Contradições
8 Mocreia
Notas iniciais
Contradições
by Amanur
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Capítulo 8
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Tem gente que reclama da rotina, resmungando sobre o cansaço e o tédio de se passar pela mesma coisa todo santo dia. Apesar de não ver sentido em muitas coisas, de certa forma, eu até gostava da vida que levava. De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Durante a semana, a coisa não mudava muito, mas nas sextas feiras eu sempre fazia faxina depois do serviço, para poder ter o fim de semana livre para fazer outras coisas. Como zanzar por um shopping center e encher os bolso dos capitalistas exploradores, para correr numa praça e encher o fluxo de pessoas nas ruas, ou simplesmente mofar em casa vendo um filme e comendo pipoca. E isso é meio que herança de família, por que minha mãe fazia a mesma coisa. Minha avó também.
Mas tem algo de libertador e viciante nas corridas que particularmente eu gostava ainda mais. Quando eu era pequena, costumava a correr como se estivesse fugindo de alguém. E fingia ser a mais rápida de todos os que não estavam atrás de mim. Eu fingia que corria como o papa-léguas, que praticamente flutuava no ar. E correr me fazia me sentir viva, revigorada e de alguma forma estupida, vitoriosa. Agora, no entanto, eu corria como uma velha, que deixa pedacinhos do seu pulmão por onde passa, mas com a mesma paixão por corridas de antigamente. Eu corria, não por que eu queria manter o corpo em forma, ou cuidar da saúde, mas simplesmente por que queria sair de casa e sentir meu coração batendo com força contra o peito, numa confirmação de que estou viva. De que apesar de toda a lama em que vivia metida, um coração ainda batia ali dentro.
Então, na manhã de Domingo, lá estava eu com um shortinho, tênis nos pés e um top preto, correndo com os fones de ouvido. Naquela manhã, em particular, eu me sentia inquieta, apreensiva com alguma coisa que eu não sabia dizer.
Passei pela praça do meu bairro, pelo mercado, pelo centro clínico, passei pelas agências de banco, pelo centro comercial, e fiz tudo de novo passando pelos próximos dois bairros seguintes, bastante satisfeita com o meu fôlego, até passar pelo Sasuke, que parecia estar fazendo a mesma coisa, do outro lado da rua. De bermuda e tênis, sem camisa, ele suava um rio pela cabeça. E ele não me viu, mas parei no caminho para observá-lo.
E eis que para minha estranha surpresa, um pensamento ainda mais estranho me ocorreu: eu estou noiva daquele cara. Eu e aquele cara tínhamos um elo. Aquele idiota que fez o discurso de noivado mais idiota da história da humanidade. Mas, por algum motivo, eu duvidava de que seu primeiro noivado tivesse sido assim, tão patético... E eu ainda tinha aquela ridícula aliança de arame no dedo, que já começava a coçar.
Minhas perspectivas de vida nunca foram das maiores, das mais ambiciosas. Larguei a faculdade de administração que fazia por que não era o que eu queria fazer com a minha vida, e fui quase enxotada para fora de casa pelos meus pais se eu não, ao menos, arrumasse um trabalho. E foi o que aconteceu. Consegui aquele emprego, e acabei saindo de lá do mesmo jeito, vindo para cá. Mas esse também não era o emprego dos sonhos de ninguém. Eu não ganhava o suficiente para manter uma família, e muito menos me sentia feliz naquilo. Não que eu estivesse reclamando de alguma coisa. Empurrar a vida com a barriga me parecia o suficiente para sobreviver. Embora eu não soubesse ainda por que eu queria sobreviver.
Medo da morte? Realmente não. Até preferiria que me levassem de uma vez.
No entanto, lá estava eu correndo atrás daquele cara, seguindo ele como uma sombra, como uma espiã, ou um detetive, como se fosse a única coisa a ser feita. E realmente era. Quero dizer, eu não tinha mais nada para fazer naquele domingo...
