Conúbio

9 Uma luz de esperança part 2


Notas iniciais
Primeiramente, gostaria de me desculpar por esses meses de infeliz ausência. Devo deixar claro, que nunca tive a intenção de parar de escrever. Pelo menos nao, enquanto ainda houvessem comentários de pessoas interessadas em ler mais sobre a trama do Jonerys aqui. Portanto, foi unicamente por motivos de Força Maior, que passei esse tempo afastada. Agora retorno, com uma vontade imensa de continuar. Mesmo sabendo que muitos dos que acompanhavam antes, podem agora até ter esquecido da historia. Eu continuarei! Porque, isso aqui, me faz um bem danado. E para aqueles que também quiserem continuar neste mundo comigo, sejam novamente Muito Bem Vindos! Aguardo suas opiniões e comentários que são sempre um grande incetivo. O mesmo vale para possíveis novos leitores. :* É Jonerys na veia.. Vamos lá! ;)




"Um Targaryen sozinho no mundo,
é uma coisa terrível"

Meistre Aemon


Daenerys Targaryen
○ ○ ○

É tarde da noite e, como tende a ser com as noites, o silencio reinava... parecendo tão perpetuo como um túmulo.
Imersa numa água escaldante, na temperatura exata de como prefiro o banho, mantenho os braços abertos ao lado do corpo, sem conseguir tocar as extremidades da banheira redonda que é grande demais para mim. Tudo é turvo, abaixo da superficie. Mas mantenho os olhos abertos, ciente de que se fecha-los, talvez, e apenas talvez, eu não torne a abri-los mais. Em torno de mim, meu cabelo flutua, as mexas como um leque, mais longo do que recordo de ter reparado que estava. E me torno consciente, uma vez mais, sobre como o tempo tem passado depressa, parecendo escorrer por entre meus dedos, como areia. 131, 132, 133 segundos.. Meus pulmões clamam por oxigenio, ardendo, vazios. E no ritmo dessa contagem, meu corpo inteiro se eleva parecendo mais leve, tão leve. Cada vez mais. 150. Emergo. Retomando o fôlego através de curtos arquejos, então me sento, apoiando a cabeça no encosto encurvado daquela banheira funda. Tudo entra em foco.

Sobre mim, há trevas. E no alto delas, o mesmo teto firme que cobre o restante da fortaleza. Encaro-o, absorvendo suas marcas estriadas pelo tempo, o brilho fugaz das antigas paredes de pedra negra que por décadas, tem sustentado todo o Castelo. E me flagro imaginando quantos outros Targaryen já estiveram ali, deitados naquele mesmo lugar, olhando para aquele mesmo ponto, antes de mim. Como teriam sido suas vidas? Nelas, houvera beleza, certamente. E dor. Nenhuma fortaleza como essa seria construída na ausência de fortes sentimentos. O que teriam presenciado esses corredores escuros, estas suítes espaçosas? Além de casos tórridos e traições?

Ali, onde Mães amorosas poderiam ter embalado seus filhos. E, amores perdidos, se desencontrado. O início de tudo, o fim para tantos, de tantas maneiras.
Como deve ter sido viver aqui, após deixar Valliria? Ter uma família... em tempos de paz.
Paz

Posso ouvir agora o rugido do vento, lá fora. E, o som das ondas quebrando no desfiladeiro.
Vez ou outra, relâmpagos cortam o céu. A coreografia repetitiva de um clima pesado e persistente, carregando a promessa de temporais que nunca tem início.
Tampouco, um fim.

— Khalessi, gostaria que seus trajes para o julgamento fossem dispostos sob a cômoda?

Aperto os olhos ao desvia-los para a face de pele acetinada da Dotrhaki prostrada diante de mim.

—Gostaria que não tocássemos neste assunto, Rackharo. Não até amanhã. – Informo, com firmeza.
— Como preferir, Mai. — diz ela.

