Contradições
14 Dramas
Notas iniciais
Contradições
by Amanur
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Capítulo 14
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E o show tinha que continuar. Por mais que você julgue conhecer os seus amigos, eles sempre, sempre, mais cedo ou tarde, te passam a perna. De propósito, ou sem querer. Sempre acontece. Mas vamos encarar a verdade; a verdade é que você nunca vai conhecer alguém. Digo, conhecer realmente quem é aquela pessoa por trás da máscara de cílios e tinta vermelha no cabelo, ou aquele que entope o cabelo com gel para ficar arrepiado por que acha isso sexy, quando parece um palhaço... Ninguém conhece ninguém. Ninguém conhece verdadeiramente ninguém. Ninguém. Nem você mesmo se conhece, por mais que possa gostar de acreditar que sim. Então, talvez, por isso, eu deva perdoá-los.
Ou não.
Atordoada demais para pensar, graças à sucessão dos eventos esdrúxulos em minha vida, fui correndo até o primeiro garçom que vi passar para pegar uma bebida, sem nem conseguir recordar se já havia bebido antes ou não. Sei que é um negócio tremendamente clichê sair para beber quando algo não está indo muito bem, conforme os planos, mas no momento era a única coisa que eu tinha em mãos para me fazer relaxar. Apesar da insistência inútil do Naruto, é claro.
— Ok, eu sei que a culpa é nossa. Mais precisamente da Karin, na verdade... — ele disse, assim que a ruiva nos deu as costas para ir ao banheiro arrumar o cabelo que eu havia bagunçado — Mas você está tensa demais, Sakura. Relaxa, é o seu casamento. Se quiser, posso fazer uma massagem em você.
— Sabe o que eu realmente quero agora? O dinheiro que vocês me prometeram! — retruquei, indignada.
— Fiz um curso de massagista, uns anos atrás. Acredite se quiser. — ele continuou, me ignorando — Minhas mãos são mágicas.
Eu até cogitei, sabe?
— Não. — lhe disse — Sabe o que seria realmente mágico? Se você conseguisse fazer aparecer aquelas dez mil pratas na minha frente, e agora, Naruto!
— Olha, posso massagear as suas costas, os seus ombros, os seus pés, a sua nuca, a sua barriga, os seus peitos, a sua bunda... O que você quiser!
— Não!
— Ah, qual é?! Posso te deixar bem relaxada!
Seria relaxamento meu se o deixasse aquela mula me tocar, isso sim. Foi então que saí correndo atrás de um garçom, antes que aquele casamento horrível se tornasse ainda mais trágico, encerrando aquela festa com um homicídio. Por que, eu juro, estava prestes a esgoelar um dos dois.
Bebi três taças de uma só vez, como se estivesse bebendo leite com Nescau, rezando para conseguir ficar bêbada até apagar da memória esse acidente com o dinheiro e, quem sabe, o casamento também. Justo quando eu pensava que as coisas não poderiam ficar piores. É sempre assim. É quando justamente ficam piores!
Então, só por garantia, roubei uma garrafa da bandeja do garçom seguinte que passou por mim. Só por garantia. Por que justamente, naquele momento, vi o Itachi se aproximar, sorridente.
— Posso tirá-la para dançar?
— Claro. — dei de ombros, tentando parecer casual.
Na verdade, eu era um zero à esquerda em danças, do tipo que pisava no pé do outro, e mal sabia onde colocar as mãos. Mas com o Itachi essa parte seria diferente, já que eu já havia metido a minha mão em praticamente todas as partes do seu corpo.
E não que eu tivesse algum problema em tocá-lo mais um pouco, mas a verdade é que só aceitei aquele convite por que queria me aproveitar da situação.
Fomos para o meio do salão, onde mais alguns casais de velhinhos também dançavam — convidados do senhor e senhora Uchiha.
— Entediado? — perguntei, como quem não quer nada, jogando meus braços em volta do seu pescoço. Fazia um tempinho que não ficava tão perto dele, e já estava me esquecendo do quanto eu adorava aquele perfume doce demais que ele usava.
— Convenhamos, não há como se entediar tendo uma mãe como a minha conversando com outra mãe, como a sua. — ele tentou sorrir, mas parecia nervoso.
— Hahaha. — forcei a risada — É verdade. Peço desculpas pela minha mãe.
