Contradições

by Amanur

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Capítulo 9

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Por que o tempo não anda, quando mais queremos, ou precisamos? Tantas coisas aconteceram naquele dia, e eu ainda sentia como se o tempo não passasse. Eu olhava para a janela, e o sol continuava no mesmo ponto do céu. E isso era uma tremenda sacanagem, ainda mais para uma segunda-feira — o dia mais odioso e odiado do planeta. E o pior era que quanto mais eu olhava para o relógio, menos o tempo parecia querer passar. Era como se para cada dois minutos que o ponteiro avançasse, ele recuasse três. Eu já estava prestes a pedir um tempo do tempo, por que não aguentava mais aquele tempo.

E a lista de documentos que o Itachi pediu era um tanto extensa. Passei o resto do dia correndo atrás de cópias do que eu tinha em mãos para deixar tudo sobre a mesa dele, antes do final do dia. Carteira de identidade, certidão de nascimento, comprovante de endereço, carteira de trabalho, passaporte, comprovação de condições financeiras para voltar ao meu país de origem, comprovação de condições financeiras para me manter neste país, um carta de solicitação sobre necessidade de permanência do país e da cidadania, fotografia 3x4, informações sobre a cidade em que desejo residir, e mais um monte de outras coisas... Passei maior parte do tempo fora do escritório, do que dentro dele.

Ainda faltariam documentos dos meus pais, certidão de casamento e nascimento deles, identidade e carteira de trabalho deles, além dos óbitos dos meus avôs e avós... E claro, a minha certidão de casamento, e os documentos do referido marido. Eles só faltavam pedir um registro das cores das minhas calcinhas!

Mas o problema mesmo seria ligar para os meus pais. Ou melhor, ligar para eles não era o problema, mas sim falar com a minha mãe, que poderia concorrer ao Miss Chatonilda com a senhora Uchiha, de frente a frente. Seria uma disputa bem acirrada, na verdade. As duas passariam horas e mais horas criticando seus filhos, uma para a outra, numa discussão sem fim. Mas para evitar a fadiga, decidi que deixaria aquela tortura para mais tarde, quando estivesse bem relaxada no conforto da minha casa. Até por que eu ainda teria de inventar uma boa desculpa para estar solicitando todos aqueles documentos para eles...

E não só isso, eu tinha outra tortura a enfrentar, naquele mesmo dia sem fim.

Pois imagine só, Sasuke me ligou dizendo que estava com os papéis que lhe pedi em mãos e que estava os levando até o escritório. Faltavam alguns minutos para o fim do expediente, e eu carregava alguns documentos para levar a outro setor quando atendia sua ligação, cantarolando os minutos que faltavam para eu encontrar o Itachi no meu apartamento.

— Não precisa vir aqui, Sasuke! — resmunguei, passando pelo Shikamaru pelo corredor, que fumava um cigarro despreocupadamente e ainda me cumprimentou assim, bem sem vergonha — Basta levar o documento ao cartório em que iremos nos casar amanhã. Mais tarde te envio uma mensagem no celular com o endereço correto.

— Na verdade, tenho outro assunto mais urgente para tratar com você. — ele disse, e não gostei nem um pouco do seu tom de voz.

— E o que seria?

De repente, o ouvi bem atrás de mim.

— Sobre a minha mudança para o seu apartamento.

Ele já estava de mala e cuia, ali, desligando o seu aparelho, e o colocando no bolso da calça.

— A boa notícia é que consegui vender a casa por um preço melhor do que o esperado. — ele me disse, sorridente — Vai me sobrar um pouco mais de dinheiro.

— Posso me negar a ouvir a má noticia?

— Mas não tenho má notícia! Tenho, sim, uma segunda boa notícia: estou pronto para morar com você! — e o cretino sorriu novamente — Como legítimos marido e mulher que seremos, a partir de sexta feira!

— Você quis dizer amanhã! — revirei os olhos.

— Não, queridinha, eu quero dizer que graças a você a minha mãe se meteu na historia, e graças a você vamos nos casar na sexta, graças a você, será numa igreja, sim, por que o civil é para cachorros. E não me pergunte qual é a relação.

— Eu não acredito nisso!