Dispenso-a com gentileza, abraçando os joelhos, enquanto se retira. Então, subitamente, ouço espantada o silencio daquela noite fria ser quebrado por grasnados.
Agudos, ressonantes. Novos grasnados.
O que sugere que mais mensagens foram despachadas, e mais respostas retornaram para a ilha. E, significa, sobretudo, que Westeros respondeu.
Amanhã será um dia de ocupação intensa para o Mestre dos Sussurros. Amanhã será um dia de ocupação intensa para todos nós. Não era isso que você queria?
Por um instante mais, absorvo-me. Perdida entre devaneios de melancolia e pesar. Sei que se buscar encarar as circunstâncias sob outra perspectiva, no fim, me restariam mais motivos para agradecer do que para lamentar. Todavia, é difícil ignorar o flagelo que se faz pesar em meus ombros agora e, cuja influência sombria, parece maior do que qualquer otimismo.
Imediatamente, mudo o rumo de meus pensamentos, optando, de maneira quase covarde, evitar pensar no assunto até não mais ser possível adiar. Uma crise por vez ou nada terá solução.
Uma torrente de vapor sobe em direção ao teto, no instante em que ouço Drogo, acima da torre, mudando de posição. O simples movimento, faz com que pequenos pedregulhos se soltem da laje de pedra e despenquem em frente aos vitrais da suíte. E, apesar de tudo, sei que estou mais segura do que jamais estive.
Mas não me sinto assim.
Eu me sinto fria.
E se apertar com força os olhos, sei que posso ver pequenos pontos de luz através das pálpebras. Resquícios de brilho nesta terra sem sol, onde tudo é esparso, silencioso e cinzento.
E pelo mais breve dos momentos, entrego-me a mais terrível das constatações.


Estar aqui i. A própria a ilha impondo-se a mim, uma vulnerabilidade inesperada refletindo solidão.

Me fazendo lamentar a ausência de memorias reconfortantes da infância, e familiares dedicados a quem recorrer... Âncoras, de que as pessoas comuns tendem a dispor em momentos difíceis.
Âncoras, capazes dê-lhe aquietar um coração aflito e fazer melhorar a pior das circunstâncias. Coisas, que jamais tive...que se quer conheço.

Respiro profunda e longamente, tentando me manter focada. Tentando me tornar imune.

Pois, afinal, se conseguir ver além desta névoa melancólica, sei que também poderei recordar da existência de certos tipos diferentes de ancoras com as quais posso contar e que jamais, jamais, poderão me ser tiradas.
Fechos os olhos.
E assim, lentamente, e não sem certo esforço, desperto ao ser tomada pela lembrança do som de grilhões caindo ao chão. Do brado caloroso de milhares de pessoas ecoando o meu nome. Do poder que é a possibilidade de viver, sendo capaz de fazer a diferença. Da emoção de sentir esperança quando tudo o mais, se foi, e, enfim, já não estou tão perdida assim. Sinto-me novamente no caminho certo. Um caminho fora do alcance de dúvidas e lamurias. Um fim para novos começos.
O fim para novos começos. Apegue-se nisso. Foco nisso. Esqueça a dor.

Quando finalmente abro os olhos, me deparo com Missandei adentrando a suíte por entre passadas ligeiras.
Ao ve-la, tento neutralizar a expressão. Suspeitando que, talvez, estivesse ainda mais abalada do que deveria uma Rainha aparentar.

— Khalessi, o Nortenho chegou. – Anuncia ela, num tom caloroso.
— Então, ele veio. — Minha voz é um sussurro rouco pelo uso.
— Sim. Ele a aguarda na Sala de entrada. — Missandei sorri, um sorriso cúmplice, mas seus olhos amendoados estão sérios. E sei que enquanto analisa sutilmente minha expressão, percebe mais sobre mim do procuro evitar demonstrar.

