Coração De Neve

2 Capítulo 2 - Recordando o Laço daTrindade


Notas iniciais
Capítulo meio confuso, tudo acontece na mente do Eric (Protagonista). A Chris, ao se aproximar dele, fez com que uma lembrança bloqueada voltasse.

Sabe aquele momento em que a gente sente que não pertencemos a essa realidade, que na verdade estamos sonhando? Pois é, é dessa forma que eu estou me sentindo. O cenário era um pouco antigo, mas eu tenho certeza que tenho a mesma idade do presente. Uma espécie de parque, muito verde e florido, mas estranhamente vazio. Uma lembrança muito antiga estava retornando a minha mente, a memória do dia em que eu conheci a morte. Por alguma razão, minha mente havia bloqueado essa lembrança até hoje e estou exatamente na cena mais cruel que já presenciei.

Meu corpo estava paralisado, como se realmente eu estivesse ali para ver novamente tudo acontecer e eu já sabia qual era o primeiro fato: Minha mãe havia me deixado sozinho. Aquele medo que senti naquele dia, retornou ao meu corpo e comecei a tremer. O céu começou a escurecer e densas nuvens se formavam no céu. A qualquer momento uma tempestade poderia cair e a cada segundo eu me sentia mais abandonado. Nesse momento, o segundo fato aconteceu e eu lembrava exatamente de como era seu rosto. Uma mulher, toda de branco e com uma expressão pesada, se aproximou de mim. Ela parecia flutuar e arrastar consigo uma aura gélida, como se toda a felicidade fosse sugada por onde ela passasse.

Ela passou a mão no meu rosto, mas sua expressão não havia mudado. Seus olhos pareciam querer sentir pena de mim e foi quando o terceiro fato aconteceu. Um homem corpulento apareceu, com sua pele bronzeada e suas roupas bem largadas, como se ele fosse um homem que viveu toda a sua vida em uma ilha de pescadores. Seus olhos claros me rememoravam o mar e esses mesmos olhos tão atraentes me deixavam assustados. Este homem então se aproximou ameaçadoramente da mulher, que recuou um pouco. Algumas palavras foram ditas, mas como eu era tão jovem nem pude entender nada naquela época. Agora, já com meus dezesseis anos e revivendo a cena, pude entender algumas frases:

Ele pertence a mim.

Não, ele é meu filho.

Ele pode salvar a ambos.

Ele não será a sua arma.

Ele está destinado à morte.

Ambos pareciam determinados a me ter do seu lado, a levar-me para seus domínios. Por alguma razão eu me sentia mais seguro perto do homem, mas a mulher me deixava de certa forma bastante atraído. Era claro a diferença de poder entre eles, a esfera de poder do homem era muito mais abrangente, mas por outro lado, o domínio da mulher era esplêndido. Até então tudo bem, esse momento eles estavam duelando em uma guerra fria para ver quem ficaria comigo, mas ambos me desejavam vivos. O último fato entrou em jogo, o mais cruel de todos até então.

Um homem que mais lembrava um famoso ator americano, mas que só agora na minha idade atual pude perceber isso. Ele apareceu por entre as árvores e se aproximou veloz. Ninguém poderia dizer que pela sua aparência, ele carregaria a morte consigo. Mas seus olhos me amedrontavam e agora eu estava entre os três. Ele veio buscar a minha alma, eu realmente estava condenado. A Mulher já sabia disso e ela parecia apavorada em me perder. Os três começaram então a lutar entre si. Eu fiquei no meio, meu ainda corpo imóvel. Quando essa cena realmente aconteceu, eu escapei de ser morto várias vezes pelos ataques dos três, que se combinavam e duelavam ao meu redor. Pude ver diversas vezes que o chão estava prestes a se abrir debaixo de mim. Pude ver então alguns mortos, como se estivessem me chamando para juntar-me a eles. Uma criança como eu era, estava com um medo imenso. Hoje talvez eu não me sentisse tão apavorado com tudo isso acontecendo ao meu redor, mas naquela época foi tenebroso ver tudo isso.

A briga entre eles acabou e eu pude ouvir três nomes, que me trouxeram então de volta a realidade, de volta ao presente. Acordei em uma espécie de refúgio, um abrigo entre algumas árvores que pude reconhecer como o Central Park. Mas como eu havia vindo parar aqui? Não lembro muito bem do que eu havia passado, mas tinha imagens sobre monstros alados e feios me perseguindo. Eu havia desmaiado ao fugir de tais criaturas. Lembrei que estava fugindo de casa há alguns dias e que uma garota havia aparecido e foi quando eu perdi a consciência. Só agora eu sabia que era uma garota, pois ela estava ao meu lado.

Nesse momento eu saltei e fiquei encostado a um tronco. O olhar da garota era sereno. Ela tinha olheiras muito densas e seu cabelo estava bem desarrumado. Poderia dizer que ela era aquele tipo de garota roqueira que adora qualquer “doideira” desse tipo. Suas roupas pretas estavam bastante rasgadas e seu tênis bem surrado. Ela forçou um sorriso, mas logo percebi que ela não estava muito acostumada a fazer isso. Bobo como sou, eu acabei “desarmando-me” e sorri dela. A garota arqueou a sua sobrancelha, acho que ela percebeu que ela era o motivo da minha gargalhada. Acalmei-me e sentei, sentindo um pouco de dor de cabeça ao ter tantas lembranças dolorosas retornando a minha mente. A menina então estendeu sua mão e disse seu nome.

– Chris. – ela forçou novamente um sorriso. – Não tema, eu só quero me manter viva.

– Eric. – respondi um pouco na defensiva. – Mas por que você me ajudou então?

– Você apareceu no meu caminho, mas não sei por que o ajudei. – ela parecia estar realmente falando a verdade. – Sinta-se privilegiado, pois eu não costumo fazer isso por ninguém.

Cerrei meus punhos, mas relaxei minha expressão. Eu poderia estar morto se não fosse por ela. Não sei como ela me salvou daquelas criaturas, só que devo a minha vida a ela. Um barulho muito forte veio lá de fora. As folhas estavam farfalhando ali perto, algo estava se aproximando. Reconheci o barulho e me levantei para ver o que realmente era. Acertei em cheio, eram cavalos que estavam se aproximando. Mas o que uma espécie de carruagem estava fazendo no meio do central Parque? Chris se colocou na minha frente. Ela estava com uma adaga negra em mãos e ao ver tal lâmina eu senti medo novamente. Desviei forçadamente a minha atenção, quando um calor intenso começou a pesar no ambiente. O sol estava se aproximando da terra?

– É exatamente o que você ta pensando! – Chris falou como se estivesse lendo meus pensamentos. – É o próprio sol!

Um homem forte e com uma aparência impecável apareceu em nossa frente. Ao seu lado havia uma garota com uma roupa bem semelhante a da Chris, mas ela estava limpa e com os cabelos bem penteados. Sua maquiagem forte e seu olhar determinado me fizeram ficar realmente preocupados. Ela passava uma imagem de que iria nos atacar a qualquer momento ou a qualquer sinal do homem brilhante, quente e sarado.

– Ainda bem que os encontrei a tempo. – ele falou. – Muito prazer. Apollo ao seu serviço.