Contrato de Casamento
58 Cinquenta e Cinco
Notas iniciais
"If there's something I've learned
From a million mistakes,
You're the one that I want
At the end of the day"
(End of The Day)
SEBASTIAN
Alguns minutos tinham se passado desde que o pessoal tinha voltado para casa — e desde que Olivia tinha ido definir alguns detalhes da cerimônia com minha mãe e a dela — quando recebi uma mensagem no celular.
Julie
Preciso conversar com você?
Consegue vir aqui fora?
Depois das minhas últimas conversas com Julie terem sido extremamente tensas, eu não tinha certeza se queria mesmo fazer aquilo.
Aquele foi um dia incrível e ,embora eu ainda estivesse sentindo os efeitos da queda, não queria terminar minha noite me sentindo mal.
Porém, eu devia isso a Julie quantas vezes ela precisasse, afinal, eu tinha a arrastado para aquilo, eu não tinha sido sincero com ela nem comigo e sabia que toda a sua reação comigo e com Olivia era porque minha amiga estava sofrendo.
Não podia simplesmente dar às costas a ela e fingir que nada estava acontecendo.
Tínhamos uma amizade de anos.
Então apoiei meu pé estável no chão e deixei o burburinho crescente da sala cheia para trás, passando pela porta da frente e olhando para os lados em busca de Julie.
Ela estava a poucos metros de distância e, enquanto eu me aproximava, ainda um pouco devagar por causa do pé, Julie gesticulou para que seguíssemos adiante.
Caminhamos com alguns passos de distância entre nós — ela guiando o caminho — e eu percebi que estávamos perto do celeiro, um poste alto iluminava a construção, e logo ao lado estava o projeto de Pedro Sartori quase finalizado.
Os rapazes deveriam ter adiantado bastante o serviço enquanto eu estava no hospital.
Julie chamou minha atenção e entrou no celeiro.
— Acho que aqui é mais seguro do que perto da família enorme de Olivia que pode nos ver e interpretar tudo errado. — Ela começou, apoiando-se numa pilastra e me observando de cima a baixo. — Está doendo muito?
— Acho que não tanto como imaginei que estaria. O médico disse que tive sorte de ter apenas deslocado o braço e lesionado um músculo desse pé. — Apontei. — Falou que poderia ser muito pior.
— E poderia mesmo, mas quando é que você tem juízo ou me dá ouvidos, não é?
Surpreendentemente seu tom não era de reprimenda ou julgamento. Havia um pequeno sorriso triste no canto de seus lábios.
— Olivia passou a noite com você lá no hospital, não foi? — Assenti com a cabeça e ela não me encarou. — Vi quando ela saiu daqui com uma bolsa grande. Parecia genuinamente preocupada... Talvez, talvez, eu tenha me apressado em julgá-la mal.
Respirei fundo.
— Olivia é uma boa pessoa, Ju. — Estava cansado de tentar fazer com que ela entendesse isso.
Julie balançou a cabeça como se tentasse convencer a si mesma a acreditar no que eu dizia.
— Acho que sim. — Ela deu de ombros. — Sinto muito por ter sido...difícil com você todos esses dias. Não é fácil admitir que talvez outra pessoa seja boa para o cara que você ama... Só posso desejar que ela te ame também e que tudo isso não seja apenas um artifício para conseguir o que quer.
Abri a boca para rebater, mas Julie levantou as duas mãos na altura do ombro:
— Está bem. Eu já sei. Não vou duvidar do caráter dela quando você parece ter bastante certeza. Não te chamei aqui para isso.
— E para que você me chamou aqui, Ju?
— Porque estou indo embora, Sebastian. Volto para a capital amanhã de manhã.
Tentei assimilar as palavras:
— O quê? Por quê? Faltam cinco dias para o casamento.
Julie soltou uma risada sem humor.
— Você não espera realmente que eu fique aqui observando os pombinhos apaixonados enquanto você sobe no altar e promete passar sua vida ao lado de outra mulher, espera? — Ela mordeu o lábio e desviou o olhar do meu. A luz do poste iluminava a umidez que começava a crescer em seus olhos. — Nem mesmo eu consigo ser tão sangue de barata assim. Eu...preciso de um tempo para colocar minha cabeça no lugar e quanto antes isso acontecer melhor.
