Conúbio
8 Uma luz de esperança

Jon Snow
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Sentia a falta de Ghost.
Parecia improvável que em meio a tantos problemas e demais ausências, Jon fosse lamentar especialmente pela falta de seu lobo gigante, no entanto, lamentava.
Ghost surgira para ele numa época conflitante que, certamente, não fora marcada por muitas experiencias das quais o Ex-Comandante da Patrulha da Noite pudesse se orgulhar. Todavia, se existiam razões para relembrar do passado no Norte com nostalgia, Arya, seu Pai e Ghost seriam sempre o cerne delas.
O lobo havia feito Jon sentir-se escolhido e acolhido, numa fase da sua vida em que era particularmente carente dessas duas coisas. Apenas um bastardo em Winterfell, vivendo sob a sombra de seu meio irmão Robb, ainda ao alcance dos olhos críticos de Catelyn Stark e seu permanente desagrado em relação a ele. Entretanto, as coisas haviam mudado depressa, e Jon, considerava o surgimento de Ghost o princípio dessas mudanças.
Para lá da Muralha, certa vez, ouvira uma lenda sobre lobos.
O Povo Livre, assim como os Stark, também descendia diretamente dos Primeiros Homens. Mas, diferente de seus consanguíneos Nortenhos, os Selvagens tiveram mais êxito em manter suas raízes intactas ao longo do tempo. Retendo, deste modo, boa parte do conhecimento sobre as crenças, magia e mitologia de seus ancestrais. Conhecimentos transmitidos de geração em geração e que, no restante de Westeros, mesmo após a criação da Ordem dos Meistres de VilhaVelha e seu árduo esforço em tentar registrar tudo, acabaram por ser quase completamente extintos.
Numa dessas lendas, conta-se que:
''Logo no início das Eras, pouco tempo após o surgimento dos Primeiros Homens, viviam dois órfãos cujos Pais haviam saído para caçar e não retornado mais. Diante da miséria daquela terra inóspita e infrutífera, os irmãos, aos poucos, foram morrendo de fome.
O inverno chegara e, com ele, os dias se tornaram mais curtos e secos, e as noites mais frias e longas. A fonte de água que a família mantivera por anos, estava prestes a secar. Havia muita sede e, embora o mais velho dos irmãos tivesse se aventurado por entre a floresta, portando armadilhas feitas de galhos secos na tentativa de capturar qualquer animal pequeno, para o seu total desamparo, como vieram a descobrir depois, também não havia quase nada para se caçar. E o que existia, era duramente disputado por Clãs violentos que viviam nas terras sob as montanhas. Lugar longínquo demais e perigoso demais para que, qualquer criança pequena, fraca e esfomeada, se atrevesse a ir.
Naquelas circunstancias, havia muito pouco o que dois pequenos órfãos pudessem fazer para sobreviver. Portanto, eles retornaram para o pequeno casebre de madeira que seus pais haviam construído e, se encolheram repletos de dores pelo corpo, sinais da evidente desnutrição, esperando pelo fim.
Foi então que os Deuses, bastante comovidos diante da completa desolação daqueles inocentes, resolveram interferir. E com o propósito de ajudar os dois irmãos, conceberam um ser que, até então, era desconhecido ante as outras espécies.
Entre aqueles que se incumbiram da criação, estava o mais forte dos Deuses Antigos. Ele gerou um ser resistente, de faro aguçado, veloz como o vento. O segundo dos Deuses sendo ele o mais esperto, optou por lhe preencher com destreza, foco e o dom de ver através do semblante humano até o cerne das intenções pois, deste modo, a criatura jamais cometeria o engano de confiar num inimigo. O Deus responsável pelo lado primitivo e violento de todas as criações já existentes, dotou-lhe com acentuados instintos de defesa e a mais plena capacidade de ataque, armando-lhe com mandíbulas maiores que um crânio humano e presas mais afiadas do que qualquer lamina poderia um dia, vir a ser. Por fim, a última dos Deuses sendo ela a mais amada, presenteou-lhe com uma dose considerável de humanidade e, por conta disso, fez da criatura orgulhosa e devota perante quem lhe fosse digno, cuja lealdade se estenderia até o fim.
E ali estava. Uma criatura implacável e destemida. Leal até o tutano dos ossos. Capaz de se defender perante as maldades do mundo. Sorrateira o suficiente para caminhar sem alarde, grande demais para não deixar de intimidar qualquer ameaça que pudesse espreita-la.
Os Deuses então, imensamente orgulhosos do que tinham criado, originaram o primeiro casal da espécie e os colocaram de frente a pequena cabana dos órfãos, incumbindo-os de conhece-los.
Com o sopro de uma brisa quente, as criaturas despertaram. E o menor dos irmãos, atento à movimentação do lado de fora, partiu do seu desalento e com elas se deparou. Os novos seres, os amaram imediatamente. E, percebendo os ossos protuberantes daqueles dois pequenos humanos, trataram de partir em busca de algo que fosse capaz de alimentá-los.
