Contradições
13 Casamento
Notas iniciais
Contradições
by Amanur
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Capítulo 13
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Algumas pessoas têm segredos. Algumas pessoas têm caspa, piolho, conjuntivite, olho vesgo, gordurinhas, peitinhos... Mas também têm segredos. Eu tenho um segredo. Uma vez, um rapaz muito bonitinho do setor do andar de baixo, do nosso prédio, me perguntou se a Karin tinha namorado e eu disse que ela era lésbica por que estava brava com ela por ter dito ao Naruto que eu estava apaixonada por ele (e desde então, ele não parou de pedir pelo meu número, pensando que era verdade — e só Deus sabe que não!).
Eu tenho outro segredo. Quando eu tinha sete anos, uma amiguinha foi dormir na minha casa. Meus pais tinha recém se mudado, e meu quarto não estava pronto, de modo que minha amiguinha teve que dormir numa rede. Assim, no meio da madrugada, acordei com vontade de fazer o numero um. Eis que aquela pequena e adorável Sakurinha se levantou de sua cama, e fez pipi ali, embaixo da rede, para no dia seguinte acusar a amiguinha de ter feito aquela coisa feia ali, no chão. A amiguinha chorou, envergonhada por ter feito aquilo sem se dar conta, é claro, e eu não estava nem aí para ela. E, agora, quando penso, me dou conta do quão má eu já era... Talvez fosse alguma coisa que minha mãe comeu durante a gestação.
Ah, eu tenho mais um segredo! Na noite passada, sonhei que era filha de fazendeiros, e tinha um cavalo. Eu adorava andar a cavalo! Lá pelas tantas, descubro que meu cavalo era cuidado pelos irmãos Uchiha, que me seduzem, arrancam as minhas roupas, e me atiram pelas paredes, me chamando de tinta, e mais o escambal... Enfim, moral da história? Passei a gostar mais ainda de cavalgadas. Se é que me entendem... Mas aquilo era demais até para mim, e ái de mim se alguém soubesse de uma barbaridade dessas! Nem eu pude acreditar num sonho diabólico daqueles!
Enfim, lá estava eu, na porta da igreja, com um coque prendendo o cabelo, de braço dado com meu pai. O engraçado era que ele tremia de nervosismo, mais do que eu.
— Sakura, querida, não me deixa tropeçar no meio do caminho, viu?!
— Pode deixar, paizinho.
— E se eu pisar no véu, ou na grinalda?
— Nem eu, nem o senhor estamos usando aquela merda.
— Olha a boca suja, Sakura! — me ralhou.
— Mas eu escovei os dentes!
— Você sabe do que estou falando! — ele revirou os olhos — E se eu gaguejar?
— O senhor não precisa falar nada, paizinho.
— E se eu trocar os nomes?
— O senhor não precisa falar nada, paizinho.
— Ai, meus Deus, e se eu não conseguir colocar a aliança no dedo?
— Acho que o Sasuke te daria um murro nas fuças por querer se casar com ele...
Consegui acalmar meu pai, depois de alguns minutos. E, então, as portas se abriram, e todos olharam para nós, e aquela típica música irritante — por que ninguém nunca pensou em trocar o disco? Seria tão mais animado se tocassem alguma música do Michael Jackson — começou a ecoar pela igreja.
Um passo de cada vez, eu dizia a mim mesma. E para o meu pai. Eu queria acabar logo com aquilo, e ir correndo até o altar para apressar as coisas, mas os olhares da mãe do Sasuke e da minha me diziam “se comporte!”, “faça isso direito!”, “não me envergonhe!”.
Respirei fundo. Meu pai também. Um passo de cada vez. Feito duas lesmas, a caminhada até a porcaria do altar não tinha fim. Tive que olhar para a cara de cada um, ali, nos encarando, e ouvindo um monte de gente murmurando coisas do tipo “Quantos anos ela tem?”, “Não podia ter pintado o cabelo de outra cor?”, “Quem é ela?”, “O que o Sasuke viu nessa daí?”. Pelo menos, na minha ala, estava o Shikabundo bocejando ao lado da Temari e do Suigetsu, o Naruto com cara emburrada no banco da frente dos padrinhos, ao lado da minha boa amiga Karin — tão linda, usava um vestido cor de sorvete de creme, com os cabelos em cachos soltos, sem seus óculos, e torcia por mim com lágrimas de emoção nos olhos, dizendo com os lábios “Eu ganhei a aposta!”.
