Notas iniciais
Boa leitura!

Contradições

by Amanur

...

27

...

O som da minha porta batendo atrás de suas costas ficou ressonando em meus ouvidos durante um bom tempo. Eu ainda não podia acreditar que ele tivesse mesmo ido, mas acho que desta vez tinha sido realmente definitivo.

Eu queria chorar, mas ao invés disso resolvi encarar aquilo como uma verdadeira adulta: com um copo de vitamina C ao meu lado junto com um prato de pizza no colo. Era assim que eu iria afogar as minhas mágoas. Ou, pelo menos, era como eu pretendia já que fui interrompida pela ligação da Karin.

— Já está pronta? — me perguntou.

— Olha, depende... Estou pronta pra dormir, se é o que quer saber.

— QUE DORMIR O QUÊ, SUA RETARDADA! NÓS VAMOS FAZER FESTA A NOITE TODA, E ÁI DE VOCÊ QUE NÃO VIER! ACHO BOM QUE VOCÊ ESTEJA PRONTA EM DEZ MINUTOS!

— Karin, eu estou com mal estar no corpo, toda ranhenta e com dor de garganta! Não tem a menor chance de eu sair de casa para ir...

Ela desligou.

Às vezes, ela me irrita também.

Bem despreocupada, continuei deitada na minha cama para terminar a minha pizza de calabresa com meu copo de vitamina C de um lado e um rolo de papel higiênico do outro. Entre uma assoada de nariz e outra, eu comia a pizza enquanto via um filme no meu notebook.

Dez minutos depois, em ponto, a maldita chega grudando o dedo na minha campainha. Então, lá fui eu arrastando os pés para atendê-la, preparando os meus ouvidos para ouvi-la me xingar (eu poderia ignorá-la, mas sabia que se fizesse isso, ela começaria a chutar a porta, bem capaz de arrombá-la).

— Mas você é uma inútil mesmo! — disse, assim que me viu em meu pijama — Mas não tem problema, eu te ajudo a ficar maravilhosa! Saca só o que eu trouxe! — disse ela, cheia de empolgação, tirando de sua bolsa o seu novo estojo de maquiagem. Mas o que eu havia mesmo notado que ela tinha trazido era o Naruto em sua cola. E o idiota sorria para mim, se achando triunfante por ter achando onde eu morava.

Então, os dois entraram em meu apartamento mesmo eu dizendo para irem embora.

A Karin foi me arrastando de volta para o meu quarto, enquanto Naruto foi direto para minha cozinha encher os bolsos com o que podia levar.

— Karin, é serio, eu estou praticamente de ressaca, acho que estou febril, e não tenho a menor vontade de sair. — resmunguei, enquanto ela me jogava na cama para tirar minhas calças, porque, aparentemente, eu não podia fazer isso por mim mesma.

— Mais um motivo para você sair! Isso é deprê, amiga. E não há nada melhor contra a depressão do que sair para conhecer rostos novos.

— Mas você sabe que eu não me importo de ficar em casa. Aliás, não me importo nem um pouquinho de ficar com depressão.

— Mas você se importa com o fato do Sasuke não estar mais aqui, e é por isso que você está assim. Então, mexa a sua bunda e vista isso! — ela disse, depois de tirar do meu guarda-roupas um vestido meu.

— Eu não vou vestir nada! — protestei — Imagine que lindo seria eu lá, no meio de um bando de gente, num ambiente fechado, espirrando meleca para todos os lados, espalhando o vírus da gripe para todo mundo!

— Aham, é isso aí, vai ser lindo! Show de bola! — acho que ela nem me ouviu — Ah, já sei exatamente o que você vai vestir nos pés também! — disse agachada, mexendo na gaveta dos meus calçados.

— Karin, me ouça, eu não vou!

— Ah, vai, sim. Ou prefere que eu chame o Naruto para te ver seminua? — isso era chantagem suja!

E falando no diabo, de repente, o mesmo aparece no quarto com a cara mais séria do que qualquer uma que o Itachi conseguiria fazer. Rapidamente, eu puxei meu lençol para me cobrir, e ele puxou a Karin para fora do quarto. Ignorou-me de calcinha e sutiã por completo.

Os ouvi cochicharem alguma coisa, e então, de repente, os dois reaparecem na minha porta, meio desconfiados de algo que eu não sabia.

