Coração De Gelo
9 Epílogo Parte Dois: Final.
Notas iniciais
“-Ei, Inverno, por que tem essas estrelas que ficam piscando, hein? São ETs?-Sirius perguntou, apontando para o céu, ambos deitados sobre a neve, um ao lado do outro, iluminados somente pela luz da lua que preenchia aquela clareira rodeada por árvores de cristal.
-Eu cuido do frio, não dos céus, Sirius. -Inverno respondeu apenas, também olhando para as estrelas.
-Você não precisa ser ignorante, seu filho da puta.
-Desculpe, eu apenas devolvo o que recebo.
-Hmpf!-Sirius bufou, irritado, sentando-se e olhando para a estação ao seu lado, os cabelos brancos perdidos na neve em que estavam deitados.
-Por que está me olhando?
-Você é muito irritante, caralho.
-E você não tem bons modos. Nem educação.
-Aliás, você pegou minha máquina, não pegou?! Ela não estava na minha bolsa quando voltei para a Base!
-Você deve tê-la perdido por aí.
-Hmpf, cabeça de picolé!
-De repente isso soou mais ofensivo do que qualquer um dos seus palavrões. Vamos, diga mais, quero ver até onde seu cérebro mínimo chega para elaborar uma boa ofensa.
-Isso é só porque você quer ouvir minha voz!
-Pode ser.
-E só porque você me traz para cá todos os dias!
-Pode ser.
-E porque você não conseguiria viver sem mim também!
-Pode ser, também.-Inverno se sentou, dando de ombros, olhando o rapaz ao seu lado com os profundos olhos azuis escuros.-Não tenho como lhe afirmar, mas também não nego. Você já sabe que necessito de você, embora ainda relute em dormir comigo, o que não passa de um medo infundado.
-Ei...!
-E porque eu necessito de você, eu espero sem reclamar. É importante demais para que eu o perca por impaciência minha. O que são dias diante de centenas de anos? Nada. Você...-Inverno estendeu uma das mãos então, mas esta ficou parada, imóvel, no ar, sem tocar nada.-Não, não é nada. Voltemos a ver as estrelas antes que amanheça.
-Não, espera, o que você ia dizer?
-Nada.
-Não, pode dizer agora! Eu quero saber! Você TEM que me contar!
-Você irá carregar um peso demasiado grande nas costas se eu terminar a frase. Não quero que carregue o peso que eu posso, sozinho, carregar. Sou forte o bastante para querer que você ande com as costas eretas e não curvadas como as minhas. Apenas isso.
-Termine logo a frase, porra!
Inverno suspirou, mexendo nos cabelos, ambas as mãos sobre a neve.
-Você não era o tipo de pessoa que eu esperava, nem de longe. É tão cheio de defeitos, e ainda assim, eu o estimo tanto que chega a ser vergonhoso. Não entendo como eu poderia sentir qualquer coisa por algo ou alguém tão terrivelmente imperfeito como você, e sou fraco por isso. Porém, eu acabo arcando com essa fraqueza como se ela fosse um problema bastante pequeno.
-Fale numa língua que eu conheça, idiota.
-Eu gosto de você quando eu não deveria gostar, e não me importo com isso quando eu deveria me importar, e falo isso quando eu nem deveria falar, visto que está explícito que você não sente o mesmo. Não o culpo, apesar de tudo.
-Eu...
-Vá embora. Está ficando escuro e a temperatura irá abaixar.
-Você não vai me deixar terminar de falar...!
-Vá. Apenas vá. Amanhã nos veremos novamente.
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Sirius acordou de um susto, como se tivesse acabado de ter um pesadelo. As memórias às vezes se misturavam aos sonhos. No avião, os demais passageiros dormiam e lá fora estava tudo escuro, noite, cada vez mais próximos do lugar gelado que era a Groenlândia.
Voltou a se acomodar direito na poltrona, olhando pela janelinha aberta, vendo as estrelas quando as nuvens não as tapavam.
Ele nunca chegara a dizer ao Inverno que o amava também. Em todas as ocasiões possíveis, ele jamais disse “eu te amo também”, nem mesmo quando Inverno estava morrendo, nem depois, nem que fosse apenas para si. Nunca.
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-Onde mesmo o senhor quer ir? — Perguntou um dos residentes daquela área a um Sirius que carregava uma pequena mala consigo e se esforçava para falar o idioma da região, um dinamarquês mais rebuscado.
-Para a antiga base de pesquisa que ficava a norte daqui.-Respondeu ao homem a sua frente, este sendo velho, baixo, os cabelos grisalhos sendo balançados constantemente pelo vento frio. O sol, apesar de presente, em quase nada parecia elevar a temperatura.
-Ah, aquela dos jornais? Uns repórteres vieram aqui quando tudo aquilo aconteceu, quando eu ainda era jovem!-O homem riu, estufando a proeminente barriga, ainda maior por causa dos quilos de roupas que vestia para se proteger do frio.-Eu não iria conseguir lhe levar lá, mas conheço alguém que pode. Ele tem uns daqueles snowcycles¹ antigos que não vendem mais, sabe? Nem sei onde ele os comprou, mas as belezinhas funcionam como novas! Diferente das fabricadas hoje, claro, enfim, fica no fim da cidade. Para aquele lado ali.
O homem então apontou a direção. Sirius agradeceu e, levando sua pequena mala consigo, seguiu naquela direção. Depois de chegar na Groenlândia, por alguns momentos se sentira perdido. O que fazer? Por onde começar? Então uma ideia óbvia veio até sua cabeça: Ir até onde tudo começou, ou seja, a Base.