— Não tem problema. Sei que amanhã você vai acreditar, quando ela te ligar para vocês saírem para comprar o vestido de casamento.

— Sasuke, eu não tenho dinheiro, nem tempo para isso!

— Ela tem os dois de sobra, então, não se preocupe que tudo vai dar certo.

Na verdade, iria dar tudo errado, por que eu não queria depender de ninguém para fazer aquele casamento sair. Muito menos da mãe dele. Especialmente da mãe dele.

Mas o pior (se é que poderia ficar pior), foi a noticia que a Karin ainda nos deu.

Eu estava jogando a minha bolsa sobre o ombro, com Sasuke logo atrás de mim com sua mala e cuia, quando ela resolveu abrir a matraca.

— Querida, sua mãe me ligou para dizer que conseguirá vir para o casamento de vocês, na sexta-feira.

Caí de volta em minha cadeira.

— Por que ela viria aqui para o meu casamento na sexta, Karin?

— E por que não viria? É o primeiro casamento de sua filha única! Nada mais justo que ela esteja presente, não acha?!

— Não se faça de sonsa! Ela não precisava saber de nada disso! Esse casamento vai durar tão pouco, que não haverá nada para contar!

— Raciocina comigo, querida! A mãe do Sasuke já estava bem desconfiada de seus pais não estarem presentes no noivado. A ausência deles no dia do casamento seria um cúmulo!

— Eu poderia simplesmente ter dito que meus pais eram falecidos! E como diabos você conseguiu o número dos meus pais, hein?

— Hummm, boa ideia. Exceto pelo fato de que quando os pais do Sasuke fossem assinar como testemunhas, eles veriam que no nome dos seus pais não constaria o carimbo de óbito.

Olhei para a janela do nosso andar, calculando a probabilidade. Ela estava fechada, com as bonitas e discretas cortinas cerradas, mas se eu corresse com todas as forças das minhas pernas, seria capaz de quebrar os vidros, sem problemas. E o fato de estarmos no sétimo andar, era mais um ponto positivo, para que eu virasse patê no chão, sem o risco de sobreviver.

E ainda tive que ouvir o Naruto resmungar:

— Se tivesse aceitado se casar comigo, nada disso teria acontecido.

Brava, emburrada, enraivecida, ou puta da vida, como proferir, saí daquele escritório sem saber mais o que pensar.

Aliás, eu sabia muito bem no que pensar, sim. Sabia tanto, que aquilo não me saia da cabeça. Eu não iria ter uma boa noite de sono, após uma boa transa com o meu chefe, por que o irmão dele estava indo comigo no taxi para o meu apartamento. De novo: Eu não iria ter uma boa noite de sono, após uma boa transa com o meu chefe, por que o irmão dele estava indo comigo no taxi para o meu apartamento.

Por que as pessoas são tão intrometidas nas vidas dos outros? E por que eu não me calei quando eu devia?

Eu estava exausta pelo longo e quase inacabável dia, de modo que assim que cheguei, mostrei a ele o sofá (algo como “Sofá, este é o Sasuke. Sasuke, este é o sofá. Divirtam-se.”) em que ele poderia dormir, tomei um banho, e caí dura na cama me esquecendo de coisas importantes. Como o Itachi, batendo na minha porta às 23 horas da noite.

— O que ele está fazendo aqui? — Sasuke indagou, após bisbilhotar quem era pelo olho mágico da minha porta, por que, na pressa, escorreguei no chão bem encerado do meu quarto, e custei a me levantar.

O empurrei para o lado, e abri apenas uma fresta da porta fazendo a pior cara possível, depois de me descabelar, para parecer mais acabada ainda.

— Poxa, mas que droga, sinto muito mesmo, Itachi, mas hoje não vai dar, acho que estou com gripe, estou com dor no corpo inteiro — até forcei uma tosse em cima dele para reforçar a ideia — Eu já estava digitando uma mensagem para o seu celular, para evitar que você perdesse seu tempo vindo até aqui para nada.

— Sabe que eu consigo ouvir tudo aqui de fora, não sabe? — ele indaga, estreitando os olhos.

— Oh...

