Contradições
12 Cachorro Quente
Notas iniciais
Contradições
by Amanur
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Capítulo 12
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Algumas pessoas são irritantes, algumas pessoas são fofoqueiras, outras são sem noção, irresponsáveis, brilhantes, tediosas, insignificantes, mesquinhas, brutas, inconsequentes, idiotas, engraçadas, inteligentes... Mas acho que todas elas têm um pouco de algo surpreendente no caráter. É como aquela coisa, uma pessoa pode parecer ser muito feia à primeira vista, mas na medida em que você vai conhecendo ela, você percebe que ela não é, afinal de contas, tão feia assim, e isso te surpreende.
Não que o Sasuke fosse um cara feio. Pelo contrário. Por mais que eu odiasse ter que admitir isso, o diabo tinha lá seus atributos físicos memoráveis (já mencionados antes). Também pudera!, era irmão do Itachi. Mas a questão que me aflige é o que não me saia da cabeça: o fato de ele ter confrontado meus pais, mais precisamente a minha mãe, para me defender. Afinal, aquilo foi em minha defesa, não foi? Por que ele poderia muito bem ter simplesmente arredado a cadeira e fugido daquele jantar horripilante, e eu não o teria culpado — ok, a quem eu quero enganar, não é mesmo? Eu teria soltado todos os cachorros do planeta em cima dele, e virado o cretino do avesso para virar torresmo, mas pelo menos não ficaria com essa maldita pulga atrás da orelha, me perguntando o significado daquilo como quem precisa saber o sentido da vida.
No dia seguinte, quando acordei, ele não estava no sofá. Ele tinha dobrado os cobertores, e havia deixado um pequeno bilhete dizendo que tinha saído para trabalhar mais cedo. E nem café da manhã havia feito! Achei estranho, mas dei continuidade aos meus afazeres de sempre... Afinal, uma garota tem que fazer o que precisa ser feito — seja lá o que isso signifique.
No escritório, o mundo parecia continuar a girar do mesmo jeito. Ou seja, sem jeito algum.
A Karin arrancava as pontas duplas do seu cabelo, enquanto Naruto jogava paciência no computador, e uma pilha de documentos se aglomerava em minha mesa. Numa aparição milagrosa, Shikamaru estava em sua própria mesa, mas com a cabeça apoiada sobre ela, e suspeitei que estivesse dormindo.
Ao me ver sentar em minha cadeira, por cima da sua armação de óculos meio retrô, Karin bufou.
— Sakura, me responde uma coisa, qual é a coisa que o Naruto mais quer na vida!?
Estranhei aquela pergunta, mas para não contrariar loucos, resolvi responde-la de bom agrado.
— O número do meu celular? — chutei.
— Ótimo! Que maravilha! — apesar das palavras positivas, ela parecia negativa, revirando os olhos e batendo em sua mesa, irritada — Fiquei torcendo para que você pudesse ser um clone, ou uma aparição do além, por que a verdadeira Sakura não deveria estar aqui no seu dia de CASAMENTO! O que diabos você pensar que está fazendo aqui?
— Relaxa, Karin, ela errou mesmo. — Naruto resmungou, batendo o seu mouse na mesa por que estava com mau contato — Não deve ser a verdadeira. Mas caso você esteja se perguntando, você não faz mais parte da minha lista de interesses, Sakura. — ele diz, categoricamente.
Aí, fui eu quem tive que olhar para o cretino, sem entender nada.
— Decidi virar gay. — ele explicou — Está na moda, e como não tenho amigos gays, me dei conta que assim será mais fácil conseguir uma foda de graça. Por que, viu, vou te contar, tá foda conseguir uma foda. Se é que me entende. Foda de mouse! — e deu outra batida contra a mesa, com mais força.
— Sério, Sakura, vá embora! — a Karin até se deu ao trabalho de sair da sua cadeira, para me enxotar para fora da minha.
— Vai você! — resmunguei, empurrando ela de volta para a sua cadeira — Eu tenho trabalho a fazer! Olha essa pilha que vocês colocaram na minha mesa!