Avançou no gelo, os pés afundando enquanto se aproximava da última casa daquela pequena cidade, cães presos por correntes latindo sem parar, aqueles huskies que puxavam trenós. Sirius bateu na porta de madeira várias vezes, mas parecia haver ninguém ali dentro, a ausência de resposta.
Voltou a bater, até que a porta se escancarou, revelando uma casa pequena, sem muitos móveis e totalmente vazia, além de fria. O sol já começava a se por. Onde estaria o dono daquele lugar? Suspirou e olhou em volta, vendo que ao lado da casa havia um pequeno armazém aberto com quatro ou cinco snowcycles antigos.
Se aproximou dos veículos então, deixando sua mala ali do lado enquanto subia num dos mesmos. Não deveria ser difícil de pilotá-los, deveria? Eram bastante parecidos com motos normais até, e o medidor de gasolina estava cheio. Não iria muito longe e voltaria ainda naquele dia, então, bem, por que não tomar uma delas emprestada por algumas horas? Poderia pagar quando voltar, e como garantia, até deixaria sua mala ali.
E como se aquilo não fosse roubo, claro, Sirius (como se revivesse os tempos de adolescência rebelde), tirou a snowcycle de dentro do pequeno armazém e tomou o caminho até a Base.
Não demorou a ver a construção no horizonte branco embora o céu ficasse cada vez mais escuro. O lugar estava praticamente horrível, com alguns buracos no teto e com montes de neve em todo o seu redor, falta de alguém que cuidasse dali. Se aproximou da entrada, mas é claro que esta estava trancada.
Olhou em volta, procurando uma forma de entrar.
-Quem sabe se...-E sorriu, revivendo os vários anos anteriores, a nostalgia preenchendo toda sua mente enquanto, subindo num monte de neve colado à parede da Base, conseguiu se içar para cima para subir no telhado da mesma, procurando pelo alçapão que Inverno geralmente usava para entrar e sair do seu quarto sem ser visto, mas ali, tudo estava completamente coberto por montes e montes de neve.
O sol acima de si já começava a se pôr.
Suspirou, mexendo nos cabelos, sem saber exatamente o que fazer. Não havia forma de entrar na Base, e aquele era seu ponto de partida. Sem ele, por onde começar? Estava voltando para o monte de neve que usou como escada quando viu uma silhueta se aproximando ao longe, cada vez mais próxima.
Por acaso, vestia branco, tanto que quase se misturava à paisagem.
Sirius prendeu a respiração. Tinha cabelos brancos também, não longos, mas certamente brancos. Pulou do teto da Base caindo ruidosamente na neve, correndo até aquela silhueta que avançava mais e mais passos, a respiração rápida, o coração batendo mais rápido ainda enquanto se agarrava com força à maior de todas as suas esperanças.
Seria ele ali? Inverno? Seu Inverno?
Parou numa distância de dois metros daquela pessoa, estreitando o olhar, mas estava ficando cada vez mais escuro e ficava difícil discernir os detalhes.
-Você busca a chave para aquele lugar?-Perguntou, apontando para a Base atrás de Sirius, e o sorriso que tinha começado a se formar no rosto do então homem sumiu. Claro que aquele não era o seu Inverno, seu Inverno estava morto.
Claro que tinha sido tudo uma busca vã e que desde o começo o não-mais-rapaz sabia que não iria encontrar ali o que procurava. Porque aquele a sua frente não tinha os longos cabelos brancos, não tinha os frios olhos azuis escuros como mares congelados, não tinha a mesma altura, o porte imponente, as roupas largas que se moviam conforme o vento e tampouco rosto semelhante.
E claro, também não tinha a mesma voz.
-Sim... Você seria...-Sirius começou, fitando o outro a sua frente.
-Creio que você já saiba.
-Inverno? O novo?
-Sim.-O outro respondeu, a frieza, indiferença, em todas as frases. Um puro Inverno sem ainda estar corrompido pelo calor humano.
-Sou Sirius.-Disse o homem então, as mãos indo em direção aos bolsos para ficar ali, um tanto nervoso. Aquele diante de si não era alto, na verdade, mais se parecia com uma criança de 12 ou 13 anos. Os cabelos brancos, curtos, e as roupas, também brancas, um short e uma camisa por debaixo de um sobretudo que cobria toda suas costas e laterais. Mas os olhos... Talvez conseguissem ser mais frios do que os do seu Inverno. Um azul e outro totalmente branco, um branco gelo, quem sabe um branco pendendo para um azul bem claro. Assustava, de certa forma, ver uma “criança” com uma expressão tão fria quanto...
Tão fria quanto a morte.
-Você matou o último Inverno.-O menor disse, fitando o homem a sua frente com descaso ainda.
-Eu... Acho que sim.-Sirius deu um sorriso triste, as mãos se fechando dentro dos bolsos enquanto fitava o outro.
-Ele se apaixonou por você?
-Eu... Também acho que sim.
-Ele morreu por você. Como pode “achar” e não “ter certeza” disso?-A estação perguntou, estreitando o olhar.
-Porque eu só tenho certeza das coisas que eu sinto. O que ele sentia era completamente incerto para mim.
-Vocês humanos são todos incompetentes e irresponsáveis. Impossíveis.-Resmungou a estação mais nova, franzindo o cenho, fechando as mãos em punho. Parecia estar irritada, mas não dava realmente para saber porque seu olhar jamais deixava o indiferente.
-Posso perguntar por que veio até aqui?-Sirius perguntou, querendo mudar de assunto de uma vez, parar de cutucar a ferida.
-Para ver quem estaria adentrando meus domínios.
-Seus domínios?
-Esta Base agora faz parte dos meus domínios. Os domínios do antigo Inverno desapareceram do mapa, assim como ele próprio. Por que você quer entrar em meus domínios, humano? Responda a pergunta. Já faço muito fazendo com que me veja.
