Contradições
1 Acidente
Notas iniciais
Contradições
by Amanur
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Capítulo 1
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Eu tenho um problema.
Às vezes, até pode parecer que não, mas eu realmente tenho.
Meu pai jura de pés junto que herdei esse problema da minha mãe.
Minha mãe, por sua vez, jura fazendo o sinal da cruz que a herança vem do meu pai.
Seja de quem for a culpa, o problema persiste e insiste em me acompanhar para todos os lados como se fosse a minha sombra.
É sexta feira, 17hrs e 30min da tarde; é final do primeiro dia do resto da minha vida. O verão começou há um mês, e já fazia 37 graus na rua. Há uma semana a previsão do tempo diz que vai chover, mas, aqui, até a chuva faz cu doce.
Eu estou sentada atrás da minha mesa, que fica na frente da mesa da minha colega Karin (aquela que mantém seus olhos e ouvidos muito bem atentos a tudo o que acontece por aqui), bem ao lado direito do meu colega Shikamaru (cuja existência, às vezes, duvidamos), enquanto ao lado esquerdo deveria estar o meu colega chato Naruto (mas que havia evaporado no horário de almoço). E atrás de mim, é claro, o único espaço que sobrava, está o meu chefe com uma enorme pilha de folhas nas mãos, falando comigo, e tudo o que consigo pensar é como minha vida patética seria melhor se eu o tivesse na minha cama. De preferência, calado. E com um ar condicionado.
—... para qualquer incompetente, eram apenas cinco páginas. Apenas cinco malditas páginas, Sakura. E tudo o que você tinha que fazer, com suas mãozinhas, era preencher os espaços em branco com as informações correspondentes, e olha só que legal, elas estavam todas ali, escritas, entre parênteses, para facilitar a sua vida: o nome da instituição, o nome do responsável pelo processo, a data de avaliação, e a sua assinatura. — comecei a me impressionar com como ele tinha olhos apenas para os papéis em suas mãos — Não era nada demais, não exigia muita inteligência, nem esforço para isso. Era um trabalho bastante simples, sem complicações, coisa que qualquer criança com cabelos de gente decente e que saiba ler e escrever faria sem problema algum. Mas você fez? Não, você não fez! Estou extremamente desapontado com você, Sakura.
— O senhor gostaria de um apontador?
Finalmente, ele saiu de trás daquela pilha de papéis, e ficou me olhando com aquela cara séria, enquanto ouvia-se a risadinha contida da Karin, que tentava se esconder atrás da sua mesa.
— Por que você faz isso, se sabe que eu não tenho senso de humor, Sakura? — ele indaga, tentando ignorá-la.
— Desculpe. — resmunguei — Isso não irá se repetir.
— O seu erro, ou a piada? — ele estreitou os olhos, desconfiado.
Bem que eu gostaria de poder dizer que nenhum dos dois se repetiria, mas me vi no meio de um grande dilema. Sem piadas, aquela vida chata que em essência já não tem graça, teria menos ainda, e sem erros, a gente não aprende, não é mesmo? Pelo menos, foi o que eu sempre ouvi meus pais dizerem. E eu não queria parecer falsa, mentirosa ou hipócrita, e por isso eu apenas sorri arrependida de ter aberto a boca. E ele suspirou.
— Você tem até as onze horas da noite para terminar isso, e entregar aos correios amanhã de manhã — ele jogou sobre a minha mesa um conjunto de envelopes pardos que estavam no topo daquela pilha em suas mãos — Eles devem chegar ao destino até o meio da semana que vem, caso contrário, você ficará responsável pela multa que irão nos cobrar, ok?
— Sim, senhor.
— E, por favor, pare com o sarcasmo.
— Sim, senhor.
— Isso foi outro sarcasmo seu?
— Não, senhor, de jeito algum!
— Tsc! — bufou, não muito convencido.
E, com isso, ele nos deu as costas, indo para a sua própria sala no final do corredor. E, então suspirei como se respirasse pela primeira vez.
Karin me espiava por cima do pequeno muro que nos dividia.