Eu não disse nada por alguns minutos e Julie abraçou o próprio corpo.
— Nunca foi minha intenção te machucar. Quero que saiba disso.
— É duro dizer, mas que diferença isso faz, Seb? Eu já estava arrasada quando achei pela primeira vez que tudo isso aqui era verdade e então tive um gosto de como seria estar com você, apenas para te observar se apaixonando por ela bem na frente dos meus olhos.
— Sinto muito. — Eram palavras que não consertavam nada, mas eu não tinha mais o que dizer. Qualquer coisa era algo em potencial para piorar ainda mais aquela situação.
Observei os ombros dela tremerem e sabia que Julie estava chorando.
Fazendo o possível para firmar meus pés no chão, andei até ela, desencostando-a da pilastra, e a abracei.
Julie pareceu tensa num primeiro instante, mas então passou os braços com cuidado em volta do meu corpo.
— Você merece uma pessoa que te ame na mesma intensidade e da mesma forma que você vai amá-la, Ju. Por muito tempo, pensei que talvez eu pudesse ser essa pessoa, mas já percebemos que não sou.
Ela se afastou para me encarar, seus olhos azuis me encaravam como se eu estivesse abrindo o chão sob seus pés. Julie segurou meu rosto com as duas mãos e tudo o que eu conseguia pensar era em Olivia, como tudo era tão diferente com ela, como se fosse ela me olhando daquela maneira, eu estaria de joelhos.
Talvez eu devesse ter me esforçado para guardar Olivia num canto da minha mente e prestado atenção no que se passava porque, em um instante, eu estava pronto para terminar aquele abraço com Julie e no seguinte, ela puxava meu rosto para si e juntava os nossos lábios.
OLIVIA
— Liv, fala alguma coisa.
A voz da minha irmã me puxou de volta para o presente e eu pisquei.
Relembrava vagamente de segundos antes ela dizendo:
"Os dois no celeiro", "A iluminação não estava muito boa", "Não consegui ouvir o que eles falavam", "Aí ela o beijou."
A frase "ela o beijou" ecoou na minha mente, que zombou:
"É claro que ela beijou".
Liz também tinha explicado que, em defesa de Sebastian, ele parecia tão surpreso quanto ela tinha ficado presenciando a cena. Além disso, com o pé machucado, havia pouco para se fazer quando uma mulher estava agarrando-o.
— Achei que você precisava saber. Essa "melhor amiga" passou todos os dias secando você e Sebastian e...
— Eles já ficaram juntos. — minha voz soou extremamente monótona e sem emoção. — É...complicado.
— Pois você e Sebastian precisam tornar as coisas bem claras para ela.
Suspirei.
— Vou para o meu quarto, Liz. — Dei um beijo em sua bochecha e me levantei. — Obrigada por me contar.
— Oli, sei que não é fácil, mas genuinamente não acho que Sebastian estava planejando aquilo quando foi se encontrar com ela. Queria ter ficado mais, porém com o susto acabei derrubando um ancinho e eles ouviram.
Apenas assenti com a cabeça, sentia como se todo o meu corpo estivesse anestesiado.
— Pode dizer para mamãe e papai que não vou descer para o jantar hoje. Depois como alguma coisa. Estou sem fome.
Minha irmã me olhou com um olhar triste, mas confirmou.
Abri a porta e segui para o meu quarto.
•
Eu conhecia muito bem a sensação de não sentir nada. E infelizmente ela trazia lembranças ruins, ainda que fosse uma situação completamente diferente.
Não estava com raiva, nem triste, nem irritada, nem decepcionada, aqueles eram momentos em que eu não sentia nada. E aquilo era horrível.
Eu
Pat.
Patty
Estou a caminho.
Quer que eu leve alguma coisa?
Eu
Não
Te espero no portão.
Ao abrir a janela do quarto, percebi que a noite estava congelante, então peguei um casaco e esperei perto da escada pelo barulho de todos se juntando na sala de jantar indicando que a porta da frente teoricamente estaria livre e eu poderia sair sem ser percebida.
