Notas iniciais
Boa leitura!

Contradições

by Amanur

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Capítulo 2

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Você, alguma vez, já teve AQUELA sensação? Não me refiro à dor de barriga, nem dor de cabeça, nem a de estar sendo seguida por alguém (ou alguma coisa, se é que me entende), mas àquela sensação de que hoje é o seu dia. O vento sopra no seu rosto e seu cabelo esvoaça no ar como em propagandas de xampu, você encontra uma nota em dinheiro por acaso no chão (mesmo que sejam apenas duas pratas, mas ela te faz feliz só por que está ali, de graça para você), recebe uma notícia boa (como uma promoção no emprego), ganha presentes, encontra alguém querido na rua que te faz sorrir, ou quando você vê uma flor desabrochar na primavera enquanto um pombo lhe acerta bem em cheio na cabeça e alguém lhe diz que é sorte (apesar de estar na merda, né?)... Sabe, ESSA sensação!

Eu acordei naquele domingo me sentindo ótima. Dores na região das costelas à parte, o ar parecia mais limpo, os pássaros cantavam, o sol radiava... Consegui preparar um almoço realmente delicioso, e só para mim! Depois, encontrei um par de meias furadas que havia perdido; à tarde, terminei de ler um livro que há meses eu tentava terminá-lo... E, então, lá pelo final da tarde, senti que as coisas iriam melhorar ainda mais.

Como prometido, a Karin apertou a campainha do meu interfone às 17hrs e 30min, em ponto. Eu ainda estava toda dolorida, e por isso me demorei um pouco para me vestir. Mas meu cabelo colaborou, ficou ótimo com aquela chapinha que eu fiz (liso como se uma vaca tivesse me lambido), e até a minha pele parecia com a bunda de um neném (recém limpa de sua fralda, é claro). Demorei mais um pouquinho para arrumar o biquíni e uma toalha numa mochila, e levei mais outros tantos minutos para descer quatro andares de escada, até o carro dela.

E a ouvi me criticar.

— Credo, Sakura, você parece uma velhinha andando curvada desse jeito. Você deveria ter se arrumado antes! Me fez esperar vinte minutos, criatura!

— Quem manda ser tão pontual? — resmunguei, injustiçada.

— Ah, claro, me desculpe por ser organizada! — ela disse, em sarcasmo — À propósito, gostei do seu vestido. Não tinha algo mais decotado, não?

Joguei a mochila no banco de trás do carro, e olhei para ela confusa.

— Você está sendo sarcástica de novo, ou não?

— Claro que sim! Já se olhou no espelho? — olhei foi para o meu decote.

— Ele não está tão escandaloso, assim! Argh. Espere aqui, que eu vou trocar de roupa. — disse, abrindo a porta do carro, justo quando eu recém havia conseguido me sentar no banco.

— Não, senhora! Você não vai me fazer esperar mais uma hora aqui. É sério, eu gostei do seu vestido, só não achei que você fosse de usar decotes e saias curtas... Você se veste sempre tão comportadinha no escritório, que não conseguia te imaginar assim.

— Essa é a primeira vez que saímos juntas? — perguntei. Não que eu fosse de sair para bater perna por aí também. Perguntei apenas por que não tinha mais nada a dizer.

— Hum... Acho que sim.

— Só.

E, então, ela deu a partida, e fomos até a casa do amigo dela. No caminho, contei a ela sobre o prazo de validade vencido do meu visto, e que teria que ir embora em dois meses. Para minha surpresa, ela pareceu legitimamente afetada pela noticia, dizendo que pensaria em algum jeito de burlar as regras. Estranhei por que nunca fomos tão íntimas assim. Mas suponho que as pessoas têm mesmo essa capacidade de nos surpreender, eu acho... De qualquer forma, eu duvidava que houvesse algum meio de conseguir algum jeito de me fazer ficar, mas, enfim, cruzei os dedos por que não queria voltar para casa de jeito algum!

O assunto morreu, e ela começou a falar do seu amigo. Segundo Karin, Juugo era um bonitão alto, que por ser amante dos animais, além de ser formado em biologia, tinha praticamente um zoológico dentro de casa, além de uma bunda maravilhosa.

