Coração De Gelo
8 Epílogo Parte Um: Uma vida em 14 anos.
Notas iniciais
Life is ours, we live it our way
All these words I don't just say
And nothing else matters"
Nothing Else Matters - Metallica.
Sirius entrou no apartamento, o ambiente grande e escuro. Sem ligar as luzes, foi até a varanda do lugar, onde uma bela mulher com um vestido de seda vermelho e de costas nuas tomava uma taça de champanhe. Aquela cena mais se parecia com uma propaganda do mais caro perfume, mas era apenas a realidade.
Ao vê-lo se aproximar, ela sorriu. A luz lhe mostrava o corpo, luz essa que provinha da cidade lá fora e da lua apenas.
-Então? Como foi?-Ela perguntou, os cabelos loiros lhe caindo pelos ombros magros.
-Bem, eu acho.-Sirius respondeu, pegando uma taça de champanhe para si, afrouxando o nó da gravata, a barba por fazer, os cabelos mais curtos.-Eles dizem que vai ser um sucesso de vendas.
-Quem diria que você, logo você, que eu conheci brigando com cinco meninos ao mesmo tempo, lançaria um livro e ainda de ficção. Qual é a história mesmo?
-Um rapaz que vai para o Polo Norte e lá conhece a personificação do inverno.
-Você não já foi para lá?
-Não, eu fui para a Groenlândia.-Sirius riu do erro da outra, tomando um gole do champanhe.-Está ficando frio.
-É, os jornais disseram que o inverno deste ano será o mais frio em 14 anos... Esse terno até lhe caiu bem. Lembro que você odiava esse tipo de roupa.
-Ainda odeio.
-E que você falava muito palavrão.
-Ainda falo, só não na presença de outros. Até porque, é ruim para um advogado renomado falar esse tipo de coisa, não é?-Voltou a sorrir, fitando a mulher ao seu lado.-E eu não achei que você fosse se tornar atriz.
-O tempo muda as pessoas.-Ela disse, ficando em silêncio por alguns tempos, o vento mexendo em seu vestido.-Ligaram para você. Seu pai sai amanhã da prisão.
-Eu vou buscá-lo... Não poderemos almoçar juntos. Depois vou cuidar de umas coisas, psicólogo e... Fazer umas coisas.-Disse o homem, já não rapaz, tomando mais um gole do líquido.-Não é como se fôssemos realmente casados, não é?
Ela sorriu, deixando a taça sobre uma mesa de vidro ao seu lado e entrando no apartamento, deixando a sacada e o outro, dizendo antes de sumir na ida para seu quarto:
-Não é como se combinássemos, de qualquer forma.
Sirius sorriu, voltando a fitar a cidade lá embaixo. Casar-se com Emily foi apenas uma forma de se escapar, tanto dos comentários dos pais dela quanto da mídia. Suspirou, pensando até onde havia chegado desde então, naqueles últimos 14 anos desde sua viagem para a Groenlândia.
Suspirou, sabendo que uma memória em particular jamais deixaria sua mente.
Na manhã seguinte saiu cedo de casa, vestindo roupas casuais, mas de bom corte. A Mercedes azul que dirigia chamava atenção na rua. Tirou um tempo do trabalho apenas para buscar seu pai, preso e condenado há 15 anos de prisão após o incidente na Groenlândia, mas que devido ao bom comportamento, saiu um ano antes.
“Cientista fica louco na Groenlândia e tenta matar seu próprio filho assim como vários outros pesquisadores no local”, disseram os jornais durante semanas até que Liam foi preso por porte ilegal de armas e tentativa de homicídio. Condenado e sem ter como sustentar a família, Sirius foi então mandado para viver com a tia, não muito distante de casa, numa cidade vizinha. A mãe permaneceu morando em casa, esperando o marido, enquanto o filho crescia basicamente sozinho, uma vez que sua tia também não era muito presente.
Parou o carro em frente a penitenciária então, voltando a suspirar, lembrando o quanto estaria xingando naquele momento se fosse mais jovem, mas não teve muito tempo pois o portão já tinha sido aberto e de detrás dele, vinham três policiais e seu pai. Liam estava velho, com pouco mais de 50 anos, mas aparentando ter quase 30 anos a mais. Os cabelos grisalhos estavam grandes e desgrenhados, e a face estava repleta de rugas e olheiras. Abatido, com certeza.
