Contradições
11 Jantar
Notas iniciais
Contradições
by Amanur
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Capítulo 11
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Alguém disse que a ignorância é uma bênção. Saber demais leva muita gente à loucura. Veja só o que aconteceu ao Einstein: tirava fotos descabelado e mostrando a língua feito um louco! Então, acordei decidida a me banhar um pouco da benção da ignorância, ignorando completamente o meu dia que estava por vir e atormentar.
Quando acordei, tomei um longo, demorado e relaxante banho para ir trabalhar. Massageei o couro cabeludo por que eu merecia um pouco de tratamento pessoal também, afinal, eu era uma criatura de Deus, como outra qualquer, e merecia bons tratamentos também.
Seguindo com o ritual, passei um creme hidratante no corpo, lentamente, cantinho por cantinho, massageando a pele em círculos como toda revista idiota com dicas de beleza ensina a fazer. Não me preocupei com o horário, me aproveitando da situação de que me casaria amanhã para usar como desculpa. Uma desculpa muito esfarrapada, se me perguntassem, por que eu não ligava para aquela baboseira de relaxamento antes do dia, embora parecesse ser exatamente o que eu estava fazendo. Mas eu não estava! Eu estava apenas ignorando o dia, o que era completamente diferente, que fique bem claro.
Enfim, saí do meu banheiro me sentindo renovada, enrolada numa toalha, com outra na cabeça, desfilando pela sala como uma top model numa passarela, por que eu merecia me sentir assim, também, não é mesmo? Mas isso durou apenas alguns míseros segundos, até ver que Sasuke estava sentado no sofá, se espreguiçando, e ele ainda me olhou da cabeça aos pés de um jeito que não consegui identificar o que era, além desdém e estranheza.
— O que foi, está me achando gorda? — resmunguei, mais mal-humorada do que queria estar. Só de olhar para ele, meu humor foi parar no chão. Ou melhor, ultrapassou o chão, indo frear no centro da terra.
— E com uma espinha tão grande na testa que parece um vulcão em erupção também. — disse, se fazendo de sério, contraindo as sobrancelhas e cruzando os braços.
Estreitei os olhos, por que eu sabia que era mentira, pois acabara de me analisar do espelho, e eu constara que estava com a pele mais maravilhosa do que nunca, por sorte do acaso. Muita sorte, devo dizer.
— Não importa, por que decidi que hoje ignorar-lhe-ei! — eu lhe disse.
— Há-há... Quero ver até quando! Aposto que até a hora de encontrarmos seus pais para jantar hoje! Quer apostar?
Fechei a porta do meu quarto com força, ignorando-o para por em prática meu plano de ignorar meu dia. Nada poderia estragar o meu humor, decidi. Então, sem pressa alguma, me vesti. Cuidadosamente, escolhi uma saia justa, mas não muito curta (acima dos joelhos estava bom). Com o mesmo zelo, escolhi uma blusa em cor salmão, com botões e um decote não muito chamativo. Vesti sapatos de salto alto, carinhosamente enxuguei e penteei meus cabelos, e ainda tive a audácia de passar alguns cremes quase vencidos na pele.
Eu sabia que se parasse para pensar muito no que me aguardava pela frente, iria acabar enlouquecendo. Então, simplesmente fui fazendo o que tinha que ser feito sem pensar, como todo bom ignorante faz.
Quando fui à minha cozinha para preparar o meu café, eis que a primeira surpresa do dia aparece. Minha cozinha não era a mesma. Os objetos haviam sido mudados de lugares, e nada, absolutamente nada estava onde eu havia os deixado.
Como não se alterar para uma coisa dessas?
Irritada, fui até o banheiro. Sasuke tomava banho, tranquilamente embaixo do meu chuveiro. A porta estava sem o trinco desde que me mudara para o apartamento, de modo que apenas com um chute bem dado entrei no cômodo.
— O que você pensa que está fazendo? — indaguei, ferozmente. Eu estava tão irritada que esqueci de dar o contexto da pergunta.
Ele abriu um pouquinho a porta do box, só para me espiar. Estava com o cabelo cheio de xampu, e estava arrepiado.
— Estou tomando banho, ora essa! Bom dia para você também!
— Bom dia, o cacete! Estou me referindo a minha cozinha, não encontro nada naquela porcaria!