O quê?
Filha da puta.
Filho da puta!
O Itachi estava lá, atrás do Sasuke, como seu padrinho, e até segurava a caixinha com nossas alianças, ao lado de uma moça de cabelos roxos que nunca vi na vida, como sua madrinha.
Finalmente chegamos ao destino, e meu pai me deu um beijo na testa, me abençoando.
Então, após um sutil cumprimento ao meu pai, Sasuke tomou meu braço. Ele estava em sua beca de terninho e gravata, parecendo um agente secreto (só faltava um óculos escuro), muito feio. Estava com o cabelo penteado de um modo ligeiramente rebelde e sexy, muito feio.
Nos viramos de frente para o padre que leu todo o seu discurso católico-cristão, um monte de blábláblá que não ouvi por que fiquei olhando para as teias de aranha que havia nos cantos do teto da igreja, me perguntando como diabos não limparam aquele lugar, nem para um casamento!
E, então, Sasuke me dá um cutucão, chamando minha atenção, tomando a minha mão para enfiar a aliança.
— Eu, Sasuke Uchiha, aceito Sakura Haruno como minha esposa, na riqueza ou na pobreza, mas principalmente na riqueza — pigarreou — na saúde ou na doença, até que a morte nos separe. Ou a pobreza. — outro pigarro.
E então, enfiou uma aliança no meu dedo.
Eu achei que seria outro arame de enrolar saco de pão pintado de dourado, mas aquela era uma aliança de verdade! Uma aliança de ouro de verdade!
— Você está louco? Isso é uma aliança de verdade! — disse o eco da minha mente, mais alto do que deveria. Eu estava surpresa e nervosa.
Não era para ser de verdade!
Aquele casamento não era de verdade!
Eu preferiria um arame de chaveiro!
Ele pigarreou pela terceira vez, olhando nervoso para o padre que nos encarava com a maior cara de tédio — como quem já estava careca de casar pessoas e não aguentava mais aquela vida.
— Claro que sim, amor da minha vida. Agora faça o seu juramento, jure que me amará até que a morte nos separe. — resmungou entre os dentes, me dando um beliscão discreto no braço.
— Ah, sim... Eu, Sakura Haruno, aceito Sasuke Urtiga... Digo, Uchiha, até que a morte te separe. Digo, nos separe. Por Deus! Que merda mais complicada! Digo, perdão, seu padre. Que coisa mais idiota! Digo, COM-PLI-CA-DAAAAA! — engoli a seco, me amaldiçoando por aquilo tudo — Caralho! — ainda suspirei.
O padre disse mais um monte de coisas em tom professoral-tediosa, enquanto eu apenas encarava aquela aliança no meu dedo. De repente, aquilo parecia pesar toneladas. Mas como podia? Era só uma aliança! De ouro! De verdade!
—... E eu vos declaro, marido e mulher! Pode beijar a noiva.
Então, em câmera lenta, vi Sasuke se aproximando, de olhos fechado e com aqueles beiços prontos para tascar um beijo em mim, mas tudo o que consegui fazer foi rir feito uma retardada. Quase me desequilibrei para o lado, e minha barriga doía tanto! E ainda teria dado um belo show caindo de bunda no altar, de pernas para ar, se ele não tivesse me segurado.
— Hahaha... É o nervosismo. — Sasuke tentou justificar ao padre.
— Que seja. — o velho respondeu, retirando a faixa que cobria seus ombros, como se desse por encerrado sua noite.
Karin foi quem puxou os aplausos, fazendo o restante da plateia bater palmas, enquanto eu saía da igreja de braços dados ao Sasuke. Eu dava “aleluia, abençoado seja!” achando que a tortura tinha acabado, quando ele ainda me diz no pé do meu ouvido, me lembrando do evento seguinte:
— Aguente firme, por que minha mãe preparou uma festa, com bolo de cinco andares, e tudo!
