Contrato de Casamento
79 Setenta e Três pt. 1
Notas iniciais
"Everyone else in the room can see it
Everyone else, but you, ooh"
(What Makes You Beautiful)
SEBASTIAN
Eu e Julie estávamos caminhando em um dos parques da capital há quase uma hora e ela já havia contado pelo menos uma dúzia de mentiras.
Queria ficar enfurecido, colérico, mas cada uma delas me enchia de decepção.
Não que eu achasse que pudesse ficar mais decepcionado do que quando li seu e-mail para Boscher, enviado horas antes de ela se despedir de mim na casa de Olivia.
Ela havia simplesmente revelado cada detalhe do meu acordo com Sartori e, pior, quase deu todas as ideias que Boscher usou contra Olivia na hora da "negociação".
Colocar minha família no meio da confusão como elemento para pressionar Olivia a desistir do casamento também havia sido ideia dela, afinal.
Minha mãe, que ela dizia admirar tanto por nunca ter deixado de trabalhar duro.
Meu pai, por quem ela dizia ter muito carinho.
Tive que ler tudo por partes porque cada parágrafo era como se eu estivesse vivendo um pesadelo ou recebendo uma punhalada nas costas.
Ela ainda havia anexado, de alguma forma, uma foto do contrato entre mim e Olivia. O que tinha as nossas assinaturas e estava reconhecido em cartório.
Naquele momento, ela falava animadamente sobre um assunto, mas a única coisa que ouvia era suas mentiras.
Desde que começamos o passeio, fiz questão de tocar levemente em assuntos nos quais ela estava envolvida, como a amizade dos pais dela com o dono da empresa onde eu trabalhava.
Ela me disse que era uma coincidência que nem ela tinha percebido, que viu o senhor Boscher uma meia dúzia de vezes e nunca tinha feito a relação.
Retomei a conversa sobre a vaga para Eloise e Julie repetiu a mesma coisa: que minha ex-noiva tinha ido até ela e pedido muito por ajuda. Ela não conseguiu não ajudar, mesmo sendo minha melhor amiga, Julie disse que sabia o quanto Elô queria aquilo mais do que qualquer coisa.
Foi só quando mencionei Richie que ela hesitou.
— O que tem Richie?
Dei de ombros:
— Lembrei dele, de repente. Ele era um dos seus amigos, não era? Hunter e eu sempre achamos que vocês dois tinham um rolo, mas você sempre negava.
— Eu e Richie? Um rolo? — Julie riu. — Bem que ele queria. Ele era só um riquinho mimado que gostava de me exibir por aí como se eu fosse sua namorada. Quando descobri que ele saía contando coisas como se tivéssemos algo, me afastei. — Ela fingiu ter um calafrio. — Era bizarro.
— Lembro que ele não ia muito com a minha cara e a de Hunter.
— Richie é de um mundo completamente diferente do nosso, ele me via como uma propriedade, algo somente dele. — Julie virou a cabeça para mim com um sorriso. — Mas qual é a do interrogatório?
Com algum esforço, sorri de volta:
— Não há interrogatório nenhum. Só queria me atualizar um pouco de sua vida, não tivemos exatamente um momento para isso quando eu estava... quando eu estava noivo. — Esperei alguns segundos, antes de dizer: — E antes de ver você aparecendo lá com Hunter fazia um tempo que a gente não se via propriamente.
— E a primeira coisa que passou na sua cabeça foi Richie? — Não tinha nada de suspeita ou acusação na sua voz, apenas curiosidade.
Respondi, descompromissado:
— Só queria saber se tinha alguém na sua vida.
Tentei soar o mais natural possível e algo que consegui, pois reparei no exato momento em que Julie deu uma travada, apesar dela se recuperar bem rápido.
— Não tem nem um mês que...nós... — Ela suspirou em vez de terminar a frase. — Não me recupero tão rápido como algumas pessoas, Sebastian.
Eu queria rir. Gargalhar mesmo porque ou eu estava ficando louco, preso num pesadelo ou a mente de Julie era mais insana do que eu pensava.
— No fundo, você sabe que nunca daríamos certo. — Falei num tom sério, parando para encará-la.
— O engraçado é que as pessoas com quem você tem certeza que dará certo continuam te machucando de novo e de novo. — Ela me olhou indignada. — Elas te deixam, Sebastian. E a única idiota que continua aqui sou eu apenas para você olhar na minha cara e dizer que eu sei que a gente não daria certo. Mas quer saber? Eu não sei de nada. Você nunca deu uma oportunidade de verdade para a gente descobrir.