Por um momento, pensei em andar algumas portas adiante no corredor e bater na de Julie. Eu sabia que ela tinha voltado e estava lá porque conseguia ouvir seus passos.
Algumas mulheres teriam ido tirar satisfação, talvez falar algumas ofensas, expulsá-la dali porque eu sabia que nada do que ela estava fazendo era impulsivo ou acidental. Julie não estava deixando seu lado emocional tomar conta.
Não.
Ela poderia estar observando eu e Sebastian de perto, mas eu também a observava. Mais naqueles últimos dias do que antes.
Apesar da imagem bastante emotiva e sensível que tentava passar para Sebastian, eu sabia que ela conseguia ser bastante racional e determinada.
Sabia que tudo aquilo era apenas para causar em mim pelo menos um pouco do que ela tinha sentido quando viu eu e Sebastian juntos de verdade pela primeira vez.
Julie deixou bem claro para mim o que achava da ideia de eu e Ferrante quando tudo ainda não passava de um acordo e eu não tinha dúvidas que, nas conversas entre os dois, Olivia Sartori não era um tópico muito bem falado por ela.
Desci as escadas com cuidado e consegui ter o vislumbre das costas de Sebastian sentado à mesa, o lugar ao seu lado vazio.
Saí pela porta e soltei o ar que estava preso em meus pulmões. O turbilhão de sentimentos começava a dar as caras e eu não podia ter uma crise bem ali.
— Tudo bem, princesa?
Quase tomei um susto com a voz de Hunter e olhei na sua direção, com a mão no peito:
— Meu Deus, não percebi que você estava aí.
Ele girou algo entre os dedos — um cigarro — observando os movimentos com atenção, como se ponderasse algo, e então guardou no bolso da calça.
— Não sabia que você fumava. — comentei, enfiando as mãos nos bolsos do casaco.
Hunter se aproximou de mim:
— Não fumo. Mais. — Arqueei uma sobrancelha, olhando sugestivamente para onde ele tinha guardado o cigarro. — Só que às vezes penso no que eu não faria por alguns minutos de paz na minha cabeça.
— Sei bem como se sente, mas esse negócio é fedorento. Não faça isso.
Ficamos alguns minutos em silêncio e eu não percebi que Hunter estava a poucos centímetros de distância de mim, até dizer:
— Ei, o que houve?
Ele levantou o meu queixo e colocou meu cabelo atrás da orelha como um pai que avalia o filho que acabou de cair de cara no chão para ver se tem algum arranhão.
Pelo menos, nenhuma das minhas feridas eram visíveis, então eu podia apenas pôr um sorriso no rosto e dizer:
— Só estou cansada. Foi um dia cansativo e...
Alguém limpou a garganta.
— Boa noite. — Patty disse, olhando de mim para Hunter e eu poderia jurar que seu olhar parou um segundo a mais na mão dele no meu queixo.
— Boa noite, Patricia. — ele disse, enfiando as duas mãos nos bolsos da calça. Percebi a mudança de tom na sua voz e tive a estranha certeza que a mão direita tinha o cigarro entre os dedos de novo.
— Te esperei no portão, mas você demorou. — Patricia disse para mim, ignorando Hunter.
— Encontrei Hunter na porta.
— E, embora algumas pessoas possam discordar, — ele disse ainda se dirigindo à minha amiga. — Sou uma companhia minimamente decente.
Patty olhou para ele com um sorriso amarelo:
— Questionável.
Embora eu estivesse achando fascinante e intrigante a interação dos dois, a qualquer momento outra pessoa poderia aparecer ali na porta e eu não estava a fim de encarar mais ninguém.
— Vamos? — perguntei para Patty, antes de entrelaçar o braço no seu.
Hunter tinha voltado a sua posição na varanda, olhando para o horizonte e por um momento achei que minha amiga abriria a boca para falar alguma coisa para ele, mas simplesmente olhou para mim e disse:
— Claro.
SEBASTIAN
alguns minutos antes
Eu tinha duas opções: empurrar Julie e cair sobre ela ou me afastar e deixar que ela caísse sobre mim.
