Contradições

10 Manipulações


Notas iniciais
Não deixem de ler as notais finais! Boa leitura!

Contradições

by Amanur

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Capítulo 10

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Algumas pessoas se ofendem muito fácil. Ego frágil é um problema. Autoestima baixa também é outro problema. Mas a falta de noção é um problema maior ainda, por que não há nada mais estúpido numa pessoa do que não conseguir reconhecer seus limites, suas fraquezas, e até mesmo até onde vai seu poder de conquista. E não me refiro somente à conquista amorosa; isso vale para qualquer área da vida. Algumas pessoas têm mais poder do que as outras, isso é fato, mas alguns não percebem, ou não querem admitir que são mais fracas. Claro, também sempre há os que se subestimam, mas esses não importam no momento, por que gente preguiçosa não merece vez.

Outro problema é ter certeza de que você sabe bem sobre si mesmo. Eu, por exemplo, sempre achei que eu fosse uma das mais fracas, mas acabei descobrindo que poderia chamar a atenção até mesmo do Itachi — embora que com uma ajudinha nada especial. Mas eu ainda tinha aquela ajuda na manga, e sabia que poderia, pelo menos, usá-la como arma.

Suspirei, levantei o busto, inclinei a cabeça para o alto, e bati na porta do Itachi. As três batidinhas básicas, que todos devem fazer para anunciar a sua chegada, e entrei.

A sala dele estava fria, com o ar condicionado ligado nos quinze graus, enquanto que lá fora se fazia um calor de trinta e cinco graus, em plena manhã. O que significa que até o meio dia o calor seria infernal.

Eu não saberia dizer se ele estava realmente ocupado, ou se estava apenas se fazendo de ocupado, com aquela cara enterrada nos papéis a sua frente. A questão é que tudo parecia muito frio. Inclusive ele, que há pouco parecia estar com o rabo pegando fogo.

— Chamou? — indaguei, me fazendo de inocente, enquanto me perguntava se aquilo tudo tinha algo a ver com a noite anterior. Quero dizer, uma recompensa pelo que não houve na noite anterior.

— Ah, sim, só para avisar que já dei baixa nas cópias dos documentos que você me entregou ontem. Acho que vai dar tudo certo. — ele diz, categoricamente — Se conseguires o quanto antes o restante dos documentos, melhor ainda.

— Ah, que bom! Er... Era só isso?

— Ah, sim, pode ir.

Eu não fui. Fiquei ali, plantada, olhando para ele, até voltar a me notar porque estava disposta a jogar o jogo dele. E eu não poderia sair perdendo. Não para ele. Ou melhor, era ele quem eu não poderia perder.

Mas o negócio é que ele ficou se fazendo de ocupado por muito mais tempo do que eu previa. Então, tive que jogar com outras peças.

Desabotoei um, depois outro, e me sentei quase sem camisa na cadeira em frente a sua mesa. O melhor de tudo foi perceber que apesar de não estar me olhando, ele sabia exatamente o que eu queria, e o que estava fazendo ali, pois ele sorriu quando me sentei.

E finalmente tirou os olhos dos papéis.

— Não consigo ficar bravo com você! — disse, num tom mais brando, quase amigável, embora houvesse um leve tom de relutância em admitir aquilo.

— Eu sei, eu sempre tive esse poder. — joguei meu cabelo para o lado, teatralmente.

— Fiquei mais chateado por você ter me recusado ontem à noite do que eu deveria admitir.

— Meu noivo estava lá. — dei de ombros.

— Então, vocês vão morar no seu apartamento depois do casamento?

Ajeitei-me na cadeira, voltando a abotoar minha camisa, pigarreando.

— Não sabemos ainda... — murmurei.

Se Deus quiser, eu sim, ele não!, pensei. Eu não queria ficar pensando no Sasuke agora. Ele era tudo o que eu não queria pensar, na verdade... Mas pensando bem, já que estávamos ali, e as dúvidas eram inevitáveis, e também estavam ali, resolvi me aproveitar da situação...