— As coisas poderiam ser piores! — eu lhe disse. Sei que essa expressão não vale nada, mas eu a digo mesmo assim. Eu costumava a dizer isso quando era mais nova e estava na escola, por causa de algum engraçadinho que resolvia tirar sarro da minha cara, como se ela realmente fosse capaz de me fazer me conformar com a minha mísera situação. Eu até tinha perdido o costume de dizer isso, mas, quando me dei conta já estava dizendo outra vez. E agora, ao invés de estar na escola, eu estava na empresa em que trabalhava, após receber um xixi do meu chefe, por que me esqueci de preencher alguns formulários que deveriam ter sido entregues hoje. Pelo menos, minha colega de trabalho concordava comigo, enquanto lixava as unhas.
— As coisas poderiam ser piores, sem dúvida! —resmungou — Por exemplo, ele poderia ser casado!
— Não faria diferença... Ele continuaria a me odiar, mesmo assim.— respondi, voltando a olhar para o meu monitor.
— Ele não te odeia...
— É claro que odeia! Você não viu? Ele sequer olhou para mim, nem enquanto me xingava!
— Ele estava com uma pilha de papéis nas mãos, é claro que ele não olharia... O único problema que ele vê em você, é a sua solteirice.
— Isso é ridículo! — resmunguei.
Mas, no fundo, eu sabia que ela tinha razão. Itachi era o típico cafajeste; lindo, alto, cabeludo, cheiroso, gostoso, inteligente, sagaz e perspicaz, e, claro, cachorrão, daqueles que se envolvia com mulheres casadas ou comprometidas. Era ridículo mesmo ter que pensar que eu precisava estar me relacionando com alguém para atrair outro homem! Eu era uma idiota tapada mesmo, por ter me apaixonado justo por ele. E cá estava eu, naquela coisa platônica, babando pela traseira do cara, mesmo depois de ele ter me chamado de incompetente, desatenta, lerda e, acredito que houve algum insulto à cor do meu cabelo também. Acho que o encanto não quebrava apenas por que eu sabia que ele gostava de xingar todo mundo, até mesmo as mulheres que ele “pegava”. Dizem que ele xinga os amigos e familiares também... É como se fosse o charme dele.
Um charme muito estúpido, diga-se de passagem. Mas para ter todo o resto dele, eu não me importaria...
— Karin, só quero que você me prometa uma coisa! Que no dia que ele pegar você, você não vai me contar! Quero dizer, não que eu esteja te acusando de infidelidade, mas sei o quanto deve ser difícil recusar aquele homem!
— Ok. — era raro ouvi-la dizer uma palavra de uma sílaba só, e ainda parar por aí. E como ela desviou o olhar, para encarar o teto, tive vontade de voar até a mesa dela para esganá-la.
— Inacreditável!
Naquele dia, de cara emburrada, tive que fazer hora extra para reparar o meu equivoco. Mas além de preencher os malditos formulários, havia o trabalho acumulado do meu outro colega de trabalho, o Shikamaru, que fazia tudo naquela empresa, menos trabalhar. E, por algum motivo sobrenatural, caía tudo sobre as minhas costas — e eis o motivo para eu ter esquecido de preencher o que deveria.
— Eu juro que algum dia desses ainda deduro aquele preguiçoso, filho da mãe! — resmunguei, empilhando algumas folhas sobre a mesa dele.
— Você se estressa demais, Sakura. — Karin me disse, enquanto jogava sua bolsa em seus ombros, para ir embora.
— Você só diz isso, por que já acabou o seu expediente, e você pode sair para onde quiser, bem longe daqui. Eu não, ainda vou ter que ficar aqui, nessa merda, até Deus sabe quando! — joguei mais papéis à pilha.
— Uhum, isso é tudo muito interessante da sua parte, querida. Mas vem cá, deixa eu te contar a ultima do seu amado, antes de ir embora... Você soube da moça do almoxarifado? — ela baixou o tom para contar a fofoca, enquanto olhava em direção à sala do nosso chefe.
— Ah, tá brincando?! Até a Temari? — resmunguei — Ela ganha menos do que eu!
— Para ele não importa se é rica ou pobre... Basta ter um homem.
— Argh! Agora vou ter que contar isso ao Shikamaru. Coitadinho... — resmunguei, num falso tom de pena que eu não tinha.