Ele se aproximou, me puxou, e me beijou. Eu fiquei estarrecida, e ao mesmo tempo encantada com esse desejo louco que ele tinha por mim. Mas sabia que tudo isso era só por que o meu noivo estava ali. Talvez, também, por que o irmão dele era o noivo, mas eu preferia extrair essa ideia. Por algum motivo, pensar que ele fazia tudo aquilo só para irritar o irmão, era mais irritante do que o fato de ele me querer só por que eu era comprometida. E isso não fazia muito sentido.

— Amanhã, na minha sala! — ele murmura, enquanto aperta minha bunda, e me dá as costas.

Simples assim.

Agora, sim, minha noite seria melhor.

Só que não.

Sasuke estava de volta ao sofá, enrolado com os lençóis que eu havia lhe emprestado, me encarando com os olhos estreitos, como se desconfiasse de algo. O ignorei. Pulei de volta para minha na cama, no meu quarto, com a porta aberta como eu sempre fazia. Não era por causa daquele metido que eu iria mudar meus hábitos! Não mesmo! Pelo menos, foi o que eu disse a mim mesma pelos quinze minutos seguintes, em que o Sasuke não parava de encher o saco que eu não tinha.

— Está dormindo? — indagou da primeira vez. Ele, deitado no meu sofá, e eu na minha cama, com uma parede nos separando.

— Estou.

— E agora?

— Estou.

— Ainda?

— Estou?

— E agora?

— Ainda estou.

— Até quando?

— Até eu morrer.

— Não consigo dormir.

— Eu estou sonhando com pôneis voadores.

— Por que você está dormindo?

Estreitei os olhos. Que diabos que pergunta era aquela?

— Vai dormir, Sasuke.

— Não consigo dormir.

— Mas me deixe continuar dormindo!

— E se eu não quiser te deixar continuar dormindo?

— Reza a lenda que eu sou sonambula e já matei um homem à noite, sabia?

— Tsc! Mulher que mata homem, é por que está com fome. Quer que eu prepare um sanduiche?

— Qual é a relação? — aquilo não fazia sentido, além da pobre rima.

— De fome.

Revirei os olhos.

— O que houve com aquele nosso espirito de “eu-odeio-você” de quando nos conhecemos? — perguntei, até mesmo saudosa daqueles dias, por incrível que pareça.

— Nós vamos nos casar. Não podemos nos odiar!

— Mas eu odeio você.

— Tudo bem, isso passa.

— Mas eu não quero que isso passe, Sasuke!

Irritada, me levantei da cama, convencida de que ele não iria me deixar dormir em paz se eu não fechasse a porcaria da porta. No entanto, quando toquei na madeira e bisbilhotei o cretino, por puro impulso impensado, vi que ele estava sentado, com as pernas encolhidas. Vestia apenas uma cueca samba canção, sem camisa, e estava todo descabelado. Apesar de todo o visual cretinamente sexy, o que chamou mais a atenção, foi o olhar meio perdido para o chão.

— Por quê? Você gosta tanto assim do meu irmão?

Um tapa na cara. Não achei que ele pudesse desconfiar, e nem era para ele desconfiar, mas, pensando bem, sei que não fui das mais cuidadosas mesmo.

O silêncio é a língua universal dos que consentem, e todo mundo sabe disso. No entanto, o meu, não era exatamente um “sim, é exatamente isso”, por que nem eu sabia ao certo o que sentia pelo Itachi. Além disso, eu não tinha por que me explicar a ele, já que não tínhamos uma relação tão íntima assim, para que eu me abrisse para o Sasuke. Mas acho que ele interpretou de outra forma aquele meu silencio.

— Então, é isso, não é? Tudo isso, toda essa armação de casório, foi na verdade para conseguir ficar com ele? — deduziu.

— Eu já disse que é para conseguir minha cidadania.

— Por favor, eu conheço o meu irmão como a palma da minha mão, e sei muito bem o que vi ali. — ele disse, apontando para a porta.

— Mas você não me conhece.

— Talvez... Mas se quer um conselho, talvez o melhor que eu puder lhe dar, seria: desencanta.

— Pena que eu não precise de nenhum conselho seu!

— Você é quem pensa.

Fechei a porta com força, rogando mil pragas a mim mesma. Maldita hora em que ofereci meu espaço a outra pessoa!