— Ah, agora você precisa da minha ajuda? — ele diz, cruzando os braços sobre o peito, aparecendo de corpo inteiro diante de mim, escancarando a porta do box.
Olhei para o teto. O nome dele deveria ser Maldito Filho da Puta Gostoso da Cara Sem Vergonha!
— Só por que você mudou as minhas coisas! — respondi, de repente a raiva não parecia tão importante. Não diante daquele corpo... Tsc.
— Bom, não sei se você já reparou, mas você meio que vivia num chiqueirinho... Então, como agradecimento por ter me acolhido aqui, resolvi tomar a liberdade de organizar algumas coisas. Mas, ok, não tem problema, eu posso te ajudar. — não tem problema? Só tinha problema! — Me dê só mais cinco minutinhos para sair do banho, a não ser que você não se importe que eu ande pelado e todo molhado pelo seu apartamento... Por que, você sabe, não quero arruinar o seu dia... — ele usa aquele tom de sarcasmo que eu tanto detestava.
Maldito, desprezível, filho de uma égua. Ou melhor, filho de uma vaca velha.
— Você me ajudaria mais se parasse de mexer nas minhas coisas! — resmunguei entre os dentes, tentando me conter em pular no pescoço ensaboado dele e torcê-lo, por me dizer que eu morava num chiqueiro! Quem ele pensava que era? A minha mãe? Suspirei — Mas não se preocupe — sorri — você não vai arruinar o meu dia.
E então, fechei a porta, peguei a minha bolsa, e fui embora sem comer nada. Nada como tomar café numa boa cafeteria no meio do caminho para o trabalho.
Pedi um belo cappuccino com um brownie de banana, enquanto lia as noticias do jornal que eles disponibilizavam numa cestinha. Folheei as paginas tranquilamente, bebericava minha xicara sem pressa alguma repetindo a mim mesma que aquele era o meu dia de descanso, não importa se estávamos no meio da semana ou o que fosse, por que em um ano inteiro de trabalho estressante e irritante, eu não tinha tirado uma folguinha sequer, e eu merecia aquilo, seja lá o que me dissessem. Portanto, eu saboreava o brownie entre uma mordida e outra como satisfizesse um vicio a muito esquecido. Bebia mais alguns goles como se engolisse todo o estresse para me desfazer dele como merecia — numa privada. Pensei até mesmo em fazer yoga. Já ouvi algumas baboseiras sobre os benefícios de sua prática, equilibrar a mente, o corpo e o espirito, e mais um monte de blábláblá. Talvez não fosse assim, tão mau.
Quando cheguei ao escritório, Karin corria de um lado para o outro, Shikamaru continuava com suas caminhadas vagabundas e tranquilas pelo local, e Naruto coçava o saco enquanto jogava paciência no computador. Uma nova pilha de papeis sobre a minha mesa me aguardava, mas tudo o que fiz foi passar os olhos sobre eles, como quem não quer nada. Afinal, eu realmente não queria nada com eles.
Sentei em minha cadeira, tirei uma lixa de unha, e tratei de lixá-las com cuidado, uma por uma.
— O que você pensa que está fazendo? — Karin me indagou, num tom quase de histeria. E eu não duvidaria que estivesse entrando em estado de choque com aquela pilha que ela carregava também.
Calmamente, olhei para o meu relógio de pulso. Eram onze e meia da manhã.
— Esperando o horário passar para almoçar. — respondi, categoricamente.
— Se importa de nos ajudar um pouquinho? — agora ela amenizou o tom, para falar como se estivesse diante de uma criança. Mas eu não iria me permitir ter outro relapso de irritabilidade.
— Estou com desejo por uma lasanha. Faz tempo que não como lasanha... — comentei.
— O Itachi ficou puto da vida por que nós três saímos ontem, Sakura. — e de quem era a culpa?, pensei — E toda a papelada veio cair nas nossas graças! Então, pare de delirar, e trate de colocar essa bunda para trabalhar, queridinha! Aliás, o que deu em você para vir tão tarde? — ela não parava de reclamar, mas decidi me manter firme em meu propósito.
— É, eu acho que vou comer lasanha hoje. Uma de bolonhesa, com bastante molho de tomates e queijo e orégano...