Ele dobrou uma esquina, depois outra, e mais outra e outra, até eu me dar conta de que estávamos dando voltas na mesma quadra. Aquela região ficava a dois bairros de distância do meu, era uma região residencial, cheia de casas e prédios. Era uma das regiões nobres da cidade, na verdade.
Ficamos dando voltas e mais voltas, e eu já não aguentava mais as minhas pernas, por que ele corria num ritmo muito mais rápido do que o meu. Ele chegava a ficar a alguns bons metros a minha frente, até que quando fui virar uma esquina, esbarrei com o idiota que resolveu voltar pelo caminho inverso que fazíamos.
Pelo choque nós dois caímos de bunda no chão.
— Mas que merda! — resmungou — De novo? — indagou, surpreso me acusando — O que diabos você está fazendo aqui? Me seguindo?
Tirei os fones de ouvido.
— O que disse?
Ele revirou os olhos.
— Me seguindooo?
— Não estou te seguindo! Eu só... Queria ver até onde você ia... — dei de ombros.
— Ou seja, você estava me seguindo. Por que você está me seguindo?
— Seguir é uma coisa, curiosidade é outra bem diferente!
— Você está se contradizendo!
— Não estou não.
— Que seja, eu não tenho tempo a perder com você! — ele resmunga, se levantando. Quando apoiou a mão no chão para se erguer, vi que ele também estava com a aliança de arame no dedo.
No entanto, quando fui abrir a boca para dizer qualquer coisa (por que eu precisava ter a palavra final em qualquer discussão, mesmo que eu não me importasse com aquilo tudo, mas era uma necessidade nata), uma loira esbarrou nele, fazendo-o cair de volta no chão e praguejar mais um monte de palavrões divertidos.
— Filha da puta, caralho voador! Mas que cacete, por que essas merdas só acontecem comigo, porra?!
Ela tinha aquele jeito de patricinha que nasceu em berço do ouro, com sapatinhos caros, de salto alto, uma saia discretamente comportada (pois era tão apertada na traseira, mostrando a marca do fio dental, que não dava para dizer que era tão comportada assim) e uma blusa com um decote razoável. Além do rosto de boneca e a pele levemente bronzeada de Barbie Praia, tinha os cabelos impecavelmente bem penteados, sem um fio de frizz sequer, e pareciam fios de ouro sobre os ombros. Aí, a loira o olhou de cima a baixo, com um ar cheio de presunção e superioridade, e sorriu.
— Você continua aí, no mesmo lugar de sempre, Sasuke, rastejando no chão como um verme?! — ela disse.
— E você continua com a mesma patada estúpida e grossa de vaca, como sempre. O que está fazendo aqui, Ino? — ele indagou.
— Como assim, o que estou fazendo aqui? Esqueceu que eu viria aqui, para pegar a papelada da nossa casa? — ela respondeu, colocando as mãos na cintura. E então, ela finalmente me notou ali, e olhou para mim com a mesma cara de nojo que havia olhado para ele — Quem é essa? Sua empregada?
Estreitei meus olhos. Eu ia mandar ela tomar bem no olho do rabo da vaca da mãe dela, e ainda rogaria praga para que ela passasse o resto da vida vomitando e engolindo tudo de volta, como vacas fazem, e só por que ela me olhou daquele jeito, como se fosse melhor do que empregadas domésticas, mas o Sasuke se meteu na frente, me ajudando a levantar do chão.
— Na verdade, Ino, esta é a minha noiva! — ele diz, e eu olhei espantada para ele, não querendo que me envolvesse em seus problemas (ignorando o fato de que eu o envolvi nos meus primeiro) — Sei que você não tem o costume de ficar em filas, por que gosta de furar elas, mas para as pessoas de boa índole, a fila anda, sim.
— Noiva? — ela repetiu, surpresa e indignada — Noiva??? Você nem assinou o divórcio ainda, filho da puta, e já está noivo?
