Coração De Neve
1 Capítulo 1 - Noite sem Lua
Notas iniciais
A chuva caia intensamente durante toda a madrugada e antes mesmo de me deitar, eu já estava um pouco desconfortável com os trovões que ribombavam no céu. Recentemente, tudo na minha vida estava sendo alterado aos poucos e nem dormir direito eu conseguia mais. Sim, pesadelos vinham me assombrando de uma forma que nenhum psicólogo que minha mãe me levava, conseguia diagnosticar algum distúrbio, a não ser um déficit de atenção que sempre possui desde os seis anos. Hoje, aos dezesseis, era como se eu tivesse a sensação de eu estava congelado por vários anos e só agora tudo estava se revelando a mim. Esses pensamentos sempre retornavam a minha mente, toda vez que eu tentava dormir. Já estava ficando com olheiras imensas graças às longas noites sem dormir e aos pesadelos que ainda continuam a me atormentar.
Ajeitei-me na cama, me cobrindo melhor com a minha coberta e fecho os olhos novamente, tentando me sentir um pouco seguro e em uma tentativa fracassada de iniciar uma boa noite de sono. De repente tudo silenciou e a chuva parou de cair abruptamente. Descobri minha cabeça e olhei pela janela de vidro do meu quarto, a qual me permitiu ver que a noite estava bem escura lá fora, o céu estava sem lua. Coisas estranhas costumam acontecer comigo no período de lua nova e eu não estava nem um pouco ansioso para descobrir o que ocorreria desta vez.
Um vento frio passou pelo meu quarto, me fazendo arquear a sobrancelha e meu corpo estremeceu por completo. Por onde essa brisa gelada havia entrado? A janela estava fechada e não havia outra abertura que permitisse a entrada de vento ou qualquer outra coisa. De imediato então olhei novamente para o céu pela janela e pude constatar que a neve havia começado a cair. Em Nova York tudo é possível, mas não estamos no inverno para que a neve esteja caindo tão forte desse jeito. Calcei um chinelo e me aproximei do vidro, mas logo recuei e cai sentado no chão. Algo grande e com aparência de morcego estava no céu a me observar pela janela. Quase rastejando recuei mais ainda e bati minhas costas na porta do meu quarto. Tentei gritar pela minha mãe, mas a voz não saia da minha boca, como se minhas cordas vocais estivessem presas ou rompidas.
Vidro por todos os lados do meu quarto, a criatura havia então avançado contra a janela e a deixou em pedaços. Meus olhos esbugalhados não conseguiam desviar o foco de tal ser medonho. Uma aparência que reunia traços de morcego e por outro lado ainda dava para ver que se assemelhava a uma mulher. Nunca vi criatura mais feia e quando pensei isso parece que foi alto demais, pois a criatura fez uma cara mais feia ainda e veio avançando na minha direção. Eu não tinha mais para onde recuar, então peguei a primeira coisa que segurei e joguei contra ela. Pena que havia sido um travesseiro. Por sorte eu a distraí um pouco e pude me levantar, abrir a porta do quarto e corri escada a baixo.
Por um momento juro que pude sentir meu corpo se desfazendo em pedaços, como se eu não pertencesse a essa realidade e então tive a certeza que isso era novamente um pesadelo. Infelizmente até hoje eu não aprendi como me desligar deles, então eu teria que continuar a correr. Cheguei à porta de saída do apartamento e a abri, sendo surpreendido por outra criatura da mesma espécie da anterior. Dava para notar que era mais de uma, por que esta agora possuía um enorme cabelo ruivo. Seu sorriso diabólico deixava claro que suas intenções não eram as melhores e eu tive a sensação que ela queria me torturar até a morte. Seus olhos vermelhos estavam fixos em mim, mas sem nenhuma educação eu bati a porta na sua cara. Corri na direção da cozinha, lá poderia ter utensílios para me ajudar contra esses bichos. Claro... Talheres e pratos são bem úteis nessas situações.
Como eu conseguia tem esse tom irônico em uma hora como essas? Joguei-me debaixo da mesa e me escondi ali, como se fosse o lugar mais protegido do mundo. Abracei minhas pernas e assim fiquei, fechando meus olhos e concentrando meus sentidos apenas na minha audição. Tudo ficou quieto então, por um longo tempo. Estava silencioso demais e eu nem estava num esconderijo tão secreto assim. Algo estava errado, mas já que era um pesadelo eu iria arriscar. Pelo menos eu acreditava ser um pesadelo, né? Afastei a toalha da mesa e deixei a cozinha com uma faca na mão. Ela era daquelas de serra, eu iria derrotar muitos monstros com ela, num louco movimento de serrilhar, como se estivesse cortando um pedaço de carne no almoço.
Sou uma grande ameaça a esses monstros, então por isso elas devem ter fugido. A porta de entrada se mexeu e revelou que a minha mãe havia chegado. Corri e a abracei, mas já era tarde demais. Seu abdômen revelava que ela havia sido atacada, estava sangrando bastante. Seus olhos estavam começando a perder o foco e as duas criaturas sombrias apareceram, uma de cada lado nosso, nos cercando. Quando eu gritei pela vida da minha mãe, uma lágrima quis escorrer pelo meu rosto, mas algo assustou as criaturas e elas recuaram voando baixo e foi aí que o pesadelo se rompeu.
Abri meus olhos rapidamente, estava livre de mais um pesadelo e isso era um alívio. Meu corpo estava transpirando muito, como se eu tivesse me esforçado bastante mesmo dormindo. Precisei de alguns minutos para poder perceber onde eu estava. Na verdade eu precisei me tocar, do que eu havia feito nas últimas horas. Eu não estava mais em casa, doze horas já haviam se passado desde que eu fugi. Só então eu me dei conta de que as tais criaturas do meu pesadelo, foram o motivo de ter abandonado o meu lar. Agora estou eu, em um beco de Nova York, alojado em um caixote de papelão enorme. Minha roupa estava levemente suja e minha mochila, com alguns pertences, parecia cada vez mais pesada. Era como se minha força estivesse se esvaindo do meu corpo, mas mesmo assim eu tentei me levantar, pois não poderia continuar ali. Ainda era noite, mas pude ver no relógio que já eram 4:20 da manhã e logo o sol iria nascer. Vaguei pelas ruas desertas, até que algo no céu alçou voo e me assustei. Elas estavam de volta e dessa vez eu não teria forças pra fugir.
Encostei-me numa parede, tentando me manter de pé, mas a minha visão já estava embaçada. Eu sabia que dessa vez seria meu fim, pois eu não estava mais em um pesadelo, era a realidade. Os monstros estavam cada vez mais próximos e eu não conseguia dar nem um passo. Pude então ouvir passos rápidos pela rua, como se viesse a minha direção. Não consegui nem discernir o que era. Se era mais uma criatura ou alguma pessoa eu não sei, pois perdi a consciência nesse exato momento.
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