— Parece que o Itachi comeu três moças ontem, sabia?! Hoje ele está uma pilha de nervos, e não sabe onde enfiar a cabeça. E pelo visto, nem o pau! Por Deus, eu vou enfiar a cabeça dele no num buraco de esgoto, se ele não parar de trazer mais papéis.
O rapaz do setor de baixo passava com uma pilha de papéis nas mãos, para levar mais documentos que chegavam para a mesa do Itachi, chamando a atenção da ruiva.
— Ei, psiu! Te dou vinte pratas se você queimar esses papéis e disser ao Itachi que foi ele quem os perdeu!
Obviamente o cara fez careta para a louca a sua frente, e não lhe deu bola, deixando a ruiva praguejando para trás.
— Você viu isso? Quem é que recusa vinte pratas hoje em dia? — perguntou, indignada — POR ACASO VOCÊ ESTÁ CAGANDO DINHEIRO, MEU FILHO? — berrou para as costas dele.
— Acho que vou pedir um suco de limão também. Ah, melhor ainda, vou pedir uma margarita.
— Vai beber álcool em horário de trabalho? — perguntou surpresa.
— E quem sabe comer uma mousse de morango como sobremesa? É, acho que vou fazer isso mesmo. — murmurei pensativa.
— O Itachi só pode ter cheirado peido se acha mesmo que vou me submeter a essa escravidão! E depois ele ainda veio me pedir para encher a chaleira de água para o café dele! Vê se posso com uma coisa dessas! Mas nem de favor! — e ela ainda deu um chute na cadeira do Naruto ao passar por ele — VAI TRABALHAR, VAGABUNDO!
Naruto apenas me olhou, e sorriu.
— Fumei maconha, e hoje não estou nem aí. — ele murmurou. Parecia sonolento. Provavelmente estava inconformado com o meu casamento, e para entrar em estado de negação apelou para o fumo.
As pessoas arrumam qualquer desculpa para ter do que reclamar quando não estão fazendo algo que gostam. No lugar deles, talvez eu tivesse fazendo o mesmo, ou não. Afinal, reclamar não adianta de nada. Não nessas situações em que a única solução é se demitir. Por que fumar um baseado, definitivamente, não resolveria nada.
Então, me levantei, peguei minha bolsa, e saí de fininho.
Depois do esplêndido almoço, resolvi que não iria voltar àquele escritório. Simples assim. Eu sei que estava negligenciando o trabalho. Ainda mais pelo fato de ser final de ano, estávamos perto do ano novo, o que significa que eram muitas as pessoas entrando e saindo do país, pedindo vistos e passaportes. Mas ao invés disso, eu preferia estar num salão de beleza, fazendo as unhas e os pés, e depois um belo tratamento no meu cabelo.
Enquanto eu lia algumas paginas da revista de fofocas que todo salão tem a disposição, quase que propositalmente para esfregar na cara dos seus clientes o quão supérfluos são com essas bobagens de beleza e tratamentos (algo como: “ei, você que está aí, sentada sem nada mais interessante e útil a fazer com a sua vida, leia essa outra porcaria aqui, nesta página, já que você não precisa fazer seu cérebro funcionar para viver. Fique se lamentando o quanto sua vidinha tosca jamais será tão glamorosa quando a desses famosos que temos aqui”), meu celular vibrou. Como era um número desconhecido, não atendi, assim como não atenderia mesmo se fosse conhecido. Alguns minutos após a pessoa desistir, recebo uma mensagem do mesmo número que dizia o seguinte:
“Aonde você se meteu na véspera do seu casamento? Esqueceu que há um salão de festas a decorar? Já escolhi a banda que irá tocar, escolhi o modelo das mesas, os objetos de decoração, as velas e as flores, os talheres, o buffet ...” — ou seja, tudo! — “E você nem para atender a porcaria do seu telefone! Pobre do meu filho! Sra. Uchiha.”
Sorri. E deletei a mensagem.
Retoquei a raíz do meu cabelo, e pedi para tingir num tom de rosa um pouco mais escuro. E foi só por que eu sabia que ela não iria gostar. Aliás, foi especialmente por que eu sabia que ela não iria gostar.
O bom de fazer esses tratamentos em salões de beleza é que se perde uma tarde inteira dentro deles, descolorindo o cabelo, colorindo de novo, lavando os fios, hidratando os fios, secando os fios, cortando os fios... Quando me dei conta já estava anoitecendo, e eu tinha vinte chamadas não atendidas no meu celular, e sete mensagens não lidas.