Ela começou a andar novamente.
— Se tem algum idiota nessa história, Julie, certamente não é você. — comentei alto o suficiente para que me ouvisse e ela parou de andar.
— Não se preocupe, Sebastian. Não vou ficar mais me humilhando para receber migalhas. Um dia, pode acordar e perceber que poderíamos ter algo lindo, mas você nunca deu uma chance para nós.
— Seria o dia que você finalmente iria ter o que sempre quis, não é? O que sempre desejou? Que eu me arrependesse e aparecesse na sua porta pedindo desculpas por toda a situação que você mesma armou ou contribuiu para que eu passasse?
Julie me olhou, incrédula:
— Você está louco? Situação que eu armei? Você só pode estar de brincadeira.
Neguei com a cabeça.
— Não, eu não estou louco. Estou falando sério, estou falando a verdade e gostaria que você fizesse o mesmo comigo.
Ela cruzou os braços, um lampejo de desconforto passando por suas feições e sumindo quase que imediatamente.
Gesticulando com uma mão, ela indicou para que eu prosseguisse.
— Por que não contou que Richie era filho do meu chefe?
Por um momento, a cara de surpresa dela fez parecer como se aquilo fosse novidade para ela também, mas Julie acabou apenas dando de ombros:
— Não achei relevante. Como já disse a você, — ela falou pausadamente. — As vezes que vi Boscher foram tão poucas que eu sequer lembrava que ele existia, imagine lembrar que ele era seu chefe. — Eu entendo que fiquei muito tempo que nem uma coitada atrás do seu carinho, Sebastian, mas o mundo não gira ao redor de você.
Algumas das poucas pessoas que passavam, olhavam curiosas para nós dois no meio do caminho no parque discutindo.
Soltei uma risada sem humor.
— De todas as pessoas, você sabe muito bem que nunca achei que o mundo girasse em torno de mim. Mas que tal explicar porque você mandou um e-mail pessoal praticamente implorando para que Boscher me contratasse? Estou dando espaço para que você fale a verdade, quer aproveitar a deixa?
Julie empalideceu:
— Eu...O quê? — Ela abriu e fechou a boca algumas vezes. Por fim, decidiu apertar os lábios em uma linha fina.
— Não? Nada? Não tem nada a dizer? — indaguei. — Nada sobre como você praticamente trocou sua companhia por uma vaga de emprego para mim, apenas para garantir que eu não fosse atrás de Eloise? Ou sobre como você moveu os céus e a terra para conseguir a vaga para ela me deixar de uma vez?
— Sebastian...
— Talvez sobre como você disse para Olivia que ela me limitava simplesmente porque não concordava com tudo o que eu fazia? Sobre como você simplesmente foi atrás do meu chefe para entregar o contrato que eu e Olivia tínhamos, sendo que sabia que ele não significava mais nada para a gente?
— E ela desistiu tão fácil, não foi? — Julie disse, agora com uma calma quase de outro mundo. — Se foi tão fácil jogar tudo para o alto por causa de uma vaga de emprego, o que te faz pensar que ela não o faria por algo muito maior?
— Pare com essa merda, Julie. Eu sei muito bem que não tinha vaga de emprego nenhuma. Que, na verdade, Olivia desistiu do casamento porque você fez Boscher chantageá-la prometendo um boicote não só à carreira dela como à minha. Como a empresa da minha família. Achei que você teria mais consideração do que isso.
Ela riu, mas com lágrimas de raiva ameaçando cair:
— Consideração?
— A mesma consideração que você teve por mim quando prometeu que tentaria me fazer feliz? A mesma consideração que você teve enquanto passeava por aquela cidade nojenta fingindo que você e ela eram o maior casal de todos os tempos?
— Você sabia da minha situação com Olivia antes de começarmos qualquer coisa. Sabia do acordo, sabia do contrato.
Ela assentiu com a cabeça:
— Mas eu não sabia que você era obcecado por ela, não é? Não sabia que você ficou anos babando por uma mulher que mal reconhecia sua existência até o noivo dela quebrar o pobre coraçãozinho da donzela. Que mal reconhecia sua existência até o emprego dela entrar em jogo. Aquele cara devia ser um santo para não ter metido um belo par de chifres nela desde o início. Ele deve saber o livramento que foi não se casar com ela.
— Cale a boca. — eu falei baixo, mas meu tom estava tão cheio de raiva que Julie parou de falar por um instante. — Não fale sobre o que você não sabe porra nenhuma.