— Como eu disse, a fila anda. — e deu de ombros.
— Você é inacreditável.
— Minha mãe também me acha lindo. — o idiota disse, sorridente.
Ela revirou os olhos, e deu as costas. Foi rebolando para dentro da casa branca de dois andares que ficava na esquina, bem em frente onde havíamos caído de bunda. A casa tinha uma placa de “vende-se” na frente, e era cercada por um portão baixo, de madeira, com um jardim bacana, de grama bem aparada e verdinha.
— Essa é sua ex-esposa? — indaguei, sem querer acreditar que ele fosse aquele tipo de homem que se atraía por mulheres como ela.
— Não, ela é minha avó! O que acha? — ele respondeu, chutando o portão de madeira.
Revirei os olhos, mas fui atrás.
O interior da casa parecia maior ainda, mas estava pouco mobiliada. A sala estava praticamente vazia, havia somente uma poltrona e uma pequena mesa de centro. A loira, é claro, já estava bem sentada na poltrona, de pernas cruzadas, mexendo na bolsa enorme que tinha. Tirou alguns papéis que jogou sobre a mesa, e olhou para o Sasuke.
— Aqui estão as cópias que você me pediu. Falta você me entregar as que te pedi. Meu advogado está fazendo de tudo para acelerar o processo, Sasuke, mas você é quem está atrasando tudo.
— Não se preocupe, Yamanaka, eu quero me livrar de você tanto quanto você de mim. — ele disse.
— Eu duvido, querido.
— Eu não me importo com o que você duvida ou não.
E então, ele deu as costas, subindo as escadas, enquanto eu e ela nos encarávamos. Para mim, ela não passava de uma mosca barulhenta, que gosta de chamar atenção, daquele tipo, “ei, olhe para mim, estou aqui te azucrinando só por que não tenho mais o que fazer”. Já, ela, deveria estar fazendo uma baita analise crítica da minha pessoa, me olhando de cabo a rabo, sem deixar nenhum detalhe, nenhuma pinta do meu corpo, para poder falar mal como se aquilo fosse me afetar. Por que, sinceramente, eu não ligava para essas bobagens de boa forma, de saúde, beleza ou o diabo a quatro. E tinha plena consciência de que estava um pouco acima do meu peso, mas isso nunca me incomodou, e nem aos namorados que tive. Nada do que dissesse sobre mim me afetaria. Nadinha. Nadica de nada! Não mesmo!
Então, Sasuke voltou descendo as escadas com uma pasta nas mãos, e uma toalha sobre os ombros. E só então foi que reparei em seu tipo físico, tão belo e bem trabalhado quanto o do irmão, com o pacote de seis quadradinhos no abdômen incluso, me levando a conclusão que a genética é uma vadia sacana.
— Mas que decadência, hein, Sasuke. — ela murmurou, ainda me olhando. E pegou a pasta nas mãos dele, na verdade, ela tomou da mão dele, e sorriu — Se você fez tudo direitinho conforme eu lhe instruí pela milésima vez, meu advogado conseguirá agilizar o processo, e o divorcio finalmente sairá até o final do mês.
— Finalmente. — ele concordou.
— Finalmente. — ela repetiu, se levantando.
Ela só faltou me atropelar ao passar por mim, para ir embora. E ainda bateu a porta com força.
— Vaca! — ele esbravejou.
— Bruaca! — concordei.
— Vadia!
— Mocréia!
— Filha da puta!
— Cadela!
E então, ele me olhou.
— Pelo menos, concordamos com isso.
— O que você viu nela?
— Ela é bonita, e engana muito bem à primeira vista. — respondeu, indo em direção à cozinha.
— Sim, mas o que te fez se casar com ela?
— Duh, o mesmo que faz todo mundo casar! Acredite ou não, eu amei aquela bosta. — era um amor único, pelo visto.
— Por que as pessoas têm que terminar casamentos aos tapas? Nunca vi um divórcio amigável... As pessoas sempre terminam aos xingamentos.
