Contrato de Casamento
25 Vinte e Cinco
Notas iniciais
"Feels like I'm constantly playing,
A game that I'm destined to lose."
(I Would)
OLIVIA
— Confirmado seu encontrinho nessa madrugada? — Sebastian levantou os olhos do e-reader em sua mão. — O que você está lendo afinal?
Ele olhou para o relógio em seu pulso.
— Levou setenta e oito minutos para sua curiosidade vencer e você fazer a pergunta que tanto queria e a resposta é: um livro erótico que estava de graça.
Nós dois nos encaramos. Ele não poderia estar falando sério.
— Eu estou falando sério, quer ver? — Ferrante disse lendo meus pensamentos.
— Não, por Deus, não!
— Sabe como é, dar uma relembrada de como as coisas funcionam para o meu "encontrinho".
Ri sem humor.
— Estamos aqui há três dias. Que eu me lembre bem, você estava dormindo com alguém assim que cheguei de viagem.
Sebastian inclinou a cabeça e tocou o queixo.
Sua barba estava por fazer e eu não me lembrava se alguma vez tinha o visto sem ser com o queixo liso como a pele de um bebê. Como tudo, combinava com ele.
— Tem razão. Se eu não me engano o nome dela era Olivia até.
Quase me engasguei com a saliva.
— Mentira.
— Verdade. — Sebastian retrucou, voltando a atenção para o e-reader. — A escrita está surpreendentemente boa e envolvente. Tem certeza que não quer ler? O mocinho acabou de perceber que ela está sem calcinha no meio de um jantar de negócios.
— Pelo amor de Deus, cale a boca.
— Ih, te dei spoiler? — Ele me olhou, fingindo inocência.
— Acho que isso é porque falei que não te odeio hoje. Eu te odeio, Sebastian.
— Shhh... nossa mocinha está ultrajada. — Ferrante fez uma voz fininha para continuar: — "Oh, meu Deus, como ele pode falar com tanta calma enquanto seus dedos estão..."
— Sério, você é insuportável assim com a Julie também? Porque estou pensando em ligar para a Igreja e pedir para canonizá-la. — disse, apoiando um pé na poltrona, me preparando para começar todo o meu ritual de hidratação.
— Ela já está acostumada. — Sebastian falou com um sorriso no rosto.
— Vai mesmo encontrá-la essa noite.
— Talvez.
— Só seja discreto, está bem? — alertei enquanto prendia meu cabelo num rabo de cavalo.
— Sim, senhora. — Sebastian inclinou a cabeça. — Acho que nunca te vi de cabelo solto. Quer dizer, exceto nos míseros segundos antes de você prendê-los.
— Não gosto de deixá-los soltos. É pesado, cheio e rebelde. Provavelmente, eu pareço uma lunática noventa por cento do tempo que ele está solto. Ele não é domado como o da minha mãe e minha irmã.
— Tenho certeza que ficaria bonita. Você sempre está bonita. — ele falou com tanta naturalidade que eu estreitei os olhos. — O que foi?
— Você acabou de me fazer um elogio genuíno?
— Sempre te faço elogios genuínos, quem faz bullying na nossa relação é você. — Ele se levantou. — Quer que eu te ajude a passar hidratante?
— Vai se foder, Sebastian. E não do jeito bom.
Infelizmente consegui ouvi-lo responder, antes que ele saísse pela porta:
— Comigo sempre é bom.
SEBASTIAN
Me esgueirei no quarto do Julie, surpreendentemente sem fazer muito barulho.
A casa parecia mesmo estar toda adormecida porque o silêncio era quase palpável, mas Olivia me alertou que todo o cuidado era pouco, então fiz o meu melhor para ser sutil.
Quem não fez a menor questão de ser sutil foi Julie que, assim que eu fechei a porta do seu quarto, se lançou em cima de mim.
Eu a apoiei enquanto ela passava as pernas ao redor da minha cintura.