—... Ele tem umas quatro cobras de estimação, quinze cachorros, quatro gatos, três papagaios, acho que uns vinte passarinhos enjaulados espalhados pela casa, um lagarto, um aquário com dez peixes, sete hamsters e uma tartaruga. Ah, ele tem também três coelhos.

Fiquei olhando para ela, pasma, de boca aberta.

— Quem é que, em sã consciência, iria decorar esses números? — perguntei.

— Aquela casa fede à cocô de todas as espécies, mas ele é muito gostoso e muito gente fina, você vai ver.

— E o Suigetsu, vai bem? — ironizei.

— Argh, nem me fale nele. Ele teve que ir para casa da mãe dele, por que ela não estava se sentindo muito bem.

— Que bom que ele te deixou sair para se divertir...

Ela me deu um cutucão com o cotovelo, em resposta, e não dissemos mais nada. Quem era eu para julgá-la, certo? Em seguida, ela parou em frente a um casarão de dois andares. Havia vários carros estacionados pela rua, e a Karin me disse que ele era daquele tipo de cara cheio de popularidade, cheio de amigos, cheio de carne por dentro das calças, por isso a quantidade de gente. Da rua, já se ouvia a música alta, que faziam os vidros das janelas da casa vibrar. A porta estava aberta, de modo que simplesmente fomos entrando com nossas mochilas.

A casa parecia ainda maior por dentro. Já tinha gente com bebidas zanzando de um lado para o outro, alguns dançavam, e havia uma fumaça fedorenta no ar. E Karin tinha razão, a casa fedia a cocô, que aliado a todos aqueles perfumes e fumaças, tornava tudo muito enjoativo e depreciativo.

— Ah, esqueci de te contar uma coisa... — ela me diz, ao pé do ouvido — Sabe como esses estudantes de biologia são, né? Ligados a natureza, vegetarianos, zen, relaxados, tranqüilo, meio lerdos, sem preconceitos, maconheiros...

— Não me diga! — revirei os olhos, como se aquilo fosse uma novidade.

— Vamos ver a piscina! Você trouxe o seu biquíni, não foi? — e então, ela foi me arrastando para os fundos da casa. Já havia algumas pessoas tomando banho, alguns casais pareciam já terem se formado e se agarravam também. Olhei para a ruiva ao meu lado. — Não me olhe desse jeito. — resmungou — O negócio é se deixar levar pelo álcool, e curtir a festa. O povo parece bem animado lá dentro. Viu que tem até gente dançando?

— Eu não devia ter vindo!

Foi então que a minha boa sorte mudou. Alguém mete o braço sobre o meu ombro e, infelizmente, olho para o lado e dou de cara com o Naruto.

— É claro que devia! — ele diz, me oferecendo um copo com bebida, que eu aceito — Só me dê um minuto para ir ao banheiro e voltar para te tirar para dançar. — e ele ainda piscou o olho para mim, se fazendo de charmoso.

Eu tinha me esquecido completamente que ele estaria ali. Olhei novamente para a Karin, assim que ele nos deu as costas, e ela deu de ombros.

— Você está solteira, ele está solteiro, um mais um é igual a dois.

— Não. — eu disse.

— Claro que é!

— Me desculpe, eu sei que ele é seu primo, mas o Naruto é um chato que só fala asneiras, Karin. Além disso, eu sei que você não gosta de falar nisso, mas todo mundo sabe que ele cheira meias! — e isso foi um eufemismo dos grandes!

Ela suspirou.

— Eu sei. E ele ainda me pagou para te trazer aqui...

— Ah, que ótimo! Tchau. — fiquei estarrecida com a notícia. Como assim, mocréia, filha da puta? E eu ali, feito pateta, achando que ela fosse minha amiga!

— Sakura, não fique assim. — ela me diz, vindo atrás de mim. Não foi difícil para ela me alcançar, tendo em vista que eu mal caminhava, por causa da maldita dor nas costelas. Eu teria dado tudo para arrancar minhas costelas do corpo para ganhar mais leveza e agilidade (apesar de que, na verdade, eu só conseguiria era me arrastar no chão feito uma minhoca, sem minhas costelas).