— Eu é quem peço desculpas. É o seu casamento, e ela fica armando barracos. Tão deselegante! — ele resmungou, olhando para os nossos pés.
Eu pisava nele, naqueles passinhos para lá e para cá como se um estivesse tentando passar pelo outro (eu estava quase certa de que era assim que se dançava!), e tenho certeza de que ele pensava que eu era igualmente deselegante por não saber dançar. Mas eu não me importei com isso.
— Então... — olhei para os lados, como se procurasse alguém — Pena que o filho do Sasuke não veio, né? — disse, como quem não quer nada.
— Mas o Sasuke não tem filhos! Não que eu saiba.
— Ah, é?
Ele até se afastou um pouco de mim para me encarar melhor. E franziu o cenho, me olhando com uma sobrancelha erguida, desconfiado.
— Você está sabendo de alguma coisa que eu não sei? — perguntou.
— Não... Por que, você está?
— Sakuraaaa... — disse, em tom de advertência, me deixando meio desconfortável (para não dizer que eu estava louca para soltar o babado, dando uma de Karin! Bom, eu estava bêbada, e era o dia do meu casamento...).
— Bom... Não diga que fui eu quem te disse isso, ok? Mas um passarinho amarelo, chamado “a-mocréia-da-ex”, talvez, quem sabe, pode ter me contado alguma coisa sobre um filho morto... — dei de ombros — Foi o que o passarinho me disse.
Ele parou no meio da pista, me olhando de boca aberta, enquanto eu me arrependia de ter aberto a minha! Juro que fiquei arrependida.
Ele agarrou minha mão e foi me arrastando para o outro lado do salão, marchando (feito um soldadinho, pisando fundo e fazendo careta brava) em direção ao Sasuke, que parecia infeliz, bebendo álcool num gole atrás do outro em frente ao bar do salão. Mas o cretino não estava sozinho! A mesma morena peituda que estava antes com o Naruto, tentava passar charme em cima dele, espremendo seus melões gigantescos, cruzando os braços sobre as pernas, para chamar a atenção do Sasuke. Ela sorria de um jeito todo meloso, e tocava o braço dele.
— Quem é aquelazinha ali? — indaguei. Não que eu estivesse com ciúmes, ou qualquer coisa parecida. É claro que não. Apenas não gosto do tipinho dela. E isso também não é inveja! Não! Não mesmo! Claro que não! É simplesmente uma questão de bom senso e princípios. Como na cadeia alimentícia, os mais fortes ficam no topo, e eu tinha que obter aquele posto, naquele altar por que eu ainda tinha algum orgulho nesse corpo podre.
E o Itachi me olhou de canto, como se estivesse entediado.
— A Hinata? É filha da amiga da minha mãe. Uma vadiazinha solteirona, sem valor algum, se me pergunte, que gosta de dar em cima de homens casados. Vê se pode, ficar dando em cima de homens casados?!
— Hum. Que coisa, não? Essa gente que gosta de dar em cima de gente comprometida! Tsc- tsc. — resmunguei.
— Sem sarcasmos, Sakura. Falo sério! A mulher precisa se dar mais o valor! E não é a primeira vez que ela tenta se esfregar nele...
Ao alcançá-lo, além de sentirmos aquele odor típico de bêbados saindo da pele do meu marido (há!), Itachi também agarrou o seu punho e foi nos arrastando para fora do salão, sem se importar com os protestos da morena.
— Com licença, Itachi! Estamos conversandooo! — ela dizia.
— Não querida, você estava apenas vomitando asneiras nos ouvidos dele. Mas eu tenho algo importante a tratar com ele, caso não se importe. E mesmo que se importe, eu não me importo com o que você se importa. — Itachi disse, enquanto nos afastávamos.
Eu ainda olhei para ela que, só não estava mais despeitada por causa dos peitões, batia com as unhas no balcão do bar, impaciente. E mostrei meu dedo do meio para ela, só por que tive vontade.
Do lado de fora, um senhor fumava um charuto, mas assim que nos viu se afastou fazendo careta. Eu não sabia se era pelo estado do Sasuke, ou se por que não ia com a minha cara. De qualquer forma, o Sasuke tropeçava nos próprios pés, nos meus e nos dos Itachi também, enquanto resmungava um monte de palavras indecifráveis.