Nenhuma das duas era uma boa opção considerando que eu não tinha apoio nenhum e que meu pé estava a ponto de pedir socorro por ficar sendo usado por tempo demais, sem um apoio decente.
Foi uma péssima ideia ter ido ali.
Foi uma péssima ideia não ter levado pelo menos um pedaço de madeira que me desse alguma sustentação porque naquele momento qualquer apoio que não fosse o corpo de Julie estava longe demais para que eu alcançasse.
Foi uma péssima ideia subir naquele cavalo.
Olivia tinha razão: eu era cheio de péssimas ideias.
Meus olhos estavam abertos enquanto os lábios de Julie estavam grudados aos meus, a cena toda não deveria ter durado mais do que dez segundos, mas no choque do momento pareceu que durou anos.
Quando segurei seus braços em busca de apoio, Julie interpretou como um incentivo pois tentou aprofundar o beijo, uma mão se enterrou no meu cabelo e a outra apoiada sobre o meu peito então um barulho estrondoso soou e nós nos sobressaltamos: Julie pelo susto, eu cambaleando para trás em busca de qualquer coisa que me desse sustentação.
Meu choque não foi praticamente cair de bunda no chão, mas sim ver a sombra que tinha acabado de sair da porta do celeiro.
Por favor, que não seja Olivia. Por favor. Por favor.
Não justamente hoje. Não depois de tudo.
Talvez eu devesse estar mais preocupado com a possibilidade de ser o senhor Sartori ou um dos irmãos dela porque significava que provavelmente eu seria estraçalhado em alguns minutos.
Mas eu não me importava.
Não me importava de apanhar ou levar um tiro, se simplesmente pudesse evitar Olivia de presenciar aquela cena e entender tudo errado.
Percebi Julie vir na minha direção para me ajudar a levantar, o rosto vermelho e seus olhos pareciam prestes a transbordar a qualquer minuto. Principalmente quando me afastei ainda mais de seu alcance.
Eu me levantaria sozinho.
— Você não deveria ter feito isso, Julie.
— E-eu...eu sei. Eu sinto muito, deixa eu te...
— Não. — disse baixo, mas firme. Queria conseguir ir atrás de quem quer que tivesse presenciado aquilo, só para aliviar meu coração da possibilidade de ser Olivia. — Não...só não..., por favor.
Toda a expressão e postura de Julie foi como se eu tivesse lhe dado um tapa no rosto. Ou um soco na boca do estômago.
Com esforço, consegui colocar o peso do meu corpo apenas sobre o lado que não estava dolorido e levantei.
— Sebs.
— Sinto muito, Julie, mas preciso ir. — Bati na minha calça para limpá-la, pronto para forçar minha perna se fosse preciso e pôr alguma distância considerável entre nós.
— Você me devia pelo menos isso.
Olhei para ela, incrédulo, e soltei uma risada sem humor.
— O quê?!
— Você não tem e nunca vai ter noção de quanto dói. O quanto dói ser sempre a sua tapa buraco, está ali para curar suas feridas ou preencher seus vazios para então, na primeira oportunidade que tiver, ser jogada de lado.
— Eu nunca te usei como tapa buraco, Julie. Sempre deixei bem claro minha relutância em rolar algo entre a gente, inclusive quando minha relação com Eloise acabou. Fiz isso justamente para não te machucar.
— Nós dormimos juntos, Sebastian! E na semana seguinte você falou que não deveria ter acontecido! — ela bradou.
— Porque não deveria mesmo! Consigo ver isso com mais clareza ainda agora. Eu te disse diversas vezes que não achava uma boa ideia. — Esfreguei o rosto com as duas mãos. — O que você queria, Julie? Que nós dormíssemos juntos e eu ficasse te enrolando, fingindo um sentimento que não existia? Me desculpe, mas eu te considerava demais para fazer isso com você. Ainda considero.
Ela deu uma risada irônica.
— Como me considerou quando me disse que ia tentar que déssemos certo? Você nunca nem me deu uma chance de verdade.