E como se não bastasse, alguém bloqueou a minha saída, na porta de entrada. Ficamos naquele vai e vem, como se estivéssemos ensaiando alguns passos de dança muito tosco, para lá e para cá, mas eu com minha coluna curvada, foi péssimo.

— Ainda por cima, não sabe dançar! — o cara me diz. Olhei para o alto, reconhecendo aquela voz irritante.

— Maravilha! Isso é um sinal bastante claro de que o mundo me odeia! — resmunguei, querendo que um abalo sísmico acontecesse e levasse toda aquela gente para bem longe.

— Ah, obrigada, você também está ótima. Essa curvadinha na coluna é o quê? Charme? — ele indaga, cheio de veneno. Desejei que ele mordesse aquela língua afiada.

— É a minha costela dolorida que você chutou, obrigada por perguntar.

— Cara, você deve ter sido uma criança muito chata, não é mesmo? Daquelas que adoram participar de concursos, e garanto que você passou no concurso de drama Queen, não foi mesmo?

— Eu só tenho uma coisa pra te dizer: some da minha frente!

— Ahhh, participava de concursos, mas não frequentava as aulas de matemática, não é? Você me disse quatro coisas, queridinha.

Tive vontade de morder ele. De arrancar um naco de sua pele e cuspi-la num esgoto para um rato come-lo. Mas a Karin, finalmente se aproximou para me salvar.

Ou não.

— Oi, prazer, eu sou a Karin, e essa é a minha amiga solteira, Sakura. Vocês vão dançar?

— NÃO! — nós dois respondemos ao mesmo tempo, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e ela fosse uma burrona por sequer cogitar aquela possibilidade! Oras, onde já se viu? — Tsc. Até parece que eu dançaria com idiotas inconsequentes, que não pensam antes de agir. — eu disse, cruzando os braços e virando o rosto para o outro lado, plenamente ciente de que estava agindo como uma criança mimada. Mas eu estava no meu direito!

— Sabe, amiga-da-Sakura-solteira, — ah, como eu odiei ouvir isso dele! — eu acho que ela me ama, você não acha também?

Olhei para ele, incrédula por ter ouvido aquilo (quanta audácia daquele cretino! Que intimidade ele tinha para isso? Ele não tem noção, não?), enquanto a idiota da Karin dava uma risadinha contida, encantada pelo cara. Mas ao ver que eu a fuzilava, se calou rapidinho.

— Qual é o seu nome, pudim de mel? — ela indaga, me fazendo revirar os olhos. Me fazendo revirar de dentro para fora, de tão mais sem noção que ela conseguia ser, isso sim!

— Sasuke. — os dois apertam as mãos num cumprimento entre sorrisos tão afáveis que eu teria jogado uma torta na cara deles se tivesse uma em minhas mãos — Se me dão licença, estou procurando por um amigo, por acaso viram o dono da casa?

— O Juugo? Também quero falar com ele... — ela responde — Por que não procuramos por ele, hum? — e bem serelepe, ela pôs o braço em volta do braço dele, e foram caminhando pela sala como se fossem um casal — E você que não se atreva a ir embora, Sakura! — ela ainda me disse, fazendo questão de apontar aquele dedo para mim, antes de sumir entre aquele monte de gente com aquele cara chato.

Até parece que ela me intimidava. Mas quando dei as costas para a multidão, para finalmente sair daquela casa fedorenta, dei de cara, outra vez, com o Naruto. Só poderia ser praga rogada pela Karin.

— Quem é aquele cara, que estava com vocês? Acho que conheço ele de algum lugar... — ele resmungou, meio emburrado — E o que houve com a sua coluna?

— Longa história — e então, dei um soco no peito dele, o fazendo se encolher — Não acredito que você pagou a Karin para me trazer aqui!

— Mas que vaca! Cara, não tinha necessidade de ela te contar isso! — ele resmunga, indignado, varrendo o local com os olhos em busca da culpada pelo crime.