E mais tarde, elas vieram a receber o nome de ''Lobos gigantes’’ e com aqueles dois irmãos, permaneceram até o fim de suas longas vidas. Mais especial do que caçar por eles e com eles, no entanto, eram os dons que as criaturas possuíam e que as diferenciava, além do tamanho, dos outros lobos da floresta. Como descoberto depois, essas mesmas criaturas também podiam ter ganho o nome de ''Companheiras de Almas’’ pois se tornavam uma extensão dos humanos a quem escolhiam. Garantindo a eles proteção, companhia inseparável e, diante de certas circunstancias excepcionais, até mesmo o prolongamento da vida''
Essa historia, diferente dos contos que a Velha Ama costumava contar aos Stark e, cuja maioria, Jon já havia esquecido, sempre lhe ressurgia quando ele relembrava também, dos olhos vermelhos do seu lobo albino.
A primeira vez que Jon ouvira a lenda, fora há anos atras, pela da candência da voz de um pai, ressoando através do tecido puído de uma das tendas do acampamento dos selvagens. Jon recordava de ter pego no sono somente horas depois, ainda escutando a voz daquele homem. Um homem que assim como tantos, outrora poderia ser um brutal guerreiro inclemente mas, ali, era apenas um pai. Um Pai contando histórias ao embalar o sono dos filhos, na tentativa de dar a eles algum conforto, qualquer sensação de segurança que pudesse naquela noite fria, naquela vida dura.
E em momentos como aquele, enquanto Ygritt ressonava baixinho adormecida nos seus braços, e tudo ao seu redor lhe transmitia uma sensação que era tão pura, certa e tão contraditória, momentos de verdadeiro dilema, Jon recordava-se de ter pensado:
''Como poderei trair isso?’’ seguido de: ''Eu preciso. Dei minha palavra, fiz um juramento’’
Mas diante da humanidade daquela gente, tão diferente e tão igual ao restante do mundo, foi impossível tornar a vê-los somente com como ameaças que precisavam ser extinguidas.
Jon havia aberto os olhos para a verdade, e percebera que se tratavam apenas de pessoas, incontáveis pessoas, buscando sobreviver, precisando de ajuda, assim como todas as outras. O perjúrio delas era ter nascido no lado errado da muralha.
E foi por conta desta convicção que seus planos com MeiaMão se esvaíram e, todo o seu destino, mudou para sempre. E apesar de nunca mais tê-los visto, aquele pai e seus filhos, Jon queria acreditar que haviam sobrevivido e atravessado com segurança a muralha. Pois fora a face das famílias do Povo Livre que, além de Ygritte, mais o motivara a seguir com o plano que, mais tarde, custara-lhe também a sua própria vida.
E, apesar de tudo, Jon Snow não se arrependia.
‘'Um homem é o que tem que ser’’ Costumava pensar, não sem amargor.
Por vezes, assim como os mortos tendem a fazer, a ruiva surgia em seus pensamentos. Embora de qualquer forma, ela sempre fosse estar ao seu lado.
Fazia parte de quem ele era.
Fora Ygriite que o ensinara a amar sem preconceitos. A vencer seus próprios preconceitos e desta maneira, passar a ter uma visão mais abrangente e justa.
Nunca seria capaz de agradece-la o suficiente por tê-lo tornado um homem melhor do que Jon acreditava que, sem tê-la conhecido, jamais poderia ter sido.
Entretanto, se tivesse tido escolha, achava que talvez, optaria por ter renascido sem lembranças. Sem memorias. Um eu sem passado diante de tudo que estava por vir.
Talvez, viver, fosse mais fácil assim.
‘'As lembranças são como adagas’’ E disto ele sabia bem. Suas cicatrizes eram tão profundas que chegavam ao coração.
Do seu passado, de seu, só lhe restara Ghost. Não considerara prudente traze-la consigo para um lugar repleto de Dragões. Apesar de saber que, em breve, lugar algum seria seguro o suficiente para ninguém.
E no exato momento em que devaneava, se questionando sobre o nível de ridículo que seria a possibilidade de escrever uma carta a Sansa perguntando acerca do bem-estar do Lobo Gigante, duas batidas impacientes soaram na porta.
Jon estreitou os olhos em suspeita, permitindo que se desfocassem da lareira de frente a ele, e vagassem numa análise rápida pelas extremidades do aposento que durante sua estadia em Pedra do Dragão, havia-lhe sido destinado. Seus ouvidos em alerta, perscrutando em busca de qualquer possível ameaça. A expressão enrijecida em expectativa, diante dos segundos que corriam lentamente.
Outras duas batidas. Mais duras, mais insistentes.
Com um suspiro resignado, enfim levantou-se do assento em que gastara as últimas horas a merce dos próprios pensamentos, enquanto observava as chamas consumirem umas às outras num minguar vagaroso.