— Está nervosa? — ele perguntou, de repente.

— Não, realmente não. Estou apenas curiosa sobre uma coisa.

— Que coisa?

— O que há entre você o seu irmão?

Ele suspirou, repousando as costas sobre o encosto de sua cadeira, e afrouxou o nó de sua gravata como se estivesse prestes a responder uma grave acusação. Ele fechou a cara de repente, e logo vi que estava pisando em outro território, um bem mais perigoso e indesejável. Mas eu também era insaciável, e não desistiria.

— O que há entre eu e meu irmão?

— Eu ouvi algo que envolvia a ex-esposa dele. — resolvi prosseguir, do mesmo jeito, já que já tinha dado o primeiro passo adentro.

— Ah, isso... Por que não pergunta a ele?

E então, ele se levantou, e veio até a mim. Sentou-se sobre o tampo de sua mesa, bem na minha frente, e ficou me encarando. Achei que aquela fosse a minha deixa para sair da sala, por que eu havia ido longe demais sem sua permissão (afinal, eu era apenas uma mera empregada em seu escritório), mas ele foi tirando sua gravata e desabotoando a camisa me fazendo crer que não era bem aquilo o que ele queria. Então, eu me levantei, e o beijei só por que eu podia fazer isso. Era ótimo tirar vantagens da situação!

Afundei meus dedos em seu cabelo sedoso, me certificando de que ele estaria bem bagunçado quando acabássemos com aquela brincadeira. Afinal, aquilo não poderia ser real! E ele agarrou minha nuca, naquele beijo quente e ardente que me fazia derreter em seus braços.

O beijo dele era tão bom, que eu não precisava de mais nada para acender o calor entre as pernas. Colei meu corpo ao dele, passando a mão em seu peito, por baixo da camisa que puxei para fora da calça, enquanto ele me erguia para me pendurar nele. Ele já beijava o meu pescoço, passava a ponta da língua em toda a extensão, e voltava a me lamber como se saboreasse um picolé, me fazendo arrepiar da cabeça aos pés. Agora venha para os meus seios, venha!, implorava mentalmente.

Então, ele me colocou sobre a mesa, e passou a mão por baixo da minha camisa enquanto eu enfiava as minhas dentro das calças dele. Seu membro estava bem duro e quente, e meus mamilos rígidos de tesão, por que ele parecia mais delicioso do que nunca. E eu já meio que rebolava sobre o tampo da sua mesa, puxando para fora a sua tora, quando alguém bate freneticamente na porta dele, como um disco arranhado quebrando todo o clima.

— Itachiiii, você está aí? — indagou uma irritante voz esganiçada, fácil de se reconhecer. Era a mãe dele, e ele quase me jogou no chão.

— Só um instante, mãe, estou numa reunião. — improvisou muito bem.

Mas nem tanto. Eram nove e meia da manhã, e a cretina não quis esperar, é claro. Ela foi girando a maçaneta, devagarzinho, como se não quisesse fazer barulho ou não ser notada, e revirei os olhos. Ela não precisaria nem de uma bomba para ser notada! Mãe é mesmo tudo igual, e não há verdade maior no planeta. Por que elas sempre têm que se meterem onde não são chamadas?

Quando ela abriu, eu já estava de pé, ajeitando a minha saia, e ela me olhou da cabeça aos pés e ainda cruzou os braços erguendo uma sobrancelha com aquela cara de desaprovação (que eu acho que já veio nela quando nasceu).

— Pobre do meu Sasuke. Você poderia ao menos ter lavado essa sua cara, antes de vir trabalhar. Você vem para o seu trabalho sempre assim, garotinha?

Ela deveria estava falando do jeito que todas as mulheres ficam ao trepar com o filho dela (e ela nem desconfiava da cria que tinha dado), mas olhei em tom acusativo para o Itachi. Afinal, eu não poderia ser a única de cara amassada, lábios inchados e cabelos bagunçados (e desse ultimo eu tinha certeza que não). Mas ao olhar para o cretino, ele parecia novo em folha, impecável como num passe de mágica.