Rapidinho, eles se dispersaram, como quem não quer nada. Tsc.
Era só um casamento! Não era como se Hitler tivesse ressuscitado, para que eu precisasse voltar correndo para casa para trocar de roupa para sua próxima anunciação na tevê — o que de qualquer forma não fazia sentido algum. Eu não era como essas mulheres que levam uma hora para se arrumar. Eu sempre fui uma pessoa prática, que se vestia em poucos minutos. E não era por que não tinha muitas opções no armário. Eu tinha algumas dúzias de roupas e calçados, sim. Eu só não tinha desses fricotes de mulherzinhas frescas que levam duas vidas para escolherem roupas. Eu vestia o que caísse primeiro nas minhas mãos, quando abria o armário. Era muito mais simples. Portanto, não havia motivos para alardes com essa historia de casamento. Até por que, o vestido já estava escolhido, os sapatos também. Em cinco minutos eu estaria pronta para a porcaria do casamento (sem levar em consideração que o vestido não havia ficado comigo, isto é).
Seria tudo muito simples e prático. Praticidade era meu sobrenome.
Voltei minha atenção para o meu computador, quando voltaram a me atormentar.
— Ah, Sakura, você já se decidiu quem vai querer como padrinho? — Karin pergunta, de repente — Por que, obviamente, eu serei sua madrinha de casamento! — ela complementa, assim, bem seria e convicta de si mesma, como se fosse a rainha da cocada. Mas a única coisa que ela era rainha mesmo, era da falta de noção.
— Argh! — bufei — E eu não posso escolher me casar sem isso?
— Bom, pelo menos um padrinho e uma madrinha você tem que ter, como testemunha do casamento!
Como se não bastasse toda a palhaçada que aquilo havia se tornado, eu ainda precisava de testemunhas para o show de horrores?
— Então, vai o Naruto, ué! — dei de ombros. Um palhaço a mais, um palhaço a menos, não faria diferença mesmo.
— Ah, poxa, quanta honra! — ele resmunga, sem um pingo de emoção — Não vou nem me lembrar que sou o único homem que você conhece, portanto, sua única opção. Não se preocupe, não vou lembrar disso, não!
— Não estou preocupada, querido.
— Ei, psiu! — de repente, Shikamaru levanta a cabeça, e nos espia — Eu ainda não deixei de ser homem.
— E você quer ser meu padrinho? — perguntei surpresa.
— Na verdade, não. Só comentei para lembrá-los de que ainda tenho um pênis em funcionamento. Ele não é o único homem que você conhece.
— Poxa, é verdade! — resmunguei — Você me ajudou tanto com esse seu pênis. — só que não.
— Alías, — ele continuou — Sabe o que também seria legal?
— Não, Shikamaru. O que seria legal? — indaguei, batendo minha caneta sobre a mesa, me perguntando quando poderia voltar a trabalhar em paz.
— Se eu pudesse faltar ao seu casamento! Isso seria muito legal.
— Se eu enfiasse essa caneta na sua garganta, acho que também seria legal.
— Bom, então está decidido! — Karin nos interrompe — Eu e o Naruto seremos seus padrinhos. Vou mandar uma mensagem pro Sasuke, para lembra-lo de que também precisa de padrinhos. E pra ele avisar a mãe dele, por que isso precisa ser registrado antes do casamento. — imaginei que ela estivesse apenas querendo um pretexto pra falar com ele, isso sim.
— Será que ele vai convidar o Itachi para ser seu padrinho? — indaguei, mais pra mim mesma.
— Vamos fazer uma aposta? — ela sugere, de repente empolgada demais — Eu aposto que ele vai chamar o Itachi!
— Tsc! O que você sabe? — Naruto murmura — Aqueles dois se odeiam como cão e gato. Duvido que ele chame o Itachi.
— Então você aposta que não?! — ela diz.
— Eu não aposto nada, Karin Maria da Silva Sauro! — ele esbraveja.
— E você, Sakura, o que vai ser? — ela pergunta, ignorando o outro.
— Tanto faz. Isso pouco me importa. — resmunguei.