Sirius desceu do carro e falou com os policiais e uma vez tudo acertado, levou seu pai para dentro do carro e voltou à estrada. Depois de tantos anos, não sobrara raiva pelo velho ao seu lado, e amor também não. Uma responsabilidade, talvez, de cuidar dele porque aquele homem ainda era seu pai.
Virou numa curva, em silêncio, até que seu pai virou o rosto para si. No sinal vermelho, as ruas já bem movimentadas, ouviu a voz do mais velho.
-Pra onde está me levando?-Perguntou, a voz cansada, mais áspera do que o normal.
-Para um asilo pago, pai. Eles vão cuidar bem de você lá.-Sirius disse, avançando com o carro quando o sinal abriu.
-Asilo...?-O velho piscou, como se não entendesse.-Não posso ficar em casa?
-Nossa casa foi vendida, pai.
-E sua mãe?-Voltou a perguntar, piscando novamente.
-Mamãe morreu há 7 anos, pai. Não se lembra? Eu levei fotos do enterro dela para você, se não se lembra, na prisão. Você não chorou e nem disse nada.-Sirius respondeu, dando um freio súbito quando o carro da sua frente parou de uma vez, mas não bateu nem nada.
-Oh... Sim, claro...-Liam piscou novamente, os as pupilas um tanto fora de foco.-Entendo...
-No asilo eles vão te dar roupas e o que precisar. Qualquer coisa você pode ligar para o meu escritório e falar com a minha secretária, ela vai providenciar o que você quiser.
-Ah, sim, você é um advogado importante agora... Você falou com sua mãe? Ela também está no asilo?
-Mamãe está morta, pai.-Sirius repetiu, mas sem nenhum traço de raiva ou vergonha.
-Depois que nós voltamos, eles me prenderam e... Acho que estraguei tudo, não foi?... Mas e ele? Ele ainda está vivo? Você disse fugiu da Base naquele dia e só voltou muito mais tarde... Você quase perdeu o braço naquele dia... Mas eu estive tão perto! Se eu tivesse... Se eu tivesse conseguido...!
-Ele morreu também, pai.-Sirius suspirou, sabendo de quem Liam estava falando.-Estamos quase chegando.
Virou em outra curva e depois de algumas ruas, parou em frente a um enorme prédio branco com uma bela fachada na frente. Era um bom lugar aquele, até porque Sirius pagaria por seus serviços, então tinha um melhor atendimento. Saiu do carro e abriu a porta para seu pai, pegando a pequena mala do mais velho.
Logo alguns dos funcionários do asilo esperavam Liam na porta, as roupas brancas e sorrisos gentis, ou pelo menos, aparentemente gentis. Liam parou ao lado de Sirius, do outro lado da rua, vendo o que lhe esperava há cerca de 10 metros. Virou o rosto para o filho que, depois de tanto tempo, havia ficado bem mais alto que o pai. Ou seria porque suas costas estavam muito curvadas?
-Eu preciso ir para lá?-Perguntou, como uma criança.
-Eu não apareço muito em casa, e lá não terá ninguém para cuidar de você. Mamãe morreu, e a tia também. Precisa, pai, você precisar ir.-Disse Sirius, sem saber realmente o que sentir. Pena, talvez?-Vou mandar alguém vir visitá-lo, se quiser, para conversar.
Liam ergueu o olhar para olhar nos negros orbes do filho. Depois de tantos anos, toda a raiva que Sirius tinha acumulada se tornara uma espécie de indiferença. Liam, porém, sentia um arrependimento mudo que nunca daria a voz necessária para demonstrar. Se pudesse, pediria desculpas por tudo ao filho, mas não tinha mais tempo, a hora já havia passado no exato momento em que preferira manter tudo aquilo preso dentro de si.
-E você?
-E eu o quê?
-Vem me visitar?
Sirius engoliu em seco.
-Pode ser. Se eu tiver tempo.-Respondeu, tomando a mão do pai enquanto atravessavam a rua lentamente porque o mais velho sentia dores nos joelhos.