— Sakura, você andou assaltando alguma pessoa na rua? Um banco, talvez? — ela pergunta.

Revirei os olhos.

— É claro que não.

— E você deixou mais alguém entrar no seu apartamento hoje?

— Além de vocês, somente o Sasuke, que veio para deixar a cópia das chaves. Por quê?

Eles trocaram olhares cúmplices.

— Então foi o Sasuke! — Naruto concluiu— Eu sabia que não podiam confiar nele! E agora ele me faz isso! Viu só?! Aquele filho da puta quer te incriminar, Sakura!

— Hein? — indaguei, sem entender nada.

Karin deu um peteleco na testa dele.

— Tenho certeza de que há uma explicação coerente para isso. — e, então, ela me entrega um envelope — Achamos isso sobre a sua mesa da cozinha, junto com algumas sacolas de compras.

Era o envelope com o dinheiro que eu havia dado ao Sasuke. O dinheiro estava todo ali dentro. Fiquei olhando para aquilo enquanto coçava a cabeça como se tentasse fazer os neurônios funcionarem para entender o que isso queria dizer. Mas não houve jeito, meus neurônios deveriam estar cobertos de catarro.

Então, expliquei toda a situação para eles; desde o dia em que meus pais me entregaram a grana. No final do relato, Karin me olhava com aquele ar de deboche, de quem já havia sacado toda a treta.

— Desembucha, Karin. — resmunguei entre os dentes.

— Caramba, é tão óbvio que chega a ser ridículo que você não tenha percebido. — respondeu.

— É mesmo, Sakura, credo, até eu entendi. — Naruto resmungou de boca cheia, comendo uma maçã (que certamente havia pegado das sacolas que o Sasuke tinha trazido) — Está mais do que óbvio que o Sasuke é um tapado e esqueceu o dinheiro aí, ora essa!

Karin lhe deu um chute na canela.

— O que é óbvio aqui é que ele não quer o dinheiro, suas antas! — ela disse — Isso significa que todo esse tempo, ele não estava ligando para o dinheiro! Ele queria você! Você! Agora, porque cargas d’água ele queria você, eu não sei. Isso, sim, é um mistério da natureza! — profetizou.

— Mas e por que ele insistiu com o divórcio, então? Por que não rasgou os documentos quando entreguei a ele assinado? Hein, espertalhona, pode me explicar isso? — retruquei.

— Bom... — ela coçou o queixo, pensativa — Isso, eu também não sei. Talvez ele tenha enchido o saco de tanto esperar por você, ora bolas. Nunca vi ninguém tão tapada quanto o Naruto.

— Melhor para mim! — Naruto resmungou — E, Sakura, quando é você vai trocar de calcinha e sutiã, hein? Eu não tenho a vida toda! — resmungou.

A Karin me fez o favor de escorraçá-lo do quarto.

— Bom, saber de tudo isso não me ajuda em nada agora. — joguei o envelope na cama, quando ela voltou — Tarde demais. Já está tudo acabado. Além disso, ele mesmo disse que esperava nunca mais me ver, quando saiu daqui. E ele foi bem claro quando disse isso. O miserável até sorria de felicidade por não ter mais que me ver.

— Hummm. Sei não.

A Karin parecia não muito convencida disso, mas, de qualquer forma, me incomodou para me vestir para a tal festa que eu não queria ir. Fui obrigada a me enfiar dentro de um vestido preto, que batia um palmo acima dos joelhos e uma sapatilha nos pés.

E, então, nos enfiamos em seu velho carro. Meia hora depois, estávamos descendo em frente a uma danceteria nova, no centro da cidade. Como era festa de inauguração, havia bastante gente aproveitando a promoção dos ingressos e bebidas. A música eletrônica tocava alto, e as pessoas transitavam de um lado para o outro.

As pessoas pareciam felizes ali dentro, enquanto eu parecia uma minhoca miserável e desengonçada porque não sabia onde me enfiar com aquelas dores musculares, e toda melequenta, ainda por cima. Não preciso nem dizer que o Naruto, assim que chegou, foi atrás das bebidas baratas, e das moças solitárias (depois de eu negar um trilhão de vezes seu pedido para dançar). A Karin, no entanto, não largava o celular dela, trocando mensagens com alguém.

— Você veio aqui para ficar mexendo nessa porcaria? — tive que perguntar.