Fechei os olhos, desejando poder voltar ao meu original, na época em que não ligava para nada, e fingir que tudo isso não importa, nada disso fará diferença alguma, nada disso irá acarretar em nada. Tudo é passageiro, tudo é inútil. Mas ele conseguia, de alguma forma, por algum motivo sobrenatural, extrair toda a raiva contida dentro dessa casca oca que parecia ser a minha existência. Ele conseguia colocar tudo para fora, e fazê-la explodir. E graças a ele, custei um tempão para conseguir dormir. E quanto estava quase lá, caindo no buraco negro dos sonhos, algo me puxa de volta a superfície. Algo sonoro, ruidoso e irritante.

Na manhã seguinte, acordei com o som do meu telefone tocando. De primeira, não me importei muito, ainda estava bastante sonolenta, e faltavam quinze minutos para o meu despertador me acordar para ir trabalhar. Então, resmungando “só mais uns minutinhos”, rolei para o outro lado da cama, até que, de repente, ele para de tocar, e ouço uma voz masculina, vindo da sala, falar.

— Sim, aqui é o noivo dela, quem gostaria de falar com ela? Ah, olá, senhora Haruno, a senhora é a mãe da Sakura!? Prazer, sim, sim, sou o noivo dela!

Rapidamente, rolei de volta e caí da cama. Machuquei os cotovelos no chão, e bati com o queixo na cama. Acho que abriu um corte, mas não me importei; fui me arrastando até a porta do quarto, que permanecia fechada, e colei meu ouvido contra ela.

—... Pois é, pois é. — ele dizia — Aconteceu tudo muito rápido, eu reconheço. Mas sabe como são os jovens hoje em dia! Querem tudo às pressas. Mas não veja isso como uma coisa ruim, senhora Haruno, veja como uma experiência de vida para a sua filha. — ele dizia, num tom mais amigável do que deveria, se conhecesse minha mãe como eu conhecia — Tenho vinte e oito anos. Sim, eu trabalho. Não, eu não tenho um carro. Sim, fiz faculdade. Me formei em artes plásticas. Fotografia. Meu pai é advogado, minha mãe é médica aposentada. Sim, eles têm carro.

Abri a porta. Ele andava de um lado para o outro, na sala, com o telefone no ouvido, quando me viu.

— Ah, senhora Haruno, a Sakura acabou de acordar, gostaria de falar com ela? Sim. Sim. Aham. Claro. Com certeza. — ele sorria, como se estivesse realmente gostando de falar com ela — Concordo plenamente, a Sakura precisa dar um jeito em sua vida, e trabalhar naquele escritório não vai fazer isso por ela. — revirei os olhos — Pode deixar que eu a colocarei nos trilhos.

Tomei o fone das mãos dele.

— Sakura, isso são modos? — ele resmungou, fingindo surpresa — Eu estava tendo uma conversa muito agradável com a sua mãe sobre você.

Lhe mostrei meu dedo do meio.

— Mãe, você sabe que ainda estou dormindo a essa hora! Por que ligou? — indaguei. E Sasuke se aproximou para ouvir a resposta dela.

— Sim, Sakura, eu sei que você está dormindo a essa hora, assim como sei que depois dessa hora você não atende mais o seu telefone! Mas, pelo menos, você fez uma coisa boa com a sua vida! Esse rapaz parece ser a pessoa certa para você! — ele sorriu, e eu revirei os olhos — Achei sua falta de consideração simplesmente inaceitável! Ora, onde já se viu, ficar sabendo que minha filha está para casar alguns dias antes da cerimonia, e ainda saber por aquela sua colega destrambelhada?! Aonde foi parar a educação que eu lhe dei? Não foi assim que eu te criei!

— Mãe, faltam dois minutos para eu desligar o telefone, para ir trabalhar. — tratei de avisar, antes que ela resolvesse dar mais um de seus longos discursos de moral.

— Nem se atreva! Seu pai e eu vamos pegar o voo amanhã, de manhã. Chegaremos aí ao final da tarde. Eu gostaria muito de poder conhecer o rapaz antes da cerimonia!

— Mãe, não há necessidade...

— Eu ficaria mais do que honrado, senhora Haruno! — o idiota berra em meu ouvido.