— Porque eu não te amo, Julie! Não dessa forma. — O queixo dela caiu enquanto minhas palavras ecoavam pelo ambiente. Eu me sentia extremamente exausto. — Eu realmente...eu achei que poderia funcionar. Achei que poderia dar certo. Meus pais gostam de você desde sempre. Hunter me disse que eu deveria tentar porque você é incrível e nós sempre tivemos uma conexão tão boa. Você sempre foi tão boa para mim e...
— Mas nunca seria boa o suficiente, não é? — Percebi que as lágrimas escorriam por seu rosto.
— Já te disse isso antes e é a pura verdade: eu nunca quis te magoar. Não queria que chegássemos nesse ponto.
— Nem eu. — Sua voz estava embargada, mas então ela fungou, enxugando as lágrimas e secando os olhos. — Não tem razão para eu continuar insistindo em algo que nunca vai dar certo, não é?
— Não quero que desapareça da minha vida de novo, mas, neste momento, nossa proximidade está fazendo mais mal do que bem para nós.
Ela assentiu com a cabeça.
— Afinal, não posso ficar para sempre orbitando à sua volta esperando que você enxergue o que está bem na sua frente, não é?
Não respondi. Aquela discussão não nos levaria a lugar algum e eu não queria acabar falando mais alguma coisa que fosse machucá-la.
Julie suspirou.
— Adeus, Sebastian. — ela disse, caminhando em direção a saída, mas de repente a parou.
— Você a ama, não é? — Continuei em silêncio, sem saber como fazer as palavras saírem. — Espero que não seja mais uma a quebrar o seu coração porque dessa vez não vou estar lá.
Respirei fundo:
— Tchau, Julie.
•
Olivia não apareceu para o jantar e era como se meu coração tivesse diminuído de tamanho.
Embora quase todos na mesa estivessem de bom humor e parecendo alheios a qualquer drama que estivesse acontecendo naquela noite, a irmã de Olivia não tirava os olhos de mim, num misto de pena, julgamento e contrariedade e minha teoria era que ou ela ou Olivia tinha sido a pessoa que estava no celeiro na hora daquele maldito beijo.
Três cadeiras estavam vazias: a de Olivia ao meu lado, a de Julie do outro e a de Hunter que ficava do outro lado de Julie.
Pela organização, quem olhasse, via que eu praticamente estava isolado naquela parte da mesa. Minha vontade era de levantar e ir atrás de Olivia rezando para que ela estivesse no quarto. Rezando para que ela não tivesse visto aquela cena e entendido tudo errado. Rezando para que ela me ouvisse quando eu contasse o que aconteceu.
Porque, apesar de tudo, mesmo que não fosse ela a presenciar aquilo, de forma alguma eu esconderia o que aconteceu dela.
O jantar demorou dolorosamente e quando acabou, encontrei o quarto de Olivia vazio.
Suspirei pensando em ir atrás dela nem que precisasse vasculhar a cidade toda, mas meu pé machucado, meu tornozelo e toda a lateral do meu corpo estavam pedindo socorro devido ao esforço daquela noite.
Me apoiei no batente da porta e cinco segundos depois ouvi passos subindo a escada, mas não era Olivia.
Era Hunter.
Apesar de aparentemente estar intacto fisicamente, sua expressão devia estar tão desgastada quanto a minha.
— Ela está com Patricia. — ele disse como cumprimento, lendo meu rosto. — Não sei se volta hoje.
— Tá tudo bem?
Hunter caminhou até mim.
— Você está aí todo ferrado, provavelmente brigou com a noiva, vai se casar em menos de uma semana e está perguntando para mim se estou bem?
Dei de ombros.
— Eu estar passando por diversas coisas não invalida o que você está sentindo. Quero saber o que acontece na sua vida também.
Hunter deu um sorriso de canto.
— Nada de interessante acontece na minha vida. Ela é uma porcaria constantemente, já deixou de ser novidade.
Apesar de suas palavras preocupantes, Hunter me lançou um olhar que dizia claramente para eu não fazer mais perguntas.
Tentei aliviar o clima:
— Posso te aquecer essa noite para melhorar seu humor. — Ofereci em tom de brincadeira.
— Você só está querendo fugir da General Sartori e seja lá o que você aprontou. Vou cobrar seu calor humano em outra ocasião, agora eu só quero deitar na cama e esquecer que esse dia sequer existiu.