— Mas que bruxaria é essa? — murmurei pra ele, que me olhou como se não entendesse do que eu estava falando. Mas eu sabia que no fundo ele sabia.

No entanto, obviamente, a mãe dele sabia menos ainda, por que criticou meus modos achando que eu estivesse falando dela. Não que ela não fosse uma bruxa, realmente, por que era!

— Ande, temos coisas a fazer até o seu casamento... Não temos tempo a perder com suas infantilidades e irresponsabilidades. Já achei o cúmulo dos cúmulos meu filhinho me dizer que iria se casar no civil! Ora, no civil, onde já se viu?! — ela ainda resmungou já me dando as costas. As costas e as ordens, como se eu devesse algo àquela Catoniana. Talvez eu devesse chamá-la de V.V. Vaca Velha mesmo, como minha mãe me chamava. Tsc.

Olhei para o Itachi, que deu de ombros, consentindo com a minha falta ao trabalho. Mas na verdade, eu estava louca para que ele me impedisse, dizendo que eu tinha muita coisa a fazer, o que não deixava de ser verdade. Infelizmente o Itachi era submisso demais a sua mãe, e fazia tudo o que ela queria e não moveu um dedinho sequer para pestanejar contra as vontades dela.

Ao passar pela minha mesa, para pegar minha bolsa, já vendo que o radar da Karin já estava muito bem ligado, fiz sinal para que ela viesse comigo. De jeito nenhum eu iria aturar aquilo sozinha, ainda mais que a culpa por tudo tinha sido dela mesma.

E ela bem que fez careta, querendo recusar, mas como eu sabia do fraco dela...

— Vamos fazer compras! — sussurrei ao passar por ela.

Rapidinho, ela pegou sua bolsa e veio me seguindo logo atrás.

— Ei, mas o que é isso? — Naruto ainda esbravejou, indignado — O que é isso? Que pouca vergonha é essa? Ninguém mais trabalha nesse escritório não? Eu sou o único competente aqui, é? Eu quero ir também!

E foi assim que eu, a Karin, o Naruto, a senhora Uchiha e até mesmo o Shikamaru, fomos parar numa loja de vestidos para noivas no centro da cidade. Eu não sei o que o Shikamaru estava fazendo ali, mas eu sei que ele estava ali.

A loja era enorme, e tinha todos os modelos possíveis e impossíveis de vestidos. A senhora Uchiha era uma mulher chata (mas isso todos já sabíamos) e muito prática. De modo que não perdia tempo. Chegamos direto a uma arara de vestidos que já estavam reservados para experimentos, e fui logo provando os vestidos que ela e a atendente da loja empurravam para mim.

Eu vestia um, saía do provador para eles verem como ficou eles reprovavam, e eu voltava para o provador. Eu vestia outro, saía do provador para eles verem como ficou eles reprovavam, e eu voltava para o provador. Isso se repetiu umas vinte mil vezes, uma eternidade para mim. Achei que tinha provado todos os vestidos da loja, e mais alguns outros de algum outro lugar, quando a senhora Uchiha me disse para provar um vestido que eles já tinham reprovado, e mandava a moça trazer mais alguns do estoque da loja.

Eu já esta prestes a mandar aquela mulher engolir aqueles vestidos, ou enfiá-los você-sabe-onde, me sentindo como um testador de camisinhas, naquele bota e tira e bota e tira, quando finalmente saiu um vencedor.

O vestido era realmente bonito, liso, frente única, com o bojo até o busto como uma tomara-que-caia na frente, e por cima tinha uma renda florida de manga cavada que ia até o pescoço e cobria as costas nuas. Mas quando vi o preço absurdo daquele monte de trapo, de repente, ele não parecia mais, assim, tão bonito.

— Eu não posso pagar por isso. Acho que não há nada de mais se eu me casar com o vestido branco que usei no ano novo retrasado! Ninguém vai notar!

A Karin me deu uma tapa na cabeça, enquanto a senhora Uchiha me olhava como quem diz “de que esgoto essa ratazana saiu?”.