Deletei todas, e liguei para o celular da minha mãe.
— Por Cristo, Sakura, aonde você se meteu? Te liguei mil vezes e você não atende essa porcaria por quê? — ela foi dizendo. Na verdade, eu poderia sentir as gotinhas de saliva dela sobre o meu rosto, enquanto falava aquilo com tanto ênfase, sem nem se importar em perguntar como eu estava.
— Mãe, vou jantar naquele restaurante de comida tailandesa no centro da cidade. Se quiser me ver, que vá até lá. — e desliguei.
Em seguida, mandei uma mensagem para o celular do Sasuke dizendo o mesmo. E assim, cagando e andando para o mundo, fui até o local.
Quando chegaram, minha mãe e meu pai, eu já estava na minha terceira taça de vinho, enquanto Sasuke bebia sua primeira. Ainda não havíamos trocado palavra alguma. Quando ele sentou na minha frente, parecia bravo com alguma coisa, e eu apenas sorri.
— Por favor, lembre-se do nosso trato. Estamos aqui como um casal feliz, lembra-se? — murmurei, tomando mais um gole, olhando para as pessoas que entravam no restaurante.
— Aham, um casal feliz. — ele resmungou de volta, num tom mais azedo do que o necessário, e suspeitei que fizesse isso para me provocar — Aliás, quando é que eu vou ver a cor desses dez mil? Acho que eu poderia pelo menos receber a metade adiantado, não é mesmo? Afinal, já brinquei de casinha até agora...
— Seja lá o que estiver querendo insinuar com isso, insinue mais tarde. — respondi, me acomodando melhor na cadeira.
Fiz um gesto com a cabeça, indicando a porta. Meus pais davam seus nomes ao atendente, pois eu havia reservado duas mesas. E, então, minha mãe entrou marchando na frente, como de costume, com aquele seu nariz empinado cheio de ar autoritário de soldado.
— Sakura, você pode me explicar que droga de telefonema foi aquele? — indagou, assim que me viu no restaurante, antes mesmo de sentar.
— Olá, mãe, pai... Bom vê-los bem também! — lhe disse. Eu nunca tinha ficado tanto tempo fora de casa, mas ela não parecia nem um pouco afetada por isso.
Pelo menos, meu pai ainda teve a decência de vir me abraçar. Já minha mãe, limitou-se a olhar indignada para o Sasuke, que deu de ombros com um sorriso amarelo, sem saber o que estava acontecendo. E eu não podia culpá-lo, por que essa era a mãe que eu tinha... Jogando briga na mesa como se fossem cartas de baralho, assim, gratuitamente para quem estiver em volta dela.
— É a emoção. — Sasuke ainda disse, numa fraca tentativa de me justificar — Ela está muito sensível, desde hoje cedo, por causa do casamento, amanhã. — e sorriu, cumprimentando minha mãe.
— Ah, bom... E quando ela não está sensível? Recomponha-se. Casamento não é o fim do mundo, Sakura. — minha mãe resmungou, naquele seu tom de reprovação que sempre dava quando estava de saco cheio com alguma coisa.
Continuei a ignorá-la, apreciando a minha bebida, por que eu já estava acostumada com sua falta de tolerância a qualquer coisa que não lhe agradasse. Por que ela sempre foi assim. Contudo, embora eu parecesse calma, traquila, sem estresse algum, na verdade, sentia aquele frio crescendo na barriga, como se um filho estivesse se desenvolvendo em alta velocidade dentro do estômago, a cada minuto que se passava, desejando que o Sasuke não estivesse ali.
Meus pais, principalmente minha mãe, era o diabo na terra e eu não queria passar a vergonha de ter mais uma daquelas discussões que inevitavelmente eu sempre (e sem exagero, era sempre mesmo!) tinha com ela sobre a minha pessoa. Eu parecia ser o assunto favorito dela em todas as reuniões familiares, como se ela não tivesse mais nada na vida sobre o que falar.
Mas até ela resolver a tocar no assunto, primeiro, ela sondaria o Sasuke, o que já me serviria de consolo.