-Então eu vou ficar esperando por você.-Respondeu Liam.
E enquanto Sirius entregava o pai aos funcionários do asilo, o homem-e-não-mais-rapaz soube que aquele era o adeus que iria receber. Soube que jamais viria visitar o pai, e que na verdade este sabia que o outro jamais viria visitá-lo. Porque havia erros demais na história de ambos para tudo ser esquecido com tão poucas palavras.
Mas ainda assim, enquanto Liam adentrava o prédio, Sirius sabia que todos os dias seu pai perguntaria por seu filho e também por sua falecida esposa, como se ainda tivesse uma esperança que soubesse ser falha de que ambos, um dia, voltassem. E todas as semanas, Sirius, pelo menos, mandaria alguém ao asilo para ver se estava tudo bem.
E a vida seguiria em frente.
Antes de ir, porém, Sirius puxou um dos funcionários pelo braço e conversou os termos sobre a estadia do pai ali, e acrescentou:
-Não se incomodem se ele fizer a mesma pergunta várias vezes. Depois que ele veio da Groenlândia...-Aquele assunto já havia sido explicado no asilo, sobre Liam e o que houvera lá, assim como o motivo de ele ter ido para a prisão.-Ficou com a mente e corpo meio... Abalados.
-Sim, senhor.-O funcionário respondeu.
E com isso, Sirius foi embora. Ainda teria que trabalhar o resto do dia, então já massageava as têmporas, tentando aliviar a futura dor de cabeça.
Depois de mais trânsito, parou para comer alguma coisa e logo estava em seu escritório, detrás da grande mesa de mogno, as roupas casuais então trocadas por um terno de corte fino. Lia alguns papeis, mas não era como se conseguisse se concentrar.
Na verdade, o inverno começaria no dia seguinte, e aquela era sempre uma época difícil desde o incidente na Groenlândia. Quem sabe mais tarde saísse para beber alguma coisa, para desanuviar a mente, ou talvez seguisse direto para casa. Para ver Emily, conversar como o clima e adormecer em seus braços, porque ela sempre funcionou mais como uma espécie de suporte do que como uma possível amante.
Voltou a suspirar, um hábito já seu naquela altura.
Por que, naquele dia, ele não conseguia sair da sua mente?
Fosse porque o inverno ia começar, fosse saudade, fosse algum outro sentimento... Sirius não conseguia tirá-lo da cabeça. Nunca chegou a realmente esquecê-lo, apenas o deixava um tanto de lado para que não sofresse tanto assim, para que não se lembrasse a todo instante de que ele tinha morrido.
Mas naquele dia, na verdade, desde a noite passada, parecia que era impossível parar de lembrar-se daqueles olhos azuis escuros como mares congelados. Voltou a suspirar então.
Por que não parava de sentir que ele ainda estava vivo? Por que não abria mão daquela possibilidade? O vira morrer, então por que tinha tanta vontade de tomar o primeiro voo para a Groenlândia e procurar por ele como se realmente estivesse vivo? Por que aquele impulso tão grande de deixar tudo para trás apenas por uma mísera possibilidade de ele ainda estar vivo?
Seu coração o mandava ir. Sua mente o mandava ficar.
Trabalhou, tentando deixar aquilo de lado, certo de que tudo não passava de pensamentos, mesmo que estranhasse o fato de que nos últimos 14 anos nunca sentira algo tão forte assim, uma necessidade tão grande. Era quase como se ele estivesse chamando seu nome.
Mas Inverno estava morto. Ponto final.
No final da tarde, deixou o escritório e foi até o outro lado da cidade, mexendo nos cabelos. Visitar o psicólogo tinha se tornado uma rotina de toda sexta-feira, e uma vez dentro da clínica, aquele cheiro de hospital que não suportava, quis sair dali. Nunca gostara muito de psicólogos afinal, mas eles vinham lhe acompanhando desde que era pequeno, quase funcionando como babás, tentando explicar e “curar” o temperamento explosivo que tinha.
E que, quase 15 anos depois, ainda tinha, só que aprendera a controlar com mais habilidade (embora deixar o constante uso de palavrões de lado tenha sido uma das coisas mais duras que já fizera na vida).