— Ah! — rapidamente, ela escondeu o aparelho nas costas — Só estou checando como o Suigetsu está. A mãezinha dele está doente, de novo.

— Sei...

— Anda, Sakura, olha a quantidade de homens sarados e gostosos por aí. Se mexa, mulher!

— Vou me mexer até o bar. — resmunguei.

Ela revirou os olhos, mas ficou para trás com o seu celular, enquanto me arrastava até o barman — o único homem a quem valia a pena trocar algumas palavras.

— Uma vodca, moço! — pedi.

— Com ou sem gelo? —me perguntou.

— Com gelo e limão.

E aquelas foram as melhores palavras que eu poderia trocar com alguém ali dentro.

Enquanto aguardava a bebida, tirei um lenço da minha bolsa para assuar o nariz. Nesse meio tempo, percebi que alguém se aproximou do bar também e ficou me encarando. Não me atrevi a olhar de volta para aquela pessoa, porque não estava a fim de me comunicar com mais ninguém. Pelo menos, não estando sóbria.

Mas acontece que o cara estava se aproximando de mim. Se chegando mais, como quem não quer nada, mas pretende todas as maldades do mundo.

— Sua bebida, moça. — disse o barman.

Tratei de me agarrar àquele copo com unhas e dentes, ingerindo grandes goles de uma só vez. E quando eu ia me virar para voltar ao lado da Karin, me deparo com o tal rapaz. Um ruivo alto, com bom porte físico e olhos tão verdes quanto os meus.

— Quem é o idiota que deixou uma beldade dessas buscar uma bebida sozinha? — indagou, com um sorriso torto, se achando o galanteador.

Eu ia dizer algo do tipo “cai fora, eu sou casada!”, mas me lembrei que não era mais. E lembrei que a aliança continuava ali, encaixada no dedo.

Pesarosamente, com um jeitinho aqui e ali, consegui retirar a aliança do dedo. Não que eu quisesse realmente me livrar dela para poder cair nos braços do ruivo, porque, na verdade, a coisa era o contrário. Eu estava a fim de ficar na minha, quieta num canto, curtindo a bebida e o catarro. Então, como eu continuava sem vontade de falar com ninguém, lhe dei as costas como se não tivesse ouvido o cara. Afinal, a música tocava alto e as pessoas também falavam alto. Só que o cara era insistente e agarrou o meu braço.

— Brigou com o marido? — perguntou — Olha, por mim, não tem problema. Se quiser, pode afogar suas mágoas em mim. — disse, presunçoso.

— Obrigada pela oferta, mas prefiro a companhia da dona Vodca, aqui. — ergui meu copo.

— Tem certeza? Por que posso ser melhor do que ela.

— Tenho certeza de que pode mesmo... — afinal, o rapaz tinha presença (se é que me entendem). E por falar nisso, dei mais uma olhada naquele pedaço de mau caminho para me certificar bem de que não estava cometendo mais um erro ali. Porque, afinal de contas, o Sasuke já tinha pegado suas asinhas e voado pra bem longe de mim.

Então, pensei com meus botões, e porque não? Era melhor do que ficar me remoendo de remorso pelas coisas que não fiz, enquanto ele deveria estar bem feliz em algum lugar, com Deus-sabe-quem.

— Está bem, eu danço uma música com você. — lhe disse.

Ele abriu o sorriso, triunfante, e me conduziu até a pista, enquanto eu tratava de me embebedar com mais alguns goles. Até cheguei bem pertinho dele, coloquei as mãos em volta daquele pescoço largo, firme e forte, enquanto ele me abraçava pela cintura. Mas ele tinha uma garrafa de cerveja nas mãos, de modo que fui alternando entre ela e a minha vodca, que já estava no final, enquanto ficamos dando uns passinhos para lá e para cá no meio de toda aquela gente. Só que ele era todo durão, se movia como um robô, todo sem jeito, que me deixava constrangida. Então, para não dar muita importância para isso, comecei a tagarelar feito uma idiota — até porque ele mesmo tinha dito que não se importava.