— Estava me esperando? — perguntei contra o seu ouvido.
— Sabia que você viria. — Julie disse deixando uma trilha de beijos pelo meu pescoço. Então ela enfiou as mãos em meu cabelo..
Seus lábios se encontraram aos meus entreabertos e Julie me beijou ferozmente.
Ela enfiou as unhas nos meus ombros descobertos quando nossas línguas se encostaram.
Julie tinha gosto de cereja, verões e tudo o que era certo e seguro.
E... a voz de Hunter se misturou com a de Eloise.
Ser honesto.
Não magoar ninguém.
Segurei as coxas de Julie para que ela descesse.
Nossos lábios se separaram e ela me olhou questionadora.
— O que foi?
— Não estamos indo muito rápido? — perguntei, coçando a nuca.
Julie estreitou os olhos.
— Rápido? Não sei se você entendeu, mas eu sempre gostei de você. Acho que até o maior slow burn que existe é mais rápido do que isso entre a gente. — ela tentou fazer sua voz soar leve, mas eu pude perceber que havia algo mais afiado por trás.
Segurei sua cintura, colando seu corpo novamente ao meu. Ela ergueu a cabeça para me encarar.
— Desculpa, eu sei. — Eu odiei a hesitação na minha voz ao ver o brilho esperançoso nos olhos dela. — É só que ainda temos a vida inteira pela frente, não é? Não tem porque nós atracarmos como se não houvesse amanhã.
Julie arqueou uma sobrancelha.
— Pensei que você gostasse dessa coisa mais... selvagem. — ela riu. — Não é quase seu modus operandi?
— Com as outras garotas, não com você. — ela ficou na ponta dos pés para mordiscar a minha orelha e eu suspirei. — Você merece mais.
— Sabe o que eu mereço, Sebastian? — ela disse enquanto descia mordiscando levemente meu pescoço. — Isso.
Julie me guiou até a sua cama e caiu sobre mim.
Ela era simplesmente linda. Eu queria beijá-la e fazê-la se sentir como nunca tinha se sentido, mas precisava ter calma.
Não queria estragar tudo.
Aquilo não era uma ficada de uma noite, era um compromisso. Um relacionamento. Era...
— Isso é por causa de Olivia? — Julie disse se apoiando no meu tórax para me olhar.
— O quê? — Meu corpo inteiro ficou tenso no mesmo instante.
Definitivamente eu não estava pensando em ouvir o nome de Olivia naquele momento.
— Quer dizer, as chances de sermos descobertos são baixíssimas, mas Olivia não parece ser o tipo de mulher que gosta de deixar brechas.
Foi como se eu fosse um balão murchando com alívio.
O que por si só era uma reação preocupante.
— Não se preocupe com Sartori. Ela, hm, parece uma grande entusiasta do nosso relacionamento.
Jullie rolou, se jogando ao meu lado na cama.
— Ela é ótima. E foi super fofa para me contar sobre vocês dois. — ela apoiou a cabeça na mão me olhando. — Além disso, tem algo rolando entre ela e Hunter, não tem?
— Por que acha isso? — Encarei-a.
— Não sei. Senti essa vibe quando estávamos no carro indo para a loja da amiga dela. Eu percebi os olhares que ele lançava para ela. Acho que Olivia gosta dele também, mas parece meio tímida. Poderíamos ajudá-los e...
— Não. — A palavra saiu um pouco áspera demais da minha boca e Julie certamente percebeu. — Não.
Ela franziu o cenho:
— Por que não? Ela está nos ajudando.
— Dá para acreditar em Hunter procurando algo sério com Olivia?
— E qual é o problema? — Julie perguntou rindo.
— É o Hunter! Desde quando ele quer algo sério com alguém?
— Você também não queria e agora aqui estamos nós.
— É diferente. — argumentei. — É diferente. Nós nos conhecemos a vida toda, ele conhece a Olivia há três dias.