-Ah, sr. Sirius.-Cumprimentou a psicóloga logo que o advogado entrou e se sentou na poltrona a sua frente. Tinha dentes muito brancos, cabelos um tanto grisalhos por causa da idade avançada, mas sorria bastante (e às vezes, de modo um tanto falso).-Como foi seu dia?
-Eu busquei meu pai hoje na prisão. Eu o deixei num asilo.-Sirius disse, voltando a mexer nos cabelos. Pelo menos, com toda aquela coisa de sigilo entre médico e paciente, podia contar tudo àquela mulher.-Eu e Emily vamos, provavelmente, nos divorciar. Lancei meu livro ontem. Meu cliente foi esfaqueado na sua cela nesta manhã, mas meu outro cliente está livre por aí. Nada de novo.
-Entendo...-Ela tomou nota num bloquinho de papel, os óculos descendo pelo seu nariz proeminente.-Você está triste por causa do divórcio?
-Na verdade, fiquei mais triste quando soube que meu cliente morreu. Não vou ganhar nada por este caso.-Deu de ombros.-Nós estamos bem, eu e ela. Nunca fomos um casal de verdade.
-Entendo... E seu pai?
-Ele... Vai ficar bem.
-Você não sentiu raiva hoje?
Sirius sorriu. Aquela psicóloga o vinha acompanhando desde que o rapaz entrara na faculdade, há quase 10 anos, e por isso, sabia dos seus frequentes ataques de ira, da sua afinidade com palavrões e comportamentos inadequados (tanto que chegou a recomendar um curso de etiqueta que foi, claro, imediatamente recusado pelo rapaz na época). Portanto, fazia aquela pergunta em todas as sessões.
-Nada muito grande. Mandei um cara no trânsito ir se foder porque ele arranhou a porta do meu carro quando passou por mim, e ele me deu um cotoco, então eu saí do carro e joguei o resto do meu almoço (sim, eu estava almoçando enquanto dirigia) no carro dele.-Sirius voltou a sorrir, quase rindo, na verdade.-Você devia ter visto a cara que ele tinha quando saiu do carro para me xingar.
-Vocês brigaram?
-Na verdade, não. Ele me reconheceu, de alguma forma, como marido da Emily, então pediu desculpas e foi embora. Acho que ela está se tornando uma atriz famosa, afinal.
-Entendo... E você voltou a ter pesadelos?
-Tive durante toda esta semana.
-E com a mesma coisa?
-Com a mesma coisa. Neve e sangue. Sangue negro. Um corpo inerte nos meus braços. O mesmo de sempre, não quero ter que repetir e você já sabe o que acontece, então...-Sirius suspirou.-É isso.
-Entendo...-A psicóloga então ergueu o olhar, pela primeira vez olhando o homem a sua frente nos olhos.-Você se tornou um rapaz, ou melhor, um homem muito maduro, Sirius. Depois da morte da sua mãe, acho que ficou mais duro ainda, e quando digo duro, digo que até raiva você parou de sentir. Sei que você mudou, não sei se para melhor ou para pior, mas vi o rapaz que não queria nada com a vida e que adorava se meter numa briga se tornar um brilhante advogado com mais dinheiro do que eu jamais posso vir a ter.-Ela sorriu.-E sinto orgulho disso. Embora eu ache que você precise ter cuidado ao endurecer seu próprio coração. Acho que você nem precisa mais de minha ajuda também, digo até que está curado. Você mora por si mesmo, está casado, tem um carro e tem uma profissão. É independente. A única coisa que a sociedade pode ainda exigir de você é um filho, mas não se preocupe com isso ainda, ouviu? Viaje. Faça o que quer. Você já completou todas as obrigações que tinha com a sua vida, então por que não deixa um tempo para seus sonhos? Para seus desejos? Creio que isso não vá lhe fazer mal. E quem sabe... Depois que voltar, possa me fazer uma visita para eu ver como está, o que acha?
Sirius sorriu, lembrando-se porque aquela psicóloga tinha sido eleita uma das melhores do país.
-Acho uma boa ideia.-Ele disse.-Terminamos?