— Então, rapaz, diga-me tudo sobre você. Quem são seus pais, o que eles fazem da vida, onde estudaram, qual é a renda deles, se possuem carro, propriedades... Diga-me tudo sobre você.
— Antes, permita-me elogiá-la. A senhora é a versão melhorada de sua filha, sem por nem retirar, realmente. — ele jogou muito bem, devo admitir, por que não havia nada que fizesse minha mãe sorrir, além de dinheiro e elogios — Com todo o respeito — ele olhou para o meu pai — A senhora é um tesouro!
— Que todo pirata deve enterrar. — finalizei seu discurso barato, bebendo mais vinho.
Minha mãe me olhou feio, enquanto meu pai tomava de um gole só do meu vinho, revirando os olhos para mim.
— À propósito, como foi a viagem de vocês? — Sasuke perguntou, querendo mudar de assunto.
— Foi horrível! Ninguém mais sabe o que é um bom serviço à bordo. Obrigado por perguntar, querido. — ela diz enfaticamente, numa provocação à mim, mas foi ela quem chegou soltando patas, e isso me deixou muito fula — As aeromoças sequer se portavam como faziam antigamente. Estavam vestidas com um uniformezinho horroroso, e não prendiam os cabelos em coques, como manda o figurino. Tinha moças de cabelo solto! De cabelo solto e micro saias! Dá para acreditar?
— Tsc! Pelo amor de Deus, pai, a mamãe se perdeu no século passado? — resmunguei — Não existem mais aeromoças. São comissárias de bordo, todo mundo sabe disso! — eu disse.
Minha mãe me olhou torto novamente, com aquele olhar de reprovação. E o que foi pior, ela olhou do mesmo jeito para a pobre da minha taça de vinho em reprovação. A taça de vinho, que era inocente em tudo isso! Me arrependi por ter aberto a boca. Teria sido melhor se eu tivesse ficado calada. Mas, fazer o quê, se eu tinha dificuldades para me controlar diante dela?
— Não acha que está exagerando na bebida, Sakura? — ela resmungou.
— Não sou mais criança, mãe. — retruquei — Posso beber o quanto eu quiser, e você não tem nada com isso. — só por provocação, bebi o resto num só gole e ainda sorri para ela, enchendo mais uma taça.
— Se ao menos isso fosse verdade. — ela disse — Mas você não deixou de ser nossa filha, por mais que você queira...
— Se ao menos fosse verdade, não é mesmo? — murmurei, dando mais um gole — O que quero dizer é que você não tem mais domínio sobre mim, mãe. Já sou dona do meu nariz. — tomei outro gole.
Agora ela me olhava daquele jeito, impaciente, irritada e aborrecida por ter sido contrariada e não ter como retrucar. E ela não tinha como dar a volta por cima naquela discussão, realmente, por que a verdade estava ali, gritando em seus ouvidos: “Sua filha vai se casar e não depende mais de suas asas para que você possa continuar a controlá-la feito uma bonequinha, como você gostava de fazer. Que tal? Ela é um passarinho que fugiu da sua gaiola e agora voa livre.” De preferência, para bem longe do seu ninho.
— Você sempre faz isso! — de repente ela murmura, como quem não quer nada, pegando uma dose do vinho da minha garrafa. Mas já estava vazio, lá veio mais um olhar de sua desaprovação, e ela chamou o garçom para trazer mais, deixando o assunto no ar para me provocar como gostava de fazer.
— Isso o quê? — pergunto irritada, me deixando levar pelos nervos que ela sempre puxava. A essa altura do campeonato, eu não me importava mais com quem estava presente, com quem estava a nossa volta. Tudo o que eu queria era que aquele jantar acabasse de uma vez.
— Isso! — ela balança os braços para todos os lados, exasperada — Empina seu nariz para me confrontar na frente dos outros. Você adora tirar a minha autoridade para se fazer de superior, por que detesta o fato de que eu tenho razão.
— Razão? Há! — bufei — Quando é que você teve alguma razão na vida? É você quem adora me desmoralizar na frente dos outros, jogando na mesa todos os meus defeitos, que você acha o fim do mundo, se esquecendo completamente dos bons modos para me envergonhar! E só por que eu não sou como você queria que eu fosse. — tomei a garrafa dela para me servir de mais vinho.