— Fala sério! Você bem que está feliz por arruinar a felicidade dele, isso, sim. E nem sabe, parece que fizeram naquela salinha mesmo, do Xerox. O rapaz que me contou disse que ouviu tu-di-nho!
— Argh! Argh! Pobre do Shikamaru!
— Mudando de assunto, você tem algum compromisso marcado para esse fim de semana?
E essa é a Karin, mudando da água para o vinho.
— Você quer dizer, além de mofar na cama? — respondi.
— Eu tenho um amigo que vai fazer uma festa de despedida na casa dele, no domingo. Parece que ele vai se mudar para outro estado, não tenho certeza. Não quer vir?
— A ideia de ir a uma festa é boa, mas a de sair da cama, nem tanto... — voltei para a minha cadeira, para continuar a digitar alguns documentos que eu também precisava entregar ainda hoje.
— Tsc. Vou te ligar amanhã. Vê se atende a porcaria do seu celular, ok? — e, feliz da vida, ela foi embora, para bem longe desse lugar ridículo.
E ali fiquei eu, sozinha naquela sala minúscula, infeliz, analisando documentos, preenchendo formulários, carimbando passaportes e assinando solicitações, por que, infelizmente, vim trabalhar na polícia federal, no departamento de registros de passaportes e vistos. É um trabalho extremamente chato, entediante e cansativo — como se minha vida já não tivesse sido assim. Era um trabalho realmente desagradável, ter que promover a felicidade dos outros (lhe dando passaportes para viagens, que, para mim, equivalia à felicidade), enquanto nós ficávamos aqui, enfurnados nessa salinha, com pilhas e mais pilhas de documentos, e tudo o que poderíamos ver a nossa frente era a cara de bunda do restante dos funcionários. Mas suponho que a vida não seja justa mesmo. Ter que acordar todos os dias de manhã cedo para vir até aqui, me fazia sonhar com a morte, por que esse era o tipo de trabalho que faz qualquer um querer cometer suicídio.
Mas por que eu continuava a trabalhar ali? Bom, não havia nada em particular que eu quisesse fazer de diferente, na verdade. Às vezes, eu tinha a sensação de que nada seria capaz de preencher esse vazio que eu sentia. Aquele constante tédio era tudo o que eu conhecia. Então, essa era minha rotina, eu sentava na cadeira, e observava a vida passar diante dos meus olhos, junto com todas essas pessoas que trabalhavam aqui, entre carimbos e assinaturas.
A única coisa que realmente fazia tudo isso valer a pena, era o chefe.
Enfim, o tempo passou enquanto eu digitava coisas no computador a minha frente, quando sinto cheiro de café. E assim que virei o rosto em direção à mesa do Naruto, dei de cara com o próprio, apoiado na divisória da nossa estação de trabalho, olhando para mim, com uma xícara na mão.
— Onde você se meteu? — perguntei.
— Me dê o número do seu celular, e eu te digo. — e ele sorri.
— Eu nem queria saber mesmo. — resmunguei, despeitada.
— Fui comprar um par de sapatos novos, — eu sabia que ele diria, assim mesmo — para a festa do amigo da Karin, e acabei me distraindo com outras lojas.
— Ela te convidou primeiro? — revirei os olhos.
— O que é esse monte de papel aqui na minha mesa?
Bom, me fiz de desentendida, e voltei a trabalhar no computador como quem não quer nada. Mas eu sabia que ele me incomodaria, o que não era justo, já que havia passado toda a tarde fora, passeando.
— Isso não é trabalho para mim! — ele reclamou, indignado, tirando as folhas da mesa dele — Não sou pago para fazer toda essa merda. Aliás, mal sou pago para servir café!
— Não olhe para mim, eu já tenho a minha pilha aqui! Ah, sabe quem não tem?
— Boa!
Não precisei dizer mais nada. Ele foi direto à mesa do Shikamaru, e as deixou ali, resmungando o quanto se sentia injustiçado por ganhar o mesmo salário que aquele malando folgado (e agora chifrado), que só sabia matar tempo vadiando por aí.
— Então, você vai fazer hora extra também? — perguntei, apenas pra quebrar o silencio.
— Me dê o número do seu celular, e eu te digo.
— Continue sonhando.