— Eu não pari meus filhos para se casarem com uma mulher de vestido de ano novo. Muito menos ele sendo usado, e do ano retrasado! Quem foi que disse que você vai pagar por alguma cosia? Eu já estou muito bem ciente de que ele escolheu, dessa vez, uma pobretona que não tem onde feder.

— A senhora não quis dizer “morrer”? — arrisquei.

— Não, você já fede antes mesmo de morrer, querida.

Tapa na cara!

Eu e a Karin trocamos olhares cumplices que dizia “mas que vaca desgraçada!”.

A senhora Uchiha, aka V.V., já assinava um cheque, enquanto a Karin me ajudava a escolher uma sandália para acompanhar o vestido escolhido.

— Juro a vocês, que se eu morrer, não quero ir para o paraíso, quero vir para cá! Vejam só quantos sapatos! — ela dizia, maravilhada.

— Karin, o sapato não é para a Sakura? — Naruto resmungou. Ele havia ficado o tempo todo sentado nos bancos, cochilando, enquanto eu experimentava a loja inteira.

— Sim, sim... — ela murmurou sem lhe dar muita atenção.

— Então por que você está experimentando eles?

— Naruto, você não trabalha hoje? — ela responde, com outra pergunta.

— Sim...

— Então por que você está aqui?

Para a surpresa de todos, foi Shikamaru quem achou a sandália ideal para o vestido. Ele veio de fininho, como quem não quer nada, com os sapatos nas mãos, e os jogou na minha frente, fazendo a Karin quase ter um treco, resmungando que não se deve tratar sapatos daquela forma.

Era um sapato de salto alto, branco, peep toe, com uma cobertura de rendas que combinava perfeitamente com o vestido de rendas. E o número que ele havia pegado era exatamente o meu.

— Valeu, Shikamaru. Viu, só, você pode ser útil, sim! Basta querer... — murmurei, tentando a incentivá-lo a trabalhar mais, a nosso favor, é claro.

— Mas eu não quero! Eu só catei isso por que quero sair logo daqui.

— Claro. — e eu também queria.

Com sacolas nas mãos, entramos no carro da Vaca Velha Uchiha, e fomos numa loja de organização de festas. Ela escolheu absolutamente tudo, junto com a Karin que dava pitacos que foram completamente ignorados, mas a ruiva não estava nem aí, tão encantada estava por estar envolvida (mesmo que de mentirinha) naquela organização toda.

A igreja já havia sido escolhida e reservada para o dia, com certeza sob muita apelação e suborno da parte da sogra, é claro, e o Buffet também, pois, é claro, haveria uma festa após a cerimonia. Eu estava odiando aquilo tudo cada vez mais, e ela também, a cada segundo que se passava.

— Aqui estão os convites para você chamar quem quiser... — ela disse, tirando da bolsa os papéis — Embora seja meio em cima da hora... Mas a culpa é toda sua por me fazer apressar as coisas. — murmurou sem cerimonia alguma — Sobraram apenas cem convites. Espero que não arruíne a festa do meu filho com muito mais gente da sua laia do que isto.

— Na verdade, se tiver mais de dez pessoas, seria muito. — resmunguei.

— Ótimo.

Morra!

Voltamos para o escritório. Shikamaru evaporou, provavelmente para curtir com sua esposa o novo par de chifres que ela lhe deu (por que, aparentemente, os chifres se renovavam uma vez por semana), e eu, Karin e Naruto entramos no prédio. Ao voltar para nossas mesas, já final do expediente, o escritório vazio e nem sombra do chefe por perto, fui pegar uns papéis sobre a minha mesa, enquanto a Karin resmungava com seu primo o quanto estavam cansados.

— Estou tão morta, que se eu morresse agora, não morreria de novo. — Karin resmungou.

— Se você morresse agora, eu faria uma festa. — Naruto retrucou.

— E se você morresse agora, eu venderia os seus cabelos para fazer Barbie, e ganharia dinheiro com os seus órgãos. — ela respondeu.

