Contrato de Casamento
59 Cinquenta e Seis
Notas iniciais
"I just wanted you to know
That this is me trying."
(this is me trying)
OLIVIA
Eu não sabia se Sebastian já estava dormindo, então entrei com cuidado no quarto.
Apenas para encontrá-lo sentado na cama, com fones de ouvido, um dos seus cadernos no colo e a mão ágil no lápis.
Sua expressão concentrada fazia com que um vinco se formasse na sua testa e eu o observei pelos dois segundos que se passaram sem que ele notasse minha presença.
Seus olhos encontraram os meus e era como se eles me prendessem no lugar. Sua mão parou com os movimentos e ele tirou os fones.
Meu peito subia e descia pesadamente enquanto eu tentava respirar normal.
Com as costas, fechei a porta.
Imaginei como deveria ter sido a cena de Julie o beijando e era como se um bolo fosse formado em minha garganta.
A imagem se misturava com Max e Rebecca no meu apartamento.
Abri a boca e a fechei no que pareceu milhares de vezes, mas nada saía.
— Sabe o que é estar preocupado com você e não pode dar dois passos sem que tudo doa? — Ferrante foi o primeiro a dizer, ele fez uma careta ao tentar se levantar para vir até mim, mas eu levantei a mão para que ele parasse. Ele se soltou na cama, derrotado. — Espero que esteja ciente que se eu estivesse cem por cento teria te caçado por toda essa cidade.
— Sinto muito. — Minha voz saiu num tom baixo. — Eu só... precisava assimilar tudo. — Desviei o olhar. — Ainda preciso.
— Não, Olivia, eu sinto muito. — ele rebateu enquanto eu tirava meu casaco, indo atrás de uma roupa confortável para dormir. — A culpa de tudo isso é minha. Se eu tivesse sido mais honesto comigo mesmo, com você, com Julie, nada disso estaria acontecendo.
— Talvez não...— comentei, me sentando na cadeira da escrivaninha, apoiando as roupas que peguei e passando a mão pela madeira.— Ou talvez você simplesmente sentia algo...mais forte por ela e achou que daria certo.
Sebastian se mexeu na cama, chamando minha atenção para que eu o encarasse.
— Preciso que entenda uma coisa, Olivia, e que isso fique bem claro: nunca senti por Julie algo minimamente próximo ao que sinto por você. Nunca. Não quando éramos pequenos, nem depois de Eloise me deixar, nem quando ela veio para cá.
Tirei a blusa que estava usando e coloquei uma camisa de mangas longas. Sebastian continuou falando:
—Que droga, acho que nunca senti por ninguém o que sinto por você. Desde o primeiro dia que te vi, estive lutando para tirar você da minha cabeça. — Sua voz era séria e seu olhar, aberto e sincero. Meu corpo tremia com cada palavra. — Quando esse acordo começou, eu não tinha para onde fugir. Durmo e acordo ao seu lado todos os dias, o que é uma coisa que nem nos meus sonhos mais loucos eu pensaria que fosse acontecer. Nós tínhamos que fingir estar juntos passando tempo juntos. Eu estava assustado, não podia pisar em falso com você. Era literalmente como uma ilusão que ao menor detalhe, se apagaria no ar. Agora que sabia como era ter mais de você, eu não iria conseguir voltar ao que era antes.
Tirei a minha calça, colocando um shorts folgado. Para mérito de Sebastian, ele continuou concentrado em meus olhos. Aquilo me mostrava o quão sério ele falava.
— Não queria que você se fechasse de novo para mim. Pensei que dando uma chance para Julie, eu a colocaria entre nós, evitando que eu ultrapassasse alguma linha com você. Julie parecia segura. Porém, aquilo tornou tudo ainda pior porque como eu iria convencer a mim mesmo que ela era a escolha certa se cada vez que te olhava era como se eu estivesse caindo de um abismo e me sentia como se fosse a melhor experiência da minha vida? Se cada sorriso que você me lançava, eu sabia depois seria mais uma noite sem dormir? Se a cada toque discreto seu, era como se você estivesse gravando seu nome em minha pele?