— É claro que não, só vim pegar minha chave, que havia esquecido na gaveta. Hoje é sexta-feira! É dia de fazer festa. — e então, ele colocou a chave no bolso, e saiu cantarolando.
E lá fiquei eu, novamente, sozinha, com aquelas folhas. Resolvi preencher de uma vez aqueles formulários. Na medida em que ia terminando de preencher um, eu o colocava num daqueles envelopes que o Itachi havia me entregado, e passava cola. Então, vi que o endereço do destinatário já estava escrito com a caligrafia dele, e acabei me perdendo olhando para aquelas letras, no terceiro envelope, imaginando aquelas mãos largas segurando uma caneta. Depois, o vi segurar minha cintura, meu rosto, meus cabelos... E, claro, tive que também imaginá-lo segurando seu pinto maravilhoso, apontando para mim... Quero dizer, não que eu já tivesse visto para afirmar que fosse maravilhoso...
Mas também foi só por que ele não quis me mostrar. De qualquer forma, eu gostava de imaginá-lo, e estava numa fase bem boa da minha imaginação fértil, quando ouvi alguém pigarrear.
Eu não sei bem que cara eu estava fazendo, mas sei que minhas mãos estavam no lugar errado quando olhei para ele, ali parado na minha frente, atrás da mesa da Karin.
— Alguma coisa errada com os envelopes? — Itachi indagou.
— Ahmmm, não senhor. — murmurei, deslizando minhas mãos pelos braços, até o cabelo. E comecei a enrolar uma mecha, enquanto fechava as pernas, dando graças à Deus por estarem escondidas da vista dele em baixo da minha mesa.
— Preciso falar com você, sobre o seu visto.
— Meu visto?
— Foi o que eu disse. Você tinha licença de um ano para trabalhar aqui, e, bem, se você não der um jeito nele, ele vai expirar em dois meses. Eu não gostaria de ter que passar por todo aquele processo chato de seleção de novo funcionário, por isso, espero que você dê um jeito nisso o quanto antes.
— Sim, senhor.
— Falta muito para terminar aí?
— Não, senhor.
— Ótimo. Não se esqueça de desligar o ar condicionado quando for embora, por favor.
— Sim, senhor.
— Não se esqueça! — enfatizou.
— Não esquecerei.
E, então, ele me deu as costas, tirando sua gravata e suas chaves do bolso para ir embora.
Eu continuava a sorrir, quando voltei a encarar o meu computador, e dei de cara novamente com o Naruto.
— Por que está sorrindo feito uma pateta? — ele perguntou, fazendo careta.
Mas o Itachi havia iluminado minha noite com a sua doce (levemente amarga) aparição, e nada seria capaz de estragar aquela alegria que eu estava sentindo.
— Por que ele disse que me quer aqui! — sorri.
— Sakura, querida, permita-me corrigi-la: Ele disse que não quer fazer seleção para funcionário novo, provavelmente por que tem preguiça de entrevistar pessoas e analisar currículos! É por que ele é um rabudo preguiçoso. Não tem nada a ver com a sua presença aqui.
Morra!
— O que você está fazendo aqui, Naruto? Achei que tinha ido embora. — resmunguei entre os dentes.
— Só fui ao banheiro. Voltei para te dar tchau, desejar boa noite, e que sonhe comigo. — e ainda sorriu, o idiota.
— Já vai tarde.
Ele era atrevido, e ainda se inclinou sobre a mesa da Karin até a minha para beijar a minha testa grande. Peguei o meu lenço de assoar nariz (que estava limpo, que isso fique bem claro!) para limpar a baba que ele deixou na minha pele.
— Te vejo domingo, chuchu. — ainda disse.
Revirei os olhos, por que alguém (leia-se: a maldita da Karin) decidiu que não bastava eu ter que olhar para cara daquele loiro impertinente durante cinco dias seguidos da semana, eu também teria que olhar para ele no Domingo! Tsc.
Seja como for, terminei de fazer o que tinha que ser feito e, bem às 23 horas, em ponto, eu estava fechando a porta da sala com aqueles envelopes nas mãos. Deixei as chaves com o porteiro do prédio, que ficava sempre encarregado de guardar as chaves de todas as salas, e fui para casa pensando no que eu poderia fazer para permanecer aqui.
