caminhar ainda sem direção, tentando pelo menos sair do bosque e começo a sorrir sem motivos.
- Se você estiver pensando em me beijar de novo... — Chris quebrou o silêncio. — Juro que vou bater mais forte desta vez.
Ela empurrou meu ombro e juntos sorrimos. Vi que os olhos dela desviaram para o outro lado do bosque e a acompanhei para então descobrir o que ela tinha visto. Havia um pequeno riacho e senti um alívio. De repente uma sede repentina possuiu o meu corpo, como se eu não ingerisse água há dias. Acho que os últimos acontecimentos me fizeram esquecer as minhas necessidades hídricas. Aproximamos-nos e me abaixo para poder beber um pouco de água, quando vejo um arco-íris se formar, através de um raio de sol que toca a água. Lembro de como isso aconteceu lá no Chalé 3, quando meu pai tentou me avisar dos perigos que eu estava correndo.
- Chris. – tentei atrair sua atenção para mim e a interrompi enquanto ela estava matando sua sede. – Você sabe fazer aquela projeção de mensagem?
- Sei não. – ela respondeu um pouco incerta. – Dianna não chegou a me...
- Dianna isso, Dianna aquilo. – a interrompi. – Isso está ficando muito repetitivo.
Ela pegou uma pedra de dentro do riacho e ameaçou atirar em mim. Para sua surpresa eu sacudi a água na sua direção e molhei todo seu rosto e parte do seu cabelo. Ela se enfureceu e entrou na brincadeira. Começamos a jogar água um no outro e ela parou quando se deu conta que eu não estava nem um pouco molhado e apontou para mim. Quando eu vi que eu estava completamente enxuto, faço uma careta pra ela e ameaço jogar mais água, quando de repente uma projeção se forma entre nós dois.
- MERLIN. – eu grito ao ver que era o filho de Atena. – Você vai salvar nossas vidas.
- Eu sei que você não vive sem mim. – ele se gabou.
- Seu nome mudou para oxigênio? – questionei bem sério. – Eu não sabia.
Chris me jogou mais água por causa do meu trocadilho idiota e o Merlin não se conteve e começou a sorrir. Pedi sua ajuda, pois precisávamos saber onde estávamos e como voltar ao Acampamento. Ele tratou de nos colocar em dia quanto aos últimos acontecimentos. Logo após a nossa fuga, no qual ele ficou para trás propositalmente para ajudar na defesa do acampamento contra as criaturas de gelo, a nevasca desapareceu. Parece que tantos as criaturas, quanto à neve estavam apenas interessadas em mim. Assim como disse o pégaso cor de mel. Eles tiveram que ajudar os feridos e reconstruir alguns chalés que foram atacados, inclusive o meu.
- Uma mensagem foi deixada para você. – ele continuou nos informando. – Uma neve tão fria que queimou parte da grama da colina do Acampamento e formou uma frase.
- E o que dizia a mensagem? – eu o questionei. – Beijo, me liga?
- “ Não adianta fugir, nós iremos nos encontrar.” – ele fez questão até de mudar o tom de sua voz. – Somente isso.
- Acho que você tem um admirador secreto. – Chris falou e eu joguei mais água nela.
- Admirador? – Merlin parecia bem interessado nessa bobagem. – Mais um?
- O que você quer dizer com “mais um”? – perguntei, porém fiquei sem resposta.
A mensagem de íris se desfez e logo estávamos somente Chris e eu, novamente. Decidimos então continuar andando. Tentávamos usar o sol para nos guiar e logo o cansaço começou a bater. Uma animação nos preencheu quando pudemos ver que as árvores estavam acabando. Logo dava para ver um vasto campo ao longe, o que significava o fim do bosque. Começamos a correr, ignorando a reclamação de nossas pernas pelo cansaço físico. Quando alcançamos a luz, contemplamos um imenso campo com milhares de flores. Uma brisa suave saia arrastando as pétalas soltas e muitas vieram parar em nossos pés. Ao longe, onde existia uma imensa árvore sozinha, existia a imagem de uma mulher de pé. Ela estava usando um imenso casaco de pele branca, tão branca que chegava a brilhar quando a luz a tocava. Seu cabelo era longo e bem claro e voava com o vento. A suave brisa começou a esfriar e uma vontade imensa de me aproximar me preencheu. Comecei então a caminhar em sua direção.