Meu coração não batia rápido, mas batia forte, como se cada palavra de Sebastian fosse uma batida e cada batida era como um martelar dentro de mim.
— Sei que magoei muito, Julie. Ela é minha melhor amiga, cresceu comigo, faz parte da minha história e a última coisa que eu queria era quebrar seu coração. — Seu rosto estava transtornado e eu pude ver como doía nele, de verdade. — Só que infelizmente, sem querer e por pensar apenas na minha situação, por ser egoísta, alimentei um cenário na mente dela que nunca vai se concretizar. Fui longe demais tentando não estragar tudo com você, de novo. Só que não tem mais nada que eu possa fazer. — Sebastian passou a mão pelo cabelo como se estivesse extremamente cansado. — Conversei com ela e expliquei a minha situação. Pedi desculpas por não poder lhe dar o que queria. Precisava que ela aceitasse minha decisão. E preciso que você entenda que, o que quer que você viu ou ouviu hoje, nada foi na intenção de te enganar ou te magoar.
— Eliza me contou tudo. — respondi, olhando para os meus dedos. — Tudo o que ela conseguiu ouvir pelo menos. Não posso mentir para você e dizer que não foi como se eu estivesse passando por tudo de novo, porque foi. Com Max, quero dizer.
Analisei o anel de noivado no meu dedo tentando focar em alguma coisa que não fosse a ardência em meus olhos.
— Eu nunca machucaria você de propósito, Lili. — ele argumentou, magoado.
— Sei disso, mas não consigo desprogramar minha mente para não pensar o pior. Pelo menos ainda não. Ainda nesse momento, tudo parece externo. Como se eu estivesse aqui e falando, mas não fosse eu. Quando Liz me contou, eu não senti nada, era como se eu estivesse anestesiada. Como se eu tivesse parada novamente no meio do meu apartamento, sem conseguir me mover.
Quando levantei meu olhar, Sebastian ainda me encarava intensamente. Não havia pena em sua expressão, mas uma fúria silenciosa de toda a situação.
— Não quero e não vou me afastar de você, Sebastian, mas preciso que entenda que é difícil para mim olhar para você e não te imaginar beijando-a. Difícil estar perto de você e não pensar se eu realmente sou a pessoa certa para você. — Levantei e caminhei em direção ao banheiro para escovar os dentes e não acabar me desmanchando em lágrimas bem na frente de Sebastian. — Eu só...Só preciso de um momento para pôr minha cabeça no lugar, está bem?
Ele assentiu com a cabeça, embora estivesse visivelmente contrariado.
Antes que eu sumisse de sua vista, comentou:
— Apenas saiba que quando aconteceu, a única coisa que estava na minha cabeça era você. Sempre é você.
SEBASTIAN
Ver Olivia foi ainda pior do que imaginar como ela estava. Ver o pingo de desconfiança e receio em seus olhos depois de tanto esforço para fazer com que ela se abrisse comigo. Ver que depois de uma tarde incrível, passaríamos a noite mal olhando um para o outro.
Parecia horrível da minha parte, mas eu estava feliz por Julie realmente voltar para casa.
Olhei para o meu caderno, as formas aleatórias desenhadas refletiam o estado inquieto em que eu me encontrava, esperando Olivia chegar. Nem mesmo consegui fazer um esboço decente. Nem mesmo sabia o que queria pôr no papel.
Não queria desenhá-la. Os desenhos eram insuficientes agora que eu sabia o que era tê-la de carne e osso ao meu lado. Como era ter seus olhos vivos me olhando diretamente. Como era analisar sua mão sem ter que apenas imaginar a textura do seu toque.
Fechei-o e o apoiei na mesinha de cabeceira junto com o celular e os fones.
