Contrato de Casamento
82 Setenta e Quatro
"Not even the Gods above
Can separate the two of us."
(You and I)
OLIVIA
Entrei em casa, incapaz de tirar o sorriso do rosto assim como durante todo o caminho para casa.
— Pelo sorriso, vou presumir que a farra foi boa.
Rebecca disse enquanto caminhava pela sala com Jude no braço, tentando fazê-la comer.
Fechei a porta tentando controlar a expressão, mas era quase impossível.
Minha noite foi maravilhosa. Sebastian tinha sido maravilhoso. Como sempre.
Tinha que admitir que quando ele me pediu para ficar, meu coração havia balançado um pouco.
Se todos os casos de uma noite dele fossem assim, eu entendiam porque as garotas tinham tanta dificuldade em esquecê-lo depois.
Aquele momento conseguiu apagar um pouquinho o sentimento de inevitabilidade da nossa trágica situação.
— Foi...boa. — respondi, descompromissadamente dando de ombros.
Me inclinei para dar um beijo na bochecha de Jude que estava ansiosíssima para vir parar em meus braços.
— É por isso que você até acabou usando as calças de outra pessoa. — Rebecca provocou enquanto eu atendia o pedido da pequenina e assumia a tarefa de colocar uma colherada na sua boca. Ela a abriu prontamente. — Como pode? Eu estou há minutos tentando fazer essa criança comer uma só colher!
Dei um sorrisinho afetado para ela enquanto Judith mastigava em meus braços.
— Não tenho culpa de ser adorável.
Rebecca se jogou no sofá, soltando o ar.
— E então? Estamos resolvidos?
Suspirei me inclinando para dar mais uma colherada para a menina.
— Sabe que não é tão simples assim. Preciso achar um jeito de ter algo para usar como barganha com Boscher, senão ele não nos deixará em paz.
— Ele é um velho branco, poderoso e rico, não deve ser tão difícil assim achar algum escândalo envolvendo o nome dele. Não lembra de nenhuma experiência desconfortável que possa usar de ponto de partida?
Bufei:
— Além de todas as vezes que encontrei com ele? Não sei como posso conseguir mais do que isso. Ele é nojento.
Rebecca suspirou, mas então o silêncio ficou pesado e quando olhei para ela, seu olhar estava perdido.
— O que houve?
Ela esperou alguns minutos antes de me responder, eu já estava quase finalizando o café da manhã com Jude.
— Ontem à noite, ele me ligou.
Queria dizer que estava surpresa, mas seria mentira.
— E o que ele queria?
— Estava chorando ao telefone... dizendo que estava sentindo falta da gente. Que eu não poderia ter feito isso com ele.
— Ele sequer reconhece o que fez com você?
— Me pediu desculpas, disse que foi um momento de explosão que ele não estava esperando. Que sentia vergonha de si mesmo. Que tentaria ser melhor.
— E então?
Ela cruzou as mãos sobre o colo.
— Sei que é tudo mentira. Quantas vezes minha mãe escutou a mesma coisa de meia dúzia de caras diferentes. — Rebecca ficou em silêncio e então: — Ele disse que não posso separá-la dele. Que não é justo. E sei que ela sente falta dele: as febres, as noites em claro... tudo isso é resultado. — Ela abaixou o tom de voz. — É o pai dela, afinal. Às vezes, me pergunto se fiz a coisa certa para ela.
— E qual era a alternativa? Suportar tudo aquilo? Deixa que ela cresça vendo as mesmas coisas que você viu acontecer com sua mãe? Pode discordar de mim o quanto quiser, mas está na hora de colocar a justiça nisso. — Rebecca passou as costas das mãos nos olhos. — Antes que ele tome alguma medida precipitada. A mesma coisa que ele faz com você hoje, ele pode fazer com ela amanhã quando ela estiver maior.
Rebecca assentiu, mas eu sabia que ela ainda tinha um longo caminho a percorrer com Max.
SEBASTIAN
— Estamos num beco sem saída, não é? — perguntei para Mia.
Havíamos vasculhado os processos envolvendo a B&T de cabo a rabo. Nada relevante o suficiente para me tirar daquela situação.
Embora eu tenha tido um fim de semana incrível revivendo na mente as memórias de Olivia comigo, a realidade da segunda-feira me atingiu com força.