— Para não arriscar de que ele voltar ao corpo? — chutei.

— Muito bem, Sakura! — a ruiva me aplaudiu.

— Morram vocês duas! — ele resmungou.

Eram muitos desejos de morte acontecendo num só dia, e eu suspeitava que ainda haveria mais até que a noite acabasse. Até lá, no entanto, nós três paramos em frente a minha mesa por que as coisas não estavam como eu havia deixado. E não eram apenas papéis espalhados, documentos para serem revisados e analisados, provavelmente deixados pelo chefe como recompensa pela falta no dia... Havia mais.

— Tem algo novo aqui! — comentei, meio surpresa e irritada (lembram que eu disse que odiava surpresas?).

— Será que é o aparelho fora do gancho? — Naruto chutou, falando do meu telefone que, de fato, estava fora do gancho.

— Acho que são os lápis fora do porta-trecos. — a ruiva disse, pondo a mão do queixo como se refletisse profundamente sobre o assunto — Eu sempre os coloco no lugar para saber onde estão.

— Não, gente, é esse enorme buquê de flores, não estão vendo? — eu disse, pegando o envelopezinho que havia no meio das coloridas flores.

— São do seu noivo. Que romântico. — Karin leu.

— Que irritante. — o loiro murmurou.

— Desde quando você entende alguma coisa? — Karin retrucou.

— Ele fez isso para irritar o Itachi, sim. — disse eu.

— Ele faz isso pra irritar todo mundo! — Naruto resmungou.

— Você pode me agradecer depois! — a ruiva me disse, se achando muito convencida de ter feito um ato benevolente com toda aquela tramoia. Mas eu não estava nem um pouco agradecida.

— Por que diabos eu iria agradecer por ter arruinado a minha vida? — indaguei, indignadíssima por terem roubado a minha paz de espirito, envolvendo-a nesse vendaval que meus últimos dias haviam se tornado. Realmente não havia nada para agradecer.

— Viu só, você arruinou a vida dela! — o loiro acusou.

— Fala sério, Sakura, você sinceramente não sente nenhuma vontadezinha de tirar mais um naco daquela bundinha deliciosa do Sasuke?

— Não, ela não tem! — Naruto respondeu.

— Talvez um pouco! — disse eu, pensativa. Mas não que eu fizesse a mesma questão que fazia com o Itachi.

— Por quêeeeee? — o loiro reclamou.

— Eu sabia! Você pode me agradecer depois. — a ruiva disse.

— Mas você sabe que eu prefiro mil vezes o Itachi! — eu disse.

— Por quêeeeee?

— Você sabe que o Itachi é apenas um tapa-buracos em casamentos problemáticos. Ele serve apenas para tirar as aranhas do meio das pernas das esposas mal comidas, Sakura. — ela disse, pondo as mãos na cintura.

— Eu não quero ouvir isso! — Naruto até cobriu os olhos.

— Diga o que quiser, mas eu sei que sou diferente para ele. — concluí.

— Há! — o loiro resmungou cinicamente.

Mas será que eu sabia mesmo? Sim, eu sei!, disse a mim mesma. Eu tinha certeza de que o tratamento para comigo era diferente, e não poderia ser apenas por causa da rixa que ele tinha com o irmão. Não podia. Não podia. Não podia, não podia, não podia! Podia?

Fiquei mais um tempo ali, avaliando as flores, me perguntando se o Sasuke havia enviado elas realmente para afetar o irmão, ou se havia algo mais. Apesar de saber que aquilo era um amontoado de plantas coloridas, nada demais, me peguei de surpresa no meio de um pensamento esquisito: aquelas flores eram para mim. E eu nunca tinha recebido flores de ninguém.

Mas elas não poderiam significar nada além disso, já que eu tinha certeza de que o Sasuke me odiava, me repudiava, e estava comigo apenas pelo dinheiro. Afinal, ele mesmo já havia deixado bem claro que me achava insuportável, desagradável, chata, mal educada, e mais um monte de adjetivos fofos do gênero.