Olivia saiu do banheiro, o cabelo preso num coque simples e tudo o que eu mais queria era puxá-la para mim e beijá-la até que tudo em nossa volta desaparecesse. Até que eu esquecesse aquela noite. Até que ela esquecesse tudo o que aconteceu com Max.
Sartori começou a rotina torturante dos seus hidratantes noturnos e eu deitei fechando os olhos, tentando não conjurar a cena exata na minha mente.
Já tinha gastado todo o meu autocontrole enquanto ela se trocava na minha frente.
Poucos minutos depois, senti a cama afundar um pouquinho.
— Boa noite, Seb.
A respiração que estava presa nos meus pulmões se libertou, mas quando abri os olhos Olivia estava religiosamente do seu lado do colchão, como se tivesse uma barreira entre nós novamente.
— Boa noite, Lili. — Me inclinei para dar um beijo em seu ombro e quando estava prestes a me afastar, senti uma mão segurar meu braço.
Lentamente, com medo de me machucar, Olivia o puxou, fazendo com que minha mão deslizasse por sua cintura, envolvendo seu corpo num abraço de lado.
Alívio percorreu meu corpo quando minha mão encontrou sua pele sob o tecido da camiseta e ela não me afastou. Na verdade, chegou mais perto.
Dei outro beijo, dessa vez próximo a sua orelha e continuei a distribuí-los por seu braço coberto, seu pescoço, sua nuca...até a respiração dela ficar profunda e eu também cair no sono.
OLIVIA
Acordei com minhas pernas e braços jogados sobre a cama, boa parte sobre Sebastian, que dormia pacificamente.
Ergui a cabeça com cuidado, observando-o por alguns minutos.
Era o rosto que eu via diariamente por vários anos, mas ainda assim sempre parecia ter algo novo. Um detalhe que passou despercebido, uma pintinha quase invisível que não tinha chamado minha atenção.
Estava disposta a ficar ali o dia todo, se fosse necessário, encarando-o, tentando apagar da minha imaginação qualquer imagem que tinha na cabeça da noite passada. Do seu beijo com Julie.
Eliza havia me contado que Sebastian mal havia se mexido para retribuir, mas eu sempre podia contar com minha mente para ser cruel e conjurar o pior cenário possível.
E aquilo era muito injusto com Ferrante.
Antes que eu fizesse o que tinha prometido a ele que não faria — procurar motivos para me afastar — levantei da cama com cuidado pronta para começar mais um dia.
Um dia mais perto do casamento.
Um dia mais perto de descobrir se o que tínhamos realmente duraria.
•
— Sabe que pode ficar na minha casa o tempo que precisar.
Estava me alongando na varanda e PJ passou pela frente da casa, gravando um áudio sem perceber minha presença.
— Ou eu pago um quarto para vocês duas, no local que você preferir. A situação só não pode ficar assim. Me mantenha informado. — Ele terminou, mas encarou o celular com uma expressão transtornada por alguns minutos.
— Tá tudo bem? — perguntei baixinho, mas mesmo assim meu irmão se sobressaltou. Na verdade, foi como se eu fosse uma aparição para ele.
— Liv!
Por um segundo, achei que ele jogaria o celular longe. Franzi a testa e repeti a pergunta:
— Tá tudo bem?
— Tudo ótimo. — Ele limpou a garganta. — Era uma...amiga que, hm... está precisando de ajuda, mas é cabeça-dura demais para aceitar.
— Uma amiga? — questionei, cutucando sua barriga.
— Nem ouse mencionar a existência de uma figura feminina na minha vida além de vocês na frente da mamãe, sabe como ela fica no meu pé.
Arqueei as sobrancelhas:
— Quase trinta e dois aninhos...Tem certeza que essa amiga não pode virar algo mais, você parece preocupado?
— Não começa. — Foi a sua vez de cutucar a lateral do meu corpo e eu protestei. — Ela é casada e eu só estou tentando ajudar.
Desanimei.
Eu e PJ poderíamos ser considerados os mais próximos e parecidos dos irmãos.