Aí, ela teve a brilhante ideia de tirar cara ou coroa com uma moeda.
— Sakura, você é cara e o Shika é coroa. — ela diz.
— Ei, eu sou novo demais pra ser coroa! — o idiota resmunga, meio alheio a nossa conversa.
— Tá, mas e daí? — Naruto indaga, mais interessado do que deveria. Aliás, aquele bando de folgado deveria estar trabalhando, ao invés de ficar brincando com moedas. Eles só sabiam matar tempo à toa — Que diferença vai fazer?
Ela atirou a moeda para o alto, a apanhou no ar, e a jogou no pulso.
— Deu coroa. Agora vamos ver qual será a aposta do Shika. Se der cara, ele aposta que o Sasuke vai chamar o Itachi. — a ruiva disse.
E lá foi ela atirar aquela porcaria para o alto outra vez. A moedinha girou, girou e girou no ar, até ela apanhá-la e coloca-la no pulso novamente.
— Cara! Beleza. Eu e Shikamaru apostamos que o Sasuke vai chamar o Itachi, e o Naruto e a Sakura apostam que ele não vai. — e aí, prontamente, ela tirou uma caixinha de papelão que tinha em sua gaveta, embalagem de biscoitos recheados, e colocou uma nota de dez pratas ali. E assim foi passando a caixinha de um em um, recolhendo o nosso rico dinheirinho que já era escasso e quase nulo. — Hoje à noite, veremos quem será a dupla de vencedores! — e sorri, como se tivesse acabado de ter outra ideia brilhante, tão brilhante quanto seus dentes.
Tive vontade de socar a cara dela, até fazer seus dentes caírem um por um. E então, eu sorriria por ver a cretina banguela, com aqueles óculos ridículos.
Enfim, finalmente suspirei por ter alguma paz para poder voltar a trabalhar, levando minha vidinha naquele escritório até o meio dia. Mas olhando para o monitor, me assustei ao ver que já havia passado das 12 horas, com toda aquela baboseira, e revirei os olhos. E me dei conta de que não havia visto nem sombra do cabelo do meu chefe a manhã inteira.
— É mesmo, agora que você mencionou... — Karin resmungou, mordendo a unha do mindinho, pensativa — Ele passou por aqui de manhã cedo, pouco antes de você chegar. Mas realmente não voltou!
E então, ela saiu correndo feito um rojão de vara, com sua antena para fofocas ligada.
No fim, restou para eu ir almoçar com o Naruto e o Shikamaru vagabundo. Ou, recém carinhosamente apelidado por mim, Shikabundo. Pelo menos, o dia estava bonito, ensolarado, com poucas nuvens.
Como todo mundo estava duro (sem interpretações, por favor) graças às Karin — era fim de mês, e como praxe, as coisas ficavam ainda mais apertadas —, fomos numa barraquinha na esquina comprar cachorros quentes mesmo. O dono da barraquinha era um velho conhecido, pois não eram raras as vezes que fazíamos isso. Adorávamos o cachorro-quente dele (sem interpretações, por favor). O negócio era um monstro, com duas salsichas ao molho de tomate, acompanhado por folhas de alface cortadas em tiras, ervilhas, salsinha, milho verde, cenoura ralada, cebola picada, ovo cozido picado, finalizado com batata palha e ainda enfeitado com tirinhas de ketchup, maionese e mostarda. Era um verdadeiro monstro do colesterol, que só faltava criar vida própria, mas saímos da barraquinha, cruzando a rua com baba escorrendo pelo canto da nossa boca, bem felizes com aquela bomba em mãos.
Pelo menos, eu e o Shikabundo estávamos, por que, na primeira mordida, o idiota do Naruto deixou suas salsichas escapulirem pelo outro lado, derrubando aquela meleca toda no chão. Assim, ploft, voou tudo.
— MEEEEERDAAAAAAAAAAAAAAA!!! — esbravejou pelos ventos, fazendo todo mundo que caminhava pelas calçadas olhar para nós — Eu não acredito nisso, cara! Não consegui arrancar nem uma mordidinha da porra da salsicha, cacete! Odeio quando isso acontece! — frustrado, ele jogou o pão no chão também, por que achou que combinava com os passinhos que dava de um lado para o outro, tentando não pisar na meleca. Pelo menos, aquilo serviu para alimentar o coitado do cachorro de rua magricelo que passava nos cheirando.