Eu quis pular de um prédio de cinco andares. Eu quis correr para um cantinho da igreja, e chorar feito uma criança inconsolada.
Pelo menos, tivemos alguns minutos de descanso, no caminho até o salão em que haviam alugado para a tal festa. Numa limusine, estávamos eu e o Sasuke, apenas. A primeira coisa que fiz, foi tirar aquelas sandálias que estavam matando os meus pés com bolhas.
A segunda foi suspirar em alivio. A terceira, encarar o Sasuke.
Aquela historia da mocreia-da-sua-ex ainda estava me incomodando, mas eu não sabia como abordar o assunto. Não sabia se eu deveria dar ouvidos a uma bêbada despeitada, também. Não sabia nem se aquele era o momento certo para falar daquilo.
— Eu ainda não recebi o dinheiro, sabia? — ele diz, de repente — Espero que você cumpra com a sua parte no acordo! Não me faça me arrepender de não ter assinado um contrato, por que, toda vez que penso nisso, me amaldiçoo por não ter exigido um!
— Certo. Claro! Não, você está certo, sim. Não se preocupe. Vou pegar o dinheiro amanhã, não se preocupe. — respondi, meio abobalhada, com a cabeça na lua.
— Ok.
Em seguida, seguiu-se o silêncio. Pela primeira vez em muito tempo, ficamos sem dizer nada. Ele me olhava de um jeito estranho, como se me analisasse, e eu desviava o olhar. Quando voltava a olhá-lo de novo, dava de cara com os olhos dele ainda me observando. Era como se eu estivesse sendo observada de longe, embora o cretino estivesse bem ali na minha frente. Então, resolvi entrar no jogo dele, e fiquei encarando-o da mesma forma, sem piscar os olhos. Meus olhos deslizavam pelo seu rosto bem barbeado, mandíbula larga, pele lisa, cabelos bem tratados, lábios levemente carnudos, nariz pontiagudo, queixo largo, sobrancelha nem grossa nem fina, olhos sagazes, pescoço largo, ombros largos e fortes...
Céus, como ele é feio!, e só agora eu me dava conta daquilo.
Até que ele piscou.
— Há! Ganhei! — disse, triunfante.
— O quê? — indagou sem entender bulhufas, é claro.
— Nada... — resmunguei, murchando, percebendo o quanto eu parecia idiota por isso — Por que chamou o Itachi para ser seu padrinho? Achei que odiasse ele! — tentei mudar de assunto.
— Eu não odeio o meu irmão! Eu só não gosto mais dele, do jeito que costumava...
— O que aconteceu?
— Argh! Você é insistente mesmo, viu?! — dei de ombros — O Itachi foi pivô do meu divórcio. Aquela vaca me traiu com meu próprio irmão! Meu próprio irmão! Fiquei muito puto com ele, sim, mas fiquei mais ainda com ela. Afinal, quem tinha o compromisso de manter a fidelidade comigo era ela! Era ela quem estava casada comigo...
Achei estranho, por que aquilo não tinha nada a ver com o que a mocreia-da-sua-ex havia dito. Mas resolvi não tocar no assunto ainda.
— Hum... Mas ele é seu irmão... Também não deveria ter feito isso... — apenas comentei.
— Por isso também fiquei muito puto com ele.
— Já ouvi uma historia sobre a Ino ter sido namorada do Naruto... — lembrei.
Ele revirou os olhos.
— Aquele idiota ainda choraminga por isso? Ela estava só matando tempo com ele. Ela não estava realmente apaixonada por ele... E, convenhamos, nem ele por ela.
— E você se apaixonou por ela?
— Tragicamente, sim... Fazer o quê? O amor é cego, burro, surdo e mudo. É uma anta, na verdade!
— Com certeza.
— Uma mula!
— Sim.
— Uma jamanta!
— É.
— É um jumento!
— Né?
— É uma besta, um asno!
— Está bom, eu já entendi! — resmunguei, impaciente.