— VOCÊ TEVE UM FILHO? — Itachi esbravejou, o jogando contra a parede. Literalmente. O Sasuke bateu a cabeça, e tudo!
— Hãn? — resmungou, massageando a cabeça e estreitando os olhos como se tentasse se focar no rosto do irmão que, devo salientar, estava bem à sua frente.
— Preste atenção, Sasuke, pois vou repetir isso apenas uma vez: VOCÊ-TEVE-UM-FILHO?
Sasuke colocou as mãos na cintura, contraindo as sobrancelhas fingindo ficar sério, quando estava morrendo de vontade de rir na cara do irmão mais velho. E, aí, aos poucos, o idiota foi deslizando pela parede, para o lado, em câmera lenta, até cair na grama feito patê. E soltou a risada desnecessariamente alta, chamando a atenção até de quem estava dentro do salão, sem cerimônia alguma.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!
Então, Itachi olhou para o céu estrelado, como se pedisse que uma luz divina o banhasse.
Ou talvez pedisse para que um raio partisse o irmão retardado.
Depois de um suspiro, seguido por outro, Itachi o ergueu do chão. Ele se controlava para não socar a cara do irmão, por que dava para ver como os nós dos dedos ficaram esbranquiçados, quando ele agarrou os braços do Sasuke, de tanta força que fazia para se conter, descontando tudo naquela pegada firme.
— Por que você ficou tão interessado em mim, assim, de repente? — Sasuke indagou, assim que conseguiu se recompor do acesso de risadas.
— E você ainda pergunta o motivo? Aposto que a mãe e o pai não estão sabendo disso! Tem noção do quanto ela me atormenta para me casar, só para lhe dar um neto?
— E você quer que ela me atormente agora?
— E eu pensando que você não seria capaz de ter filhos! — Itachi ignorou totalmente o comentário do outro.
— Hein?! Mas e porque você pensaria isso? Sou perfeita mente fértil! Diga a ele, Sakura. Ah, não... Você não tem parâmetros para isso... — murmurou, cheio de azedume e mau humor. E eu tive vontade de morder o imbecil.
— O quê? — Itachi indagou, me encarando. De repente, eu virei o centro da atenção do Itachi, e engoli a seco.
— O quê? — eu indaguei de volta.
— Como assim, você não é parâmetro? O que ele quer dizer com isso?
— Eu não sei. Como assim, eu não sou parâmetro, Sasuke?
— Ahh... Você sabe... Você... — ele ficou branco como papel — Você... Você só queria fazer aquilo depois do casamento, não é mesmo? Por que é uma menina pura, imaculada, intocada...
— INTOCADA? — Itachi parecia chocado — Co-como uma virgem?
— Ele quis dizer “Iluminada”. — disse eu, beliscando, discretamente, o braço do idiota. Mas acho que ele já estava tão bêbado que não sentia mais dor alguma — Iluminada como a virgem. Ele me acha iluminada como a virgem, e por isso só queria me tocar depois do casamento. Foi isso o que ele quis dizer. Não é, querido?
— Ah, sim, iluminada, intocada, imaculada, indesejada, furada, rasgada, usada, arregaçada... Tanto faz! — ele tomou a garrafa que eu ainda tinha em mãos (sim, não me desgrudei dela nem para dançar com o Itachi) bebendo do próprio gargalo.
Itachi ainda nos olhava, meio confuso, meio desconfiado, e dei de ombros, resmungando algo como: “Bêbados! Não se deve contrariar bêbados!”. E ele concordou, não muito convencido.
— Seja como for, você ainda não respondeu a minha pergunta, Sasuke. — o cabeludo insistiu — Afinal de contas, você teve ou não teve um filho?
— E eu achei que você tivesse dito que não repetiria mais isso. — Sasuke até soluçou, enquanto secava a minha garrafa, meio amargurado.
— Responda logo de uma vez, Sasuke! — eu disse, impaciente. Nem eu estava mais aguentando aquele suspense.
— E o quê você tem a ver com isso? — ele me olhou torto, como se eu não passasse de uma barata, e me contive para não pisar no seu pé sem querer querendo. Ou, quem sabe, pisar em mim.
— Bom, eu sou a sua esposa agora, acho que tenho o direito de saber sobre isso. — arrisquei, torcendo para que ele não dissesse mais nenhuma gracinha sem noção de bêbado.