E Shikabundo não parava de rir, o que não era um bom sinal. Não naquele momento de fúria do loiro, por que, assim, bem na cara de pau mesmo, bem como uma criança mimada, bravo no meio da rua, Naruto deu um tapão na mão frouxa do trouxa, fazendo o outro derrubar seu cachorro quente no chão também. Mas o melhor de tudo foi ver a cara de pateta dele, olhando para o que um dia foi um belo cachorro-quente. Num instantinho, aquilo deixou de ter graça. Mas ao mesmo tempo, ele não parecia muito irritado.
Por que, claro, sobrou para mim.
Os dois, com cara de cão pidão ficaram me encarando.
— Sakuraaaaaa, divide o seu cachorro-quente comigo!!!! — um dizia.
— Acabou meu dinheiro! — o outro resmungava — Estou com fome!
— Vão pedir esmolas pra lá! — os enxotei, tentando proteger meu cachorro-quente.
— Já sei! — então, Naruto sacou seu celular do bolso, discou alguns números, e ficou esperando a outra pessoa atender — Karin, prima linda do meu coração! A mais bela de todas as flores do jardim! Me empresta dinheiro! — ele diz, sorridente. E aguarda alguns segundos ouvindo a louca — Itachi? Que Itachi, mulher? Não me interessa o Itachi! ? Pro inferno com o Itachi! Que o raio parta o Itachi! Eu só quero saber de forrar o meu estômago, sua vaca!
E ficou mais uns dois minutos com o aparelho colado no ouvido, olhando para o nada.
Aí, guardou o celular no bolso, e nos olhou.
— A filha da puta desligou o telefone sem responder.
— Estou com foooomeeeeeeeeeee. — Shikabundo resmungou inconsolado, e ainda no ouvido de uma moça que passava ao lado dele. É claro que a moça se assustou, e apertou os passos para longe do maluco, enquanto eu comia o meu almoço — Será que ela pensou que eu estava a fim de comer ela? — o idiota ainda perguntou, legitimamente preocupado.
— Em qual sentido? — Naruto perguntou.
— E isso importa? — eu perguntei.
Estávamos no meio da rua, três famintos loucos, e um cachorro-quente, quando vimos a mãe do Itachi entrar no nosso prédio, ao lado do seu filho caçula. Eu me perguntei o que o Sasuke estaria fazendo ao lado dela, e naquele horário, mas ele também não parecia muito feliz. O que não era para menos. Qualquer um, ao lado daquela velha, se sentiria infeliz. Ela só não ganhava mesmo da minha mãe.
— Rápido, rápido, me escondam! Não deixem ela me ver aqui! — resmunguei, correndo para trás deles.
— DONA ITACHI, DONA ITACHI!!! — de repente, o idiota do Naruto berra, chamando a atenção de todo mundo, inclusive a da velha — A SAKURA ESTÁ AQUI, ÓH!
— Ela não tem um nome, não? — Shikabundo perguntou. Mas e eu lá me importava com o nome da velha?!
— O que está fazendo, seu imbecil? — lhe dei um soco na boca do estômago, fazendo o idiota se encolher.
— Outch! É pelo cachorro quente que você não quis dividir! — ele responde, emburrado — Vaca. — ainda disse.
Emburrado, e agora lambusado e melecado.
Enfiei o maldito cachorro quente na cara dele.
— Toma o teu cachorro quente, filho da puta! — resmunguei. E que ficasse grato por eu não enfiar aquelas salsichas em outro lugar!
O pior foi ver que o idiota pegou tudo no ar, sem se importar com a sujeira que fazia em sua roupa. Parecia um esfomeado. Quem passava por nós, achava que éramos um bando de sem teto que não via comida há dias. E ele ainda salvou boa parte do cachorro quente para não ir ao chão, e começou a comer, junto com o Shikabundo que avançou feito pombo em cima de migalha de pão na praça.
