Notas iniciais
Nada mais justo do que começar os contos de calçada com esse conto que contém até mesmo um pouco de veracidade: Calçada. Espero mesmo que gostem, porque foi algo que eu mesma gostei muito de escrever.

De cabeça baixa ela caminhava, alheia a tudo e todos, vozes familiares em tons desconhecidos de ódio e rancor ecoavam em seus ouvidos, ela não queria saber daquilo, ela não queria ouvir, mas era inevitável, era o dia todo a mesma coisa. O céu mudava de cor ia de um azul claro a um azul arroxeado, ela não conseguia acompanhar a degradação do céu, apenas a de sua mente, essa se degradava de tempo em tempo cada vez que uma ofensa, por menor que fosse lhe atingia os ouvidos. Nada a temer, nada a dizer, nada a temer? Ela não sabia de mais nada, não imaginava que as cosias chegariam a esse ponto.

Uma mão lhe foi erguida, realmente foi? Não importava seu rosto ainda formigava devido à dor, o tapa existira? Ela não se lembrava, talvez fosse um pouco dos goles do uísque que roubara da estante, mas quem liga? Não ela, nem ninguém. Olhou para ambos os lados, não esteva a procura de nada, água pingava de um velho carro vermelho enferrujado, formava lentamente uma poça na qual a garota se refletia, não havia ocorrido tapa algum, o formigamento era só vergonha da sua própria covardia, do seu próprio medo, por que ela não a enfrentara? Por que não acabou com isso de uma vez? Também não havia uísque roubado algum, ela sabia disso, mas jamais admitiria.

O céu tornara-se cinzento ao mesmo tempo que uma lágrima ardida escorreu pelo seu rosto, que idiota era ela parada à frente duma pequena poça olhando seu reflexo e deixando que lágrimas lhe queimassem o rosto dessa forma vergonhosa, uma mão tremula se ergueu enxugando a lágrima solitária que logo deu lugar à diversas outras, deixou a mão cair tateando o vazio. O ar abafado daquele fim de tarde a abraçava enquanto ela lentamente cedia a sua vontade, seus joelhos cansados de ficar em pé se dobraram derrubando-a na calçada, levou os braços de encontro a eles e abraçou-os, as lágrimas ainda escorriam o que ela estava fazendo? Chorar não ia resolver nada, ela sabia disso, e se machucava mais por isso.

Os olhos avermelhados por baixo da lâmina salgada fitaram o céu acima de sua cabeça, o que ela estava procurando? Um conselho, um alguém a quem pedir socorro, mas não havia meio de socorre-la, não daquilo, aquilo estava com ela, não era um problema, pelo menos ela não achava. Passou novamente a mão pelo rosto enxugando as lágrimas, dessa vez elas pararam deixando apenas o incomodo nó em sua garganta, bem a tempo do gato, o gato não tinha nome, era apenas o gato vadio que andava pelo bairro, se aproximar com suas patas apantufadas e olhar a figura quase que dobrada na calçada, o gato não disse nada, ele nem sequer poderia dizer algo, mesmo cego de um olho ele a encarou, sua mão se levantou na direção do bichano que correu antes de ser tocado. Nem o gato queria graça com ela.

Um trovão rasgou o céu indicando a ela que a hora de voltar para casa, ou seja lá como ela chamava o lugar onde morava, ela não se importou, olhou para o céu sendo picado feito confete e imaginou se não era algum tipo estranho de carnaval se aproximando, era época, não? Ela não se lembrava, devia ser por causa do uísque roubado da estante, ela sabia que não era, sabia que nem sequer havia uísque para ser roubado na estante, ninguém por ali gostava. Gotas começaram a atingi-la, imaginou se não eram do sangue causado pelas unhas da mão que lhe deu o tapa, depois se lembrou de que não tinha havido tapa. A língua molhou os lábios secos que se grudavam, observou as gotas ficando mais gordas, sua pele se molhava enquanto os cabelos úmidos moldava-lhe o rosto e o vapor quente do asfalto lambia suas pernas. Se a chuva podia lavar tudo, o sangue inexistente, a poeira da calçada, e podia levar com ela até as mentiras, por que não lavava os pecados da menina? Será que também não havia pecado naquilo? Observou as pontas de cigarro caminharem junto da água, se lembrou do gosto de um, quanto tempo fazia desde aquele trago que a levou dela mesma? De que importava isso agora? Havia se perdido há muito tempo e quando pensara que tinha se reencontrado estava de novo sozinha na calçada, sempre a mesma calçada.

Notas finais
E aí? Gostaram? Não gostaram? Deixem um comentário com as opiniões de vocês! Cada comentário conta, me ajuda a evoluir. Agradeço à todos pela leitura e até o próximo capítulo!