Levanto da banheira, ignorando o leve calafrio que sinto por dentro, e caminho pelo piso gelado até ela, que me entrega um robb de seda nas mãos. Visto-o, sentindo o tecido fino grudar no meu corpo úmido de um jeito nada gracioso.

Te faltam modos, minha irmã. Delicadeza! Suavidade. Diria Viseris, se caso pudesse me ver agora.

Pois que seja. Tal pensamento é reconfortante. E mesmo após tanto tempo, a sensação de contraria-lo, sendo agora uma mulher livre do esforço ingénuo de tentar agrada-lo, ainda um tanto quanto libertadora.

Após um breve franzir de cenho, Missandei se põe atrás de mim, e com seus movimentos habituais começa a secar meu cabelo.
— Missandei, você já fez mais por mim nesta noite do que deveria. No entanto, antes de dispensa-la para o seu descanso, gostaria que me ajudasse com as amarras do vestido. — suspiro, um tanto desconcertada – Sei que isso não faz parte das atribuições de uma conselheira, mas...
— Ficarei contente em ajudar, Khalessei. Sempre que precisar.
Viro-me de frente para ela, tomando suas mãos entre as minhas num aperto gentil.
— Obrigada.

Gosto de tê-la em minha vida. Por vezes, Missandei e eu, entre confissões e risadas, conseguíamos ser capazes de sentir que temos mesmo a pouca idade que contam os anos.

— Minha Rainha, se me permite um conselho... — diz, após um momento de hesitação – Somente deixe de lado a carga que vem com a sua posição, e hoje, tente apenas relaxar.

Contemplo seu semblante preocupado e sigo, tendo a conselheira em meu encalço, para o vestuário.
Então, enquanto meus dedos pálidos transitam de um tecido para o outro, testando a grossura e suavidade de cada vestido, debato silenciosamente sobre a impossibilidade daquele pedido.

Relaxar.. em meio a Guerra?
Impossível.
Pois, o toque viscoso da melancolia e as consequências desastrosas de uma possível crise existencial, não eram, definitivamente, nem o início dos motivos que tornavam a opção de ‘’relaxar’’ inviável.
Eu era uma Rainha com grandes extensões de Reino a conquistar. Vidas seriam, e estavam sendo, perdidas no caminho até lá, e ainda havia muito a se fazer em bem pouco tempo.
Portanto, que tempo dispunha eu para ceder a flertes e envolvimentos? Nenhum. Não haveria descanso enquanto também, não houvesse Paz.
Meu destino estava traçado. Meu propósito, claro. E eu sabia disso. Eu sempre soube disso.
Talvez, nunca houvesse tempo.

— Talvez, tenha sido um erro Missandei. – digo, reprimindo um suspiro.– Talvez convida-lo tenha sido um erro.
A Conselheira franziu o cenho, encarando-me com seriedade.
— Sabe que não é verdade, Khalessi. — objetou, de modo grave – O que a fez escrever a ele, sim? Lembre-se do motivo. Solidão é a ruína do espírito, Khalessi. E Rainha alguma pode ser grande, sem possuir a mesma grandeza de espírito, também. Não permita que isso se torne uma fraqueza.

Recordo-me então, de como flagrei-me ultimamente mais contemplando a ceia do que me alimentando dela. E do quanto o silencio desta noite parecia, de algum modo, mais opressor do que o de todas as outras noites.
E também havia ele. Seu espectro de possibilidades. O enigma que aquele homem era... foi simplesmente um impulso convida-lo.

Talvez, o maior problema residisse na existência de muitos ''talvezes'' e poucas certezas. De qualquer modo, quando é que passei a ser uma Mulher de arrependimentos?

— Jon Snow parece bastante ansioso em vê-la. — continou Missandei, agora sorrindo.
— Ele parece?
— Tanto quanto você.

Jon Snow
Sinto o abalo agitar-se novamente em meu peito, menos denso e mais sufocante.
E então, subitamente,
Jon Snow
Parece uma fascinante distração.