A nossa diferença de idade poderia ser a maior, mas de alguma forma minha mãe e meu pai criaram a mesma fórmula na primeira e na última gravidez, porque eu PJ éramos duas faces da mesma moeda.
E talvez essa moeda tivesse duas faces iguais.
Isso significava que ele me conhecia muito bem e eu o conhecia muito bem. Era quase como se fôssemos gêmeos que nasceram bem distantes um do outro.
Apesar despertar o interesse de meio mundo e ter aquele sorriso de canto canalha — algumas das poucas coisas que nos diferenciavam — PJ nunca foi de namorar muito quando eu era pequena e ele, adolescente. Lembro vagamente que ele namorava uma vizinha nossa, que achava que eles iam se casar, até ele ir para faculdade.
PJ passou na universidade da cidade mais próxima a nós e sempre ficava alternando entre nossa casa e lá.
Foi a única vez que o vi completamente apaixonado. Na verdade, todo mundo conseguia ver, mas ele negava. Eu descobri pelo seu celular e fui a única porque meu irmão me pediu para ficar quieta já que era muito cedo para criar expectativas.
E então de repente, tudo mudou.
Parecia que alguém tinha morrido e PJ se recusava a falar sobre até comigo, mas eu sabia que eles provavelmente tinham terminado.
Depois disso nunca mais o vi deixar ninguém minimamente se aproximar.
— Que pena. — Suspirei. — Não vou fazer um casamento duplo no domingo.
— Quem sabe no seu próximo? — Ele provocou e eu olhei para ele, chocada, prestes a dar um soco no seu braço. — Calma, calma. Eu quis dizer no seu próximo com o Sebastian. Eu duvido que ele vá deixar passar a chance de fazer uma festa enorme em que ele seja o centro das atenções. Não sei porque vocês estão fazendo tudo às pressas, já que você garante que não está grávida e é a última pessoa que faria algo sem planejar dez anos antes.
Tentei mascarar minha expressão de modo que nem mesmo PJ conseguisse desconfiar de algo.
— É só que... pareceu certo. — Foi a vez dele arquear uma sobrancelha para mim. — Como você disse, eu planejo demais minha vida toda. E como podemos ver meu planejamento tomou uns caminhos bem...diferentes. Talvez o sucesso venha da espontaneidade.
Meu irmão me encarou por um momento e então passou um braço pelo meu ombro para andarmos juntos:
— Talvez. Talvez a espontaneidade realmente combine com você.
•
Ao longe, por cima da cerca, era possível ver a roda gigante da feira no centro da cidade.
Era o último dia e boa parte do pessoal tinha ido aproveitar as últimas horas antes de começar o processo de guardar tudo para a próxima festividade.
Sebastian estava em algum lugar com Otávio e o meu cunhado.
Visto que bastou uma olhada no meu rosto para Ferrante perceber que eu seria totalmente contra ele ir aprontar mais alguma na feira enquanto ainda estava se recuperando, resolveu se alternar entre ajudar na cozinha, no depósito e em qualquer outra coisa que não exigisse muito dele.
Nossa primeira e única interação naquele dia até o momento tinha sido o tal do olhar que lancei em sua direção e um selinho, que mais pareceu uma brisa sobre meus lábios.
Estávamos os dois desajeitados: Sebastian não queria invadir o espaço que pedi. E eu alternava entre querer puxá-lo para mais perto e poupá-lo de toda a minha merda, saindo correndo para bem longe.
Percebi um movimento por perto e me virei — tapando meu rosto para proteger contra a luz do sol — apenas para encontrar meu pai se aproximando.
Com uma facilidade impressionante, ele subiu na cerca de madeira e sentou ao meu lado.
— Quem eu tenho que matar? — Pedro Sartori disse como cumprimento e eu ri.
— Por enquanto, ninguém. De onde tirou essa ideia?
— Sei quando tem algo incomodando ou está triste. Embora ainda não consegui definir qual está acontecendo no momento. Está com dúvidas sobre domingo?