— Nossa, você só pode ser muito burro se pensava que seu segredo estava seguro com ela! — afinal, todo mundo conhecia muito bem a fama de fofoqueira que ela carregava no peito com orgulho, como se fosse uma medalha de ouro.

Ele revirou os olhos, e foi me puxando de volta para dentro da casa. Mas ele era tão idiota, que ficou falando (com certeza um monte de asneiras), mas eu não ouvia nada por causa do barulho alto.

Aí, fomos parar nos fundos, onde tinha a piscina, umas mesas com cadeiras, alguns coqueiros, e uma pequena horta mais aos fundos, protegida por uma mini cerca de madeira. Ele puxou duas cadeiras disponíveis, no meio das mesas, e nos sentamos de frente para a piscina.

— Falando sério agora, Sakura, por que você não sai comigo? — ele pergunta, afanando uma garrafa de cerveja de uma das mesas atrás de nós, sem se importar se era de alguém ou não — Por acaso eu não faço o seu tipo?

Eu ainda tinha em mãos o copo que ele havia me entregado antes, e fiquei olhando para o restante daquela bebida, enquanto pensava no que mais se pode dizer a uma pessoa, sem magoá-la.

— É isso mesmo, Naruto, você não faz o meu tipo. Você fede, só fala merda, é um inútil, peida ovo podre enquanto trabalha, é grudento, tapado, burro, alienado... Quer que eu continue com a lista, por que posso passar a noite inteira aqui listando as coisas!?

— Não, tudo bem, eu entendo. Então me diga qual é o seu tipo?! — ele indaga, nem um pouco afetado pelo que eu disse.

— Bom... Isso não te interessa. — resmunguei de volta.

— Se uma pessoa te faz uma pergunta, é por que interessa a ela! Acredite quando eu digo isso. Caso contrário, eu estaria cagando e andando. Mas, não, eu estou aqui te perguntando! — me diz, como se me desse uma lição de moral.

— Argh! Ok, Naruto, o meu tipo são os caras altos, cabeludos, inteligentes, que gostam de música e arte... Eles não precisam ser muito malhados, bastam ter os músculos definidos, serem perfumados, se vestirem bem, não precisam ser românticos ao extremo, mas têm que saber quando dar flores, ou fazer um agrado. O cara não precisa ser um palhaço, mas ter bom humor, e, principalmente, saber quando é hora de falar sério. É bom que ele tenha alguma estabilidade financeira, também, para podermos viajar nos feriados e férias. Ter um carro é imprescindível! Não precisa ser uma Ferrari, nem ter ar condicionado, mas o carro tem que andar! Enfim, ele não precisa ser rico... Mas tem que gostar de viajar, de conversar, precisa ser bem organizado. Saber cozinhar também é importante, e não ter frescuras para dividir as tarefas de casa com a mulher. Ah, sim, saberem cuidar da saúde é importantíssimo! Portanto, nada de bebidas alcoólicas em exagero, muito menos cigarros ou qualquer outra substância não saudável, se é que me entende. É bom que ele também goste de ler, e se gostar de escrever, melhor ainda. Não pode ser daqueles caras grudentos, que não sabem passar um fim de semana sem a mulher, ou daqueles que liga três vezes ao dia! E não preciso nem dizer que ele deve ser total e completamente fiel. Ah, também seria bom se ele gostasse de ir ao teatro, ao cinema, e esportes, para me acompanhar, por que certa vez...

— Ok, Sakura, já entendi!— ele me interrompe — Credo! Eu pedi para você me dizer qual é o seu tipo, não para descrever o homem perfeito e inexistente, tá?

— Desculpa se o ofendi! — eu disse, em sarcasmo.

— O que eu tenho que fazer para conseguir uma noite contigo?

— Tente nascer de novo, querido.

— Eu não sou feio! Você me acha feio? Eu não sou feio! — ele diz, meio confuso.

— Há quanto tempo você não namora, Naruto. — ele ficou me olhando, como se não compreendesse a natureza daquela pergunta — Ou, melhor, há quanto tempo você não transa?

— Tsc. Há um tempo... — ele tomou um longo gole daquela bebida, e desviou o olhar — Só não sei o que isso quer dizer.