Mas o pior era pensar que eu teria que carregar aquele trambolho para casa, quando eu é quem deveria ser carregada — afinal, eu também estava bêbada. E ainda por cima, ele ficou me olhando, como se me desafiasse (algo como “Nãaao, você não disse o que penso que disse!” Mas eu disse), até que soltou uma risadinha insinuante.
— Bom, querida esposa, para efeito de causa, eu não tenho, e nem nunca tive filhos! — finalmente desembuchou.
— Mas então por que a sua ex disse que você matou o filho de vocês? — indaguei.
— VOCÊ MATOU UM INOCENTE? — de repente, o cabeludo estava pasmo — Eu preciso contar isso para minha mãe! — assim, ele foi nos dando as costas, mas o Sasuke o agarrou pelo seu rabo-de-cavalo.
— Espere aí, garotinha. — e então, ele olhou para mim — Ela disse o quê? Ahhh... — de repente, ele se lembrou de algo, e revirou os olhos — Argh! A idiota da Ino é que é a infértil da história! E a retardada mental. O que aconteceu foi que, uma vez, combinamos de que teríamos um filho por inseminação artificial, numa barriga de aluguel, já que ela não podia engravidar.
— Com apenas um ano de casados? — perguntei, cruzando os braços.
— Bom, vocês sabem, somos jovens e inconsequentes.
— Você não é tão jovem assim, Sasuke. — seu irmão disse — Mas inconseqüente, eu acredito que seja mesmo!
— Como eu ia dizendo, então, vocês sabem... Tive que bater punheta num potinho... Mas quando chegamos a clinica para entregar o pote com o meu produto, para fazerem o procedimento, é claro, sem querer, eu o derrubei, e ele não estava bem fechado...
— Você derramou o seu sêmen no chão de uma clínica? — Itachi cruzou os braços — Me diga que a Ino tirou uma foto disso, por favor.
— Há-há. Muito engraçadinho. — Sasuke revirou os olhos — A Ino ficou muito puta comigo. Por muito pouco, não acordei no dia seguinte sem cabelo.
— Então foi assim que você matou o seu filho? — eu perguntei. Era difícil acreditar naquela história.
— É isso aí. Cerca de seiscentos milhões de espermatozóides de uma punhetinha só foram cruelmente assassinados, jogados no chão.
— No chão da clínica! — Itachi complementou. Ele não estava com o menor traço de quem poderia estar querendo rir, mas dava para perceber que ele estava se divertindo com aquela história.
— Satisfeitos? — Sasuke indagou, jogando a minha garrafa, agora vazia, no chão do gramado a nossa frente.
— Bom, não vou mentir. Não faço questão alguma de ter crianças perto de mim. Mas eu me pergunto se um filho teu teria essa cara de “Urtiga”. — Itachi disse, e ainda me lançou um olharzinho que parecia ser de cumplicidade, que, sinceramente, não compreendi.
— Você sabe que você também é um “Urtiga”, não sabe? — Sasuke indagou.
Observei o Itachi encarar o irmão como se não entendesse mais nada. Aí, veio aquela expressão de esclarecimento, de quem diz “Ahhh”. A luz do fim do túnel apareceu. E então, fechou a cara, me olhou com ódio, e nos deu as costas voltando para dentro do salão. Acho que ele também já havia bebido a sua dose de álcool.
Eu não ia nem me dar ao trabalho de me importar com isso, por que eu estava cansada, meio bêbada, frustrada, e com desejos assassinos.
Então, eu apenas fiquei ali, parada. O lado de fora parecia muito melhor do que dentro do salão. O ar estava fresco, muito mais agradável, e soprava suavemente sobre o meu rosto. Fazia esvoaçar o vestido bonito que eu vestia. O céu também parecia muito bonito, todo estrelado, de lua cheia. E para completar o cenário romântico cheio de clichês de filmes americanos, Sasuke vomitava as tripas.
— Você bebeu tanto assim, no seu primeiro casamento também? — perguntei.
— Noup. Esse privilégio, guardei para você, querida.
— Bom, obrigada pelo vômito.
— Não há de quê. O que está fazendo aqui? Não deveria estar lá dentro, dançando com o Itachi?