— Sinto muito, senhor Ferrante.
— Não é sua culpa, Mia. Nem mesmo minha. Fizemos o que podíamos.
— Temos que achar outro jeito de ajudar o senhor e a senhorita Sartori.
Sim, mas talvez Olivia estivesse certa. O tempo poderia trabalhar ao nosso favor. O rancor de Boscher não poderia durar para sempre. Éramos insignificantes o suficiente para que ele nos esquecesse um dia.
Um dia.
O problema era que cada dia longe de Olivia era um martírio. Aquele anel no meu dedo parecia apertar cada vez mais, me implorando para que eu tomasse uma atitude.
Só que minhas mãos estavam atadas.
Minhas tentativas de arrancar algo de Santiago eram todas frustradas, mas, pela milésima vez, bati em sua porta.
— Pode entrar, Sebastian. — ele disse com uma voz cansada.
Coloquei a cabeça para dentro da sala com um sorrisinho. Já havíamos passado tempo suficiente juntos na última semana para continuarmos com formalidades.
— Trouxe o café mais caro que pude encontrar só para você.
Ele suspirou:
— Você se lembra o que te disse na primeira vez que entrou nesse escritório querendo respostas? Que poderia colocar uma Lamborghini dentro dessa sala e mesmo assim eu não teria nada para ajudar você. Infelizmente.
— Não pode me culpar por não desistir. — comentei, sentando na cadeira à frente da sua mesa e apoiando o copo de café com cuidado. — É uma coisa boa não caber uma Lamborghini nessa sala, aliás.
Eric Santiago virou o copo tomando um gole e fazendo uma careta.
— Como pode uma coisa horrível dessas ser a mais cara de qualquer estabelecimento.
Dei de ombros:
— O que vale é a intenção. — Cruzei os braços encarando-o como fazia pelo menos trinta minutos de cada dia desde que tinha descoberto do acordo de Boscher com Olivia.
— Seria de se pensar que você teria muito trabalho para fazer agora que é o supervisor geral. — Eric colocou seus óculos analisando os papéis na sua frente.
— Se você me desse pelo menos um tiquinho de nada de alguma coisa, eu poderia voltar a fazer meu trabalho integralmente.
— Esse é o problema, Sebastian. Como já te disse nas outras mil vezes, eu não tenho nada. Tudo o que tenho, você e a senhorita Sartori provavelmente já sabem. Sou o advogado da B&T, não sei nada sobre a vida de Boscher fora daqui.
Eu girava o anel no dedo quando assimilei suas palavras. Então paralisei:
— Espera aí. Como assim você não sabe nada da vida de Boscher?
Eric me olhou por cima dos óculos.
— Exatamente o que eu disse. Exceto pelas as coisas que são de conhecimento público, eu não sei muito mais do senhor Boscher do que você.
— Você quer dizer que um cara como ele não tem um representante legal?
— Eu não disse isso. Disse que não sou eu esse representante.
Me inclinei para perto da mesa com um olhar indignado:
— Então o que estou fazendo aqui se você não sabe nenhum podre da vida de Boscher?
Santiago soltou um riso sem humor.
— Me pergunto a mesma coisa toda vez que ouço você bater na porta.
OLIVIA
Eu estava em meu horário de almoço quando meu celular tocou e o número de Mia apareceu na tela.
— Senhorita Sartori, como vai?
— É Olivia, Mia. Agora mais do que nunca. — falei gentilmente e ela riu do outro lado.
— Desculpa, alguns costumes são difíceis de quebrar. Liguei numa hora ruim?
— Não, não. Acabei de sair para o meu almoço.
— Ah, que ótimo. — Ela suspirou. — A noite passou tão rápido naquela conferência que eu nem tive tempo para falar com a senho...com você.
— É verdade. — respondi com um sorriso, lembrando que, a última vez que a tinha visto, ela estava com o assistente de Sebastian. Aos beijos. — Como vai Marco?
Mia quase se engasgou e tossiu para disfarçar.
— Hm...bem, eu acho. Mas, enfim, eu liguei porque você me disse que queria que eu deixasse a senhora a par do que estava acontecendo, você sabe, sobre sua situação com o senhor Ferrante. — Assenti com a cabeça embora ela não pudesse me ver. — Acontece que, como estou o ajudando, eu também consigo fazer umas buscas independentes e eu...eu acho que encontrei o que vocês precisam.