— Pense a respeito, querido.

— Há, você fala como se estivesse bem saciada! — não gostei de sua insinuação.

— Não sou eu que ando desesperada, me atirando em cima de qualquer uma.

— Em qualquer uma? Porra, de onde você tirou essa? Da Karin? Para a sua informação, espertalhona, eu só tenho olhos para você, ok? — e assim, emburrado, ele se levantou, e saiu andando, me deixando sozinha.

Ótimo. Minha noite só melhorava a cada minuto que passava.

Bebi o resto que faltava da minha bebida, e coloquei o copo na mesa atrás de mim. Depois, fiquei um tempo ali, olhando para as pessoas que se divertiam na piscina. A vida aprecia ser tão boa para elas, que era praticamente impossível não sentir inveja.

Havia uma garota ali, com um cara realmente bonito. Eles riam, se beijavam, se abraçavam, conversavam... Comecei a pensar no Itachi, no quanto eu queria poder ficar com ele assim, por um misero dia que fosse, só para fazer com que minha estúpida e miserável existência tivesse valido à pena para algo.

Seria um erro dizer que eu amava o cara. Mas o fato é que o Itachi era um sonho de consumo. Era o meu “boy magia”, aquele que iluminava o meu dia, mesmo com os seus xingamentos, falta de humor, mesmo com aquele seu azedume matinal, com sua arrogância e presunção. Ele era o príncipe encantado num cavalo branco, aquele ser quase intocável, e tinha todo o direito de ser insuportável como era. Ele era areia demais para o meu caminhãzinho, mas eu o queria assim mesmo. E eu o queria agora, naquele exato momento, comigo naquela piscina, dentro das minhas calças.

Mas ao invés dele, eu tinha o chato do cara que me chutou as costelas, sentando no lugar do Naruto, para me fazer companhia, ou seja lá que merda ele pensava em fazer ali.

— Sua amiga é estranha. — ele resmungou — Uma hora ela está falando do Juugo, daqui a pouco fala do cheiro estranho na casa, depois fala do sapato alto, e, então, volta a falar do Juugo. Ela é o quê? Hiperativa?

— Não, ela só é... Idiota, mesmo.

— Hum. E você, o que está fazendo aqui, sozinha?

— Não te interessa.

— Se eu perguntei, é por que, talvez, meramente, me interesse um pouquinho, sim.

— Argh! — revirei os olhos — Vocês combinaram isso, não foi?

— Hein?

— Me deixe em paz. — resmunguei, virando o rosto para o outro lado.

Mas ele não me deixou.

— Olha, eu só queria te pedir desculpas pelo chute, ok? E dizer que reconheço que, talvez, quem sabe... Possivelmente, provavelmente!, tenhamos começado com o pé esquerdo. E queria dizer também que, talvez, quem sabe, possivelmente, provavelmente, você também deveria se desculpar, o que acha?

Estreitei meus olhos.

— Eu acho que você só pode ter comido cocô de algum animal de estimação do seu amigo, né? O único que deve desculpas aqui é você, seu sem noção! — ele só poderia estar zoando com a minha cara, pensei desconfiada. Não era possível que ele realmente achasse isso, era?

Ele fechou os olhos, suspirou profundamente, e ainda apertou a ponte do nariz entre os dedos como se pedisse aos céus por paz interior, por uma luz divina que não lhe veio.

Olhei para ele, ainda mais desconfiada.

— A Karin te falou alguma coisa sobre mim?

— Talvez. — ele murmurou entre os dentes, ainda naquela posição, tentando se conter.

— Ah, inacreditável, eu ainda corto a língua daquela linguaruda de uma figa! — fiz menção de me levantar para ir atrás daquela cretina, mas ele pôs a mão na minha frente, agora olhando para mim.

— Relaxa, não se preocupe, ela não disse nada demais! Apenas que você andava chateada, por que precisa ir embora... Aí, ela começou a falar do decote de uma menina que passou por nós, e mencionou algo sobre visto... Você não é daqui?

— Não... Sou de Júpiter.

— Suspeitei, pelo seu sotaque alienígena.