— Isso tem uma explicação bem lógica e simples. É simplesmente por que uniões matrimoniais envolvem dinheiro.
— Gente mesquinha.
Ele deu de ombros em resposta, pegando alguma coisa da geladeira. Com certeza eu ainda era imatura no que dizia respeito a muitas coisas, e ele parecia bem mais experiente.
— E ainda ama ela? — indaguei curiosa, enquanto puxava uma cadeira para me sentar à mesa.
— Por Deus, que não! Ela sugou toda a minha alma até a última gotinha do que poderia ter restado dela. Sugou meu suor, o meu dinheiro, o meu sangue, a minha vida! Pelo menos, sugou minha porra também, mas isso não vem ao caso. Aquela vaca.
Comecei a roer minha unha, enquanto ele preparava um sanduiche para nós dois, embora eu não tivesse solicitado nada. Mas vi que ele preparava quatro (não creio que ele fosse ingerir os quatro, embora três fosse perfeitamente possível).
Então, comecei a olhar mais atentamente à minha volta, reparando no quão grande e bom aquela casarão parecia ser. A começar por aquela cozinha que provavelmente era a maior que eu já tinha visto em toda a minha vida. Caberia meu apartamento inteiro ali.
— Você vai mesmo vender esta casa? — perguntei.
— Metade é minha, metade é dela.
— Então, você tem dinheiro!
— Correção: ela é uma filhinha de papai que tem dinheiro, e mesmo assim vai exigir a parte dela, só por que é uma vaca. Enquanto que eu vou ter que usar a minha metade para pagar o maldito advogado.
— Que merda...
— Eu que o diga.
— Mas seus pais não me pareceram lá muito humildes... — comentei — Você sempre pode pedir dinheiro aos seus pais! Não é para isso que eles servem?
— Meu irmão gosta de depender dos meus pais, mas eu não. Não quero um centavo deles! — respondeu com orgulho. Só faltou bater no peito feito um orangotango.
O orgulho é outra vadia que, se pararmos para pensar bem a respeito, é inútil e só serve para nos deixar ainda mais ferrados na vida.
— Uhum. E onde você vai ficar, depois que vender a casa, gênio? — indaguei, cuspindo para o lado um pedaço da minha unha roída.
— Ainda não faço a menor idéia, por que estou sem dinheiro. Por isso os seus dez mil virão muito à calhar.
— Você poderia ficar no meu apartamento. — e, então, instantaneamente cobri a minha boca, completa e inteiramente arrependida por ter pensado alto.
Até senti um arrepio subir pela espinha. Afinal, diabos, DE ONDE SURGIU AQUELA IDEIA CRETINA, SAKURA? Desde quando eu gostava de dividir espaço com alguém. Talvez por isso mesmo eu jamais me casasse, por que não era o tipo de pessoa que divide coisas. Escovas de dente, lençol, travesseiro, cama, escova de cabelo, sofá, quarto, comida, apartamento... Especialmente apartamento. Eu jamais dividiria apartamento com ninguém! Era tudo meu, e ponto final.
— Sério? Cara isso ia me quebrar um galho enorme! Na verdade, eu meio que tenho despachado possíveis compradores para esta casa só por que não tenho onde ficar! — de repente, ele ficou mais animado do que deveria, mas tratei de cortar o barato dele.
Ou, pelo menos, tentei cortar...
— Na verdade... — murmurei.
— Isso me tiraria um peso gigantesco dos meus ombros, não sabe o quanto eu tenho penado pensando nessa merda toda! É muito estresse para uma pessoa só!
— Mas pensando bem, acho que é melhor...
— É o divórcio, o dono do estúdio em que trabalho que não me dá adiantamentos, são meus pais me enchendo o saco todo santo dia, me ligando, por que eles duvidam que eu vá me divorciar de verdade. Mas eu ainda vou esfregar os papéis na cara da minha mãe.