— Não sei? Sobre o quê? Sobre o filho que ela nem foi capaz de dar para o ex-noivo dela? Disso eu nem precisei ir atrás, qualquer pessoa repararia. Foi assim que ela ganhou seu coração, não foi? Com uma historinha triste que só prova mais uma vez que ela nunca vai te fazer feliz. — Julie deu de ombros e ergueu os braços. — Mas eu cansei, Sebastian, eu cansei de tentar fazer você enxergar.
Meu maxilar estava tão travado que estava começando a doer.
— Sabe quem nunca iria me fazer feliz, Julie? Uma mulher como você. Não sei como não consegui enxergar antes... — Passei uma mão pelo meu rosto. Era um misto de raiva, ódio e decepção que me consumia.
— Você realmente tem problemas para enxergar o que sempre esteve bem na sua frente. Foi assim com Rebecca, que nunca te amou de verdade. Foi assim com Olivia que você jura que é a mulher da sua vida. — Ela deu um passo em minha direção e apontou para si mesma. — Você queria a verdade. Aqui está ela: tudo o que fiz com Eloise foi porque eu te amava e não queria ver você desperdiçando sua vida por alguém que não estava nem aí, mas confesso que separar você de Olivia foi só uma forma de mostrar como foi ter meu coração partido por você duas vezes. Eu poderia ter feito antes do casamento, sabia? Mas não seria tão eficaz. Chorei várias noites por sua culpa, desde aquela primeira vez que dormimos juntos. Sabia que não seria mais do que sua amiguinha, mas quando você simplesmente saía da minha cama, dos meus braços, para ir atrás dela e beijá-la. Acha que eu não percebia? Acha que eu não via? Bem, boa sorte para vocês ficarem juntos de novo. Agora está fora das minhas mãos.
Apenas a encarei por alguns minutos.
Julie enxugou bruscamente as lágrimas que caíram dos seus olhos.
— Obrigado, Julie. Obrigado por não me deixar passar mais anos com uma desconhecida do meu lado. Quando li os e-mails, quando soube de tudo, já tive uma boa ideia do tipo de pessoa que você é, mas essa conversa aqui, foi melhor do que qualquer outra coisa. — Tirei o celular do bolso e mostrei a tela para ela. — Não sou o único que vou precisar de boa sorte.
A pessoa do outro lado da linha falou:
— Obrigado, Sebastian. — Julie arregalou os olhos quando a ligação foi desligada e o número de Richie piscou na tela antes de apagar.
OLIVIA
O dia da conferência chegou rápido demais e eu estava quase passando mal de nervosismo ainda questionando se deveria ir ou não. A semana tinha sido caótica de várias maneiras.
Depois que o senhor Marchand havia me dito que Mendes gostava do meu modo de trabalhar e eu soube que estava indo pelo caminho certo, passei a me empenhar ainda mais nas minhas tarefas. O CFO interagia comigo boa parte do tempo e o que eu aprendia com seu modo tradicional de trabalhar, eu recompensava apresentando ferramentas mais modernas e eficazes para otimizar o tempo das funções. Conseguia reconhecer o ressentimento em boa parte dos meus colegas, mas não me apeguei muito a isso.
Comentei com Mendes que estava pensando em comparecer na conferência e ele me disse que era ótimo pois tinha muitas pessoas com quem eu com certeza adoraria ter uma conversa para trocar conhecimentos.
Por mais animada que eu estivesse com aquela possibilidade, o nervosismo de encontrar Sebastian — ainda na presença do senhor Boscher — me inundava.
Não sei como reagiria vendo-o pessoalmente depois da nossa ligação por telefone. Não sei se conseguiria me manter longe, não sei o que aconteceria se eu me mantivesse perto.
Rebecca disse que era para eu tratar tudo olhando apenas como uma oportunidade de expandir meus horizontes profissionalmente e que, se por acaso, eu trombasse com Sebastian a "vibe" do momento me guiaria.
Eu, para ser honesta, tinha medo dessa "vibe".
Quanto a minha relação com ela, nós agora estávamos em território neutro.
Numa madrugada que passei em claro, incapaz de conter as lágrimas na sala, ela tinha acordado e ficado do meu lado. Apenas ali. Quando percebi, nós duas estávamos chorando pelos infortúnios de nossas vidas, como chegamos naquele ponto. Rebecca me contou mais detalhes sobre o tipo de vida que levava com Max. E inevitavelmente conversamos sobre o que havia acontecido há quase três anos.