-Eu vim... Procurar por pistas.-Respondeu, sorrindo de leve. É aquele moleque até que se parecia com seu Inverno em alguns aspectos. Mas só em alguns. Lembrava de quão frio fora seu Inverno quando se conheceram.
-Pistas? Que pistas?
-Você não entenderia...
-Não, certamente que não. Vocês humanos são todos complicados demais, e fazem tempestades num copo d'água.-Disse a estação, passando pelo então homem e indo até a porta da Base, abrindo-a apenas com um leve empurrão, como se nem mesmo estivesse trancada. Se virou para Sirius então.-Se quiser entrar, entre. Mas ao sair, feche esta porta.
-O senhor que manda.-Sirius sorriu, seguindo o outro, adentrando a Base.
O lugar por dentro estava escuro, frio e abafado. Nada de animais, ao menos, como insetos, e nada vivo também. O jovem Inverno rapidamente sumiu nos vários corredores do lugar, e quem sabe por educação, ligou a força geral e todas as luzes rapidamente se acenderam. Logo, a aparente criança estava com as costas apoiadas na parede, o rosto sempre indiferente.
-Agora que as luzes estão acesas, você pode fazer o que quiser e então ir embora.-Ele disse, cruzando os braços.
-Ah, sim. Obrigado.
-Não agradeça, apenas faça o que precisa e vá.
Sirius sorriu, voltando a ver o jeito do seu Inverno naquela “criança”, adentrando os corredores e, se sua memória não falhasse, estava indo na direção de seu antigo quarto. Ver um lugar que lhe trouxe tantas lembranças num estado tão morto... machucava seu coração, mas ao mesmo tempo lhe alegrava. Pelo menos o lugar ainda estava de pé.
No meio do corredor, ele viu a porta, imediatamente identificando com a sua. Pressionou a maçaneta, mas ela não abriu. Sorriu. “Ah, claro... Eles me trancaram por dentro da última vez. Não consegui sair... Todas as minhas coisas ficaram neste quarto ainda”. Ergueu o olhar, batendo na porta de leve, recuando alguns passos e dando um forte chute no meio da mesma, esta rapidamente cedendo e caindo dentro do cômodo.
O quarto estava abafado, escuro provavelmente porque a luz tinha quebrado ou ficado velha demais. Sirius pegou o celular e usou a luz do visor como lanterna, encontrando a cama, sua mochila ainda ali, algumas embalagens de chocolate. Sorriu, a nostalgia batendo sem parar em sua mente.
Adentrou o quarto e se agachou, pegando a bolsa, seu antigo notebook dentro dela assim como outros pertences que checaria mais tarde. No teto, o alçapão, visível, estava fechado. Os lençóis na cama ainda estavam desarrumados, e roupas estavam jogadas no chão, como se tudo aquilo tivesse acontecido há alguns dias e não há 14 anos.
Suspirou, se aproximando mais da cama, pegando um dos lençóis. Claramente não estavam quentes e nem mais tinham o costumeiro cheiro que os humanos sempre deixavam para trás. Não, estavam frios, frios como seu Inverno costumava a ser.
Levou os lençóis até o rosto, tocando-os com os lábios. Lembrar que ele e Inverno fizeram tantas coisas ali... E que, claro, poderiam ter feito mais, era tão... Chegava a ser doloroso, voltar a vasculhar aquelas memórias, porque antes Inverno estivera tão enterrado em sua mente, tão distante... Se pôs de pé então, saindo do quarto, levando seus pertences consigo.
Não havia indícios do seu Inverno ali, então procuraria outro lugar. Isso ou então começaria a chorar.
-Não encontrou o que procura?-Ouviu uma voz atrás de si, encontrando o jovem Inverno com um ar entediado.
-Não, não encontrei.-Sirius respondeu, caminhando pelos corredores da Base, sabendo que o outro estava lhe seguindo.
-E por que não desiste? É uma busca infundada, ao que parece.
-Porque não quero voltar para casa de mãos vazias.
-Mas você sabia que não ia encontrar nada quando veio aqui. Você está procurando por ele, não está? Você sabe que ele está morto, que você nunca mais irá vê-lo na vida, e mesmo assim, você procura por ele. Os humanos são todos masoquistas ou é você que necessita de um pouco mais de inteligência?
Sirius apenas sorriu, as mãos nos bolsos, parando de andar e virando o rosto para trás para fitar o pequeno Inverno atrás de si.
-Quando uma coisa quebra, o que você faz?-Perguntou.
-Eu a jogo fora.-Inverno respondeu.
-Pois eu não. Eu a conserto. Procuro todos os meios possíveis antes de finalmente aceitar que é um caso sem solução. É isto que estou fazendo aqui, procurando por todos os meios possíveis.-E então o homem voltou a andar, e quando voltou a olhar para trás novamente, o jovem Inverno não estava mais ali.
Sirius procurou em toda a Base. Vasculhou todos os quartos, os cantos, os banheiros, o refeitório, tudo, até aquela área que servia como laboratório de pesquisa, onde tinham prendido seu Inverno naquela vez, quando ele estava quase morrendo. Aquele lugar lhe causava arrepios.
Estava muito escuro quando o então homem deixou a Base, olhando em volta do lado de fora, apenas neve e escuridão. Quem sabe fosse perigoso voltar para a cidade mais próxima naquela hora da noite, mas pior ainda seria passar a noite ali. Ou então devesse ir até onde os antigos domínios do seu Inverno ficavam, mas como o jovem Inverno dissera, tinham desaparecido do mapa.
Suspirou, novamente, sem saber o que fazer. Sempre soube que desde o começo aquela viagem tinha sido uma perda de tempo. Inverno estava morto, fim de papo, não tinha mais para onde correr, e mesmo que Sirius tivesse se agarrado à mais tola esperança, agora ele sabia que o outro realmente tinha partido para algum lugar sem ele.