— Querida, você sabe para quê serve um celular? — ela indagou, atravessando a rua, vindo em nossa direção.
— O da senhora, eu não sei, mas o meu é só para dizer que tenho um mesmo. E de vez em quando, para emergências.
— Tsc! Até a dona Itachi tem o seu número, e eu não? — Naruto resmungou, de boca cheia.
Lhe dei um pisão no pé.
— Bom, e o seu casamento não é uma emergência? — ela indagou, colocando as mãos na cintura, erguendo uma sobrancelha como se me desafiasse.
— Considerando a situação, até que é! — respondi, sem muita empolgação.
— O que está fazendo aqui? — ela indagou, de repente, olhando para os meus colegas de trabalho (que devoravam o que sobrou do cachorro quente como dois animais selvagens) como se fossem duas anomalias da natureza (o que, convenhamos, não deixava de ser verdade, né?!) — Eu me matando para que esse casamento saia perfeito, e vocês nem aí! Você deveria estar num salão, se preparando, menina! E você — apontou para o Sasuke — Em casa se preparando! Vou te contar, viu?! Vocês se merecem mesmo. — resmungou.
Eu olhei para o Sasuke, que deu de ombros, sem muito ânimo. Parecia chateado com alguma coisa, na verdade. De qualquer forma, entramos no carro dela, e a deixei que me levasse ao tal salão para um tratamento de rebocagem completo. Peeling, hidratação, pés, mãos, cabelos... E não adiantava dizer que eu já tinha feito tudo isso no dia anterior, por que a mãe do Sasuke insistia para que fosse tudo refeito.
— Ah, e pintem o cabelo dela de preto, pelo amor de Deus! — ela ainda teve a audácia de dizer para a cabeleireira que me atendia — Não vou deixar que digam que meu filho está se casando com uma adolescente! Vão chamá-lo de pedófilo.
Por mim, que chamassem ele de Anglófilo, Aracnófilo, Bibliófilo, Columbófilo, Discófilo, Hidrófilo ou mesmo de Necrófilo, que eu não estava nem aí.
— Mas nem se atreva a colocar alguma tinta no meu cabelo, ou eu mordo. Juro que mordo! Eu mordo mesmo, viu?! — até rosnei, para enfatizar a minha fúria.
— Não duvide nem que ela transmita raiva! — o idiota resmungou. Então olhei atravessado para ele. O que diabos estava fazendo? Era para estar do meu lado, e não no dela!
Acho que ele captou a mensagem.
— Mãe, cê tá louca em querer tirar a cor do cabelo dela? Se não fosse esse cabelo cor de suco de saquinho sabor morango, eu jamais teria sido fisgado por ela! — ele tentou.
— Você está me dizendo que se ela pintasse de preto, você desencantaria dela? — ela indagou.
— Exatamente, mãe! O cabelo cor de rosa é a essência dela! Como os cabelos do Sansão.
— Pinte os cabelos dela. — ela disse, para a moça.
— Idiota. — eu disse para ele.
Enfim, ela acabou arrastando ele para casa, dizendo que o noivo não pode ver a noiva antes do casamento, e todo aquele blablabla que sempre dizem, além de que ele mesmo tinha que se aprontar também. Coisas que não me interessavam. A única coisa que me interessava é que ficaria mais um tempo longe dela, e daquele bando de jamantas que se diziam meus colegas de trabalho.
Estava tudo indo muito bem, obrigada, enquanto mãos faziam todo o trabalho, e eu só ficava ali, descansando numa cadeira. Até teve um momento mágico, entre eu e uma revista de bobocas, quero dizer: fofocas!, depois que a moça passou um produto para hidratar meu cabelo, e eu tinha que aguardar alguns minutos com ele na cabeça. Me sentei numa poltrona, me sentindo bem relaxada, para folhear a tal revista. Eu estava bem tranquila, como se aquilo tudo não fosse nada demais, como se não fosse o dia do meu casamento.
— Unf. A filha da Madonna virou estilista? — indaguei incrédula, lendo a noticia que já era mais do que passada — Aquela fedelha mal aprendeu a limpar a bunda!