—...Quem é o idiota que se recusa a transar com a sua esposa, só por causa de uma birra?! Ele é tão cabeça dura que não se aproveitou do que tinha na sua frente, dá pra acreditar?! Eu estava disposta a deixar tudo de lado para manter o nosso casamento intacto, eu queria fazer com que aquilo desse certo, mas ele não estava nem aí! E o pior foi descobrir depois que tudo isso foi só porque o primeiro casamento dele não tinha dado certo. Ele enfiou na cabeça que não iria mais se relacionar com nenhuma outra mulher. Mas aceitou se casar comigo! Tem como entender uma criatura dessas?

— Então, ele te traía com a ex? — perguntou. E eu revirei os olhos.

— Não! Você não está me ouvindo? Ele não quer mais se relacionar com mulher alguma, e isso, com certeza, inclui sua ex.

— Ah, bom. Mas olha só, você está pisando no meu pé. — disse, com um sorriso torto.

Então, me dei conta de que eu estava pisando no pé dele. Eu estava montada em cima do pé dele, e por isso ele se movia feito um robô.

— Mas você não concorda comigo, de que ele é um idiota? Um tapado!

— Concordo, concordo. Mas você continua pisando no meu pé.

— E naquela hora, dentro do carro da sua ex, o que ele estava querendo me dizer com aqueles olhos de cão vira-lata perdido?

— Vocês estavam no carro da ex dele?

— É uma longa historia. Mas ele veio para cima de mim, todo carente, até tirou uma mecha do meu cabelo do meu pescoço. Achei que ele fosse me beijar, mas me veio com um papo de eu ser a teimosa da história! Há! Como se ele não tivesse feito nada! — tomei mais um gole da bebida.

— Meus pés estão começando a formigar!

— E, aí, apareceu o idiota do irmão dele, para nos salvar da chuvarada. Na verdade, eu já fui apaixonada pelo irmão dele. Já disse isso?

— Irmão do seu marido?

— É.

— Isso não é bom.

— Mas caí na real, e vi que ele é um canalha! Um mulherengo que não quer nada com ninguém. Mas acho que quando me dei conta disso, já era tarde demais. O Sasuke não queria mais saber de mim. — tomei mais um gole da vodca, até secar o copo.

— Mas você o quer de volta? — indagou confuso. Acho que eu não estava fazendo muito sentido mesmo.

— Eu? Tsc! Ele que vá pro inferno!

— Então porque você ainda está pisando no meu pé?

— Ele que apodreça no fundo do poço, sozinho! Por que eu é que não vou sair correndo atrás dele! Se ele acha que eu vou fazer isso, está muito enganado! Aquele patife, aquele filho da mãe, cretino! Ele me humilhou, sabe?

— Como você está fazendo agora, com os meus pés?

— Eu me entreguei a ele de coração e alma, mas ele cuspiu em mim. Eu estava lá, vulnerável, era toda dele.

— Como os meus pés?

— Mas ele me desdenhou no momento em que mais o desejei! — tomei a garrafa da mão dele, e bebi tudo em um só gole.

— Ah, claro, fique a vontade, beba toda minha bebida também! — ele resmungou.

— Ohhhh, você é tão querido! — quase chorei de emoção. Mas, aí, tive a impressão de ter visto um moreno com cabelos na altura dos ombros passar por trás do ruivo. E comecei a rir — Hahaha! Aquele filho da mãe me incomoda tanto, que agora estou vendo ele por aí!

— Hein? — o ruivo se virou — Como ele é?

— Ah, esquece, deve ser o estresse. — de repente, me veio aquela coceirinha danada no nariz. Eu juro que me esforcei para segurá-lo, mas o espirro voou para todos os lados, inclusiva a jaqueta de couro dele — Ah, foi mal.

— Olha, acho melhor você ficar quieta no banco mesmo.

— Mas por quê? Estou me divertindo tanto, aqui!

— Meus pés, por outro lado... — resmungou, me afastando.

Mandei ele à merda. Ele não era tudo isso que aparentava mesmo. Antes só do que mal acompanhada, não é mesmo?

Então, fui me arrastando de volta ao meio da multidão, procurando pela Karin. Mas a cretina parecia ter evaporado, porque eu não a encontrava em lugar algum. Naruto, no entanto, estava no meio da pista dançando com duas garotas, e parecia um daqueles bonecos de posto de gasolina, balançando os braços para todos os lados, bem feliz da vida. Tive pena das garotas que não faziam idéia de quem era aquela criatura.

Enfim, encontrei um bendito e abençoado banco para sentar, perto da porta de entrada, onde havia o armário para guardar casacos. Ali, a música não era tão alta, pelo menos.