Ela me contou do dia em que estava na nossa cidade natal, bêbada porque sua mãe tinha arranjado um outro namorado que estava sugando o pouco dinheiro que tinham, como ela se sentia impotente. Max havia aparecido do seu lado também alterado e ela praticamente nem conseguia se lembrar de como uma coisa levou a outra.
Ela disse o quanto se sentiu péssima no outro dia e que sua primeira reação foi querer me contar imediatamente e implorar meu perdão, mas Max falou que ela só podia estar louca. Que eu nunca a perdoaria, muito menos ele. Max prometeu que esqueceria, mas um mês depois, quando ficavam sozinhos, ele sempre fazia alguns avanços até um dia que Max disse que ou ela dormia com ele ou contaria tudo para mim. Só que em vez da verdade, ele diria que ela o havia seduzido e mostraria cartas que Rebecca havia escrito para ele antes que eu e Max começássemos a namorar, a fim de provar que ela sempre teve uma queda por ele.
— Eu fiquei com tanto medo. Nunca achei que ele guardaria aquelas coisas ridículas. — Rebecca contou. — Mas você amava Max e sei como ele fazia com que as pessoas sempre acreditassem nele.
Rebecca disse que ele dizia que depois do nosso casamento aquilo não existiria mais ficaria entre eles, cada vez que eles ficavam juntos, Max prometia algo diferente.
— Ele começou a ajudar nas despesas com minha mãe. Dava uma lição nos sanguessugas que queriam se aproximar dela. E eu só... não sabia o que fazer para sair daquilo. Não vou mentir e dizer que eu não me sentia bem por ter qualquer pessoa ao meu lado, mas cada vez que eu via o quanto você estava mal eu dizia que iria contar e Max me prendia com outra coisa. — Rebecca respirou fundo. — Até o momento em que minha mãe ficou doente. Nem nos meus sonhos eu conseguiria pagar o tratamento dela. Eu me recusei a encher sua cabeça com mais uma preocupação e Max era minha distração. Ele fez com que eu me tornasse dependente dele de todas as formas. Os bicos que eu arranjava ele me dizia que não eram bons o suficiente e que mesmo quando tudo acabasse, ele arranjaria um jeito de continuar me ajudando.
Não derramei nenhuma lágrima enquanto ela contava a história, nem achei que era mentira porque eu conhecia Max muito bem.
— Quando fiquei grávida, falei que ele não precisava assumir, que eu daria um jeito. Por Deus, eu cheguei até a sugerir que tiraria o bebê se fosse necessário. — ela disse com os olhos desfocados. — Mas você tinha terminado de vez com ele e Max ficou louco. Falou que eu não tinha o direito de tirar uma das únicas coisas que ele mais queria que era ter um filho. Falou que se casaria comigo, não importava o que dissessem. Não posso dizer que na época ele não conseguiu me comover. Achei que ele realmente via um futuro para nós dois, mas quando casamos, ficou claro que ele ainda era obcecado pela ideia de ter você. E como não podia, ele usaria tudo para te atingir. Até eu. Até Judith, que ele registrou enquanto eu estava sedada no hospital.
Cada detalhe daquela história só servia para me horrorizar ainda mais, e quando Rebecca terminou, ela olhou para mim, com os olhos marejados:
— De tudo no mundo, a única coisa que eu tinha era você. Uma amiga, uma irmã. Nem minha mãe ocupava um espaço tão grande na minha vida. Quando casei com Max pensei que apesar de ter perdido você, ele estaria ali, mas a verdade é que ele nunca esteve e nunca quis estar. Na primeira noite que passei aqui, eu chorei não por orgulho por ter de aceitar sua ajuda, mas porque mesmo depois de tudo, eu sempre soube que se tivesse uma pessoa que nunca me negaria apoio seria você. — ela escondeu o rosto entre as mãos por um instante, os ombros sacudindo. — Não espero que me tenha mais como amiga, Olivia. Não espero que queira me ver depois de tudo isso. Mas só te peço que um dia, se você sentir no fundo do seu coração, você seja capaz de me perdoar por toda dor que te causei.
— Não sei se essa é a melhor escolha. — anunciei, saindo do quarto com o vestido que minha mãe havia me dado de presente. Ele caiu como uma luva em meu corpo.
— Meu Deus! Você vai para o Oscar? — Rebecca falou levantando do sofá de boca aberta.
— Está vendo só? Muito chamativo para uma conferência, não é?
Rebecca ainda estava vidrada.
— Que vestido sensacional, onde você comprou?
— Era da minha mãe, ela fez alguns ajustes.
Ela se inclinou para tocar o tecido rico.