- O que você pensa que está fazendo? – Chris protestou.
Não respondi. Continuei andando e quanto mais eu me aproximava, mais eu tinha a sensação que conhecia esta mulher. Quando estava perto o suficiente e quase debaixo das sombras projetada pela grande árvore, eu a reconheci. Seu sorriso e sua aura eram frios. Ela emanava poder e muita indiferença. Esta é a mulher das minhas recordações. Ela esta um pouco diferente, mas é impossível não reconhecê-la. Meu coração apertou e eu retomei minha consciência. Dei um passo atrás, mas ela estendeu sua mão.
- Não vou lhe machucar. – ela disse com uma voz doce, porém soou muito falso.
Logo Chris estava ao meu lado e ela parecia maravilhada com a mulher. Voltei a observar a mulher e ela estava como em minha visão: toda de branco. Porém ela não estava com uma expressão pesada, como antes. Ela ainda parecia flutuar e arrastar consigo a mesma aura gélida, como se toda a felicidade fosse sugada por onde ela passasse. Antes ela parecia sentir pena de mim, mas agora ela parece determinada, como se eu fosse estar disposto a servi-la pro resto de minha vida.
- Sou Quione. – ela rompeu meus pensamentos. – Deusa da Neve.
- Então foi você quem atacou o Acampamento? – Chris entrou na conversa e a questionou.
- Eu apenas queria encontrá-lo, Eric. – ela não me deixava nem um pouco confortável, ainda mais agora que sei que foi ela que queria me atingir e quase matou Chris. – Aqueles semideuses que se colocaram no meu caminho.
— E o que você quer comigo? – fui ligeiramente grosso. – Quer dizer que para ter o que você quer, você não se importa em matar os outros?
- Eu jamais mataria alguém, ainda mais esta jovem tão promissora. – ela dizia suavemente, deixando seus olhos fixos na Chris. – Ela tem um futuro incrível ao meu lado.
- Ao seu lado? – Chris parecia incrédula. – Eu não sinto nenhum tesão em você, para que isso ocorra. –
- Eu quis dizer que você será um “Coração de Neve”. – a deusa falou sorrindo. — Estes são meus fiéis heróis e que possuem grande poder.
- Poder? – eu me coloquei entre as duas. – Poder para o que? Destruir? O que levaria uma pessoa a aceitar lhe servir?
- O que eu ganharia com isso? – Chris então me assustou. Ela estava com seus olhos em chamas, como se o poder estivesse interessando-a.
- Não acredito que você está cogitando com a possibilidade de servir a ela. – protestei.
- Fique na sua. – ela me repreendeu. – Você não imagina o que eu já passei por me sentir fraca.
Quione então se aproximou de nós dois e começou a contar algumas informações. Ela disse que os Corações de Neve são semideuses que escolhem servi-la, mas que não é para o mau. Eles obtêm poderes ligados à neve e ao gelo e são reconhecidos por onde passam, por usarem um manto belo e que libera a mesma aura gélida da deusa. Estes seus servos devem acatar suas ordens, mas também tem direito de opinar. Isso soou muito falso quando ela falou, como se ela estivesse apenas amenizando o seu poder de ordenar, tentando parecer um pouco democrática.
- E o que eu preciso fazer para me juntar a vossa divindade. – Chris realmente estava me decepcionando.
- Não acredito que você vai aceitar isso, sua tola. – eu gritei. – Você não vê que ela quer usá-la? – gritei mais alto.
Chris simplesmente me ignorou. Quione se aproximou dela e eu me afastei ainda sem acreditar. A deusa tocou o pescoço da filha de Hades e um pingente gelo em forma de bola surgiu. Do pingente, uma pequena corrente formou um colar e se pendurou ao pescoço de Chris. Logo suas roupas estavam limpas e por cima, um manto branco com detalhes azuis surgiu. Realmente era lindo e imponente. Senti o frio percorrer minhas veias como um imã, mas ignorei tal pensamento. O cabelo da minha amiga estava ficando levemente mais escuro e mais liso e poder emanava dela.