— Ah... Você viu aquilo, foi?
— Mais um pouco, e você ficaria agualzinha àquela moça do “Dirty Dacing — Ritmo quente”. — e isso foi obviamente uma ironia.
— Não gosto de dançar. — dei de ombros.
— Que coisa. Não gosta de dançar, mas estava lá com o Itachi. Mas você não gosta de muitas coisas, não é? Não gosta de surpresas, não gosta que arrumem o seu chiqueiro, não gosta de receber flores, não gosta de que lhe façam algum agrado... Do quê mais você não gosta?
— Não gosto desse seu tom também, por exemplo!
— Mas que surpresa!
— Por que está me atacando? Eu não fiz nada... Que você saiba, pelo menos. — pigarreei.
— Ah, me desculpe, senhorita Haruno. Ou melhor dizendo, senhora “Urtiga”! — disse, num tom teatral, fazendo mais draminha do que o necessário — Mas você tem toooooda a razão. Esse deveria ser o dia mais feliz da minha vida, não é mesmo? Estou me casando por dinheiro! Por que deveria estar tão amargurado, não é?
— Exatamente! Pense em quantas pessoas não gostariam de ganhar tanto dinheiro apenas para dizer um “sim, eu aceito”!
Aquilo me parecia tão simples, tão lógico, tão natural, que realmente não entendi o porquê da cara pasma dele. Como se não acreditasse que eu estivesse ali. Ele estava praticamente de queixo caído, me olhando com aquela cara embasbacada, e a expressão era tão forte que até me forcei a voltar a fita no que disse, para ter certeza de que não havia dito nenhuma asneira de outro mundo. Ou, talvez, eu tivesse falado em outra língua sem perceber.
— O que foi? — fui obrigada a lhe perguntar.
— Bom, Sakura, eu não sei quanto a você, mas para mim, casamento não é apenas um simples “sim, eu aceito”. Casamento deveria ser a união de duas pessoas que realmente se gostam e querem passar o resto de suas vidas juntos. Casamento é superar as diferenças que essas duas pessoas possuem, e seguir em frente por que se amam. O casamento é a união espiritual, física e emocional de duas pessoas. O casamento faz de duas pessoas uma só. Casamento é um pacto. O casamento vem do amor, assim como o vinagre do vinho, sem um, não há o outro. Casamento não deveria vir com data marcada para o divorcio! Deveria acontecer espontaneamente, sem a gente nem perceber(*)...
Ouvi tudo aquilo com paciência. Até mesmo me pus a refletir sobre aquela baboseira por alguns segundos. Mas, então, percebi que ele estava sendo contraditório demais.
— Se você acredita nisso tudo mesmo, então por que aceitou a minha proposta, seu panaca?
— Bom, eu me arrependi, ok?!
— Está meio tarde para arrependimentos, não acha?
— Nunca é tarde demais para nada!
E então, ele soluçou, e vomitou mais um pouco na grama.
— Sabe o que eu acho? Eu acho que isso tudo não passa de lorota de bêbado. E acho que está na hora de encerrarmos a noite. — então, me aproximei dele e o peguei pelo braço, por que ele parecia estar com dificuldades para se equilibrar. Joguei o braço em volta do meu pescoço e, embora ele resmungasse, fui conduzindo-o de volta para dentro do salão como se conduzisse uma criança doente. Por que era exatamente como ele se comportava, choramingando de dor de cabeça, dor no estomago e tonturas.
Bêbados. E quem cuidaria de mim? Eu também me sentia tonta, e como se levasse marteladas na cabeça. Principalmente ao passar pelo Naruto (que tentava outra vez passar conversa fiada para a peituda que nem olhava para ele), e me lembrar que o dinheiro havia evaporado.
E como se não fosse pouco, enquanto passávamos discretamente entre as mesas, ainda pude ouvir a senhora Uchiha ainda discutir com a minha mãe.
—... E a senhora sequer pagou um tostão furado pelo casamento da própria filha! — ela dizia para minha mãe — Mas que pouca vergonha mesmo!
— Mas o que esperava? Fiquei sabendo do casamento dois dias antes! Não tive como me preparar para isso. Me desculpe por não ter nascido num berço de ouro, com tudo pronto nas minhas mãos, e por não ter dinheiro sobrando nos bolsos!