Me ajeitei na cadeira da lanchonete.
— Jura?
— Queria falar com o senhor Ferrante, mas creio que a senhora vai tratar esse assunto com mais...delicadeza. Ele meio que está disposto a fazer qualquer coisa para ter a senhora de volta, então imagino que nessa situação, ele possa passar um pouco como desesperado.
Meu coração batia rápido no peito com esperança.
Desde a noite que passamos juntos, eu e Sebastian apenas havíamos trocado algumas mensagens educadas, nós dois pareciamos saber que precisávamos achar algo muito bom para mudar a posição de Boscher ou torcer para que ele nos esquecesse no decorrer dos meses.
— Então me conte, Mia, qual o assunto e qual a situação?
•
Eu estava no quarto de Patricia bisbilhotando tudo enquanto ela finalizava um trabalho.
— Você está calada hoje. Não reclamou das nuvens no céu nem das pessoas respirando demais ao seu redor. — comentei, brincando.
Patty apenas suspirou.
— Não tenho muito o que falar. Talvez Rebecca possa te ajudar nessa questão.
Olhei incrédula para ela, por cima do ombro.
Ela estava estranha desde quando me contou que Hunter sabia do meu acordo com Boscher e contou para Sebastian, mas desde que eu havia chegado de viagem, ela parecia extremamente fechada ainda mais do que o normal.
Parece que eu tinha descoberto pelo menos parte do motivo.
— Rebecca está ficando no meu apartamento pois não tem para onde ir, Patricia. Isso não tem nada a ver com nós sermos amigas ou não.
Ela soltou um pouco de ar pelo nariz.
— Então quer dizer que não está amolecendo depois de tudo o que ela te fez passar? Que não está sentindo pena quando ela não teve um pingo de pena de você ao dormir com o seu noivo?
Respirei fundo:
— Ela me contou as circunstâncias, Patty.
— Claro. — Minha amiga deu uma risada irônica. — Não deve ter sido nada fácil para ela.
— O que você queria que eu fizesse? Max a agrediu, eu não poderia simplesmente trazê-la de volta para isso. Não importa de que forma ela tenha me traído, nenhuma mulher merece ser agredida.
Ela ergueu os olhos para mim.
— Não estou dizendo que não devia ter ajudado, só não precisa ficar fingindo que não estava ansiosa para fazer as pazes com ela, afinal, ela foi sua primeira melhor amiga.
— É isso que você pensa? Que estou trocando você por Rebecca? Como eu poderia, Patty, você é a minha metade. Foi quem esteve lá para mim quando eu mais precisei. É você que põe minha mente no lugar quando estou prestes a surtar.
Patricia engoliu a seco e desviou o olhar.
— Estou cansada de ser sempre a pessoa que está ali para tapar buraco para alguém. Estou cansada de não ser a primeira opção de ninguém. — Sua voz vacilou um pouco na última palavra e percebi que os olhos de Patty estavam querendo começar a marejar.
A última vez que havia visto minha amiga chorar tinha sido anos atrás, ao meu lado, compartilhando da minha dor.
Caminhei até parar do seu lado e me sentei na cama.
— Ei, o que está acontecendo? Hm? Você sabe que ninguém se compara a você. Mesmo com Rebecca morando debaixo do mesmo teto que eu, você ainda foi a primeira pessoa que eu liguei para contar todos os detalhes sobre a conferência. Você é a única que sabe o que eu realmente sinto sobre tudo, mas às vezes, sinto que não faz o mesmo comigo. Que se fecha tanto que nem mesmo eu consigo abrir para consolar ou te dar algum suporte. Ainda assim, é a sua amizade que eu quero ter para o resto da vida, entendeu? Quero que se sinta à vontade para me contar qualquer coisa, ok?
Patricia assentiu com a cabeça e me abraçou de volta.
Ficamos abraçadas por algum tempo, eu só sentindo seu corpo tremer vez ou outra até que ela disse:
— E então o que faz aqui depois de aparecer há menos de um mês?
Suspirei.
— Tomei algumas decisões e preciso de sua ajuda.
— Essa é a hora que você me conta seu plano de matar o velho asqueroso e eu ajudo a esconder o corpo?
Fingi estar pensativa.
— Talvez.
•
Eu mal conseguia acreditar em meus olhos.