Não dissemos mais nada. Eu estava duplamente brava com a Karin — primeiro, por ela ter me trazido até aquela festa apenas por que o Naruto pagou, e agora isso. Além disso, eu tinha que ficar ali, fingindo que estava tudo bem, na frente daquele filho da puta. Juro que não iria me importar se um meteoro caísse na minha cabeça. Ou melhor ainda, na cabeça dele.

Quem sabe, até mesmo, eu me aventurasse a entrar na piscina, só para me ver livre dele — para verem o tamanho do meu desespero!

— Posso tirar uma foto sua? —ele indaga, de repente, me pegando de surpresa. Ao olhar para o lado, dei de cara com ele segurando uma câmera fotográfica enorme, ajustando o zoom da máquina. Só então que reparo na mochila que ele carregava nas costas. — Eu sou fotógrafo, e fui contratado para tirar roupas... Digo, fotos! — ele ainda me diz,assim, bem sério.

Roupas? Talvez o alienígena aqui fosse mesmo ele.

— Não, senhor, nada de fotos minhas! — coloquei a mão na frente daquela lente, fazendo com que ele saísse de trás da câmera. — Você pensa que eu nasci ontem, é?

— Nossa, você é mesmo estressadinha, hein.

— E você, um sem noção.

— Poxa, você realmente não tem capacidade para ser agradável com as pessoas, tem?

— E você não deve ter inteligência suficiente para saber quando não é bem vindo, tem?

— Tsc. Eu desisto! Faça o que quiser, garota. Não me admiro que esteja mesmo sozinha! — e, então, ele saiu com aquela câmera, e ficou tirando fotos das outras pessoas.

— BLA-BLA-BLA! COMO SE VOCÊ ME CONHECESSE! — berrei para ele — PARA SUA INFORMAÇÃO, TENHO UM MUNDO INTEIRO DE AMIGOS! — e isso era uma tremenda mentira, mas ele não precisava saber.

De qualquer forma, ele não me deu ouvidos, apenas me mostrou o dedo do meio enquanto apontava aquela câmera para outras pessoas. Era irritante ver como alguns até posavam felizes para ele. Teve até um trio de garotas peitudas fazendo caras de bocas para ele, do tipo, “Olhe para mim, como sou linda! Nhenhenhenhe”. E o idiota, bem feliz, tirava fotos de todos os ângulos e poses possíveis. Eu só queria sumir dalí, mas depois daquela, me senti obrigada a ficar para mostrar aquele imbecil que eu não era um Zé ninguém, uma “forever alone”.

Peguei minha mochila e fui me arrastando até o banheiro, dentro da casa. Troquei de roupa, colocando o meu biquíni preto com estampa floral.

De volta ao pátio, noto que a piscina parecia mais cheia. Inclusive, Naruto estava ali, passando conversa fiada em outra garota, me fazendo revirar os olhos. Deixei minha mochila sobre uma cadeira, num local bem à vista e, cuidadosamente, me sentei na beirada, sentindo a água fria tocar meus pés. E daí que tivesse garotas bonitas? Eu não estava ali para participar de um concurso de beleza mesmo.

Do outro lado, vi aquele tal de Sasuke ainda tirar fotos, enquanto uma outra moça se atirava em cima dele, e aquilo tudo começou a me irritar profundamente. Não precisamente com o fato de ter alguém em cima dele, por que eu estava cagando e andando para o cretino. O problema era que parecia que todo mundo tinha alguém para lhe fazer companhia, e eu era a única infeliz sozinha, ali.

De repente, tudo começou a me irritar profundamente. A musica alta, aquelas risadas de gente metida a feliz, aquela mistureba de cheiros, a água fria, aquela gente se agarrando, o flash da câmera do idiota, o Naruto conversando com outra, a Karin metida não sei onde, e, principalmente a bolinha de cocô de coelho que esmaguei com a mão ao me apoiar para trás.

Eu queria explodir aquele lugar. Eu queria encher aquele lugar com cocô de coelho!