— E não é? Não sabe nem fazer a sobrancelha! Aquilo tá mais para “sombrancelha”! — havia alguém sentado ao meu lado, mas não me dei ao trabalho de olhar.
— Haha, é verdade... — apenas comentei sem muito humor, na verdade, virando a página — Nossa, e olha essa transparência na roupa dessa Gágá. Tecido para quê, querida, se é para andar por aí mostrando tudo? Poupe algodão! Tem muitos sem-teto precisando de roupas por aí.
— Ah, não, da Lady Gaga, ninguém fala mal! Ela entende de moda e arte, você não, queridinha.
Resolvi olhar para a dita cuja que ousava me contrariar, mas logo desejei não ter feito isso ao me deparar com ninguém menos que a mocréia da ex-esposa do Sasuke. Cá estava ela, bem sentadinha com outra revista de fofocas nas mãos, com suas pernas de fora cruzadas e de salto alto, sorridente.
Deus, se existe, deve me odiar muito mesmo.
Eu devo ter feito uma cara muito óbvia de incredulidade, confusão e revolta, por que ela adivinhou direitinho o que eu estava pensando.
— Não consigo dizer não para a Mikoto! — respondeu à pergunta não pronunciada, dando de ombros — Ela me pediu para lhe dar assistência com o penteado e o vestido... Fazer o quê, se sou esse poço fundo de compaixão por gente sem noção como você!? Olha, me dói, dói, dói, dói, no fundo do coração ver gentinha como você fazendo isso! — e ela aponta para as minhas roupas — Usando uma calça listrada, com uma blusa estampada??? Nossa, você deveria ser presa por fazer cometer uma atrocidade dessas com as coitadas das suas peças! Isso deveria ser crime!
Deus que me perdoe, mas me neguei a ficar ouvindo aquela mocréia.
Calmamente, coloquei a porcaria da revista de volta sobre a mesa de centro, me perguntando quanto aquela velha deve ter pago ela para fazer esse serviço, e tapei os meus ouvidos, sem me importar com os olhares das outras freguesas, nem com o fato de que eu estava parecendo uma criança birrenta, nem com o diabo à quatro! Eu só queria que ela sumisse, e aquilo me dava a breve ilusão de que meu desejo tinha sido atendido. Pelo menos, até a moça que cuidava dos meus cabelos me chamar de volta.
— Tem certeza de que não quer pintar o cabelo, querida? — a mocréia indaga.
Se ao menos alguém me matasse alí...
O mais triste de tudo foi ver que, ao terminar com aquela palhaçada toda naquele salão, a infeliz continuava sentadinha ali, me esperando.
Fui marchando até a saída. Caminhei algumas quadras, convicta de que havia me livrado dela, mas quando virei a esquina, dei de cara com ela ao lado de um taxi, com a porta traseira aberta, batendo o seu pezinho, impaciente, me esperando.
— Como é que você fez isso? — indaguei, incrédula, por ela conseguir ser mais grudenta do que chiclete no cabelo.
— Entre logo no carro, e pare de resmungar perdendo tempo! Temos apenas uma hora para você entrar naquela igreja!!! Com o meu homem! — e agora ela soava despeitada.
O pronome possessivo, é?
Sorri diabolicamente.
— Ah, sim, você tem razão! Estou louca para me casar com aquela gostosura do Sasuke, o quanto antes, e irmos para nossa deliciosa lua de mel! — dei uma risadinha sacana — Nossa, as coisas que eu preparei para nós. Comprei até chicote, imagina!
Ela estreitou os olhos, erguendo uma sobrancelha metida à besta, apontando com mais veemência para dentro do carro.
O mais irritante de tudo mesmo foi me ver obedecendo a ela, por que eu não tinha dinheiro para pagar um mísero taxi para casa. Tive que deixá-la pagar por isso, sem falar nos gastos com o salão que haviam ficado por conta da mãe dele.