-Terminamos, sim. Mas não se esqueça de pagar quando sair, entendeu? Preciso fazer uma feira hoje, meus gatos não se mantém sozinhos... E viaje. Sério. Conheça o mundo e pessoas novas. E apareça aqui daqui há uns meses.
-Você que manda, vovó. — Sirius riu, deixando o escritório então, colocando o dinheiro na recepção e indo embora.
Estava pronto para rumar para casa, então. No dia seguinte, talvez fosse ir pescar, apesar de nunca ter conseguido pegar um peixe sequer na sua vida. Quem sabe comprasse um cachorro, ou... Realmente tirasse férias. Viajasse. Viajasse para um país em específico...
Apenas para ver. Apenas para ter certeza. Três dias, apenas três dias na Groenlândia não fariam mal. Apenas o bastante para ter certeza, quer a verdade fosse ruim ou impossível, porque boa era impossível de ser, uma vez que a verdade boa seria um Inverno vivo.
Tirou as chaves do carro do bolso e estava abrindo a porta no estacionamento bem iluminado e até movimentado quando ouviu passos do seu lado e ergueu o rosto, franzindo o cenho.
-Oi.-Viu um garoto lhe cumprimentar, estendendo uma das mãos.-Eu sou Angus. Aqueles ali.-Apontou para outro garoto da sua altura de cabelos castanhos e olhos assustados e para outro rapaz, mais alto, ruivo com um rosto e corpo tão bonitos que Sirius teve que ser cutucado para voltar a prestar atenção ao garoto a sua frente. Ou rapazinho. Ou rapaz, não sabia dizer que idade qualquer um dos três teria.-São meus irmãos, Herbst e Axel. Você é Sirius Hildenberg? Ou eu deveria dizer Sirius Stern, uma vez que tirou o nome do seu pai e agora usa o segundo nome da sua mãe?
-E quem seria você?-Perguntou, estreitando o olhar, sentindo necessidade de olhar para o jovem ruivo mais distante chamado Axel novamente, mas o loiro com olhos azuis a sua frente sorria de forma tão bem humorada que era igualmente difícil desviar a atenção dele. Aqueles olhos azuis eram claros como céu aberto e transmitiam... Transmitiam uma paz de espírito tão grande... Era como se o maior dos problemas do mundo não importasse.
-Eu já disse.-O garoto sorriu.-Sou Angus! Mas quem saiba você me reconheça por outro nome, depende do que tenha ouvido.
-E o que você...
-Nós estamos aqui para falar com você.-Angus sorriu, a face angelical lembrando a Sirius tantos tipos de flores.-Na verdade, não deveríamos estar aqui. Herbst está muito fraco por amanhã terminar seu tempo, e eu e Axel deveríamos estar dormindo, mas precisávamos conhecer você. Amanhã começa o inverno e bem, um novo Inverno foi arranjado. A Terra não ficará mais sem sua estação mais fria, embora ainda haja oscilações de temperatura.
-Vocês...-Sirius arregalou os olhos então, finalmente entendendo a mensagem. O rapaz ruivo encontrou seu olhar, e sorriu de uma forma tão libidinosa que parecia estar convidando-o para transar bem ali no meio dos estacionamento. Sirius piscou, voltando a olhar para o loiro a sua frente.-Você... É o Primavera?
O garoto riu, e seu sorriso era tão incrivelmente bom, simplesmente bom, que Sirius ficou extasiado.
-Ah, bem, você é inteligente mesmo!-Disse um Primavera bem humorado.
-E aqueles são... Outono e Verão...
-Acertou. Mas não saia espalhando por aí, e não fique olhando muito para o Verão. Você deve ter ouvido alguma coisa sobre o Verão do Inverno, mas se não ouviu, bem, fique longe dele, de qualquer forma.-Disse Primavera, pegando nas costas de Sirius e o virando para que desses as costas às outras estações.-Vejamos, temos que ser rápidos porque estar acordado é incômodo quando nós não estamos no nosso tempo. Estou feliz de ter conhecido você.
-O que vocês estão fazendo aqui...?
Primavera deu outro sorriso, mais brincalhão.
-Você não sabe?
-Não, eu... Estou completamente perdido.