Ainda mais depois, quando tentei me levantar para lavar as mãos numa torneira que havia no canto da parede. Três casais se agarravam ao lado da torneira, e o Sasuke tirava fotos deles, e um cachorro enorme pulou em cima de mim, me fazendo cair por inteiro dentro da piscina, e, principalmente, fazendo todo mundo rir da minha cara.

— Sakura, — Naruto veio nadando em minha direção — você se machucou?

De relance, vi que o fotógrafo estava nos olhando, enquanto falava com a mulher ao lado dele, e ambos riam de mim.

— Não muito... Mas dei mau jeito nas minhas costelas. Será que você pode me levar de volta para casa?

— Claro...

Ele me ajudou a sair da piscina, e vi que Sasuke se aproximava.

— Nossa, isso deve ter doído. — Naruto ainda resmungou, vendo o tamanho do meu hematoma. — Você ainda não me explicou o que aconteceu.

— Na verdade, meu bom e querido amigo do peito Naruto, o que aconteceu foi que fui atropelada por esse babaca, aí. — eu disse, ainda apontando o dedo para o Sasuke, que agora parou no meio do caminho, me olhando surpreso, como se não soubesse do que eu estava falando. Ele ainda olhou para os lados, como se duvidasse de que eu estivesse falando dele.

— Garota, você só pode ter complexo de superioridade, se acha mesmo que é tão importante assim, a ponto de me afetar com essas acusações medíocres. — ele deu uns passos para frente, avançando em nossa direção, mas Naruto se pôs na frente.

— Para trás, espertalhão, você não vai tomar de mim mais uma garota, tá, Sasuke?!

— Tomar de você essa coisa encurvada? Hahaha. Não se preocupe, Naruto, para mim, ela só serve para cuspe. A propósito, como vai o idiota do meu irmão? — ele até deu um tapinha amistoso sobre o ombro do loiro, como velhos conhecidos.

Ah, que ótimo, eles eram amiguinhos. Tsc! E é por essas e outras que eu odiava o mundo. Como pode ser um lugar tão grande e tão pequeno ao mesmo tempo? Justo quando eu pensava que tinha finalmente conseguido alguém para odiar o cara junto comigo — já que a assanhada da Karin estava fora de cogitação.

— Continua cabeludo, se é o que quer saber. — e então, Naruto se virou para falar comigo — Ele é irmão do Itachi, sabia?

— Que Itachi? O meu Itachi? Aquela formosura maravilhosa de homem é irmão dessa coisa aí? — indaguei incrédula — Mas nem fodendo que eu acreditaria nisso!

Sasuke cruzou os braços, agora me olhando com mais seriedade.

— Vem cá, essa maluca está falando do mesmo Itachi que nós, ou eu escutei mal? — indagou ao loiro, com uma sobrancelha erguida.

— Infelizmente, sim. — Naruto ainda revirou os olhos — Ela trabalha conosco.

— Hahaha! Essa é boa. — Sasuke resmunga. E eu fiquei com tanto nojo daquele desdém — Se o tamanho da sua competência se igualar ao tamanho da sua falta de simpatia, conhecendo o diabo, meu irmão deve se arrepender até o ultimo fio de cabelo por ter te contratado. Naruto, faça-me o favor de tirar um foto do Itachi para mim. Eu ia adorar ver a cara de tacho dele, perto dessa aí.

— Cara, você só pode ter complexo de superioridade, se acha mesmo que é tão importante assim, a ponto de me afetar com essas insinuações medíocres. — era a minha vez de dar a volta por cima. E, assim sendo, virei as costas para eles, peguei minha mochila, pisei numa poça de liquido amarelo (da qual preferi fingir que era apenas cerveja), e fui mancando até o banheiro, lá dentro da casa.

Me vesti, e, sem dizer tchau para ninguém por que eu era uma mulher adulta que não devia satisfações a ninguém, me dei o direito de ir embora para minha casa, caminhando com minha maldita coluna curvada até a rua, para curtir o resto da noite com meu pé fedorento. E assim, passei o restante da minha noite, deitada na cama, olhando para o teto do meu quarto cheio de formigas voadoras, anunciando uma típica noite chuvosa de verão.

Notas finais
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