— Mesmo depois do nosso noivado?
— Especialmente depois do nosso noivado. Quando chegaram em casa ontem a noite, minha mãe me ligou feliz da vida, dizendo que está marcando no calendário os dias que vamos desmanchar o noivado. Por algum motivo, ela ama a Ino, apesar de achá-la meio mimada. Estou cada vez mais inclinado a me casar de novo, só de raiva! E eis aí uma coisa que nunca pensei que diria na vida...
— Mas sabe, Sasuke, eu acho que...
— Sério, você é um anjo que caiu do céu para mim, mesmo! Nem acredito! Por que nem meu melhor amigo foi capaz de me oferecer um ombro num momento desses, sabe? E agora eu posso finalmente vender essa merda, me livrar de uma vez por todas da Ino, e pagar o crápula do meu advogado.
— É mesmo? — indaguei em profundo desgosto.
Ele ainda deu a volta na mesa para me abraçar, agradecido, mas ao abrir os braços e ver a minha cara de estranhamento, misturado com incredulidade e negação, ele recuou, e vi seu sorriso se desmanchando devagarzinho, em câmera lenta.
— Fiz um sanduiche pra você. — resmungou, empurrando um deles para mim.
— Na verdade, eu vim aqui por que tenho outro assunto a tratar com você. — eu disse, categoricamente — Como a papelada para tirar a cidadania é um processo um tanto demorado, por que precisam analisar documentos, e etc, vim sugerir que nos casemos ainda essa semana.
— Ai! — resmungou de boca cheia, revirando os olhos — Eu não sei se posso fazer isso, sem ter assinado o divórcio antes.
— Basta você pedir ao seu advogado um documento que comprove que o pedido de divórcio está oficialmente em andamento para entregarmos ao cartório.
— Isso não nos dá muito tempo para planejarmos as coisas, né?
— Não há nada para ser planejado! Como eu disse, nos casaremos no civil. Não precisamos de festa, nem nada.
— Você realmente não conhece a minha mãe.
Engoli a seco.
— Ela precisa mesmo saber? — indaguei, fazendo careta.
— De jeito nenhum que vou me casar sem avisar a ela. Mesmo que seja um casamento de mentira. Ela arrancaria os meus cabelos.
— Acho que você ficaria muito bem careca.
— Nem pense em sacrificar o meu cabelo.
— Pense em todas as vantagens! — tentei barganhar — Não gastaria com xampus, condicionadores, cremes para pentear, laquê, silicones, fixadores, gels, ou qualquer merda que você use nisso aí! Seria uma baita economia. Sem falar no tempo que você deve gastar em frente ao espelho, penteando toda essa cabeleira.
Ele me ignorou, e eu mordi meu sanduíche. Ele tinha preparado um sanduba de tomate seco, com queijo ricota, folhas de rúcula e um molho de mostarda, levemente picante. Mas até que aquela porcaria vegetariana estava bem bom, não fosse a rúcula, que fui cuspindo no prato, enquanto ele fazia careta pra mim.
Ele devorava aquilo, faminto, exibindo toda a sua forma física se esticando para pegar uma faca, depois se esticando mais um pouco para pegar um frasco de molho, e ainda se virou de costas, abriu a geladeira, e se abaixou para pegar não sei o que — por que, de repente, fiquei mais interessada na traseira dele. Filho da puta gostoso, da bunda redonda e fofa!
Odeio homem gostoso. Com exceção do Itachi.
Olhei para a bordinha catupiry que eu tinha.
— Você acha que estou gorda? — perguntei, por perguntar mesmo.
Ele franziu o cenho, estranhando minha duvida. E me olhou mais analiticamente.
— Eu acho que você não deve ligar para o que a magricela da Ino disse. — por fim, respondeu.
— Mas você acha que estou gorda? — insisti.
— Eu não sei! E isso não me importa.