-Você não sentiu?
-Eu...
-Você sentiu, não foi? Ele está de volta, o Inverno. Mas não o Inverno que você conhece, e sim, outro completamente diferente. Sempre que uma estação morre, pouco tempo depois surge um... Sucessor para substituí-la. E isso acontece mais frequentemente com a estação do inverno porque é ele que sempre se machuca mais.
-O que quer dizer com isso?
-Você sabe por que conseguiu ver o Inverno mesmo que ele não quisesse isso? Você sabe por que conseguiu encontrar o domínio dele? Você sabe por que tudo isso aconteceu com você? Fui eu que fiz isso. Eu te dei essa capacidade de interagir com a personificação do Inverno. Por quê? Porque ele precisava disso. Veja bem, Inverno não é como nós. Nós podemos deixar nosso sono por curtos períodos de tempo e andar por aí como se fôssemos humanos normais, porque fora de nossas estações, estamos mais humanos do que nunca, mas não Inverno porque para isso, o corpo dele teria que ficar numa temperatura abaixo de 0° graus, e que corpo humano suportaria isso? Nenhum. Ele também não pode ter sentimentos, mas os têm, de qualquer forma. Ele é o mais forte e também o mais fraco de todos nós, e por isso, a cada quase 200 anos, ele precisa ser substituído, e nessas horas, cada Inverno diferente se apaixona por um ser humano diferente. Inverno então derrete por dentro e morre, e foi isso que também aconteceu com o antecessor do Inverno que você conheceu. Se isso acontece conosco? Bem, nunca aconteceu comigo nem com o Verão porque nós somos feitos para e por emoções. Com o Outono... Algumas vezes desde a criação do planeta, mas é sempre o Inverno que mais sofre com isso.
-Então... Foi você? Você queria que ele morresse?
-Não, eu queria que ele vivesse, e foi por isso que eu o ajudei. Acho que ele mesmo disse que não se arrependeu das escolhas que fez, porque é sempre assim. Você também não está feliz? E se você tivesse passado 3 meses da Groenlândia sem nem fazer ideia dos segredos que lá tinha? Seria o mesmo de agora? Provavelmente não.
-E para onde eles vão quando morrem? O que acontece com eles?!
-Eu... Confirmo que não sei.-Primavera respondeu, não sorrindo tanto, mas ainda fitando o homem a sua frente nos olhos, como para que deixar claro que nenhuma das palavras que dizia era mentira.-Mas também, nunca fomos atrás de descobrir. Pode ser qualquer coisa, pode acontecer qualquer coisa, uma vez que a nossa própria existência é improvável, não é?
-Então para que vieram aqui, então? Apenas para me avisar que tem um substituto para ele?!
-Nós viemos aqui para conhecer aquele que conseguiu matar tão rapidamente o Inverno.-Primavera sorriu.-Geralmente, aquela mancha negra no peito demora bastante para surgir, vários anos enquanto um determinado Inverno vive com a pessoa que ele se apaixona, mas você... Você passou três meses com ele e fez o que só deveria acontecer em, vejamos, uns 100 anos? O amor, todos os sentimentos que ele tinha por você, eram tão grandes e tão fortes que acabaram acelerando sua própria morte. Não estamos com raiva, apenas queríamos conhecer quem seria capaz disso.
-Eu...
-E não é sua culpa. Você não tem culpa pelas escolhas que as outras pessoas fazem, então não tenha pesadelos esta noite, ouviu? O Inverno que você conheceu já não existe mais neste mundo. Ah, e isto.-Ele então levou uma das mãos até o bolso do short que vestia, mesmo estando um pouco frio já.-Eu peguei das suas coisas. Acho que você não se lembra, mas você tinha levado uma máquina fotográfica para a Groenlândia, certo? E saiu tirando fotos por aí? Acho que em determinado momento Inverno acabou se apossando dela sem saber e... Aqui está ela de novo. Veja o que tem dentro depois, ouviu? Vale a pena. Acho que já devemos ir embora, está ficando frio.
-Mas... E... E o Inverno? O meu Inverno?-Sirius perguntou, segurando a máquina digital ainda em bom estado nas suas mãos, sem exatamente compreender.