Fomos direto para a casa dos pais dele, por que ela tinha as chaves, e foi me arrastando para o andar superior, até um dos quartos de hóspedes. Mas antes, ela passou por uma pequena cristaleira, de onde tirou uma taça e encheu com whisky só para si.
O casarão era enorme, cheio de luxo e requinte, coisa de gente rica e esnobe mesmo. Mas por algum motivo, eu ficava imaginando o Itachi correndo pelas escadas, atrás do Sasuke que tinha feito alguma traquinagem, quando pequenos. Na verdade, não era difícil imaginá-los alí, tendo em vista a grande quantidade de retratos que havia deles espalhados pelas paredes.
Ela me trancou num quarto, onde o meu vestido estava estendido sobre a cama, com os sapatos ao lado, ainda na caixa.
—Ande, se vista logo! — me disse ríspida, se jogando na cama com a bebida nas mãos. Devia estar se sentindo muito infeliz.
Desconfiada, peguei o vestido e me meti na suíte. Cinco minutos depois, saí de lá com o tal vestido.
Eu já disse que não ligava para essas coisas de comemorações, datas especiais, festas de aniversários, churrascos... Tudo não passa de uma chatice só. E lá estava eu, naquele vestido. Que coisa estranha. Parecia não combinar, como um sapato rosa não combina com um vestido lilás. Como sorvete de chocolate não combina com ketchup. Eu, me casando?
É, eu estava prestes a me casar. Quer fosse de mentira, ou não, eu entraria numa igreja na frente de algumas pessoas, e diria o tal do “sim, eu aceito” para um padre. Estranho. Estranho como aquele vestido era bonito. Estranho como ele caia bem em minha silhueta.
Estranho como... Me peguei de surpresa, realmente gostando de estar dentro daquela porcaria de vestido, rodopiando, analisando o quão bem ele caia no meu corpo. Ah, que ótimo, fui infectada pelas futilidades alheias! Não foi como da primeira vez, em que havia entrado dentro de duzentos vestidos, e já estava quase explodindo o lugar de tédio se me enfiassem em mais alguma roupa... Alí estava eu, diante do enorme espelho do quarto, com um vestido de noiva. E isso era outra coisa que eu jamais pensei que fosse acontecer. Nem de mentirinha, isto é. Eu, Sakura Haruno, num vestido de noiva, prestes a me casar. Que estranho! Que lindo! Eu estava linda!
Mas a mocreia-ex-do-Sasuke, de repente (e para o meu alivio, devo também dizer) começou a rir, me tirando dos devaneios. Ria feito uma iena descontrolada, como se estivesse diarreia, segurando a barriga de tanto que ria.
— Qual é graça, palhaça? — indaguei. De repente, toda aquela doçura que o vestido havia me contaminado voltou para seu devido lugar, saindo pelos poros, dando a vez para o azedume do meu humor corriqueiro.
— Nada não! Só ainda não consigo acreditar que o Sasuke, o meu Sasuke, vai se casar com você!
— Ele não é mais seu.
— Ops! — cobriu a boca, como se de repente se desse conta do erro que cometeu — Falha minha, mesmo. Ele é seu. Todo seu. Todinho seu. Faça bom proveito das minhas sobras, querida. — adicionou venenosamente.
— As sobras dele... — murmurei — Haha, é verdade, ele me contou mesmo sobre o quanto você sugou a vida dele, feito carrapato, feito sanguessuga, sabe? Aqueles bichos nojentos, gosmentos, que rastejam por que não sabem fazer mais nada da vida do que ficar tirando dos outros. Deve ser muito triste ser como você.
Ela estreitou os olhos, e se levantou da cama, meio cambaleante, como se estivesse pronta para me enfrentar. Mas eu apostaria com a Karin, se ela estive presente, que com um peteleco, eu seria capaz de derrubá-la de volta.
— Bom, diga a seu futuro marido que quem é o sanguessugas aqui é ele! — ela ainda ficou me cutucando com o indicador, indignada pela injustiça que eu parecia estar cometendo, com os olhos cheios de lágrimas. E aí, ela me solta essa bomba me deixando arrepiada até aos pelinhos da virilha: — Por que foi ele quem matou nosso filho!
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