— Hahaha! Adoro quando as pessoas fazem suposições sobre a vida dos outros, como se soubessem de tudo. Eu batalhei muito para chegar onde estou, a propósito. Tsc. Não é a toa que a menina seja destrambelhada daquele jeito mesmo!
O engraçado é que não me senti contente pela discussão das duas. Quero dizer, ver a senhora Uchiha dando todos os créditos à minha mãe pela minha pessoa, como se eu não tivesse culpa de nada. Um pouco de reconhecimento pelo meu trabalho também seria bom. Por que, na verdade, eu batalhei bastante também para construir minha personalidade, e ser essa pessoa incrível e admirável. Afinal, aquele povo todo me olhava, não olhava?
Mas como Sasuke ameaçava vomitar nos meus pés, não pude ficar para aquela deliciosa conversa. Tive que me apressar, peguei a minha bolsa sobre uma das mesas, e fomos até a rua chamar um taxi, por que a Karin já havia evaporado (provavelmente para baixo da asa do seu marido), e o Naruto não passava de uma minhoca, tentando se acasalar com a morena peituda. Mas antes, ainda afanei mais uma garrafa de bebida para mim, ao passar por um garçom com uma linda bandeja, por que eu precisava e tinha o mesmo direito de passar mal de tão bêbada, também!
E para completar o meu sufoco, Sasuke resolveu ficar tagarela dentro do taxi, para choramingar todas as suas frustrações, desilusões amorosas, mágoas e qualquer porcaria que aparecesse na aquela mente bêbada.
— Mal posso esperar pela nossa lua de mel, querida. — o idiota murmurou, assim que o chutei pela bunda para entrar no taxi.
Bebi um golão da minha bebida.
— Se eu comprar um pão de mel, você se contenta? — perguntei, só de sacanagem mesmo.
— Na minha primeira lua de mel, ficamos numa cabana, num hotel fazenda. O lugar é muito bonito, cheio de grama para todos os lados. Eu gosto de gramas.
— Então, quem sabe, eu te ponho pra pastar em algum lugar.
— O cheirinho de terra molhadinha, quando chove...
— Que meigo. Pastando com as vacas, você ainda aprecia o cheirinho de merda molhadinha também.
— Mas a vaca da Ino tinha que cagar tudo. Ela foi a culpada pelo nosso divórcio sabia, seu motorista? — coitado, até o motorista foi envolvido na conversa — Por que toda mulher tem que ser uma víbora, uma cobra cascavel? Eu me afastei só por uma semana para trabalhar, e quando volto, sabe o que encontro? A vaca trepando com outro. Ela não conseguia conter a perereca por uma semana?!
— Ela é uma mulher com necessidades! — ironizei.
— Tsc! Necessidades? Quando eu tenho necessidades, vou ao banheiro!
O motorista acelerou. E eu bebi metade da garrafa (eu tentei, por que o motorista andava tão alucinado pelas ruas, que as vezes eu derramava um pouco do liquido naquela vestido maravilhoso que a mãe do Sasuke havia me dado), enquanto o idiota não parava de falar.
— Qual é o problema com as mulheres, seu motorista? Por que elas não simplesmente dizem o que pensam, ao invés de querer que nós, homens, adivinhamos o que elas querem de nós? Custava tanto assim para ela me dizer que algo não estava dando certo? Poderíamos ter feito algo para salvar o casamento. Poderíamos ter feito algo para que desse tudo certo! Mas não, nem mesmo eu dizendo a ela que a perdoaria por aquele deslize, nem mesmo mostrando a ela que o que tínhamos era mais importante do que um erro. Nada foi suficiente, por que a desgraçada tinha que continuar trepando em outros, como um macaca numa árvore! Poderíamos ter feito tanta coisa. Poderíamos... Eu poderia ter matado o Itachi, isso sim!
— Itachi? O que ele tem a ver com isso?
— Tsc! Como se você não soubesse do passatempo daquela infeliz! Quem você acha que estava na cama com a minha mulher?
— Ex... — o lembrei.
— Que seja. Isso não importa mais. Nada importa mais. Acho que vou pular de uma ponte...
O taxista, finalmente, chegou ao destino. Paguei o moço, lhe dando mais gorjeta do que merecia, por que dirigia mal. Ou talvez por que eu não estava conseguindo enxergar direito as notas, por que tudo aparecia em dobro na minha frente.