Já havia dez meses que trabalhava ali, numa espécie de intercâmbio. Sim, eu era uma estrangeira, trabalhando num lugar onde pessoas que queriam viajar para outros países iam. O mais irônico disso tudo é que o Itachi era tipo o meu vigia, o que tinha o poder de me despachar para fora do país.
Mas como eu ia dizendo, fui para casa pensando no que eu poderia fazer para continuar ali, pois não queria de jeito nenhum voltar a morar com meus pais, no país de onde eu vim. Mas acontece que esse tal intercâmbio tinha duração de apenas um ano, e o meu chefe do meu país natal, com certeza, não iria me dar mais um ano fora de casa. E como eu não tinha familiares aqui, para pedir renovação de visto alegando ter parentes que necessitassem de mim, tudo o que me restava era voltar...
De repente, comecei a me sentir meio murchinha feito ameixa seca. Digo, mais do que já era.
No sábado de manhã, vesti minha roupa de malha para correr, aproveitando que o percurso que eu fazia ficava a caminho da agência de correio do meu bairro, para despachar os envelopes do Itachi. Fui no correio, passei no banco para pagar contas, dei a minha corrida de uma hora, e na volta ainda passei numa feirinha para comprar frutas e legumes.
No caminho para casa, tive que fazer outra breve parada numa esquina para atar o cadarço do meu tênis esquerdo que havia se desfeito. Eu estava tranquila, dando aquele nó no cadarço, quando alguém chuta as minhas costelas e cai por cima de mim, por que corria sem olhar por onde andava. Eu rolei para o lado, junto com aquela pessoa, que tinha um pé monstruoso e seu peso era ainda pior. Rolei pela calçada junto com uma batata que caiu da minha sacola da feira. E quando finalmente consegui me estabilizar no chão, me encolhi de dor.
— Mas que merda você estava fazendo ali, agachada na esquina? — a voz era de homem, mas não consegui me mover para olhá-lo, mas pela proximidade da voz, percebo que ele já estava de pé. E ao se dar conta de que eu mal tinha forças para responder, ele resolve tomar uma ação, me erguendo do chão — Saco... Você quebrou alguma costela? — eu devia parecer um saco de batatas mesmo, mas não tive condições de me importar com aquilo.
— Eu? Eu não quebrei nada, quem quebrou minha costela foi você, seu idiota! Quem é que corre na calçada sem olhar por onde anda? E se eu fosse uma criança? Você teria me triturado!
— Qualquer idiota com o mínimo de inteligência sabe que não se deve parar numa esquina! E sabe por quê? Para evitar esse tipo de acidente! — ele retruca, muito ousado da parte dele, se me perguntasse.
— Sabe o que os idiotas com o mínimo de inteligência também sabem? — repliquei — Que não se deve correr a toda velocidade para evitar esse tipo de acidente!
— Não confunda corrida a pé com corrida de carros!
— Ambos são perigosamente fatais, do mesmo jeito.
— Tsc, eu não vou discutir com você!
— Ótimo, por que você sequer deveria contrariar a pessoa que você atropelou. Você não tem esse direito! Você simplesmente perdeu esse direito quando sequer pensou em virar essa esquina!
— Tá, tá, tá...
Ele ainda revirou os olhos, mas não disse mais nada. Me deixou escorada na mureta da casa vizinha, juntou as minhas coisas do chão, e fez sinal para um taxi que passava na rua. Quando o carro parou, ele me fez pôr um braço sobre o ombro melecado de suor dele, e quando fez menção em me segurar pela cintura, fiz sinal para que ele mantivesse aquela pata longe de mim. Com um suspiro de desagrado, como se tivesse toda a razão do mundo, o idiota ainda me colocou dentro do carro, sentou no banco do passageiro, e pediu para que o motorista nos levasse ao hospital mais próximo.
Lá, fomos direto para a ala de traumatologia e primeiros socorros, onde fui colocada numa cadeira de rodas; e enquanto uma enfermeira me analisava, outra fazia perguntas ao idiota, preenchendo uma ficha. Em seguida, a enfermeira que me atendia se afastou dizendo que logo voltaria para me levar até a sala de raio-X, para verificarem se eu havia realmente quebrado algum osso, pois naquele momento estava ocupada com outro paciente.