Que aquela necessidade de checar se o seu Inverno estava vivo, que aquele sentimento de que ele ainda estava vivo, de todas aquelas coisas, não passavam de sua imaginação.
Foi em direção da snowcycle, voltando a encontrar uma silhueta baixa ao lado do transporte. O jovem Inverno, dessa vez com as mãos caídas ao lado do corpo e a cabeça pendendo para uma das laterais.
-Você já vai embora?-Ele perguntou, cruzando os braços.
-Sim. Não encontrei nada, então... Vou deixar você em paz.-Sirius respondeu, aproximando-se da snowcycle e se sentando na mesma, o outro se afastando para lhe dar espaço.
-Primavera tinha razão sobre você. Você atrai as coisas, de uma forma tanto boa quanto ruim. Ele tinha me alertado para que eu me mantivesse longe de você senão eu também seria atraído.
-Ele disse isso sobre mim?-Sirius sorriu, colocando os óculos protetores e ligando os faróis do transporte.-Nossa, o que sou dentro do grupinho de vocês? Um astro? Não param de rolar fofocas sobre mim, hã?
-Ele disse que você é bom ator também. Está triste, mas está sorrindo. Você queria encontrar o antigo Inverno aqui, mas não conseguiu. Vai voltar para casa de mãos vazias, mas vai trabalhar no dia seguinte porque a vida continua, mesmo que você queira pará-la.
Sirius apenas deu um sorriso triste. Ele não podia negar nenhuma daquelas palavras.
-Você quer ficar? Aqui o tempo vai parecer ter parado. Ninguém irá sentir sua falta lá fora. Se quiser ficar, eu lhe abro os braços.-O jovem Inverno disse então, sem sorrir, sem pestanejar, sem hesitar, nada. Nunca, nenhum sentimento.
-Eu agradeço a oferta, mas a dor que o tempo me impõe é uma dor que eu necessito carregar, porque foi a última coisa que Inverno me deixou.-O homem voltou a sorrir, triste, levando uma das mãos ao rosto do jovem Inverno que até tentou se afastar, mas parou.-A minha dor dói, mas ela também me lembra o porquê de doer, e se dói, foi porque um dia essa dor foi amor. Muito amor.
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“-O que é isso?-Inverno perguntou, sentando-se ao lado do então rapaz Sirius, este mexendo no notebook, digitando alguma coisa.
-É um notebook...
-E para que serve?
-Ah, sei lá, cara, para muitas coisas...
-E o que você está fazendo?
-Digitando uns negócios... Quer fazer o favor de sair de cima de mim?
-Eu lhe incomodo?
-Sim, merda.
-Perdoe-me, não era minha intenção.-A estação disse, levantando-se e saindo de perto do outro, parando do outro lado do quarto de Sirius, os braços cruzados, a expressão novamente fria, os longos cabelos soltos nas costas.
Sirius ergueu o olhar, fitando a estação enquanto exibia uma cara de irritação, bufando de leve. Era apenas um dia comum aquele, provavelmente entre o segundo e o terceiro mês de inverno na Groenlândia. A estação do frio vinha lhe visitar todo final de tarde e só saía ao amanhecer, o que deixava Sirius um tanto cansado por sempre ter que dar atenção ao outro. Embora, às vezes, o rapaz pegasse no sono.
-Okay, merda, você pode voltar... É só não ficar em cima de mim, porra.
-Não, eu lhe incomodo.
-Não incomoda...
-O quê?-Inverno ergueu a cabeça para fitar o rapaz, que neste momento estava massageando as têmporas.
-NÃO INCOMODA, PORRA! AGORA VEM E SENTA AQUI!-O rapaz exclamou de repente então, quase jogando o notebook no ar, mas segurando-o bem na hora. Inverno, que tinha um leve repuxo no lado direito dos lábios, o começo de um sorriso, voltou a se aproximar então, sentando ao lado do outro na cama, as costas apoiadas na parede.-Pronto, agora fique calado aí, merda.
Mas a estação estendeu ambos os braços, segurando o rosto do rapaz entre as mãos e virando-o para si, olhando profundamente em seus olhos. Sirius sentiu o coração acelerar, e Inverno claramente podia sentir a temperatura na área do rosto aumentando por causa da maior circulação de sangue, ou seja, ele estava corando.
-Está com olheiras. Precisa dormir.-Inverno disse, ainda sem soltar o rosto do rapaz.
-Me solte, seu filho da mãe!
-Não, você precisa dormir. Solte essa... Coisa no seu colo e vá dormir.
-Uma porra que você vai mandar em mim agora! Quem é você, meu pai?! Que merda, cara, me solta!
Mas antes que o adolescente pudesse reclamar mais, Inverno lhe puxou com força. O notebook caiu no chão, mas felizmente caiu sobre uma pilha de roupas sujas de Sirius, então não quebrou nem arranhou. Inverno ainda segurava Sirius com força, os braços da estação lhe rodeando mesmo que esse usasse todas as suas forças para se soltar.
-Porra, cara...!
-Não irei lhe soltar. Durma.
-Não é tão simples assim dormir com alguém lhe sufocando!
-Não estou lhe sufocando, suas vias respiratórias estão perfeitamente desobstruídas. Não seja dramático.
-Porra, I-Inverno...!
-Se você prometer ficar quieto, eu lhe solto.
-Uma ova!
-Então não.
-Seu...! Grrr! Okay, seu maldito filho da puta, okay!-Sirius exclamou, parando de se mexer. Na posição que estava, deitado sobre o colo do Inverno, de peito para cima, este subindo e descendo de forma acelerada, conseguia olhar bem fundo nos olhos da estação que, por incrível que parecesse, exibia outro muito pequeno sorriso. Inverno tinha lhe soltado, embora suas mãos ainda segurassem os pulsos do rapaz em ambos os lados do corpo.