- Pronto. – Quione falou. – Agora você sabe o que dizer, pois está em sua mente.
- Juro servir à vossa divindade, ser fiel e transparente como o gelo, sem sentimentos para atrapalhar minhas decisões e transformo o meu coração em neve. – Chris falou confiante, como se há séculos ela já conhecesse tal juramento.
Nesse momento senti parte do elo de sentimentos que eu sentia por ela, se romper. Era como se agora, a nossa ligação fosse apenas de 20% da parte dela. Antes estava tão forte e bem equilibrado, meio a meio. Quione quer destruir o que é precioso para mim e avanço contra ela. Chris me segura, defendendo a sua nova mestra. Fico furioso e arranco meu braço do aperto dela e me afasto. Dou as costas para ambos e protesto em silêncio.
- Agora é sua vez, Eric. – a deusa falou se aproximando de minhas costas. – Você está destinado a ser meu mais poderoso Coração.
- Não estou interessado no seu club. – respondi seco e me virei para ela, para poder continuar falando. – Não sei qual é o seu interesse em mim, mas jamais irei me juntar a sua causa.
- Nunca diga nunca. – ela disse secamente. – Preciso partir, mas posso levá-los de volta ao Acampamento.
- Não se dê ao trab... – eu tentei dizer.
- Seria eternamente grata, minha senhora. – Chris falou me interrompendo.
- Eric. – Quione falou por último. – Iremos nos encontrar novamente e vou lhe mostrar que não sou a vilã. Você irá ficar do meu lado. Agora fechem seus olhos.
E eu instintivamente a obedeci, pois foi mais forte que eu. Por mais que eu estivesse odiando essa deusa sorvete com todas as minhas forças, mas eu ainda sentia uma imensa atração por ela, desde o ocorrido há muitos anos, quando Poseidon e ela estavam me disputando, junto daquele outro lá que parecia a própria morte. Senti o gelo possuir meu corpo e era como se eu estivesse me desfazendo em flocos de neve. Senti alguém segurar em minha mãe e por alguma razão eu sabia que era a Chris. “Abram os olhos”, ouvi Quione dizer. E juntos abrimos.
- É a colina do Acampamento. – Chris falou empolgada. – Nós conseguimos, Eric.
Ignorei-a. Eu ainda estava muito irritado com ela e a olhei com uma cara de “pokerface”. Estava sentindo uma pequena repulsa por ela, diferente da que eu senti em nosso beijo. Eu me senti traído, mas ainda gosto muito dessa filha de Hades e não gosto de guardar magoas. “Posso lhe convocar a qualquer momento, Chris”. Ouvimos pela última vez a voz da Deusa, pelo menos por enquanto. Começamos a descer a colina e por mais que ela tentasse se aproximar, eu ia me aproximando. Seu manto era movimentado pelo vento e pelos seus passos. Isso estava começando a me irritar. Logo estávamos andando por entre campistas e eles pareciam surpresos e pasmos ao ver o que a Chris estava trajando.
- Agora que você é um sorvete... – falei para Chris, mas sem olhar para ela. – A Dianna pode ficar facilmente interessada em te lamber todinha.
E esse sou eu, o mesmo idiota de sempre. Não deixei que ela se aproximasse, mas sorrimos juntos e logo desci na direção do meu chalé. Eu preciso ficar um pouco sozinho e praticamente precisei correr. Ao entrar eu vou direto ao banheiro e tomo um bom banho. Agradeço por desta vez estar ficando molhado e consigo relaxar um pouco. Tudo tem acontecido tão depressa e de repente há tanta responsabilidade em minhas costas. Saio do banheiro e visto uma cueca. Coloco uma bermuda e quando estou prestes a escolher uma camiseta para pode me deitar e dormir, alguém bate na porta. Bufo de irritação, mas mesmo assim vou até lá.
- Chris, eu não quero falar contigo agora. – falei firme, mas me enganei de pessoa.
- Posso entrar? – Jacob está parado em minha frente, com um olhar sério e carrancudo.
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