Então, fomos nós dois, um se apoiando no outro, pelas escadas até o meu apartamento.
— Tsc. Pelo menos, você se livrou daquela mocreia. Mas se você ama tanto assim aquela vaca, por que se separou dela?
— Eu não amo ela. Só estou dizendo que... Antes eu tinha alguém, e agora não tenho ninguém.
— Não é tão ruim assim não ter ninguém.
— Hahaha. Por favor... Você me dizendo isso?
— Qual é o problema?
— Tsc. Tá certo. É tão bom ficar sozinho que você abre as pernas para o primeiro que aparece lhe dando sopa!
— Ei, isso não é verdade!
— Então vou acender uma vela, e rezar por você, se me disser que realmente ama o Itachi.
Não sei por que, mas não gostei nem um pouco daquilo. Fiquei com raiva daquela sua presunção, e o empurrei para o lado. Como ele ousa me contrariar dessa forma? Se eu dizia uma coisa, é por que era aquela coisa! Como ele ousa a apontar o dedo para mim, e me acusar de alguma coisa? E daí que eu fosse sozinha, ou o escambal? E daí, que eu abrisse as pernas para o primeiro que me desse bola? As pernas eram minhas!
Eu queria que ele tivesse rolado escada baixa, mas isso não aconteceu por que já havíamos subido todos os degraus, de modo que ele apenas caiu de bunda na frente do meu apartamento, resmungando mais ainda.
— VAI SE FODER, SAKURA HARUNO! — ele berrou, fazendo eco por todo o andar, para todos os vizinhos nos ouvirem.
— Pode deixar, que eu me fodo bem gostoso, tá?
— Vadia! — protestou, enquanto se levantava.
— Filho da puta! — respondi, me apressando para pegar as chaves.
— Cadela!
— Corno!
— Biscate!
— Otário!
Eu não conseguia! As chaves pareciam fugir da minha mão toda vez que eu achava que iria alcançá-las, e minha visão, de repente, ficou embaçada e parecia que estava chovendo em minhas mãos.
— Merda! Merda! Merda! — praguejei. Tive que jogar tudo o que havia dentro da bolsa no chão para pegar a chave e tentar enfiá-la na fechadura.
— Tapada!
— Cala a boca, Sasuke!
— Vem me calar, vem!
Então, num acesso de fúria, frustração, ódio, ressentimentos, mágoas e mais um monte de sentimentos imprestáveis, que só servem para fazer o indivíduo perder a cabeça e a noção das coisas, chutei minhas coisas no chão, o imprensei contra a parede e o beijei.
É, eu beijei ele.
Eu o beijei por mim mesma. Quero dizer, não por que ele fosse irresistível, ou por que eu morresse secretamente de amores por ele. Pelo contrário. O beijei porque precisava provar algo a mim mesma. Precisava me certificar de que eu ainda tinha controle sobre alguma coisa na minha vida, e que nada daquilo que ele dissera tinha algum sentido. Por que uma pessoa pode ser feliz sem outra... Por que eu não estava sozinha por falta de opção, ou por que havia algum problema comigo, mas por que tudo foi apenas opção minha. Por que eu era uma adulta, e não tinha necessidade de me relacionar com alguém, só por que é bonitinho dizer para os outros que tinha um namorado, ou por que achava meigo andar de mãos dadas com outra pessoa. Eu não o beijei por que era contraditória!
E ele retribuiu o beijo. Meio assustado, surpreso, mas retribuiu. E não de um jeito a contragosto, ou por que não conseguia me jogar para o outro lado do corredor, por que ele poderia muito bem ter feito isso, sim.
Então, quando me afastei dele, eu não sabia o que dizer, nem o que pensar, nem o que fazer. Ficamos durante uns bons e longos minutos naquele silêncio mortal, olhando um para outro.
E a iniciativa foi dele, de pegar minhas coisas do chão, enfiar a chave na fechadura, e abrir a porta, tudo sem dizer nada.
E no mesmo instante em que pisamos no meu apartamento, como foguetes, eu fui para o meu quarto, com dores nos pés, nos ombros, e na cabeça (sobretudo, na cabeça), enquanto o Sasuke corria para o banheiro (e não quero nem pensar no que ele foi fazer!).
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