-Durma.
-Não.
-Durma, Sirius.
-Não, Inverno.
-Pois que seja.-A estação disse, olhando nos olhos do rapaz. Inverno sabia bem que Sirius estava cansado, e sabia também que o rapaz uma hora ou outra pegaria no sono, então era apenas questão de tempo até ele perder naquela brincadeira de “quem encara por mais tempo” na qual brincavam naquele momento.
E certamente, passaram-se apenas alguns minutos até que o rapaz de cabelos negros pegasse no sono, sem conseguir manter mais os olhos abertos. Se ele ainda estivesse acordado, poderia ter sentido Inverno mover as mãos, soltar seus pulsos e começar a brincar com seus cabelos.
Porque nenhum deles jamais falaria o quão especial, o quão importante, eram um para o outro, principalmente Sirius. Mas Inverno sabia que apesar dos pesares, o humano lhe queria por perto, então contentava-se em brincar com seus cabelos, vez ou outra passando o polegar por sua bochecha, cílios e então, lábios.”
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Sirius voltou para a cidade em silêncio, com frio e até com um pouco de fome, e além de tudo isso, com o coração pesado também. Não era justo, mas ele não podia fazer nada. O jovem Inverno lhe fizera uma proposta e ele a recusara, e não é que quisesse deixar aquela “criança” sozinha, é só que... Ele não aguentava mais aquele lugar.
Estava, até aquele momento, segurando com todas as forças a própria fachada de “ainda está tudo bem”, mas não, droga, não está tudo bem. A busca fora infundada e agora o empresário queria desabar a chorar, sozinho em algum beco escuro porque ainda tinha o maldito orgulho dos velhos tempos, então jamais sairia procurando por um ombro para chorar.
O fato foi que ao voltar a cidade, descobriu que a única pousada que havia por ali pertencia ao mesmo homem com quem falara mais cedo, aquele velho que lhe dissera onde tinham snowcycles para alugar.
Desceu do veículo levando seus pertences consigo e fez menção de abrir a porta da pousada, claramente querendo voltar para casa ainda naquela noite, mas os voos só começariam na tarde do dia seguinte, então só lhe restava esperar.
-Oh, aí está ele! Por onde você andou?! Wolly estava procurando por você!-O velho, dono da pousada, exclamou ao ver Sirius na soleira da porta.
-Quem?
-Wolly! O dono da belezinha que você pegou “emprestado”. Ele estava furioso quando veio aqui! Disse que você não passa de um sacana e ladrão, que só porque veio de fora, acha que é melhor do que todos nós! E disse que vai mandar o filho atrás de você senão devolver até a meia noite!
Sirius suspirou, fitando o velho.
-Porque não disse a ele que eu estaria de volta em breve?
-Sabe como é... Esse lugar aqui é bem calmo, então não é todo dia que temos uma briga.-O velho sorriu, um dos dentes faltando na boca e os demais, amarelados.-Mas de qualquer forma, Wolly disse que tem uma mala lá, ele diz que é sua porque não é de mais ninguém. Se eu fosse você, não demoraria em devolver o que é dele.
-Hmpf.-E o empresário voltou a sair da pousada, caminhando até a Snowcycle e a empurrando até a suposta casa de Wolly, não muito distante, sem querer usá-la para poupar o mínimo de gasolina que fosse.
É claro que todo o universo tinha que estar contra si, e mesmo que estivesse a ponto de desabar, a vida sempre colocava um pouco mais de peso nas suas costas. Agora teria que levar um esporro inútil de um homem obviamente irritado, e Sirius não poderia falar nada porque sabia que tinha errado.
Embora ele quisesse partir para a briga como nos velhos tempos, liberar todo aquele aperto no peito.
Pelo menos a raiva afastava a dor. Um pouco.
Depois que empurrou a snowcycle até lá, voltou a bater na porta de horas antes, com frio, os veios da madeira quase brilhando contra a lâmpada acesa sobre a porta. Sem resposta, bateu novamente e mais uma vez, e bufou, irritado. Quem sabe Wolly tivesse saído justamente para procurar pelo louco que roubou sua snowcycle.
Sirius suspirou, mexendo nos cabelos com as mãos enluvadas, querendo ir embora daquele lugar. Gritou pelo nome de Wolly mas não havia ninguém ali, não deveria haver, e até voltou a bater na porta mas ninguém respondeu. Novamente suspirando, levou a snowcycle até o mesmo lugar que a tinha encontrado horas mais cedo, encontrando também sua mala ali.
-Pelo menos não mexeram nela...-Murmurou, abrindo a mesma para checar se estava tudo ali, mas é claro que estava. Deixou uma boa quantia de dinheiro sobre o assento do veículo e deixou o lugar, voltando para a pousada.
Teria ido direto para seu quarto se o dono do lugar, aquele velho de antes, não o tivesse parado bem na entrada.
-Ah, aí está você! O filho de Wolly acabou de sair, uma pena que você não o viu.-Ele disse, os braços apoiados na bancada.
-Deixei dinheiro com a snowcycle... Se ele vier perguntar, diga isso a ele, por favor.-Sirius disse, caminhando em direção das escadas, mas novamente parado.
-O filho de Wolly... Como é o nome dele mesmo? Ah é, é um nome bem engraçado... O moleque é estranho, meio caladão, sabe? E vive tendo uns pesadelos, e todo mundo sabe disso porque conseguimos ouvir ele gritar. Aqui a noite é bem silencioso então conseguimos ouvir qualquer coisa sem fazer esforço. Claro que gostamos dele, mas lembro como se fosse hoje quando o encontraram no meio do gelo, a uns quilômetros daqui, 14 anos atrás. Ele tinha uns 4 anos na época, e Wolly o pegou para cuidar. Ele é um bom rapaz, o moleque.