Ele ficou me olhando, meio inconsolado, como se tivesse mais um monte de impropérios a dizer sobre aquilo, como se realmente estivesse ressentimentos sobre o casamento que não deu certo. Mas, não sei por que, eu me sentia inconsolada do mesmo jeito. O amor era a única coisa bonita da vida que eu realmente acreditava, apesar de me julgar incapaz de sentí-lo. Afinal, eu via como outros casais se relacionavam, via como meus pais se relacionavam! E não podia deixar de pensar no quanto pareciam realmente felizes, e me perguntava como era estar no lugar deles. Mas eu desacreditava nas pessoas, nunca levei muita fé nos relacionamentos que tive. Eu tentava dizer a mim mesma que apenas não havia encontrado a pessoa certa, e que provavelmente não haveria nenhuma pessoa certa para mim, mas, talvez, como o Sasuke dizia, o amor fosse apenas uma mula sem cabeça. Estúpida, cega, surda e muda.
— Seja como for, já me decidi que não iria mais me importar com nada. — de repente, ele olha para a janela, a paisagem que passava por nós, como se não conseguisse olhar nos meus olhos enquanto dizia aquilo — Não quero mais saber de relacionamentos. Dane-se tudo! Estou de saco cheio com essa palhaçada. Estou de saco cheio de me doar para uma pessoa e não receber nada em troca.
— Sei o que quer dizer... — apenas disse.
— Talvez, no fundo, o meu irmão é quem sempre esteve certo com sua filosofia de vida esdrúxula.
— Hum.
Finalmente o motorista para o carro, e nos deixa no local. A senhora Uchiha havia feito a gentileza (em seu modo intrometido de ser, isto é) de deixar outra sacola de roupas para eu vestir na festa, dentro da limusine, de modo que fui correndo para o banheiro feminino me trocar, depois que desci do carro. Era um vestido longo, num belo tom de rosa meio escuro, meio pálido, com detalhes em renda prateada no peito e costas. Eu não queria admitir isso, mas ela tinha bom gosto, sim.
O salão estava cheio, obviamente, com os convidados da senhora Chatonilda. Havia até mesmo uma mini banda tocando ao fundo uma música calma. As mesas redondas estavam cobertas por uma tolha fina, em tom de cinza, e havia pequenos vasos de flores lilás, enfeitando uma grande vela no centro das mesas. Os garçons já passavam por cada uma delas, oferecendo bebidas e aperitivos, enquanto as pessoas conversavam animadamente.
Tudo até que parecia estar se encaminhando muito bem, tranquilo e pacificamente. Karin dançava no meio da pista sozinha, sem o Suigetsu (que não encontrei em parte alguma do salão, devo dizer), Naruto estava passando conversa fiada numa morena peituda, e Shikabundo discutia com a Temari. Nada muito fora do esperado, até que, fatidicamente, vejo que meus pais estavam numa mesa ao lado do senhor e senhora Uchiha. Era o que eu mais temia.
—... Por que realmente não me admira que a senhora esteja tão surpresa quanto eu sobre esse ridículo casamento! — a senhora Uchiha dizia para minha mãe — É inadmissível que meu filho não tenha a capacidade para escolher bem suas pretendentes. Não criei meus meninos para saírem se atirando nos braços de qualquer uma! Mas acho que o segundo filho sempre sai mais rebelde que o primeiro. Se ao menos o Sasuke tivesse seguido o bom exemplo do Itachi. — ela diz, dando tapinhas na mão do seu filho mais velho, cheia de orgulho.
Minha mãe ficou encarando ela, surpresa, com as sobrancelhas erguidas como quem diz “mas o que foi que eu ouvi?”. Já meu chefe, estava sentado bem ao lado dela, e vi quando engoliu a seco, afrouxando sua gravata e forçando um sorriso amarelo. Pelo menos, até minha mãe dar o ar da sua graça.
— Querido, — disse, voltando-se para o meu pai, que só faltava engolir a taça de champanhe que lhe foi servida — mas o que essa velha pirua está insinuando? Que nossa Sakura é uma qualquer? Foi isso mesmo o que eu ouvi? Foi isso mesmo o que ela disse?