Naquela noite, assim como tendia a ser desde... desde quase sempre, Jon Snow não conseguia dormir.
Terminava suas noites como um errante, condenado a vagar sem paz, sem descanso. Perdido na melancolia das próprias reflexões, sempre a margem de cada nova aurora.
Até o momento em que o dia podia começar novamente e então, tomando pelo alivio e pela aceitação dos conformados, podia entregar-se com afinco á aquele que viera a ser, o seu único objetivo na vida. Uma luz de esperança para a sobrevivência dos vivos.
A consequência dessas noites insones, costumava pesar no seu cotidiano. Entretanto, cansado de se revirar na cama por horas a fio enquanto tentava adormecer, Jon protelava o momento de desistência até ser possível faze-lo sem despertar interesses desnecessários sobre sí. Deste modo, dia após dia de trabalho pesado nas minas de Obsidiana, quando anoitecia e já não havia nada mais em que pudesse se ocupar, ele aguardava até que todos do Castelo tivessem se recolhido para seus respectivos aposentos pessoais. E só então, é que Jon se sentia à vontade para sair da fortaleza e gastar o tempo insone em rondas pela orla da praia ou adentrado nas Minas sob a luz de um archote enquanto sondava, vezes sem fim, os registros ali incrustados pelos Filhos da Floresta, e remoía o que estava por vir, sentindo a força de seus propósitos e o peso das suas lembranças.
Naquela altura já sabia, mais ou menos, o momento certo em que a circulação de pessoas depertas na fortaleza tendia a se interromper. Tal fato só comprovava o quão absurdo era o poder do tédio das horas extras numa mente perturbada, capaz de tornar alguem alerta a este tipo insípido de detalhe.
Portanto, não foi alheio a suspeitas que, antes de abrir a porta, tão tarde da noite, verificou a presença de Garralonga bem presa a sua cintura.
Sabia que os instantes que levaria para empunha-la, não seriam menores do que, seja lá quem fosse que estivesse do outro lado da porta, também teria no caso de tentar ataca-lo.
Por instinto, agarrou firmemente o punho da espada.
Ele abriu a porta.
E deparou-se com a presença solene de Missandei.
— Jon Snow. – cumprimentou ela, parecendo levemente constrangida – Peço desculpas por vir importuna-lo tão tardiamente.
Jon aguardou conselheira e tradutora de Daenerys prosseguisse, mas, após alguns instantes, percebeu que ela também esperava que ele fosse dizer alguma coisa.
Terras diferentes, costumes diferentes. Sua gente não perdia tempo com tantas cordialidades. No Norte, se um homem bate na porta do outro tão tarde da madrugada, certamente é porque tem um bom motivo, logo, não hesitaria antes de dize-lo.
Jon pigarreou, tentando se lembrar de ter bons modos.
— De forma alguma, hãn, gostaria de entrar? — Missandei corou. Não, não, péssima ideia! — Quero dizer, se for conveniente.
Ela o encarou, sacudindo, um tanto quanto constrangida, os cachos exuberantes com veemência.
— Eu.. não, apenas vim lhe trazer isso. – e entregou um pergaminho sem selo nas mãos de Jon – É de Khalessi.
Jon encarou o papel com incredulidade. Em seguida, sentiu os nervos do corpo enrijecerem.
— Missandei, aconteceu alguma coisa?
— Não houve nada. A Rainha apenas me enviou para entregar-lhe a mensagem. – respondeu ela, com gentileza.
— Como sabia que ainda me encontraria acordado? – Jon deixou escapar, um tanto quanto estarrecido.
— Ah, ela sabia. – Missandei sorriu de modo enigmático – Leia a mensagem, Jon Snow.
E partiu, deixando o Nortenho estupefato no batente da porta.
Segurando a fina folha entre os dedos, tendo o cuidado de não amassa-la, Jon fechou a porta, passou pela enorme cama de dossel e seguiu até o seu lugar de frente a lareira.
Sentia seu coração palpitar rápido no peito como as assas de um passarinho, e se repreendeu intimamente por tal reação.
''Deve ser apenas um bilhete tratando de alguma reunião do conselho'' Pensou, pois Daenerys, inexplicavelmente, o obrigava a participar de quase todas.
Desdobrando a folha, deparou-se com uma fina e delicada letra cursiva.
O bilhete havia sido escrito com tinta prata e as palavras já secas, brilhavam de frente a luz das chamas. Franzindo o cenho, poe-se a ler:
''As luzes da torre estão acessas e continuarão assim por toda a noite.
O sono não me tem em alta estima, insiste sempre em fugir!
Parece que isso é algo que temos em comum.
Venha me fazer uma visita.
Isto é um convite, não uma determinação.
Cabe a você decidir.
Caso aceite, não me faça esperar, Jon Snow: A Grande porta vermelha, na Torre do Dragão Marinho,
Acredito que saiba onde ficam os aposentos da Rainha.''
E ele sabia. Então, ele foi.
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