Assim, fui para casa mais tranquila (como se tivesse tirado um peso absurdo das costas por chegar à conclusão de que ele não me queria nem pintada de ouro), sonhando com o meu descanso daquele dia horrível, me esquecendo de um detalhe: que o Sasuke estava no meu apartamento. Mas graças a Deus que o Sasuke estava no meu apartamento para me lembrar de que ele estava lá, no meu apartamento!

Ou melhor, graças a mim. Tsc.

Ao segundo round da maratona, a segunda terrível surpresa do dia foi chegar em casa e encontrar a mesa posta cheia de comida para um jantar à luz de velas. Eu estava com fome, sim, mas tão cansada (física e mentalmente) que tudo o que pude fazer para relutar contra a urgência em xingar aquele cara, resumiu-se em cair sentada na cadeira e encarar a comida, e babar por ela. Eu tentava fazer meu cérebro funcionar, fazê-lo pensar no porque daquilo tudo, mas não conseguia. Havia algo bloqueando a minha mente, se recusando a botar o tico e o teco para correr na esteirinha do raciocínio lógico. Mas, naquele momento, a única coisa que funcionava no meu corpo era o estômago.

— E, então, querida, como foi seu dia, querida? — ele indaga num tom irritantemente agradável, com uma leve tonalidade de sarcasmo.

— Ótimo. Tão bom quanto passar o dia catando cocô de elefante. — apenas resmunguei, olhando para a comida.

— Fico feliz por você. Alguma novidade? Deu tudo certo com a minha mãe? Eu não me importaria se dissesse que você a esqueceu em algum lugar bem longe daqui!

— Seria mais fácil ela ter me esquecido em algum lugar bem longe daqui! Qual é o propósito disto? — consegui dizer.

— Ah, nada demais, eu apenas queria lhe fazer um agrado, sabe como é. Que tal voltarmos para o assunto da minha mãe? — ele insiste.

— Ora essa, para me agradar, bastava você sumir da minha frente! — respondi, talvez mais ríspida do que deveria.

Suspeitei de que ele estivesse, na verdade, tentando amaciar os meus nervos por que conhecia bem a peça quadrada que era a sua mãe. Algum tipo de remorso, compaixão, pena... Mas eu estava numa conflitante confusão de aflições, que me deixava irritada por aquela surpresa, e talvez eu também estivesse estressada pelo dia, e somando à TPM que deveria estar por vi, acho que eu realmente estava azeda naquela noite. Na verdade, pensando bem, talvez o motivo principal fosse a suposta rixa entre ele e o Itachi, que me incomodava.

Digamos, hipoteticamente.

Presumivelmente.

Supostamente.

Provavelmente.

Possivelmente.

Ok, certamente!

Eu não queria ficar entre os dois! Eu queria ficar apenas na frente do Itachi. Pendurada nele, de preferência. E o Sasuke estava representando uma ameaça para os meus planos, quando ele deveria ser meu salvador.

Ou não.

A verdade é que eu estava às cegas, e isso me frustrava profundamente.

— Eu não gosto de surpresas, Sasuke, gosto de ter tudo planejado, saber o que vou fazer e o que me espera. — resmunguei, sem me importar se estava sendo meio birrenta mesmo.

— Ah, é verdade, eu tinha me esquecido do quanto você é uma manipuladora. — ele diz, sem um pingo de humor, se referindo ao fato de que eu gostava de ter o controle sobre as minhas ações, o que não se aplicava em absolutamente nada à acusação infundada dele.

— Como é que é? O que isso tem a ver com qualquer coisa? — indaguei, enquanto sentia aquele nervo saltando na testa.

— A propósito, recebeu as flores?

— Sou alérgica a flores. — respondi amargurada, azeda... Ácida. Mas isso também era uma mentira, que ele não precisava saber.

— Pena que não morreu... — ele resmungou do mesmo jeito.

— Pois é, Mané, me avise da próxima vez que tiver outra ideia genial, e te direi se é eficaz ou não.

— Que tal alho, um crucifixo e água benta?