Primavera voltou a sorrir, mas de um modo tão mais amável que era capaz de acalmar uma multidão enfurecida.
-Por que você não tenta descobrir por si mesmo? Pode ser que ele ainda esteja por aí, pode ser que não. Pode ser que esteja vivo, pode ser que não. Ele deixou de ser “Inverno”, mas o que ele teria se tornado? Eu não sei, ninguém sabe. Descubra. Você sabe por onde começar.
E dizendo assim, Primavera se afastou, indo em direção dos seus irmãos e desaparecendo tão rápido quanto apareceu, Verão lambendo os lábios de forma sugestiva e Outono mexendo nas próprias mãos timidamente. Sumiram, como desfeitos no ar.
E Sirius levou quase 10 minutos para entender o que tinha acontecido.
E levou mais 15 minutos para entrar no carro e dirigir de volta para casa, sem realmente prestar atenção no trânsito, mais submerso em pensamentos do que atento. Como? O que Primavera quisera dizer com aquilo? Inverno poderia estar vivo? Sirius sentiu o coração palpitar quando deu um freio tão brusco que o sinto de segurança acionado quase lhe machucou, mas nem daquela forma ele sentia raiva. Na verdade, naquele instante, naquele segundo, a única coisa que sentia era uma sensação de confusão enorme.
E se Inverno estivesse vivo? Mas e se não fosse mais o Inverno que conhecia? Ou ele estava morto mesmo? Por que tudo aquilo não podia ser um pouco mais simples?! Xingou alto, permitindo-se perder o controle por enquanto pois toda aquela carga emocional não poderia ser carregada sem extravasar um pouco.
E se Inverno estivesse vivo, mas não quisesse ver Sirius? Afinal, Sirius praticamente o matara. E contara a verdade para os outros cientistas e que outra explicação o homem tomaria senão essa? Se a estação estava viva, então por que não viera procurar por Sirius?
Quando adentrou o apartamento, Sirius estava perdido. Não sabia o que fazer, não sabia se deixava tudo para lá, se continuava sua vida, ou se deixava-se levar por tudo aquilo e ia atrás de descobrir se Inverno estava vivo ou não. Ir ou não ir para a Groenlândia? Era por lá que provavelmente iria começar, e parecia estar no rumo certo, caso começasse.
Mas e enquanto a deixar tudo para trás? Seu escritório não sobreviveria por muito tempo sem seu patrão, e rumores da sua ausência para uma súbita viagem à Groenlândia poderiam ter consequências desastrosas para sua carreira.
Levou uma das mãos até a cabeça, massageando as têmporas, tentando pensar, mas aquela raiva que sempre tivera quando mais jovem estava voltando. Era sua forma de lidar com os problemas, ficando com raiva, sobrevivendo à pressão, mas depois de anos finalmente conseguira controlar aquela raiva e aquele mau comportamento, mas agora... Agora ela estava voltando e parecia incontrolável.
Porque não era uma simples questão, era a questão de que a pessoa mais importante que já tivera em sua vida poder estar viva.
Viva, respirando, podendo ser tocada novamente, podendo fazer com que sua voz fosse ouvida novamente, podendo ser vista novamente, tudo.
Sirius jogou suas coisas sobre a mesa e pegou a máquina fotográfica. Apesar do bom estado, o display estava quebrado, então não poderia ver as fotos normalmente. Conectou a máquina ao computador e as pastas logo se abriram, o humor melhorando um pouco ao lembrar que na época aquela máquina tinha sido caríssima por sua alta tecnologia, mas que agora poderia até ir para um museu de tão ultrapassada.
Fez com que as fotos fossem impressas enquanto se levantava e ia até a cozinha tomar alguma coisa, uma dose de uísque, mais exatamente, evitando ainda ver que tipo de fotos teriam ali. Mas não por muito tempo, pois logo um bipe soou, avisando que tudo já havia sido impresso.
Sirius se aproximou da mesa do computador e tomou as fotos em mãos, sem saber o que sentir. As primeiras fotos eram de paisagens de neve, as primeiras que tirara quando chegara na Groenlândia. Então havia algumas outras fotos randômicas e, depois de umas 30, a primeira com algo diferencial: Era ele dormindo no que pareciam ser os Domínios do Inverno.