— Como não sabe? É só olhar para mim, pô! Eu estou bem aqui, na sua frente!
Ele suspirou exasperado, atirando os braços para todos os lados.
— Não, você NÃO está gorda. Satisfeita?
— Mentiroso! Você me acha gorda, sim!
— Ok, então você está gorda! — resmungou, revirando os olhos.
— Filho da puta, grosso, insensível!
— Mas o que foi que eu fiz?
— Me chamou de gorda!
— Você é impossível.
— Não sou impossível, eu sou gorda! — resmunguei brava, devorando o resto do sanduba com uma voracidade irracional. Não sei por que, de repente me senti furiosa com aquilo tudo.
— Eu só disse o que você queria ouvir! — disse, meio em estado de choque, sem me compreender.
Mostrei meu dedo do meio. Esse é o problema de homens que não tem opinião própria! Chutam qualquer merda só para agradar, sem se importar com nada.
Atirei a última mordida que faltava do sanduiche sobre a mesa, e saí pisando forte pelo chão com as bochechas cheias de pão, até a porta. Mas antes de batê-la com força, bem como a mocréia de sua ex havia feito, me virei para ele e disse em tom de fúria, cuspindo migalhas pra todo lado:
— É róm e o eor esea com arele rapel arinao relo reu aorado aré rerça reira, or que uarta rós ramos os asar, enrenreu?! E ái e orê se rão esrier rom uo ronto!
— Hein? Eu não entendo a língua do pão, sua mal criada! — ele resmungou — Sua mãe não lhe ensinou a mastigar antes de falar?
Mostrei meu dedo do meio, e mal mastiguei a comida, para engolir tudo.
— É bom que o senhor esteja com aquele papel assinado pelo seu advogado até terça feira, por que quarta nós vamos nos casar, entendeu?! E ái de você se não estiver com tudo pronto!
— Ah, é? E o meu dinheiro? Vai estar pronto até lá também? — indagou, colocando as mãos na cintura. Por um décimo de fração de segundos, esqueci que ele era um filho da puta, admirando aquela cintura gostosa.
— Veremos!
E bati a porta.
Eu estava brava com tudo. Com o Sasuke por ser tão irritante e gostoso, com a ex dele por ser tão mesquinha e presunçosa, com a mãe dele por ser aquela chatonilda e intrometida, com a Karin por ser tão sem noção e ter me metido naquilo tudo, e comigo mesma por ainda ter oferecido meu precioso apartamento para o idiota. Só o que me restava era torcer para que ele esquecesse toda aquela baboseira, para que eu pudesse ter um inicio de semana tranquilo.
Doce sonho.
Segunda feira não foi tranquilo. A começar com as estranhezas do Itachi.
Quando cheguei no escritório, Itachi, como sempre muito pontual, já andava de um lado para o outro com papéis nas mãos, e mal me olhou.
— Algum problema, Itachi? — perguntei, como quem não quer nada, na centésima vez em que ele passa por mim.
— Hum? Não, problema algum. Eu só estou atolado de documentos para revisar, antes de enviar para o setor de baixo, e eles continuam me mandando mais porcarias de papéis, como se eu não tivesse mais nada para fazer! Aliás, Sakura, não vou dizer outra vez, se quiser mesmo continuar aqui com seu noivinho, me entregue até amanhã estes documentos. — ele tirou do bolso da calça um pedaço de papel com uma lista — Sei que você não tem tudo em mãos ainda, mas me entregue o que puder, para eu ir dando entrada na sua solicitação.
E então, ele me deu as costas. Se não tivéssemos tido aquele caso, eu não estranharia a atitude meio grossa dele. Mas como houve tudo aquilo, era de se estranhar que ele estivesse agindo daquela forma comigo, tendo em vista que eu havia passado para outra posição em sua duvidosa lista particular de mulheres desejáveis e não desejáveis.
— Sábado à noite, quando voltamos para cá, ele ficou uma fera! — Karin murmurou, lixando as unhas.