A aliança continuava na minha mão, junto com o copo de bebida que agora se encontrava vazio. Resolvi colocar a aliança de volta no dedo para não perdê-la, já que meu vestido não tinha bolsos, e eu não estava com nenhuma bolsa, também.

De repente, outro cara se jogar no banco, ao meu lado. Bem à vontade, de pernas abertas, suspirando em cansaço, ou sei lá o que. Então, também suspirei cansada, imaginando ser outro idiota metido, e não me dei ao trabalho de olhar para ele assim como ele não se deu ao trabalho de pedir licença para sentar-se ali. Só que ele não entendeu a sacada.

— E, então, gatinha, vem sempre aqui? — havia um tom de deboche em sua fala. Um tom bem familiar, na verdade.

— É claro que não, a danceteria abriu as portas hoje. — respondi, meio mal humorada.

— Ah, droga, é verdade. Vi que você estava massacrando um cara. Ele a dispensou, ou o quê?

— Prefiro ficar sozinha! — resmunguei, meio despeitada, porque não iria admitir que o cara tinha mesmo me dispensado.

— Sozinha? Então, por que veio? — resmungou, ainda com aquele mesmo tom de deboche.

— Porque não é da sua con.. — fui virando o rosto, por puro impulso, e perdi a linha do raciocínio ao dar de cara com um Sasuke sorridente — O que está fazendo aqui?

— O mesmo que todo mundo faz numa danceteria, sabe? Dançar, beber, conhecer pessoas. Mas agora fiquei interessado na sua resposta. O que mais uma pessoa pode fazer numa danceteria, sozinha?

Continuei encarando ele, sem compreender.

— Não estou entendendo. — repetiu a voz da minha consciência.

— É uma pergunta simples. Por que razão alguém iria a uma danceteria, um local lotado de gente com música alta, se quer ficar sozinha?

Revirei os olhos, e ele se acomodou melhor no banco, recompondo sua posição. Soltou um suspiro rápido, inflando o peito.

— Ok, vamos começar isso de novo. — ele diz — Oi! — e sorri, estendendo sua mão para mim. Timidamente, meio sem jeito, a apertei porque parecia ser a única coisa a se fazer naquela situação — Meu nome é Sasuke, tenho vinte e oito anos, sou fotógrafo, divorciado duas vezes, não tenho filhos. Estou aqui para superar as dores do meu ultimo divórcio, sabe? Tivemos algumas diferencias inconciliáveis, como próprio fato de não termos sido apresentados devidamente. É uma longa história, talvez algum dia eu te conte... Mas o que quero dizer é que não quero cometer o mesmo erro duas vezes. Quero conhecer bem a pessoa antes que pular de cabeça em conclusões, como um casamento precoce, num relacionamento não estabelecido, se é que me entende... Então te vi aqui, sentada, solitária. E você é, com todo o respeito, muito bonita, e pensei comigo: “talvez eu devesse começar por ela”. E cá estou, arriscando a minha pele. — e sorriu.

Pisquei os olhos.

— Eu sei quem você é!

— Entre no jogo! — resmungou entre os dentes, forçando o sorriso — E você? Está solteira? Já tem mais alguém em vista por aqui? Em quê trabalha?

Continuei encarando ele, sem entender bulhufas. Parecia que estava falando grego comigo. Ou talvez eu estivesse bêbada demais, e meu cérebro processar as informações mais lentamente. E ele ficou me encarando de volta, esperando pela resposta que não dei, até que se cansou e se levantou.

— Bom, acho que temos duas opções: ou vamos para a pista de dança e nos divertimos ali; ou podemos continuar a conversa aqui, com bebida nas mãos. O que prefere? Ou será que... — aí, ele fez uma pausa, olhando diretamente nos meus olhos, cheio de receio. Até colocou as mãos nos bolso, se colocando numa posição de defesa — Você prefere me dispensar, porque sou feio demais, ou chato demais, ou... Sei lá. E nesse caso, te deixarei em paz.

Pelo modo com que me olhava, presumi que aquele, sim, fosse o seu verdadeiro ultimato. Um cheque-mate. O “é agora ou nunca”. Suspirei. Talvez, motivada pelo álcool, resolvi deixar o copo de lado. Me levantei, e fui seguindo de volta até o bar. Ele veio atrás de mim, marchando feito um soldadinho obediente, mas eu sabia que ainda esperava pela minha resposta.