— Velha pirua? Há! — indagou a senhora Uchiha, numa risada sem humor — Mas isso é bem coisa de gentinha pobre mesmo, querer humilhar as pessoas só por que ficou despeitada!
— Mas veja bem! Tem cabelo de pirua, se veste como pirua, anda como pirua, e cacareja como pirua! O que mais pode ser? — minha mãe rebateu, ignorando o comentário ofensivo da outra.
— Mas se a senhora se acha tão especial assim, me diga como não sabia nem que sua filha tinha um noivo! Se eu tivesse uma filha mulher, não a deixaria solta por aí fazendo o que bem entender. A começar por aquele cabelo cor de rosa horroroso, completamente fora de moda! As mulheres precisam preservar sua integridade, precisam impor respeito! E aquele cabelo desmoraliza qualquer um! Ela parece uma adolescentezinha rebelde, que recém aprendeu a limpar a bunda! Ora, onde já se viu, nem para o próprio casamento é capaz de pintar o cabelo como gente decente! As mulheres devem ser elegantes, femininas e independentes. E acima de tudo, respeitar seus pais! E não comunicá-los de seu noivado é cúmulo dos cúmulos!
Minha mãe ouviu tudo estarrecida. Provavelmente, apenas irritada por estar sendo contrariada e ofendida em público. Ela inflou as narinas, estufou o peito, e, com o indicador, foi apontando o dedo no nariz da outra.
— Escute aqui, a minha filha pode não ser o melhor exemplo de filha, nem mesmo de ser humano, e ela pode ter o cabelo mais ridículo do planeta, pode ser péssima cozinheira, não ter talento algum, pode ser uma grande fracassada como dona de casa, não saber costurar, nem tricotar, ela pode ser uma grande preguiçosa e não ter a menor força de vontade para fazer qualquer coisa! Minha Sakura pode ser ranzinza, viver de TPM, pode ter a boca mais suja do que um esgoto, pode ser desorganizada, mal humorada, sem graça, sem sal, sem açúcar. Ela pode até mesmo não estar nos padrões de beleza das revistas e não ter feito nem faculdade, e nem ter conseguido o emprego dos sonhos, ela pode...
— Ok, mãe, chega de elogios. — tive que interferir — Tenho certeza de que todos aqui entenderam muito bem como sou incrível. — resmunguei.
— Não, não, não, deixe-me terminar o que tenho a dizer para essa pirua metida à fina, a Sakura é...
Então, para a surpresa geral do público, Sasuke apareceu atrás de mim, sorridente, atrapalhando o discurso da minha mãe, levantando a voz para as duas senhoras birrentas.
— A Sakura é a pessoa que eu escolhi, com todo o seu mau humor embutido, obrigado. A teimosia e pertinência são características de pessoas inteligentes, e por isso não abro mão dela. E isso já deveria bastar a todos vocês. Mas se preferirem ficar acumulando todo esse azedume e recalque, que vem, bate e volta para vocês, por que estou cagando e andando para a opinião das senhoras, que, aliás, na minha humilde opinião não passam de duas velhas mal comidas e rabugentas, peço que façam a gentileza de se retirarem daqui, ou eu juro que vou enfiar uma garrafa na goela de cada uma de vocês e chutá-las traseiro afora daqui! Entenderam, queridas? — e ele continuava sorrindo. Sadicamente — Não vou admitir ficar ouvindo esse monte de merda mal cuspida aqui. Se vocês não sabem se comportar em público, nem no dia do casamento dos seus filhos, bom, não há por que eu me preocupar com bons modos diante de duas velhas escandalosas neste salão! Não é mesmo, queridas? — ele continuava sorrindo. Sadicamente.
A senhora Uchiha não sabia onde enfiar a cabeça, de tanta vergonha, e minha mãe olhava para ele como quem diz “mas como se atreve?!”. Mas no fim, ela soltou uma risadinha, e sentou-se de frente para o meu pai, de costas para a senhora Uchiha.