— Isso te incomoda? — Julie apoiou a cabeça em uma mão e com a outra tirou uma mecha de cabelo de minha testa. — Hunter e Olivia juntos?
Arregalei os olhos.
— Claro que não! Não tem lógica. Por que me incomodaria?
Jullie deu de ombros.
— Tem sim. Vocês podem estar fingindo um relacionamento, mas ainda têm que interagir. Têm que criar o mínimo de laço para fazer isso dar certo. É natural que comece a se importar com ela.
Ri sarcasticamente.
— Acho que Olivia preferiria morrer a ter eu me importando com a vida dela. Só que se eles ficarem juntos, não der certo e eu voltar a trabalhar com Sartori, tenho certeza que ela fará da minha vida um inferno.
Jullie balançou a cabeça como se eu estivesse falando muita merda.
E parte de mim, concordava com ela.
— Olivia não parece o tipo de pessoa que mistura vida profissional com vida pessoal.
Ela não era mesmo, mas não revelei isso a Julie.
— Além disso, Olivia mesmo disse que não quer arriscar comprometer nosso contrato. Prefere conhecer Hunter melhor depois que tudo isso acabar.
— Está bem. Não precisa ficar bravo comigo, só estava querendo ajudar.
— Eu sei, não estou bravo. — Dei um beijo na testa dela ao passo que ela segurou meu queixo e o puxou para me beijar propriamente. Quando nós nos separamos, eu sugeri: — Que tal assistirmos algo?
OLIVIA
Cada irmão Sartori tinha um esconderijo no nosso terreno, e eu por ser a caçula com espírito de exploradora sabia o de todos, mas o que eu mais gostava — e o que era mais fácil de chegar — era o do PJ.
Uma fenda minúscula que tinha espaço para no máximo duas pessoas no meio do telhado.
Se alguém fosse para frente da casa e olhasse não veria ninguém, apenas caso se afastasse o suficiente.
Depois que Sebastian saiu, eu tentei dormir, mas seria uma daquelas noites que minha mente não dava sossego, então resolvi recorrer à ajuda do vinho e a dois pedaços solitários da torta que minha mãe havia feito.
— Eu juro que não sou um stalker.
Uma voz disse e eu segurei a garrafa de vinho com mais força para evitar que ela se espatifasse no chão.
— Hunter, que susto. Como achou isso aqui?
— Te vi subindo. Fiquei curioso. Afinal, o que você faria com uma garrafa de vinho no topo de uma casa?
— Não deveria estar parecendo uma pessoa normal mesmo. — comentei.
— De jeito nenhum, mas estou decepcionado, achei que estava prestes a presenciar algum tipo de ritual.
— Sou a Rainha Má, não está sabendo? Impossível Sebastian não ter revelado para você o meu alter-ego.
Hunter riu.
— Estou ciente. Mas não estava levando muita fé nos boatos.
Foi a minha vez de sorrir.
— O que te traz aqui, ó não-stalker?
Ele cutucou meu braço.
— Engraçadinha. Tenho insônia em algumas noites. Principalmente dormindo em algum lugar novo, quando vou pegar no sono é quase de manhã e porque meu corpo não aguenta mais.
Inclinei a cabeça para observá-lo.
— E você parece tão disposto quando está trabalhando na fazenda.
— Meu corpo já se acostumou a se recuperar rápido. — Hunter deu de ombros.
— Tenho um remédio que funciona para mim quase sempre que preciso. — Peguei a garrafa de vinho que tinha trazido.
— Maldito Sebastian, foi na minha frente e pediu sua mão primeiro. — Hunter praguejou fingindo indignação e segurando a garrafa, mas então se virou para mim quando viu que peguei outra coisa. — Isso, por acaso, é a torta de sua mãe?
Assenti com a cabeça.
— Quantos milhões devo oferecer por um mísero pedaço? — ele disse fazendo drama.
— Só sua companhia já é o suficiente.
Hunter me encarou com os olhos estreitos.