Eu estava relativamente bem, apesar de as dores terem ficado mais agudas, como se ela estivesse se alastrando pelos órgãos também, mas ele não parava de andar de um lado para o outro, como se estivesse sem paciência. Eu tentei, juro que tentei mesmo ignorá-lo, mas não deu.
— Escuta, agradeço por ter me trazido até aqui, mas você não precisa ficar. Se quiser, pode ir embora. Aliás, agradeceria se fosse; assim não me irritas com esse seu vai-e-vem chato. — eu disse, com o máximo de esforço para parecer educada.
Ele parou no meio do caminho, cruzando os braços e me olhando feio com uma careta.
— Mas você é mesmo uma desagradável, hein?! — ele ainda fez careta para mim.
— Como é que é? Você me atropela, me xinga, mal me carrega até o hospital, me meleca de suor e fica aí zanzando de um lado para o outro feito uma barata tonta, e eu é que sou a desagradável? De que mundo você veio?
— Em primeiro lugar, a senhorita também está fedendo a suor! Em seguindo, eu vim do mundo em que as pessoas agradecem por ajudá-las, ok? E até agora não ouvi um obrigado sair da sua boca!
— Você é surdo? Eu acabei de dizer que estava agradecida por ter me trazido aqui... Apesar de tudo, né?!
— Eu vou ignorar essa ultima parte do que você disse, por que dizer que está agradecida, para mim não é a mesma coisa que dizer “obrigado, moço, pela gentileza”! Não dessa forma que você cuspiu!
— Gentileza? Isso era o mínimo esperado de um imbecil que atropela um cidadão do bem! Talvez isso não seja mesmo um agradecimento na sua língua, mas na minha é! Ah, faça-me o favor! Você quer o quê? Que eu te pague?
— Por quê? É assim que você faz o bem para as pessoas? Pedindo para que elas te paguem? Talvez você devesse rever seus conceitos de “cidadão do bem” que tem de si mesma.
— Por que você está falando de mim, cara? Não mude de assunto. Eu estou perguntando o que VOCÊ quer!
— Tsc! Eu quero ir embora daqui!
— Ótimo! Vai com Deus! A porta está bem ali. — apontei em direção a saída.
Ele bufou, e foi me dando as costas. Mas eu ainda ouvi o que aquele cretino resmungou.
— Tsc. Mal educada.
— SOU MAL EDUCADA MESMO! E VOCÊ, QUE É UM FILHO DA PUTA?
Eu não era de dizer palavrões, ok eu era!, mas há situações em que não há nada melhor para expressar o que sentimos, se não eles. E, claro, as enfermeiras e os pacientes que estavam ali, na fila de espera, incluindo a funcionária que fazia limpeza no local, todos me olhavam como se eu fosse a culpada por todo o mal que habita o planeta.
Ótimo, agora era eu quem estava querendo poder sair correndo dali.
Enfim, como prometido, a Karin me ligou. Às duas da madrugada daquele dia horrível, quando eu já estava no meu terceiro sonho com o tudo-de-bom do Itachi, para me dizer que passaria para me buscar para a festa de despedidas do amigo dela, que seria dada ao final da tarde. Então, tive que contar a ela que não iria poder ir, embora eu sentisse profundamente pela falta (só que não!), por que havia machucado as costelas, e contei a ela toda a minha aventura com aquele cara chato.
— Mas e suas costelas, estão mesmo quebradas? — ela perguntou, ao final do meu relato.
— Não. A enfermeira disse que o raio-x não mostrou nenhuma fratura. Mas vou ficar com um hematoma fenomenal.
— Argh, Sakura, então deixa de ser besta, você vai, sim, na festa. Esse meu amigo tem uma piscina maravilhosa nos fundos, que vai estar cheia para quem quiser tomar banho. Te aconselho a levar um biquíni, por que os amigos dele são muito lindinhos também.
— Eu é que vou ficar lindinha de biquíni com esse hematoma. — ironizei.
— E se eu dissesse que o Itachi foi convidado?
— Karin, não brinque com meu coração. Você sabe que ele é frágil.
— Você vai à festa, e ponto final. Passo aí para te buscar às 17 e 30.
— Eu tenho outra escolha?
Mas a infeliz já havia desligado, e eu perdido o sono...
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