— Oh, me desculpe por querer que minha única filha tivesse um bom futuro, ao invés de levar a vida na vagabundagem que você queria ter! Ou você esqueceu do quanto eu tive que brigar para fazer com que você fosse às aulas na escola, e depois fosse para uma boa faculdade? Que à propósito, não adiantou de nada!
— Me esquecer daqueles dias de ouro? Claro que não! Me lembro como se tivesse acontecido ontem. Me lembro tão bem que ainda acordo no meio da noite ouvindo os seus berros moralistas nos meus ouvidos até me deixar surda, me azucrinando dia e noite! Como alguém pode conseguir conviver com aquilo?
— Eu fiz o que qualquer pai e mãe deveria fazer. Colocar seu filho no bom caminho. Ou, pelo menos, tentei, né. Por que você sempre deixava tudo o que eu dizia entrar por um ouvido e sair por outro, e agora me vem com essa de acordar às noites! Hahaha. Se não ficava nada na sua cabeça! Ou vai me dizer agora que tudo aquilo entrou na sua cabeça, sim, e agora a sua consciência pesa?
— A única coisa que pesa é o fardo de ter que te aturar! — resmunguei, tomando tudo num só gole.
— Sakura, mais respeito à sua mãe, por favor. — meu pai disse.
Ele nunca tomava parte nas nossas discussões também, de modo que eu nunca sabia ao certo de que lado ele estava. Ele apenas interferia quando eu dizia algum insulto ultrajante, ou quando a minha mãe perdia completamente a compostura. Isso o deixava numa zona neutra, o que, de certo modo, era bom. Para ele, pelo menos, por que dificilmente sobrava para ele, já que tanto eu quanto minha mãe sabíamos que o problema era nosso, nós duas não nos suportávamos.
— Vou respeitá-la quando calar a boca. — eu disse, rancorosa, tomando mais um gole.
Um garçom se aproximou trazendo o meu pedido, em meio aquele clima pesado que pairava sobre a mesa. Minha cabeça já estava mais para lá do que para cá, graças aos álcool, mas ainda tinha consciência de que aquela noite estava uma tremenda porcaria. Talvez fosse o momento certo de admitir que passara o dia me preparando para aquilo, porque não há nada pior e mais desagradável do que uma discussão de família em publico. Pelo menos, ainda conseguíamos manter o volume de nossas vozes sob controle, mas eu temia que isso não fosse durar muito tempo. Então, resolvi ficar calada, para não piorar a situação, e engolir tudo o que ela dissesse. Era melhor deixá-la pensar que eu concordava com tudo, e falasse sozinha, do que ficar discutindo assunto pessoais na frente dos outros. Ainda mais depois de ver a cara que minha mãe fez ao me ver mastigar a comida.
— Você não vai sequer esperar que eu e seu pai façamos o nosso pedido, Sakura? E o seu noivo não vai lhe acompanhar? Por que você sempre tem que bancar a deselegante na frente de todo mundo? É para me afrontar? Para mostrar a todo mundo que eu fui uma péssima mãe?
O engraçado, o hilário da história é que eu nunca precisei mostrar nada a ninguém ao seu respeito. Ela sempre mostrou por si só. Ela tinha o dom de vergonhar a si mesma sem ao menos se dar conta. Então, eu apenas balancei a cabeça concordando com ela.
Pedi ao garçom que me trouxesse mais uma garrafa de vinho, e continuei comendo sem me importar com os olhares dos meus pais. Está bem, só o da minha mãe! Ela me fuzilava com aqueles olhos de cobra venenosa, apenas esperando o momento certo para dar mais um bote na sua presa (e essa sou eu) quando esta menos esperasse. Mas claro que eu já estava bem vacinada contra ela, e sabia o momento exato em que ela atacaria. Nada do que fizesse me surpreenderia. De modo que, então, depois que o garçom deixou a garrafa na minha frente, minha mãe deu um tapa (quase um soco) sobre a mesa, fazendo tudo balançar. E, claro, chamando a atenção de todas as pessoas presentes naquele restaurante. Inclusive a mosca que se manteve oculta por tanto tempo entre nós, se assustou e saiu voando feito louca pelo recinto.