— Imune. Seja mais criativo. — resmunguei, socando a comida no prato, com mais força do que o necessário — Você não trabalha, não?

— Saio depois de você, e volto antes. Nem todo mundo tem a mesma jornada de trabalho escravo que você tem! E tem gente que realmente gosta do que fez, sabe?

— Vai ver por isso não ganha tanto quanto eu... — resmunguei, como quem não quer nada, mas na verdade eu estava querendo enchê-lo de alfinetadas.

— Por que você não consegue receber de bom grado as coisas que as pessoas fazem para você? — de repente, ele pergunta, me ignorando.

— Mas eu consigo fazer isso, sim. Menos vindo de você!

— Ou consegue apenas vindo do meu irmão?

— Eu não vou falar sobre isso, por que não é da sua conta!

— Ou simplesmente por que não quer admitir?

— Manipuladora é a sua mãe! E além de manipuladora sabe o que ela é? Ela é uma intrometida, que veio esfregando na minha cara seu dinheiro e impondo o que queria, sem nem perguntar o que eu achava. Quem tipo de pessoa faz isso? Ah, sim, eu sei, uma MA-NI-PU-LA-DO-RA!

— Ah, agora você quer falar DA-MI-NHA-MÃ-E? — ele diz em tom sarcástico, para me imitar, forçando a voz e separando o “e” propositalmente.

— Eu deveria ter simplesmente mandado-a ir consolar a coitadinha da ex nora. Aliás, por que ela não fez isso? Tenho certeza de que aquela loira teria adorado ganhar presentes da sogra querida.

— Será que eu posso tomar esse seu comportamento infantil como um “sim” para as minhas deduções? Sabe, que nem as crianças fazem...?

— Ela teria sido muito mais feliz gastando seu tempo e dinheiro com a loira do que comigo.

— É, eu acho que isso é definitivamente um sim.

— Sou eu quem deveria estar fazendo as perguntas aqui! Sou eu que estou abrigando um desconhecido, esqueceu?

— Eu sou um livro aberto. — ele responde exasperado, jogando os braços para o ar.

— É mesmo? Então me diga o que houve entre você e seu irmão?

— Que acaboooou de se fechar! — ele diz, voltando sua atenção para o seu prato, fechando a cara numa careta.

Revirei os olhos.

— Espero que a matraca também!

E assim foi, de fato. Ele não abriu mais a boca, o que lhe agradeci mentalmente, por que jamais diria a ele que estava grata por alguma coisa a ele, mesmo que essa coisa tivesse sido calado a boca para me deixar em paz.

O orgulho é mesmo uma vadia inútil. Não sei por que as pessoas gostam tanto de ficar discutindo coisas, para provar que sua palavra final é a que vale mais (vamos ignorar o fato de que eu também faço isso, por que a questão aqui não é sobre mim), sem nem ao menos pararem para pensar nas coisas que estão dizendo. Pensar e analisar o que se diz, é o que eu deveria fazer também.

Mas isso foi tudo o que eu não fiz quando me tranquei no quarto para não ver mais a cara irritante dele, num ato simbólico de estar encerrando mais um terrível dia para a minha coleção. Por que era triste, frustrante, desesperador pensar que muito outros ainda estarão por vir.

Notas finais
Algum comentário? Nossa, a Sakura está numa confusão sentimental que até me deu nós na cabeça para escrever esse capítulo! Bom, meus queridos, o motivo pelo qual pedi para que lessem as notas finais foi para avisá-los sobre o novo post do meu blog sobre o livro que pretendo lançar. Muitos aqui já estão sabendo, outros não..mas enfim, lá no blog tem tudo explicado. :) Criei uma enquete nova que gostaria que vocês respondessem sinceramente. Mas, antes, gostaria que vocês dessem uma lida no post falando mais sobre isso, quando tiverem um tempinho T__T: htt p:// amanur. blogspot. com. br/2014/02/ livro-fisico-ou-digital. html (unam o link para acessá-lo) Peço desculpas pelo pedido, sei que é chato, mas nesse caso é importante aos interessados. ;) bjss!