Pedi mais um copo de vodca, me sentando no banquinho do bar. Ele sentou-se ao meu lado, sempre olhando para mim. Acho que tentava ler meus movimentos, para entender o que eu estava pensando. Mas nem eu sabia no que estava pensando.

— Como você é idiota! — resmunguei, de repente.

— É, eu sei... É uma qualidade da família. — deu de ombros.

— Notei.

— E então, o que vai ser?

— Ok, tudo bem, vou entrar no jogo. Meu nome é Sakura, tenho vinte e tantos anos, porque, você sabe, as mulheres não gostam de dizer sua idade.

— Claro.

— Bom, sou linda, inteligente, maravilhosa, um poço fundo de bondade e honestidade...

— Ahém! — ele pigarreou. Eu estreitei os olhos.

— Como eu ia dizendo... Fui casada, ou ainda sou casada? Por que não sei se ele já deu entrada nos papéis do divórcio?! — mostrei a ele que ainda usava a aliança.

— Ah, ele já deu, sim. — respondeu, assim, como se aquilo não fosse nada demais.

— Ok... — estranhei ele ter feito isso. Não fazia muito sentido. Ele estava ali, correndo atrás de mim, mas tinha dado entrada no divórcio, então. O que diabos aquilo significava?

Ele percebeu que eu estava com dificuldades de continuar aquela conversa maluca.

— Bom, — ele disse — eu, no lugar do seu marido, presumindo que ele teve os mesmo problemas que eu tive no casamento, teria dado entrada no divórcio porque iria querer começar tudo de novo, do modo certo. Entende?No lugar do seu marido, — enfatizou — Eu iria começar do zero, tentar conhecer melhor a pessoa antes de cair de cabeça num casamento.

Fiquei encarando ele. Ele estava mais lindo do que nunca, com os cabelos molhados do banho, de barba feita, com aquele olhar sério que parecia só me enxergar. Ele ignorava por completo qualquer outra mulher que passava por nós, em suas roupas provocantes — típico de quem vai a danceterias para caçar. E eu notei, sim, que várias mulheres olhavam para ele. Uma moça, inclusive, chegou à petulância de esbarrar em seu ombro, ali mesmo, eu estando com ele. Mas Sasuke não moveu um centímetro sequer para olhar para ela. Ele só via a mim.

— Então... Acho que ainda estou em processo de separação, mas já posso me considerar divorciada...

— Me conte mais sobre o seu ex. — disse, meio presunçoso. Acho que ele estava se divertindo com toda essa situação sem pé nem cabeça, isso sim.

— Bom, ele era... Ou melhor, continua sendo, um cara lindo de morrer. O tipo que faz qualquer mulher cair de quatro.

— É mesmo? — abriu o sorriso, cruzando os braços sobre o peito — O que mais?

— Mas o que tem de lindo, tem de irritante. Arrogante, prepotente, metido, preguiçoso, péssimo cozinheiro, ronca alto, não dá descarga no vaso sanitário, não tira a cueca do chuveiro, não tira os fios de cabelo da sua escova de cabelos, sabe todas essas coisas que as mulheres odeiam, ele faz! Além disso, ele é... ele é... — e o pior é que eu queria encher ele de xingamentos, mas minha cabeça ficou completamente vazia, sem saber o que mais dizer sobre ele.

— Ok, eu entendi. — resmungou, emburrado — Ainda bem que não sou o seu ex, né?!

— Né.

— Isso é engraçado, porque a minha ex mulher também não era uma santa. Quero dizer, ela é linda de morrer, tanto que meu próprio irmão chegou a se interessar por ela, mas ela também tinha seus defeitos, como...

— Então que tal — o interrompi — não falarmos dela, hm? Vamos falar de nós. Já que nós somos pessoas diferentes.

Ele sorriu.

— Claro.

— Evidente.

— Sim...

E então, uma mosquinha passou por nós.

Ficamos naquele silencio (que não era bem silencioso por causa da musica alta do lugar) constrangedor, sem saber o que dizer um ao outro.

De repente, ele pega minha mão e me puxa.

Notas finais
ALgum comentário? estou de saida agora, mas assim que voltar, responderei aos comentários do cap anterior.