E ainda me perguntavam onde eu tinha aprendido a ser tão direta.
— Não. — respondi rapidamente, mas não queria soar defensiva. De um jeito ou de outro, eu e Sebastian teríamos mesmo que nos casar naquele fim de semana. Eu definitivamente não poderia me dar o luxo de perder meu emprego. Por mais cruel que soasse, era a única coisa que eu realmente tinha. — É só que... não sei. Vou me casar! Não achei que isso aconteceria tão cedo. Não depois do meu noivado fracassado.
— Se estiver pensando em fazer isso para provar algo...
— Não estou. — interrompi. — De verdade. Não me importo o suficiente com Max ou com o pessoal para provar algo para eles. Mas ainda me importo com o que eu penso... — Forcei um sorriso. — E às vezes o que eu penso não é tão legal assim.
Meu pai respirou fundo.
— Sei que carrega muita coisa dentro de si e não conta metade delas para ninguém. Mesmo assim posso falar por todo mundo aqui de casa que sabemos o quão forte você é. O quão incrível. O quão linda. — Mostrei a língua. — Não estou dizendo isso só porque é minha filha e logicamente herdou meus genes incríveis, mas porque sei que às vezes vejo que você se dá menos valor do que deveria. Passei uma semana e meia, observando seu noivo fazer de tudo para provar que é o suficiente. O garoto literalmente subiu em um cavalo para se exibir para você. Acabou dando muito errado, mas acho que deu para entender.
— Ele não subiu num cavalo para me impressionar, pai. — comentei, segurando a risada.
— Ah, ele fez isso sim. Eu sei porque fiz coisas parecidas para ganhar sua mãe. Ela me odiava desde que acabei com aquela lata-velha conversível que ela tinha o maior orgulho de ter porque era seu primeiro carro. Fiz loucuras para aquela mulher me perdoar. — ele contou com uma expressão nostálgica e eu franzi a testa.
— Achei que tinha sido relativamente simples para vocês ficarem juntos.
— Da segunda vez. — Eu o encarei como se ele fosse um estranho e ele fez um gesto displicente com a mão. — Isso é história para outra hora. O que estou dizendo é que aquele rapaz não está com nenhuma dúvida de que vai fazer de tudo para merecer estar do seu lado no altar. E eu tenho certeza, que se for isso mesmo que você quer, ele vai estar mais do que contente em passar o resto da vida ao seu lado.
Dei uma cotovelada de leve na sua barriga.
— Não acha que vocês se apegaram rápido demais ao Sebastian, não?
Meu pai deu de ombros:
— O que posso fazer? O garoto é carismático. E te deixa bobinha. Acho que nunca tinha visto você com um sorriso bobinho até aparecer com ele a tiracolo. Sempre foi tão séria.
Senti minhas bochechas esquentarem, mas conseguia perceber o "sorriso bobinho" lutando para aparecer.
Meu pai arqueou as sobrancelhas como quem diz: "Não falei?" e eu desci da cerca, pronta para procurar alguma coisa para fazer.
— Hoje é a reunião de encerramento da feira. PJ disse que vai ser aqui. — comentei.
— E você quer saber se convidei Raul e Max. — Assenti com a cabeça. — Vim aqui para te perguntar exatamente se você se incomodaria.
Suspirei:
— Você provavelmente vai chamar todos da associação, ficaria estranho se não os chamasse também.
— Não estou preocupado em se vai ficar estranho, estou preocupado com você.
Dei de ombros:
— Não é como se eu e Max estivéssemos nos melhores termos, mas contanto que ele não force nenhum tipo de interação entre nós, serei madura o suficiente para não procurar brigas e fingir que ele não existe.
O senhor Sartori esboçou um sorriso:
— E Sebastian?
— Está preocupado com Sebastian também?
— Ele faz parte da família, ou pelo menos vai fazer muito em breve, não é? — Pela sua expressão eu sabia que ele estava só me provocando.