— Não me surpreende. Minha mãe disse que a tia Lucy simplesmente era a garota mais descolada da época delas, todas queriam ser como ela.
Eu ri.
Meu pai sempre zombava sobre algo do tipo com a minha mãe, mas sempre achei que era exagero dele. Ouvindo Rebecca e vendo aquele vestido, eu começava a questionar meus achismos.
— Mas e então? Eu vou ser a que está vestida exageradamente se for assim, não é?
— Acho que o senhor Sebastian Ferrante queimou algum fusível na sua cabeça porque enquanto você está aí toda ansiosa, eu tive primeiro a ideia de pesquisar sobre esse tal evento de gala e encontrei umas fotos e confie em mim, você não vai estar exagerada.
— Não sei. Quero passar uma imagem profissional. Sou recém-chegada numa empresa, afinal.
— E você vai. Basta abrir a boca por dois segundos e todo mundo vai perceber que a coisa mais impressionante sobre você essa noite não é o seu decote.
Fiz uma cara feia para Rebecca.
— Vamos, vamos. Se suas habilidades de maquiagem continuam tão complexas quanto antes, eu terei que assumir a tarefa de deixar seu rosto ainda mais deslumbrante do que esse vestido.
— Só não exagere, ok?
Rebecca apenas me deu um sorriso de canto não muito convincente.
SEBASTIAN
— Minha. Mão. Vai. Cair. — falei para ninguém em particular, enquanto caminhava no mar de gente com um sorriso amarelo no rosto.
— Todos querem saber quem é o cara que vai representar a empresa nº1 do país. — Hunter deu um tapinha nas minhas costas.
— E eu só quero virar uma cerveja ou trezentas e dar essa noite como encerrada.
— Aquele é o senhor Branton, da Noir. — Mia disse do meu lado direito.
— Esse é o senhor Gomes da Mar Aberto. — Marco disse do lado esquerdo.
Os dois tinham começado uma disputa infernal de quem me dizia mais nomes desde que eu havia chegado, sendo que não adiantava nada já que era tanta gente que eu não tinha a oportunidade de falar nem duas palavras com as pessoas que eu estava cumprimentando.
Mia me falou que as coisas ficariam mais agradáveis depois dos pronunciamentos e agradecimentos, a hora que realmente começaria os networking com um bando de empresários semi-embriagados.
Maravilha.
Eu estava mais ranzinza do que o normal porque estava nervoso. Por diversos motivos.
Um deles é ter que subir e falar ao microfone para aquele bando de gente que bem representam uma boa porcentagem das melhores empresas do país de qualquer ramo.
Quem fazia aquele tipo de coisa era Sartori, não eu.
Ela teria vários cartõezinhos com a coisa certa a se dizer. Falaria com calma, naturalidade e convicção de um político.
Eu não servia para aquilo.
E a voz na minha cabeça não ajudava em nada.
Desde que tinha descoberto sobre minha entrada nada imparcial na B&T, ela sempre estava ali. Dizendo que eu não era bom o suficiente, que não era nada.
Até os resultados que meu grupo apresentava era a maioria graças a organização de Olivia.
Olivia deveria estar ali.
Não eu.
— Respire fundo, cara. Mais da metade da vida noturna desta capital pode confirmar que você tem a maior lábia. Vai dar tudo certo. — Hunter disse atrás de mim, notando minha tensão e eu ri um pouco.
— Quem será que chegou, hein? Tá todo mundo cochichando. — Marco disse esticando o pescoço para tentar ver.
Não era exatamente todo mundo, mas uma pessoa ou outra — mais do que o normal — estavam mesmo prestando na entrada do evento, onde todos os convidados tiravam fotos.
Estiquei o pescoço para ver mas eram muitas pessoas no caminho.
— Puta merda. — Hunter assoviou baixinho, quase empoleirado no meu ombro embora eu não conseguisse ver nada. — A gatinha simplesmente vai causar uma parada cardíaca em metade desse lugar.
Marco riu e eu olhei para Hunter com a testa franzida:
— Eu não estou conseguindo ver porra nenhuma.
Umas senhorinhas me encararam com uma expressão feia no rosto e eu ergui uma mão em desculpas.
Hunter me puxou pelo terno mais para o lado.
— Ali, idiota. Mas olhe com calma, acho que a gente não tem um desfibrilador por aqui.
Metade da frase do meu amigo soou lá longe no momento em que vi literalmente a mulher que era a personificação dos meus futuros ataques cardíacos.
Minha ditadorazinha presunçosa.
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