Pelo menos um de nós tinha esperança de esquecer, eu tinha certeza que teria que enfrentar aquele dia até o último minuto dele.
OLIVIA
— Você pode ser toda "mulheres unidas", Olivia, — Patricia disse com a voz meio embolada. — Mas eu vou acabar com a cara dessa mocreia.
Depois de passarmos quase duas horas fora, estávamos fazendo o caminho inverso de volta para a casa dos meus pais.
Tínhamos gastado a maior parte da noite na lanchonete de um dos milhares tios de Pattie e ele colocou nossas bebidas por conta da casa.
Péssima ideia.
Pelo menos eu havia ignorado a possibilidade de vir de moto com ela e ter que acabar estacionada em algum canto, jogada por aí.
— Ela me odeia. — Comentei tentando caminhar sem trombar com minha amiga que estava mais para lá do que para cá.
— Claro que ela te odeia. Você tá com o cara pelo qual ela é obcecada.
Suspirei.
— Não queria que fosse assim. Às vezes me pego pensando que talvez eu esteja fazendo com que ela passe a mesma dor que senti com Rebecca e Max e me sinto horrível.
Num impulso de sobriedade, Pattie estacou no meio no caminho, e quando eu a imitei, ela veio para minha frente.
— Pode parar! — Suas palavras ecoaram no espaço aberto e eu quis rir, mas ela me encarava séria. — Essa situação não chega nem perto do que você passou. Max e Rebecca foram mesquinhos, sacanas e não tiveram consideração nenhuma por você. Principalmente porque estava sendo um momento fodido na sua vida. Por favor, nem ouse comparar essas coisas na sua cabeça.
— É só que...— Dei de ombros. — Eu não sei, Pattie. Sebastian quis tentar algo com ela, Julie está na vida dele há anos, muito mais do que eu. E se talvez eu só esteja atrapalhando tudo? Quando eu e Sebastian voltarmos para a capital ainda vamos dar certo? E se isso aqui só parece que vai funcionar por causa das circunstâncias?
Patricia segurou meu rosto com as duas mãos:
— Liv, meu amor, você não consegue ver mesmo o que está bem na sua frente? Não consegue ver que qualquer cara que se preze estaria louco para estar no lugar de Sebastian? Maximus é um canalha, mas ele sabe o que perdeu. Não importa o que ele tente mostrar, todo mundo consegue ver que se você estalasse os dedos, ele estaria atrás de ti. E Mathias, então? Você precisaria apenas pensar e ele se materializaria na sua frente. Que eu me lembre, até Hunter te chamou para um encontro, não foi?
Dei uma risada sem humor.
— Hunter nunca daria em cima de mim de novo, Patricia, — E porque senti que deveria acrescentar, disse: — Sabe disso, não sabe?
Ela piscou e respondeu minha pergunta com outra:
— Sabe por que ele não faria isso, não é? — Minha amiga não esperou minha resposta. — Porque o melhor amigo está louco por você. Sebastian está apaixonado por você, Olivia. Sua própria irmã disse que viu o modo como ele reagiu ao beijo. Acha mesmo que se estivesse impedindo ele de viver com o suposto amor da vida dele, Sebastian não teria aproveitado a oportunidade. Logo Sebastian Ferrante, o cara que você costumava dizer que pulava de uma cama para outra em menos de 24 horas.
Minha respiração estava trêmula.
— Eu só sinto que tudo isso vai acabar em um piscar de olhos, Pattie. Que o caos só está esperando para acontecer. Quando Liz começou a me contar eu pensei: "É isso, é assim que toda essa fantasia acaba." E ao mesmo tempo que senti um alívio doentio pensando estar certa, nunca senti um desespero tão grande pela possibilidade de estar certa.
Pattie ficou na ponta dos pés para encostar a testa na minha.
— E você não estava. E não está agora. Você e Sebastian já abafaram, protegeram e nutriram esses sentimentos por tanto tempo. Esconderam do mundo e até de vocês mesmos, é normal ter receio. Não posso ter certeza do que vai acontecer quando esse acordo acabar, Liv, mas não acredito que o que vocês dois compartilham não é algo que vai sumir tão cedo.
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