— Pensei que tínhamos adiado nossa temporada de flertes.
— Estamos tendo um quase-meio-encontro. não é? — retruquei.
Ele meneou a cabeça:
— Justo. Porém, você parece nervosa.
— Faz...um bom tempo que não tenho um encontro. Pelo menos não um que eu não sei aonde vai acabar.
Observei o homem ao meu lado. Ele estava perfeito como sempre, ainda que estivesse tão simples quanto eu. Seus cabelos escuros estavam úmidos, ele usava uma camiseta preta de banda e uma calça moletom. Mas era seu perfume que chamava atenção.
Era um aroma fresco e revigorante. Leve e marcante que nem ele.
— Acho que tenho uma notícia boa para você também por que eu não consigo me lembrar da última vez que fui num encontro.
Arqueei uma sobrancelha para ele.
— É do tipo espírito livre como Sebastian?
— Mais ou menos, ainda não tenho todo o talento dele para isso, embora Sebastian seja muito mais emocionado do que deixa transparecer.
— Estamos falando da mesma pessoa?
Hunter assentiu com a cabeça e ajeitou as embalagens na mesa, abrindo o vinho com destreza.
— Nada mais deprimente do que tomar vinho em copo normal, mas o medo de quebrar uma das preciosas taças da minha mãe falou mais alto, desculpa. — eu disse enquanto ele enchia nossos copos.
— Não tem problema, a companhia é o mais importante, não é?
•
Enquanto comíamos e bebíamos, ficamos conversando sobre nossas vidas.
Descobri que Hunter era de uma família de pais separados, mas que praticamente não conviveu com a mãe dele. Ela sumiu no mundo quando ele tinha seis anos e Hunter passou a maior parte da vida com seu pai e suas diversas madrastas. A cada ano, o pai aparecia com uma mulher cada vez mais próxima da mesma idade que Hunter tinha. E não demorou muito para ele decidir morar sozinho.
Eu contei sobre minha família e só de toda a expectativa que tinham em mim.
— Então somos da tropa que saímos de casa e não gostamos de olhar para trás. — ele comentou.
— Mais ou menos isso. Apesar de amar minha família, me sinto mais livre quando estou...longe da órbita de todo mundo. — Tomei um gole de vinho enquanto minha mente me alertava sobre a quantidade de álcool que eu estava ingerindo nos últimos dias. Apenas ignorei. — Há tanta coisa porque eu passei e passo acumulada dentro de mim que não consigo nem me imaginar dividindo com eles. Sinto que seria julgada.
— Entendo, mas você sabe que precisa desabafar com alguém, não sabe? Uma amiga, uma pessoa próxima, um terapeuta... enfim...
Senti minhas bochechas corarem.
Sabia que Hunter sutilmente estava querendo oferecer a si mesmo como um ombro amigo e um ouvido solidário, mas a única coisa que vinha na minha cabeça era meu desabafo com Sebastian.
Como sua presença me incitava a falar. A me abrir.
Como ele me apertou contra o seu corpo e disse com tanta certeza que não deixaria que Max me machucasse.
Sacudi a cabeça, voltando ao presente para focar em quem estava ali comigo naquele momento.
Hunter. Não Sebastian. Hunter.
— Você também pode contar comigo, Hunter. Acho você um cara incrível e sua história me fez te admirar ainda mais. Não é todo mundo que tem tudo o que quer e ainda assim escolhe viver do seu modo.
Hunter fez uma careta.
— É um trabalho em andamento ainda, né? Por enquanto, não vivo totalmente do meu modo. Ainda vou para um trabalho que não amo só por ter a sensação de dever alguma coisa para meu pai.
— Eu te entendo, mas demos o primeiro passo. Isso é importante.
Ele assentiu com a cabeça vigorosamente e eu percebi que a bebida já tinha subido um pouquinho para ele.
— Um brinde aos primeiros passos.
— Um brinde aos primeiros passos.
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