Todos os convidados, é claro, àquela altura do campeonato, estavam calados, quietos, prestando atenção no show que as duas davam no meio do salão. Até o Itachi, parecia em choque. Na verdade, parecia que alguém havia apertado o botão de pausa para aquele show. Nervosa, olhei para a Karin, que, aparentemente tensa, cochichava no ouvido do Naruto, que a encarava com os olhos esbugalhados. Isso não poderia ser coisa boa, me deixando ainda mais preocupada e nervosa, achando que eles estivessem aprontando mais uma. Mas ao ver que eu fazia sinais para ela, para distrair a plateia, ela pediu à bandinha de músicos (que também haviam parado de tocar para se focarem na discussão) para que tocassem algo mais animado. E, finalmente, não demorou muito para que as pessoas voltassem ao normal, como se alguém tivesse pressionado novamente o botão de pausa.
Suspirei um pouco mais tranquila. Apenas um pouco.
Puxei o Sasuke para o canto, de repente, me sentindo inquieta, como se um milhão de mini choques elétricos se espalhasse por todo o meu corpo, me causando calafrios e fazendo o coração acelerar. Será que eu estava tendo algum enfarto?
— Não precisava ter feito isso! — eu disse, de repente, me sentindo meio ofegante.
— Ok, sem problemas, de nada. Não tem por onde. — responde, meio sarcástico — Eu só estava irritado por que minha mãe sempre quis controlar a minha vida, e ela fica muito puta quando faço algo inesperado.
— Então quer dizer que você era o filho rebelde mesmo?
— Eu não sei... Não é como se o Itachi fosse santo. Ele também já fez muita coisa pela qual ela não se orgulharia. A diferença é que ele esconde muito bem. Eu, já prefiro mostrar minhas ações, sabe?
— Ah, então esse foi um dos motivos pelo qual você aceitou se casar comigo? — suspeitei — Para confrontar a sua mãe? Para fazer mais um ato de rebeldia?
— Talvez. Quem sabe? — deu de ombros, olhando nos meus olhos. Nos meus olhos. Diretamente nos meus olhos, como se o mundo tivesse desaparecido a nossa volta.
— Você acredita mesmo em tudo aquilo o que disse? — indaguei, mas minha voz saiu tão fraca que achei que não tivesse me ouvido.
— Sim...
De novo, senti aquela sensação estranha de estar sendo observada, junto com o mini enfarto que acho que estava sofrendo.
“Valha-me Deus”, que merda era essa?
De repente, a música para e alguém bate numa taça com algo metálico, chamando a atenção de todos.
A Karin, a idiota, sonsa e sem noção da Karin, estava no palco. E não só isso, ela havia tomado o microfone dos músicos, e segurava uma taça e uma faca nas mãos.
— Um, dois, três, testando! — a idiota disse, embora todos soubessem que a porcaria do microfone estava funcionando perfeitamente bem, por que os músicos o usavam — Boa noite a todos! Eu gostaria de fazer um brinde ao mais novo casal que o mundo criou!
Revirei os olhos. Brinde? Que brinde? Não vi ninguém distribuindo chaveiros, canetas ou marcadores de página. Só havia aquela múmia querendo distribuir e espalhar a vergonha alheia!!!
— Foi com muito orgulho, devo dizer, que fui a responsável pela união dos dois pombinhos. E com esses olhos que a terra ainda há de comer — ou, quem sabe, eu coma! Especialmente por contar que foi a responsável por uma história que deveria ter acontecido sem eu antes conhecê-la. Argh! Cruzei os dedos na esperança de que ninguém tivesse reparado nisso —... Vi o florescer de um longo, sólido e muito bonito relacionamento acontecer. Não há quem possa negar, eles nasceram um para o outro. É um casal perfeito! Tão perfeito quando o clássico arroz com feijão, Big Mac e batata-frita, filme, pipoca e guaraná, onde um não faz sentido sem o outro. Só vamos torcer para que não haja um terceiro, escondido num armário, é claro. Isso só funciona com o filme, a pipoca e o guaraná, se é que me entendem. Hahaha. — ninguém riu — Enfim, quero parabenizá-los pela linda união, e dizer a eles que podem contar comigo para o que der e vier. Menos para emprestar dinheiro, é claro. Hehe. — mas hein? — Ou emprestar sapatos. Meus parabéns, queridos! — e bateu mais uma vez em sua maldita taça com a ponta da faca, fazendo aquele tin-tin irritante.