Lhe dei um empurrão para o lado, fazendo ele bater a canela na mesa de centro, e me fui para a cozinha, enquanto a minha mãe dizia o quanto estava envergonhada por ter parido uma filha como eu. Mas para isso eu não dei bola, por que eu já estava mais do que careca de saber que tinha sido um experimento defeituoso. Eu só queria que ela desligasse o telefone.

— Mãe, a senhora só tem um minuto.

— E eu sei que, muito embora você não esteja preocupada em saber, mas eu e seu pai vamos ficar num hotel aí perto do seu endereço. Não precisa se preocupar em ir nos buscar no aeroporto também, embora eu saiba que você não esteja preocupada com isso também. — disse, em tom de desprezo, que também ignorei — Mas depois que nos acomodarmos, eu te ligarei para combinarmos em que restaurante iremos jantar. Se quiser, pode chamar os pais do seu noivo também.

— Não, o encontro de vocês na cerimônia de casamento será mais do que suficiente.

— Você realmente não existe.

— É, eu sei que você gostaria de acreditar nisso... — resmunguei.

Sakura! — ela ralhou.

— Traga seus documentos de casamento, certidão de nascimento... Essas coisas, ok?

— Tsc. Até parece que você não me conhece. Sempre ando com todos os meus documentos para o caso de morrer de repente.

— Tchau, mãe. — e desliguei o aparelho, e olhei para ele — Nunca mais fale com minha mãe pelo telefone!

— Mas eu adorei sua mãe! Diferentemente de você, a achei muito simpática e encantadora.

— Me faz um favor, vai à merda!

E foi assim que meu dia começou; com tudo dando errado, desde o inicio. Agora pense comigo, como é que eu iria encarar aquele dia, com o pé esquerdo? É o mesmo que pedir ao cozinheiro que cortava cebolas bem ácidas para abrir os olhos e sorrir para tirar uma foto com flash. Triste e doloroso.

E, claro, meu dia de trabalho também não foi dos melhores.

Quando larguei a bolsa sobre a minha mesa, Karin discutia as vantagens de se usar salto alto com Naruto. Eu me perguntaria por que diabos ela iria querer discutir esse assunto justo com ele, mas para não torrar a minha paciência já esgotada pelo sufoco matutino de enfrentar minha mãe e ter que lidar com o Sasuke no meu apartamento, resolvi ignorá-los.

—... E além de deixar as mulheres mais esbeltas, é sexy! — ela dizia — Os homens adoram.

— Eu não gosto. Você parece uma puta! — ele retrucou.

— Primeiro, querido, você não é homem com “h” maiúsculo, portanto, sua opinião é o mesmo que um cuspe de barata. Segundo, e eu não queria mencionar isso, mas já mencionando, eles podem servir como uma ótima arma letal. Com este salto — e ela tirou seu sapato com quinze centímetros de salto para mostrar a ele — posso furar o olho de quem me chamar de puta, sabia?

— Você acordou azeda, hoje? — ele indagou, sem se importar muito com a ameaça.

— E você vai dormir com a cara atolada num monte de bosta, se não parar de me incomodar.

Nesse momento, um rapazinho que recolhia os sacos de lixo do escritório apareceu, chamando a atenção de todo mundo, dizendo que o Itachi havia feito uma nova refém em seu maligno costume de levar boas moças casadas para o outro lado da cerca. E ao que tudo indicava (os gemidos, as batidas, as urradas) o furdunço acontecia na sala do almoxarifado, no andar de baixo. Infelizmente, ele não soube dizer quem era a moça da vez, de modo que eu, Karin e Naruto corremos pelas escadas para averiguar o terrível caso.

Para o nosso espanto, no entanto, encontramos o Shikamaru paradinho bem em frente ao local do crime, tomando uma xicara de café preto, encostado na parede.

— A Temari, de novo? — Karin indagou.

— E ela não me diz nada! Eu pergunto se há algo de errado com o nosso casamento, e ela diz que está tudo bem. Tudo bem o caralho! Como eu posso competir com uma coisa dessas? — indagou, dando de ombros. Ele não parecia lá muito chateado, apesar de tudo. Acho que o Shikamaru, no fundo, era um dos meus. Talvez fosse o único capaz de compreender a essência da vida como eu compreendia.