Do outro lado da rua, andando de cabeça baixa, estava Max.
Completamente quebrado.
Havia hematomas por todo seu braço e seu rosto.
— O que houve? — perguntei à PJ que andava ao meu lado.
Eu, ele e meu pai estávamos andando pelas ruas da cidade, depois que também pedi ajuda aos dois com a minha tarefa.
Patricia já estava fazendo sua parte.
Teríamos apenas vinte e quatro horas para preparar tudo.
— Parece que foi um assaltante, não sei? — PJ respondeu calmamente.
Até demais.
Estreitei meus olhos em sua direção e meu irmão deu de ombros.
— E o que roubaram? — perguntei, enquanto observava Max passar por um de nossos vizinhos, mas ao invés de receber um cumprimento, um sorriso ou um olhar de pena, as pessoas apenas olharam feio para ele e seguiram seu caminho.
O que estava acontecendo?
— Aparentemente nada. — Foi meu pai que respondeu, dando de ombros ao meu lado. — Do nada, um belo dia, ele apareceu assim.
— E por que ninguém está falando com ele? — perguntei quando outra pessoa passou por Maximus sem lhe dirigir nem mesmo um olhar.
— Parece que, por um acaso, todo mundo já sabe quem ele realmente é. — Meu pai explicou.
Olhei para suas mãos e parecia que os nós dos seus dedos estavam um tanto arroxeados..
— É... — PJ continuou. — Pelo visto, todos sabem que ele batia na esposa, na frente da bebê ainda por cima. Não é como se as pessoas quisessem ser muito amigas dele agora.
— Isso tem dedo de vocês, não tem?
— Dedos, não. Punhos. — Meu irmão murmurou e levou um tapa do meu pai na cabeça.
— Sabe que isso pode dar muitos problemas para vocês, não sabem?
—Nós só o ensinamos uma lição na qual ele estava atrasado há muito tempo.
— Pai!
— O que foi? — ele olhou para mim. — Não é como se ele fosse idiota o suficiente para ir até a polícia e dizer que apanhou por ser um infeliz agressor.
— Ei, Max! — PJ gritou acenando para o homem do outro lado da rua. O sorriso do meu irmão era o mais absurdo possível ao dizer: — Melhoras, viu?
Max lançou um olhar fulminante para nós antes de continuar andando como se ninguém tivesse falado com ele.
SEBASTIAN
Saí do carro, olhando para os lados.
Era estranho estar naquela cidade sem Olivia do lado.
Para fazer o mural que dei de aniversário para ela, eu havia apenas enviado os desenhos para Patricia colocar uma de suas bordas belíssimas, mas não pisava ali desde que Olivia tinha ido embora do nosso casamento.
Pedro Sartori havia me convidado para ajudá-lo com o planejamento de uma campanha para sua empresa e eu havia concordado.
Pelo horário no meu relógio, eu tinha chegado pontualmente, mas meu ex-sogro não estava em lugar nenhum.
Tive a ideia de mandar uma mensagem de texto para ele, mas assim que peguei o celular encontrei uma sua.
Se possível, faça um favor para mim e pegue uma encomenda da floricultura da avenida principal.
Nos vemos em breve.
Respirei fundo, mas obedeci, afinal a placa no comércio indicava que ela estava apenas algumas lojas na frente de onde eu estava.
Quando cheguei na porta do estabelecimento encontrei o vidro fechado com a placa indicando o horário de funcionamento, que tinha acabado há dez minutos.
Eu estava prestes a me virar quando uma senhorinha apareceu atrás do vidro.
— Sebastian Ferrante? — franzi a testa com o fato de ela saber meu nome e sobrenome, mas apenas assenti com a cabeça.
Antes que eu pudesse explicar sobre a encomenda de Pedro, a mulher se virou me entregando um buquê lindíssimo.
— Obrigad...— Ela nem esperou eu terminar e fechou a porta com um baque, me deixando sozinho no meio da rua.
Esperei o cheiro de flores irritar meu nariz, mas só então percebi que elas eram de plástico e que havia um pequeno envelope no meio. Com o meu nome.
Olhei para os lados, tentando entender o que estava acontecendo.
Talvez fosse alguns dos meus sonhos malucos.
Peguei o envelope e abri. Apenas uma frase estava escrita.
Na caligrafia de Olivia.
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