-Ah, sim, sim, bom saber...-Sirius comentou, voltando a tomar o caminho até a escada, apenas fingindo que estava ouvindo o homem detrás do balcão.
-Pois é, e ele é todo engraçado, com os cabelos brancos e olhos bem azuis... Acho que ele é albino, algo assim.-O homem deu de ombros.-Oh, queira me desculpar, você deve estar cansado. Pode subir, seu quarto está preparado.
-Obrigado.-Sirius agradeceu, subindo então, arrastando a mala consigo.
No dia seguinte voltaria para casa, voltaria a trabalhar, e, ah sim, Emilly não estaria mais em casa para lhe fazer café nas horas vagas. Uma pena, quem sabe contratasse uma empregada ou comprasse um cachorro para lhe fazer companhia, algo assim. Ou então...
Então...
-O QUÊ?!-Sirius desceu a escadas correndo, a mala sendo jogada em algum lugar enquanto ele subia em cima do balcão e puxava o dono da pousada pelo colarinho.-QUEM FOI ENCONTRADO NO GELO? QUEM? ME DIGA, VELHO, SENÃO EU JURO QUE PARTO ESSA SUA CARA EM DUAS!
E lá estava o velho Sirius novamente, a face irritada, as sobrancelhas franzidas, os punhos prontos para serem usados. Mas é que era tanta coisa, tantas emoções ao mesmo tempo, tudo tão pesado e tão urgente que ele simplesmente perdia o controle.
-E-Eu estava falando d-do filho do Wolly...!-O homem exclamou, assustado, quase sem respirar direito.
-Onde?! ONDE?!
-Ele -ora com o Wolly, claro! D-Deve estar indo para casa, agora! A-acabou de sair daqui, lembra?!
Sirius soltou o homem então, saindo porta afora da pousada e encontrando nada mais do que gelo e o que deveria ser uma rua naquela cidade pequena e tão silenciosa quanto a morte. As poucas luzes que estavam acesas pertenciam às casas nas proximidades, e estreitando o olhar, bem distante, Sirius conseguiu ver um vulto caminhando para longe dali.
Começou a correr, desesperado, voltando a ter esperanças, aquela coisa pequena que nascia no seu interior, primeiro fraca para depois ser a maior fonte das suas forças, fazendo-o correr cada vez mais rápido, algumas vezes escorregando na neve, no gelo, mas então imediatamente se levantando porque não haveria nada que o pudesse lhe segurar agora.
E o vulto se tornava cada vez mais próximo, com os detalhes escondidos porque estava escuro, mas Sirius corria e corria sem parar, e então, ele o alcançou. Lhe puxou pelo pulso e o virou para si, prendendo a respiração, o coração batendo terrivelmente rápido, “finalmente, finalmente”, ele pensou “finalmente, Inverno...”
Mas não.
Não era ele.
Era um rapaz qualquer, cheio de espinhas no rosto, os cabelos castanhos e olhos esbugalhados. Um capuz lhe protegia do frio, e sua feição era de alguém bastante assustado. Sirius se afastou, engolindo em seco.
Não, é claro que não.
Inverno tinha morrido, pela centésima vez, Inverno estava morto. Morto. Morto. Nunca mais iria voltar, nunca, então deveria ser melhor ele parar de procurá-lo de uma vez por todas porque a única coisa que fazia era se machucar, apenas se machucar.
Dor, sim, aquela que tinha sumido pelos poucos minutos em que a esperança reinou, estava ali novamente, esmagando seu peito com força.
-Me desculpe, eu...-Sirius começou. Achou que ia desabar, os joelhos praticamente sem força.-Achei que você fosse outra pessoa. Me desculpe... Mas você é o filho do Wolly?
-...Ah... Eu... Sou sim...-O rapaz respondeu, bastante hesitante, puxando o pulso de leve para se soltar de Sirius.-Por quê?
Não, não, não, não podia ser...
-Você é filho único? Você tem irmãos? Algum irmão de criação, alguma coisa assim?-Sirius perguntou, sentindo o nó na garganta. Então toda aquela alegria tinha sido para nada? Tudo a toa? Aquela viagem? Ah, mas ele sabia daquilo desde o começo, que nada iria encontrar ali. Segurou nos ombros daquele rapaz com força.-Responda! Por favor, responda, porra!
-Eu... I-Irmãos? Eu...
-Responda!
-Eu... Eu...
Sirius desabou no chão antes que ele respondesse. Ele sabia da resposta, é claro que sabia. O que o dono da pousada dissera deveria ser uma mentira muito parecida com a verdade que Sirius conhecia, mas claramente não era verdade. Ele deveria parar de procurar o que jamais iria encontrar.
Acabou, fim de jogo, ele perdera a coisa mais preciosa da sua vida há muito tempo atrás, e aquela falsa esperança lhe batera com tanta força que ele não tinha fôlego nem para tentar se pôr de pé, nem para tentar fingir que estava tudo bem, nem para manter a compostura. Nada.
Nada.
Não sobrara nada de importante. Família? Que família? Pessoas que se importavam com ele? Quem? Emilly? Não, ela era mais uma conhecida do que amiga. Dinheiro? Trocaria todo dinheiro do mundo por um minuto com seu Inverno. Não, ninguém. Nada.
Não sobrara nada.
-O s-senhor está bem?-O rapaz a sua frente perguntou, vendo o homem curvado sobre si próprio, caído na neve, uma imagem realmente deplorável.