— Quer saber de uma coisa, Sakura? Estou de saco cheio da sua infantilidade. Você obviamente não aprendeu nada do que tentei lhe ensinar. Você sequer consegue dar conta do seu próprio nariz, bebendo desse jeito! É assim que você lida com seus problemas? Ignorando tudo e a todos, fugindo da realidade na carona da bebida? Você se enclausura em seu próprio mundinho, em que tudo funciona do jeito que você quer. Mas deixe-me dizer uma coisa, mocinha, o mundo não funcionado do jeito de ninguém! E todos nós temos que lidar com isso! Não pense que você é a única que sofre com as coisas. Diabos, eu até mesmo duvido que você saiba no que está se metendo com esse casamento! Pobre deste rapaz que não faz ideia de quem seja a pessoa com quem ele vai assinar um contrato! Você vai fazê-lo perder tempo, como você perdeu o seu!
— Uhum. — concordei.
— E eu mal posso esperar para ver o dia em que você vai aparecer batendo na minha porta pedindo ajuda por que sua vida está uma merda, e não sabe mais o que fazer para se recuperar. Por que, provavelmente, será tarde demais.
— Com certeza.
— A vida não dá segunda chance para quem não merece! E pessoas como você não merecem!
— Concordo.
— Eu não sei o que eu fiz para merecer uma coisa dessas da sua parte, Sakura. Me pergunto onde eu errei! Você foi uma criança apática, que não gostava de nada, não queria saber de nada, ficava olhando para as paredes com aquela cara de bunda feito uma ameba, e quanto tentávamos saber de que coisas você gostava, você não queria saber de nada. Tudo, absolutamente tudo o que fizéssemos te entediava.
— É... Não sei qual é o meu problema. — resmunguei, revirando a comida no meu prato, por que não estava mais conseguindo engolir nada.
— Sinceramente, estou até surpresa por saber que você se quer conseguiu alguém para se casar. Aliás, me admira saber que você tem interesse em casamento. Ou melhor, interessem em alguém além de si mesma.
— É, eu também...
— Estou farta desses olhares de desdém que você nos dá. Você se acha tão superior, que temo por esse pobre rapaz, imagino o inferno que não vai passar ao seu lado.
Agora era o momento em que ela daria a volta na discussão, repetindo tudo outra vez, mas com outras palavras. Eu ia continuar naquele joguinho, até que ela se cansasse, por que ela sempre se cansa, mas, então, algo que realmente me surpreendeu aconteceu.
O Sasuke, por pura fatalidade da ocasião, ficou invisível aos meus olhos até então. Vez ou outra eu notava algum movimento sutil seu, se acomodando em sua cadeira, trocando de perna cruzada ou apoiando a cabeça na mão com o cotovelo sobre a mesa, bebendo e bebendo... Fora isso, nada demais. Ele não dizia nada, apenas observava a cena imparcialmente, como meu pai fazia. Talvez fosse algum instinto masculino dizendo a eles para se manterem longe das garras ferinas femininas. Talvez fosse apenas o fruto da covardia.
Mas o fato é que depois que minha mãe terminou de vomitar aqueles insultos dirigidos a mim, Sasuke se levantou, quase chutando sua cadeira para trás. De repente, ele parecia outra pessoa, completamente furioso e farto daquilo tudo.
— Me desculpe a ousadia em me meter nesse assunto, mas a senhora não parou para se dar conta do quanto a senhora foi rude e grossa desde o momento em que pisou neste restaurante? Puta que pariu, Sakura, nem a minha mãe consegue ser tão insuportável assim! — ele diz, olhando para mim. Em seguida, volta a encará-la — A sua filha vai se casar amanhã! Pelo amor de Deus! A senhora sabe o que isso significa? Significa que essa semana deveria ser os dias mais felizes de sua filha, mas a senhora está tornado tudo numa grande merda. Ela até mesmo veio até aqui para ter um jantar agradável com os pais que não vê há não sei quanto tempo, mas desde que pisou aqui a senhora apenas a agrediu com insultos atrás de insultos sobre o passado de vocês! Me desculpe, Sakura, mas eu não tenho que ficar ouvindo essas merdas num dia antes do nosso casamento! Eu estou de saco cheio. Vou embora. Se quiser, pode vir atrás de mim.
E então, assim, sem mais nem menos, ele foi se afastando da mesa. Eu me levantei também, num gesto automático. Não sei bem por que, talvez por instinto, mas peguei minha garrafa de vinho, e fui correndo atrás dele pelas ruas.
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