— Inacreditável. — fingi estar ultrajada enquanto meu pai também descia da cerca. — Daqui a pouco eu serei a nora e ele será o filho de vocês.
— Falta isso aqui. — Ele gesticulou com o dedo indicador e o polegar, mas quando fiz uma cara feia, segurou meu rosto com as duas mãos e deu um beijo na minha testa. — Mas é sério, uma palavra e deixo os Fontana de fora.
Eu estava emocionada que meu pai parecia que realmente faria aquilo por mim.
Os últimos anos tinha sido difíceis tendo que conviver com Max e companhia durante as férias e os feriados, porém, se eu fosse ser justa, nunca tinha pedido de verdade para que eles evitassem chamar os Fontana quando eu estivesse presente.
Talvez até mesmo tenha feito um excelente trabalho mascarando meu desconforto perto da família do meu ex-noivo.
Pedro Sartori olhou nos meus olhos e, por um momento, eu desejei voltar a garotinha sem preocupações que poderia correr para o braço do pai sempre que se sentisse mal.
— Basta uma palavra, está bem?
Assenti e ele deu mais um beijo na minha testa.
— Vou perguntar para Sebastian se está tudo bem e te respondo, ok?
•
Eu não tinha a mínima ideia onde Ferrante estava, então resolvi ir ao meu quarto, com esperança de que ele estivesse descansando.
O que era altamente improvável.
Por um instante, fiquei surpresa com a possibilidade da minha esperança ter se tornado realidade ao notar a porta do meu quarto entreaberta, mas então, quando estava prestes a colocar o pé no último degrau, a porta se abriu mais um pouco e foi Julie que saiu de dentro.
Nós duas paralisamos em lados opostos quase que ao mesmo tempo.
— Julie?
Ela pareceu totalmente surpresa ao me ver:
— Olivia. Eu... perdão... — ela disse, desconcertada e apontou para a porta atrás de si. — Vi que estava entreaberta e achei que Sebastian poderia estar aqui. Sinto muito. — Arqueei uma sobrancelha, ainda sem entender porque ela se daria o trabalho de entrar no meu quarto apenas para falar com Ferrante, então ela acrescentou: — Estou indo embora. Queria me despedir, saber se ele me acompanharia com Hunter até a rodoviária.
Ela realmente estava indo embora. Era quase impossível de acreditar.
Dei o último passo que faltava na escada e, embora quisesse falar muitas coisas sobre tudo que envolvia eu, ela e Sebastian, apenas respirei fundo e ofereci:
— Posso pedir para alguém te emprestar um carro para ir até a capital. Quando eu voltar para lá, trago de volta.
Ela juntou as mãos na frente do corpo e negou com a cabeça:
— Não, por favor, não precisa. Já conferi os horários e itinerário dos ônibus, vai ficar tudo bem.
— Ok. — eu disse, sem graça, parada no meio do corredor.
— Agradeça a sua família por mim — Julie mexeu na pulseira em seu braço. — Eles foram muito... hospitaleiros e gentis.
— Está bem.
Ela voltou a me encarar e ficamos alguns segundos assim, até ela ajeitar a postura e caminhar em minha direção.
Julie passou por mim e parou na frente da porta do quarto onde ela ficou, pegando suas malas.
Abri e fechei a boca algumas vezes antes de dizer:
— Não planejei que as coisas acontecessem desse jeito. Quero que saiba.
Ela ajeitou o peso nas mãos e mexeu a cabeça para os fios de cabelo saírem da frente do rosto.
Julie me lançou um sorriso sem mostrar os dentes.
— Tenho certeza que não planejou. — Seu tom não indicava emoção nenhuma. — Não se preocupe. O que aconteceu ontem à noite foi só uma tentativa de me agarrar numa ilusão que já estava fadada ao fracasso. Estou indo embora e tudo vai ficar bem. — Ela chegou no topo da escada e me olhou uma última vez. — Adeus, Olivia. Bom casamento. Espero que sejam felizes juntos.
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