Notas iniciais
Segundo conto, esse um pouco mais sombrio e fantasioso. Espero que gostem!

Deitou-se à beira do abismo observando as estrelas rutilantes, enquanto vagarosamente encha os pulmões quase em falência de ar. O era frio, cortava a garganta a cada aspirar, de fato respirar ali era como correr nu por um longo e estreito canavial.

Fechou os olhos e ao abri-los imaginou ter visto a Lua, mas não, ele não poderia, era cego. Sem poder ver atentou-se em ouvir, ouviu passadas, mas pareciam muito distantes, ouviu mais, e ao ouvir percebeu algo batia asas próximo dele, sentiu o ar se deslocar sobre sua cabeça, o bater de asas de repente cessou, o baque de algo pousando invadiu lhe os ouvidos junto com um zumbido incomodo.

Sentiu garras agarrarem-lhe o peito desnudo, afundaram dolorosamente em sua carne fazendo-o sentir o calor do sangue a escorrer, as garras passaram aos ombros, sentiu o corpo sendo levantado, a aspereza do chão foi ficando para trás, apenas seus calcanhares o tateavam. As garras falharam, ele caiu, bateu com as costas no chão. O pássaro que o suspendia gritou, quando o som bateu em seu ouvido esquerdo ele se lembrou daquele ruído.

Sentiu a ave agarrar os seus cabelos, levou a mão ao corpo do animal emplumado que bicou lhe fortemente o dedo arrancando-o, ele não devia ter colocado o dedo no animal, abaixou a mão dolorida enquanto tentava gritar, mas era impedido, não sabia por que levantou a mão sangrenta e tateou sua boca, sentiu uma linha áspera costurando-a grosseiramente, tentou, sem sucesso, abri-la com os dedos. Não havia jeito embora a costura fosse grotesca, era ainda forte. Foi então que ocorreu-lhe outra ideia, passar a língua pelos lábios, e ao tentar movê-la só sentiu uma grande ausência, não havia língua alguma! Se assustou e com o medo roendo-lhe a carne abriu os olhos cegos e levou o dedo até eles percebendo apenas dois buracos, não haviam olhos!

A ave guinchou novamente, dessa vez ele pôde reconhecer o som, era um corvo! O animal pousado em sua cabeça começou novamente a bicar, fazendo a cabeça fervilhar de dor. O Pássaro desdeu à boca e com as unhas cortou a linha que a tapava. Com o bico arrancou dente a dente até só restar uma gengiva sangrenta, engoliu os dentes. Bateu asas sem sair do lugar e de repente avançou contra os ouvidos que zumbiram antes de explodir num sangramento incessante.

Cansada, a ave deixou de lado o homem e voou. Um raio atingiu o abismo e ao bater levantou o homem que ao ser erguido transformou-se em palha. Num boneco de palha. Nascera ali o espantalho da maldição.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.