Sirius não conseguiu responder. Não conseguia, não conseguia sequer respirar direito, muito menos raciocinar algo para responder. Toda a dor que conseguira manter enterrada nos recônditos do seu coração agora aflorava, lhe inundava o peito, desde o dia que Inverno morrera, desde o dia que ele dera seu último suspiro. Dor, dor, dor, apenas dor.
Por que ele tinha que sofrer assim? Por que tudo não podia simplesmente acabar de uma vez? Ele não queria mais ter que viver uma vida infeliz, uma vida que jamais lhe traria felicidade, uma vida tão vazia.
-O senhor está bem?-O rapaz voltou a perguntar, pousando uma das mãos sobre o ombro de Sirius, este último continuando imóvel.-Oi? Senhor? Ei, Kält, vem aqui me ajudar! Corre aqui, eu acho que ele tá passando mal!
-O que aconteceu?-Surgiu uma terceira voz ali então, precedida por passos leves que pareciam flutuar na neve, como se já tivessem sido neve. Era uma descrição rebuscada e incerta, mas foi a primeira coisa que surgiu na cabeça de Sirius ao ouvir aqueles passos e então, aquela voz.
Não, não podia ser.
Não pode.
Era impossível.
Não, ele não iria mais ser seduzido por nenhuma falsa esperança, chega, não mais. Não era ele, Inverno tinha morrido, e só porque aquele tal de Kält tinha uma voz bastante parecida, não significava que...
Como? O QUÊ?
Sirius ergueu o rosto imediatamente para fitar aqueles que o encaravam. De um lado, estava o rapaz que confundira, e do outro lado... Sirius começou a sorrir, a sorrir tanto que começou a chorar, e se pôs de pé como se nunca tivesse desabado, e riu como se nunca tivesse chorado, porque aquela era a felicidade que ele sentia naquele momento.
Ele viu o rapaz a sua frente, aquele tão especial, prender a respiração.
Os cabelos eram brancos, como os do Inverno, embora bem mais curtos. Os olhos eram de um lindo azul escuro que, como gostava de pensar, se assemelhavam aos mares congelados. A pele era bastante branca, facilmente marcável quando mordida, ele gostava de pensar. Os lábios eram rachados por causa do frio, e alguns traços do seu rosto deixavam claro que ele não tinha o costume de sorrir. Ele era lindo, majestoso, diferente, exótico, sedutor da forma como Inverno era, só que uma versão aparentemente mais jovem.
Mas o nome.
Fora o nome que lhe dera todas as pistas. Aquele nome, o verdadeiro nome do Inverno, o nome que a estação lhe sussurrara antes de morrer.
Kält Grausamkeit.
Sirius estendeu uma das mãos, tocando o rosto daquele jovem e humano Inverno a sua frente. Sim, era ele, a pele tinha a mesma textura, jamais poderia esquecer a textura daquela pele, mesmo que não a tivesse tocado tanto quanto queria.
Mas aquele Inverno, não... Kält, o humano, se afastou, segurando o pulso de Sirius com força e olhando em seus olhos como se buscasse a resposta para uma pergunta muito complicada.
-Alvin, vá pra casa. Diga ao papai que vou demorar.-Kält disse, sem se virar para o rapaz claramente mais novo que deveria ser seu irmão.
-Ah... tá bom...-O rapazinho murmurou, sumindo dali, deixando os outros dois sozinhos.
Sirius prendeu a respiração, as mãos tremendo porque simplesmente não conseguia se conter. Era ele, era Inverno, sua reencarnação, o que fosse, mas Sirius sabia que era ele, ele conseguia sentir, conseguia ter a mais absoluta certeza.
-Quem é você?-Kält perguntou, os olhos frios, a mão firme segurando o pulso do homem a sua frente.
-Sou Sirius Stern.-Sirius respondeu prontamente. O que ele quisesse saber, responderia sem hesitar.
-O que faz aqui?
-Vim procurar por alguém importante para mim.
-De onde veio?
-Suécia.
-Já esteve aqui?
-Sim, há 14 anos atrás.
-Por que você... Me é tão... Familiar?-Kält franziu o cenho, afastando-se mais um passo e soltando o pulso de Sirius, como se não entendesse.-Você... Eu não lembro de você. Quem é você? Já o vi nos meus sonhos, mas nunca o tinha visto antes na vida. Quem é você?
Sirius sorriu. Ah, sim. É claro que ele não lembraria de nada. Era um preço a se pagar, mas era um preço justo, afinal de contas. Uma estação que se torna humana, que nasce novamente ou que, de alguma forma, assume a aparência de uma criança para 14 anos depois encontrar o mesmo humano que a levou à morte. Claro que sim, o destino adora brincar com suas marionetes.
Mas se ele tinha sonhos... Ah, o maldito dono da pousada se confundira. Deveriam haver dois filhos de Wolly, não apenas um, ele apenas se confundira e quase que levara Sirius a loucura, apenas isso, nada de mais.
Mas aquele era o momento importante, com certeza o momento mais importante daquele então homem que passara por tanta coisa e que tivera seu coração endurecido e amolecido tantas vezes na vida.
Era como se estivesse morrendo, como se fosse morrer, como se seu próprio corpo fosse entrar em combustão instantânea de tanta alegria, e ainda nesta alegria, o então homem abraçou o rapaz a sua frente com tanta força que temeu machucá-lo, sentindo seu cheiro, aquele cheiro muito bom, aquele cheiro que sentira há tanto tempo, aquele cheiro que trazia tantas lembranças...
-O que você...?!-Mas Kält não teve tempo para reclamar, sua boca fora rapidamente tomada por aquele homem que nunca vira na vida mas que mesmo assim, lhe causava sensações tão estranhas, como se não fosse a primeira vez em nada ali, como se ele já tivesse beijado aqueles lábios como fazia agora, como se ele já tivesse invadido sua boca como agora, como se ele já tivesse agarrado sua cintura e o trazido mais para perto como a cena que acontecia naquele momento.