Meia dúzia de gente aplaudiu, inclusive o Naruto (já mais bêbado do que pai de santo), e a banda continuou a tocar. Resmunguei um “Com licencinha!” para o Sasuke, e fui voando em direção a ela, a agarrando pelo braço e puxando o Naruto pelas orelhas até um canto mais afastado do salão.
— Mas que historia é essa? — indaguei, quase desesperada.
— Então... Aconteceu um acidente. — Karin resmunga, desviando o olhar, sorrindo meio torto, amarelo, quase podre, na verdade.
— Que acidente? — indaguei aos dentes, prestes a morder eles.
— Ah, cê sabe! Conta pra ela, Naruto! — e ela deu um tapa nas costas do primo, fazendo-o quase cair no chão. Cruzei os braços, para encará-los.
— Hahaha... Então, Sakura... Ah, conta você, Karin. — ele disse.
— Nada disso! Conta você! — ela disse.
— A ideia dessa palhaçada foi sua! Conta VO-CÊ! — e ele disse de novo.
— E quem concordou com isso foi você! — ela repetiu.
— Nada disso, eu nunca disse que concordaria com essa palhaçada! — ele respondeu.
— Mas você também não discordou, ora essa! — ela retrucou.
— Eu disse Ah, NÃO! Não, não, não e não! Disse na-na-ni-na-não! — ele argumentou.
— Você precisa ser mais claro! Achei que estivesse apelando para algum Deus Anão. — ela explicou.
Fiquei zonza com aquele ping-pong, como se os dois jogassem um bolinho de merda de um lado para o outro. Então, para acabar com aquela palhaçada, dei um soco no estômago do Naruto, e um tabefe na cabeça dela ao mesmo tempo, fazendo-os resmungar de dor.
— Se não me contarem agora mesmo o que aconteceu, eu juro que vou arrancar o seu cabelo ruivo, e cortar o seu bilau fora, Naruto!
— Ok, ok, não precisa usar violência aqui! — ela disse, ainda massageando a cabeça — Bom, lembra que eu disse que eu e ele iriamos te emprestar dinheiro para pagar o Sasuke, certo?
— Certo.
— Bom, já tínhamos tudo planejado, havíamos juntado todo o dinheiro, e inclusive ele já estava bem guardado num envelope muito bonito, sobre a minha escrivaninha, lá em casa!
— Ótimo.
— Né? Hahaha. — riu nervosa — Mas então... Continuando a história, — e ela olhou para o Naruto, como se pedisse socorro — Quando saímos da igreja, ligaram para o celular do Suigetsu. Era o segurança do condomínio em que moramos, para avisar que haviam invadido o nosso prédio, e pedia para que ele fosse lá apenas prestar depoimento ao policial que havia sido chamado pela ocorrência do vizinho que havia sido assaltado...
— Claro...
— Né? Hahaha. Mas então, ele foi, e é por isso que não está aqui.
— Naturalmente. — resmunguei entre os dentes.
— E, então, agora a pouco, ele me ligou de volta, dizendo que, chegando lá, disseram para ele que também haviam invadido o nosso apartamento.
— Não! — de repente, senti que estava prestes a enfartar de novo.
— Levaram a televisão, a minha câmera filmográfica, um celular velho, um desodorante e... E o envelope. — e então, ela correu para trás do Naruto, que olhava para a cortina da janela atrás de nós, pensando se conseguiria se esconder alí.
— Me diz que levaram só o envelope, por que acharam ele bonito, e deixaram o dinheiro sobre a escrivaninha! — resmunguei, sentindo minhas pernas bambas, disposta a acreditar em qualquer coisa.
— Bom, eles levaram só o envelope, por que acharam ele bonito, e deixaram o dinheiro sobre a escrivaninha! — Naruto diz.
— Sério? — de repente, não me senti mais tão mal assim.
— Não! Foi você quem pediu para dizer isso, ué!
Outro soco no estômago dele.
E senti como se alguém tivesse me dado um também. Eu não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo! Não iria nem querer ver a cara do Sasuke quando descobrisse isso.
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