— Se eu fosse você, cara, daria um belo chute no meio das bolas dele! — Naruto resmungou, se escorando na parede ao lado dele, tomando sua xicara de café para beber junto, como se compartilhassem algo em comum.

— Cê tá de brincadeira com a minha cara? — Shikamaru resmungou — O cara é o dobro do meu tamanho! Provavelmente, tem as bolas de ferro.

— Não tem, não. — eu e a Karin resmungamos ao mesmo tempo.

Eles nos olharam desconfiados.

O negócio deveria estar muito animado mesmo, por que ela não parava de gemer “ai, ui, ai, ui, não para, não para”. O barulho das prateleiras batendo contra a parede era tão alto e forte que fazia os vidros das janelas ao lado estremecer.

— Ah, o sexo matinal... — Karin murmurou meio sonhadora, meio pensativa.

— Ah, o sexo animal! — Naruto resmungou.

— Ah, meus chifres... — o coitado do marido traído disse. E em seguida, ele se retirou, não podendo mais assistir àquilo. Ninguém poderia culpá-lo, é claro, apenas consolar o coitado como Naruto fez indo atrás dele dando uma de conselheiro amoroso e sugerindo que ele se separasse dela. Como se isso fosse aliviar as angústias dele.

Eu não concordava com o Itachi de jeito nenhum. As pessoas não precisam uma das outras para sobreviver. Elas até podem depender dos outros para pagar as compras dos supermercados, para empacotar produtos, para se tratar de alguma doença, processar o ex-marido, ou para pagar contas, mas não para serem felizes. Desde que encontrem algo para fazerem com suas vidas, as pessoas poderiam muito bem, obrigado, serem felizes sozinhas... Com dois ou três gatos. E um pênis de borracha.

Ficamos mais um tempinho ali, sem saber exatamente por que ainda estávamos lá. Quero dizer, eu sabia por que estava li, mas não sabia por que a Karin também. Pensando bem, eu sabia disso também. Simplesmente por que a Karin é uma fofoqueira de uma figa que só faltava fazer anotações do que via para espalhar “sua experiência de vida”.

E, então, a porta é destrancada, e sai de lá uma Temari aos pedaços, descabelada, com o batom espalhado por toda a cara, camisa amarrotada e a saia toda torta.

— Será que eu fico assim também, quando transo com ele? — indaguei.

— Queridinha, todas nós ficamos assim quando transa com ele! — a loira responde, com aquele sorriso sacana, passando por nós. Como se tivesse conseguido botar o ovo de ouro.

— Sua puta! — Karin resmungou.

Temari deu o dedo do meio para a ruiva, que resmungou mais palavrões para a outra, e eu fiquei olhando para a minha colega que não tinha noção de que todas nós éramos umas putas ali.

De repente, o “efeito Itachi”, que sempre ouvi dizer no escritório, fazia mais sentido.

Mas o mais monstruoso daquela cena toda foi ver como o Itachi sempre saía de uma foda lindo, sexy e maravilhoso como sempre. Sem um amasso em suas roupas, sem um fio solto do seu rabo de cavalo baixo.

— O que estão fazendo aqui? As pessoas não trabalham mais nesse escritório, não? — resmungou, ao nos ver ali.

— Viemos pegar papel para nossa impressora. — Karin improvisou muito bem.

— Hum. — e então, ele me olhou como sempre fazia quando tinha segundas intenções, me fazendo arrepiar da cabeça aos pés — Sakura, quero falar com você na minha sala, quando voltar.

— Quando eu voltar, ou quando você voltar? — indaguei.

— Que diferença faz? — me perguntou, cruzando os braços.

— Nenhuma, senhor.

— Pois é!

Ele forçou um sorriso sem graça, sem humor, e, então, nos deu as costas. Eu olhei para a Karin, que me olhava do mesmo jeito, como quem diz “chamem os bombeiros, por que o fogo no rabo vai se espalhar”.

O homem era insaciável, e eu disse amém aos céus.

Notas finais
Eu concordo com a Karin, saltos são sexys e são ótimas armas! >:D Algum comentário?