Aquele gosto, aqueles lábios, aquele cheiro, aquele coração batendo quase colado ao seu separados apenas pelas grossas roupas mas que, por estarem ambos batendo tão rápido, podiam ser sentidos. Aquele era, de certa forma, seu Inverno, mas ao mesmo tempo, não o era, e ainda assim, a felicidade era tão grande e sentir aquele calor que emanava do corpo do outro era tão... Ah, calor! Calor! Vindo de aquele que quem sabe um dia fora o seu Inverno! Calor! Tão bom e tão ruim ao mesmo tempo, bom porque lhe trazia ótimas sensações mas ao mesmo tempo lembrava que aquele não era o seu Inverno original.
E mesmo assim, Sirius ainda amava aquele rapaz, ainda invadindo sua boca com voracidade, abraçando seu corpo, nunca mais querendo perder aquele cheiro ou aquele calor ou qualquer uma das coisas que viessem daquele que por tanto tempo procurara e, de certa forma, finalmente encontrara.
E mesmo beijando Kält, Sirius ainda sorria. Não havia como não sorrir, a felicidade era grande demais, estava tudo perfeito, e daí se Kält não lembrava? Sirius ainda amava aquele Inverno, amava mesmo que fossem diferentes, amava da forma que fosse, e pelos céus, ele estava tão feliz, mas tão feliz que simplesmente...
Um barulho alto. Um tiro de espingarda.
Sirius, de costas, não conseguiu ver. Caiu de joelhos no chão enquanto Kält ficava paralisado, aqueles braços subitamente deixando de rodear seu corpo, o rapaz sem saber o que fazer, os olhos de um azul profundo totalmente aterrorizados enquanto o rosto, antes branco e imaculado, se tornava sujo de vermelho por um sangue que não era seu.
Aquela cidade era uma cidade pequena que não gostava de forasteiros arrogantes que roubavam as coisas. Wolly já tinha sido roubado, então comprou uma espingarda. O estrangeiro não devolveu sua snowcycle e tampouco deixou dinheiro para compensar, mas isso era o que Wolly pensava porque quando ele saiu de casa armado para caçar o maldito ladrão, ele não vira a snowcycle ao lado da casa e nem o dinheiro. No seu ponto de vista, aquele era um maldito forasteiro que estava fazendo algo de errado com seu filho adotivo, e que também era um ladrão.
No seu ponto de vista, ele estava fazendo o que era certo.
No ponto de vista de Kält, seu pai acabara de destruir algo que vinha procurando desde que fora encontrado na neve, sem memória alguma, como se aquele homem que antes nunca vira fosse a peça mais importante do quebra-cabeça.
No ponto de vista de Sirius... Não havia ponto de vista. Apenas sangue, falta de oxigênio. Kält caiu de joelhos na neve e, por algum motivo que desconhecia, começou a sentir as lágrimas rolarem pelo rosto.
Não conhecia aquele homem, então por que estava chorando? Por que doía tanto?
-Kält... Inverno...-Sirius murmurou, engasgando-se com o sangue. Apesar da dor, apesar do tiro bem no coração, apesar de todos os pesares, ele sorria.
Porque ele conseguira realizar seu último desejo também.
-Eu... Sempre... Te amei...-Estendeu uma das mãos com muito custo, tocando no rosto daquele humano que um dia fora a sua bela estação.-Sempre...
-O quê? Do que está falando?-Kält perguntou, perdido, chorando, sem saber o que fazer, sentindo que perdia algo importante mas sem ter como reagir. Seu peito doía, sua voz falhava, suas mãos tremiam e aquela sensação de nostalgia, como um deja-vu...-S-Sirius? Você... Eu me lembro, eu lembro que você... Não, não... Você era só um... Rapaz... E... Eu gosto de você quando eu não deveria gostar, e não me importo com isso quando eu deveria me importar, e falo isso quando eu nem deveria falar, visto que está explícito que você não sente o mesmo. Não o culpo, apesar de tudo. Eu...
-Você se lembra disso ainda...? Lembra-se... Do seu último desejo... Também...?-Sirius voltou a falar, o olhar começando a escurecer, embora ainda sorrisse. Ah, aquele era seu Inverno, sim, o era.-Por acaso... Também é o meu...
-Não, espere, espere!-Kält exclamou, mas já era tarde demais. Vidas humanas são frágeis e suscetíveis a maus entendidos, mas lá estava aquele corpo ainda quente, o sangue continuando a escorrer, mas rapidamente se congelando por causa do frio.
Aquele homem morrera sozinho.
Aquele homem, porém, morrera sorrindo.
Porque conseguira realizar o último desejo de sua vida vazia que considerava como a morte.
“Eu só queria vê-lo... Mais uma vez... Antes de partir...”
Fim.
Notas finais
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Bem, pessoal, este é o final. Antes de me mandarem reviews dizendo que vou ser morta muito em breve, pensem que desde o começo essa fanfic nunca pareceu que ia ter um final feliz, além de que eu achay esse final muito mais bonito do que um mero final feliz.
Mas, enfim, eu espero que tenham gostado. Na verdade, este capítulo estava pronto há muito tempo, mas minha beta só me mandou o doc betado faz pouco minutos, então vim logo postar.
Agradeço a todos que acompanharam esta fanfic desde o começo, e se vocês choraram em algumas partes, saibam que eu estava chorando copiosamente enquanto escrevia a última página enquanto tocava a trilha sonora da Lista de Schindler pra entrar no clima.
Kisses, e mais uma vez, obrigada ♥
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