Se Sirius estava dormindo naquela foto, então Inverno tinha pegado sua câmera e se apossado dela, e deveria ter sido por mais de uma vez, pois as próximas 10 fotos eram praticamente iguais: Sirius adormecido em diferentes ocasiões. Como nunca notara que o outro tirava fotos suas enquanto dormia, não sabia, mas naquele momento um sorriso terno se espalhou em seus lábios.
E se espalhou mais ainda quando viu uma das últimas fotos: Um Inverno sentado com as costas apoiadas numa das árvores de cristal, olhando para cima, para a câmera, e com a cabeça deitada em seu ombro esquerdo, adormecido, um jovem Sirius. Inverno não sorria, mas também não demonstrava nenhum sentimento negativo. Seu braço direito estava erguido, então ele devia, na hora, ter aproveitado o momento de fraqueza do humano para tirar aquela foto.
A próxima e última foto estava bastante tremida, mas ainda era possível ver o que se passava. O ângulo mostrava a neve embaixo, como se a máquina, na hora, tivesse caído no chão, e um pouco mais adiante, um corpo com longos cabelos brancos curvado para frente, as mãos sujas de algo negro.
Sirius estreitou o olhar. Sangue negro. Inverno já deveria estar sentindo os efeitos de estar, literalmente, derretendo por dentro. Antes que começasse a ficar realmente triste com aquela foto, voltou à penúltima, a única que tinha eles dois juntos.
E viu-se querendo muito ver Inverno mais uma vez, quer ele continuasse estação ou não, quer ele tivesse a mesma aparência ou não. Ele apenas queria vê-lo e senti-lo mais uma vez.
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-Então... Você está mesmo indo?-Emily perguntou, seu vestido um tanto mais longo para o frio escondendo parte de suas formas.
-Preciso ir. Mas eu volto, se não houver nada que me prenda lá.-Sirius respondeu, sorrindo.
-Então... Me liga, entendeu? E sobre o divórcio...
-Fique tudo para você. A única coisa que quero são os pertences do escritório e da sala de estudos, apenas isso. E um lugar para passar a noite caso eu volte.
-Você será meu ex-marido, não será um completo estranho. Ainda vai continuar meu amigo também.-Ela sorriu, os lábios vermelhos fazendo contraste com a pele de marfim.
-Que bom saber. Preciso ir.-Disse enquanto ouvia o último aviso para os passageiros irem até o portão de embarque.-Arranje um bom homem, entendeu? Nada de gangsteres dessa vez... Nem mafiosos. Nem traficantes.
-Só por que você não vai mais estar aqui para cuidar de mim?-Ela voltou a sorrir.
-Por isso mesmo, e eu sei o quanto você gosta desses homens metidos à machões.
-Foi por isso que você me chamou atenção.
-Vá se ferrar!-Ele disse, mas apesar das palavras, riu, bem humorado. Era como deixar uma irmã para trás.-Até depois, Emily.
E dando-lhe um beijo na testa, partiu, tomando um avião com apenas um destino longo e um tanto perigoso por causa do clima: A Groenlândia.
Notas finais
Mas enfiem, esse chap vai pra @tuitodafujoshi porque eu adoro os cometários dela no tuits é isso aí ♥
E BEM... Vejamos, tentem não me matar depois dessa, e OLHA EU ATÉ FIZ O PRIMAVERA/VERÃO/OUTONO APARECEREM VIU! Hmpf 'mas tia sufia, se o inverno morreu, a terra passou 14 anos sem inverno?' não, na verdade, sem o Inverno, as coisas ficaram fora de controle, como altas mudanças de temperatura bruscas, nevascas além do comum, coisas fora de controle, porque o Inverno só serviria para controlar esse tipo de coisa. Quem será o novo Inverno? Alguém quer saber? Não, é claro que não, queremos o antigo, é isso aí, bem, veremos se o antigo inverno vai aparecer ou não, depende do próximo chap.
ENFIEM, REVIEWS??? Quero bem muitas reviews pra eu me sentir inspirara pro próximo chap, siem? SIEM. TÉ MAIS ♥33
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