— Ele estava uma fera a noite toda, só vocês que não perceberam! — Naruto disse.
— Ele chegou a chutar a cadeira do segurança do prédio, quando ele disse que não houve incêndio algum! — Karin disse.
— Ele passou a noite toda soltando fumaça pelas ventas! — o loiro complementou.
— Mas quem estava assim, era você, Naruto! — eu disse, revirando os olhos.
— Pode ser... Mas ele estava pior.
— Será que isso significa que ele está com ciúmes de mim? — indaguei, esperançosa.
— Isso significa que ele odeia tanto o irmão a ponto de vê-lo feliz ser lhe ser um tormento! — Naruto resmungou, começando a girar em sua cadeira de um lado para o outro — Eu também odeio ver o Sasuke feliz daquele jeito!
— Por quê? — perguntei.
Ouvimos a Karin bufar.
— Se esse for o mesmo Sasuke da história que ouvi, é por motivo besta. O Naruto estava a fim de uma garota que o Sasuke pegou, e parece que o Itachi também.
— Estava a fim? — indaguei.
— Pegou! — ela respondeu.
— Tsc. Não me digam que é a mocréia da Ino. — suspeitei.
— Como você sabe o nome dela? — o loiro parou de girar para me encarar por cima da divisória que nos separava.
— Vocês são mesmo tudo farinha do mesmo saco! — resmunguei.
Eu estava até disposta a deixar aquilo de lado, por que eu tinha outras coisas a fazer também, afinal, ficar me preocupando com homens nunca foi do meu feitio também. Mas aquele nervinho na testa saltou quando o vi o Itachi conversando amigavelmente (e essa palavra ganha outro sentido, se tratando dele, se é que me entende) com a moça que fazia café, depois do almoço.
Então, fui até a sua sala, depois que ele voltou do seu passeio até a cafeteria do escritório.
— Aquele café deveria estar muito delicioso mesmo, não é? Você usou o seu leitinho?
Ele me olhou com aquela expressão séria que fazia sempre que eu dizia alguma piadinha.
— Você sabe que não gosto de sarcasmos.
— Qual é o seu problema?
— Sarcasmo é uma forma ridícula de humor, Sakura.
— Por que estava me tratando daquela forma?
— Que forma?
— Como se eu não passasse de uma solteira! — e eu não estava sendo sarcástica, desta vez.
Aquilo deveria fazer mais sentido para ele, do que para qualquer outra pessoa.
Ele ficou me olhando como se não entendesse, mas em seguida suspirou, se levantou da mesa, e veio caminhando até a mim. Com aquele jeito sedutor, agarrou minha nuca com uma mão, me olhando bem nos olhos.
— Estou estressado com algumas coisas, e pode ter sido que descontei em você. Mas você não tem nada a ver com os meus problemas, ok? Não se sinta afetada. Aliás, eu estava pensando em passar em sua casa, de novo, hoje, no final do dia. Hum?
— Ok. — respondi, imediatamente.
Ele sorriu, enquanto sua mão foi deslizando entre minhas pernas, me causando aquele monte de comichão entre elas, até constar que eu estava sem calcinha, como a menina levada que ele havia despertado em mim. E ele sorriu mais ainda, satisfeito.
— Sua malvada. — e enfiou um dedo, tascando um belo beijo na minha boca. Mas, em seguida, bateram na porta dele, e nos afastamos.
Era um dos rapazes do setor abaixo, com mais documentos.
Itachi apertou com os dedos a ponte do seu nariz, como se de repente sentisse dor ali, entre um suspiro e outro. E assim que o cara nos deu as costas, deixando os papeis sobre a sua mesa, ele meio que deu um leve surto.
— DA PRÓXIMA VEZ VOU USAR A MERDA DESSES PAPÉIS PARA LIMPAR A BUNDA, SEU FILHO DA PUTA! — berrou.
Saí de fininho de sua sala.
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