Contos de Santa Fé
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Notas iniciais
Ferdinando estava realmente aproveitando o fato de Viramundo ter saído da casa de seu Pedro Falcão. Desde que o violeiro havia saído da casa do pai de Gina, o engenheiro já havia trado de pedir permissão para conduzir um relacionamento mais sério com a moça e, por sorte, o amigo aceitou.
Agora voltava pelo mesmo caminho a fim de fazer outro pedido para o homem. Epaminondas Napoleão não estava de brincadeira quando disse que iria deserda-lo caso continuasse a insistir no namoro com Gina Falcão e, quando ele chegou feliz em casa, logo foi questionado pelo pai que não gostou de saber que ele havia feito exatamente o oposto do que o Coronel pretendia.
Ferdinando já havia batido as aldravas da porta uma vez e esperava ser atendido, mas era inegável que estava nervoso. Quando a jovem abriu a porta, ele não pode evitar o sorriso e a vontade de contar a ela sobre a conversa que tivera com seu Pedro pela manhã, mas sabia que aquele não era o momento.
– Que c’ocê tá fazendo por cá a essas horas Ferdinando? – perguntou dando passagem para ele.
– Ará, eu vim até aqui falá com seu pai Gina – respondeu simplesmente sem conseguir tirar os olhos dela que parecia possuir o mesmo fascínio que ele. Era sempre assim e ele perguntava-se se, por caso, havia sido assim com Viramundo também.
– Mai de novo? – perguntou ela, provavelmente dona Tê já havia contado para ela que ele estivera lá mais cedo.
– É um assunto diferente – respondeu ele – Seu pai tá.
– PAI! – gritou ela sem tirar os olhos dele.
– Que foi fia? – perguntou Pedro alarmado chegando na sala – Que c’aconteceu?
– O Ferdinando que fala com senhor – respondeu se retirando da sala para ir ajudar a mãe na cozinha.
– De novo por cá fio? – perguntou seu Pedro quando entraram no escritório – Que que aconteceu agora?
– Seu Pedro – disse ele com calma – Eu vim lhe pedir outra coisa.
– Ará, e que é dessa vez?
– Eu estive pensando que, já que o violeiro... – ele iria completar chamando Viramundo de alguma ofensa, mas parou na metade do caminho lembrando que o rapaz havia conquistado a família e ofende-lo não era uma boa ideia para quem iria pedir refugiu – Bem, já que o Viramundo se foi lá pra casa do seu Giáco de novo, se eu não podia vortá – começou ele olhando por sobre os aros dos óculos escuros enquanto cruzava as mãos – a mora aqui, o senhor sabe, lá no meu quartinho.
– Ará, mai e porque isso agora, fio? – perguntou seu Pedro.
– É um assunto um pouco particular seu Pedro – respondeu ele – Mai vamos dizer que o clima lá em casa não está muito bom.
– Ocê e seu pai tão brigando por causa das politicage de novo, fio?
– É bem por ai seu Pedro, mai não só pelas politicagens – respondeu o rapaz – Mai, ieu posso ou não volta para cá.
– Ará, mai ocê é mais do que bem-vindo de vortá fio. – respondeu seu Pedro levantando da cadeira e indo em direção à porta e gritou – Mãe, ocê coloca mais um prato na mesa que o dotô Ferdinando vai janta qui co’a gente.
– Ará, mai e porque isso pai? – perguntou Gina enquanto voltava da cozinha com Juliana atrás de si.
– Purque o dotô vai vortá a mora qui com nóis fia – respondeu o homem.
– É verdade isso pai? – perguntou dona Tê vindo da cozinha – E porque isso doto Nando?
– Por causa do meu pai dona Tê, mas não precisa se preocupar não – respondeu ele – Eu ainda vou í lá em casa pegá minhas coisas antes.
– Ará, mai o janta ainda vai demorá seu Nando – respondeu dona Tê – Se ocê quisé í lá pegá suas coisas.
– E a Gina pode ir te ajudar,não pode Gina? – perguntou a professora Juliana.
– Ieu? Porque eu? – perguntou à ruiva
– Isso não é problema professora – respondeu ele – O Zelão pode me ajudar
– Ocê ouviu professora – disse Gina sentada folgadamente na poltrona da sala – O Zelão ajuda. – ela terminou a frase com um sorriso.
– Pois fique você sabendo dona Gina – respondeu Juliana, ralhando com a amiga – Que eu nunca mais falei com o Zelão – a professora suspirou olhando pela janela, enquanto tentava disfarçar a saudade que sentia do capanga.
– Se ocês me esperam, — disse o rapaz querendo sair do assunto que tanto incomodava a amiga — Eu vo lá pega minhas coisas e volto pro jantar.
Ele voltou algumas horas depois e subiu para organizar as coisas no quarto, não que fosse uma grande arrumação, mas era algo para lhe tomar um pouco de tempo até o jantar.
– Intão ocê vai mermo vortá a mora aqui? – perguntou uma voz já conhecida que fez um sorriso surgir em seu rosto.
– Ará, ocê acho que eu não tava falando sério? – perguntou ele se aproximando um pouco dela.
– Mai e porque ocê vorto? Ocê brigo com seu pai por causa das politicagem de novo? – uma risada gostosa saiu dos lábios dele antes que percebesse.
– Sim – respondeu ele – Mai não foi por causa das politicagem – respondeu se aproximando e colocando uma mão no rosto dela.
– E por que ocês brigaram intão? – perguntou enquanto aproveitava o toque gentil do rapaz
– Nóis brigamo por causa de uma certa cabocla que vive por aqui – ele disse simplesmente enquanto roçava os lábios nos dela de leve. Gina soltou um arquejo suave quase imperceptível – Ele não quer que eu insista em namorar essa uma.
Ele esperava que Gina fosse brigar e empurra-lo, mas isso não aconteceu. A combinação da proximidade com a expectativa do beijo lhe tirava completamente o ar e a impedia de responder, mas logo tudo acabou quando Ferdinando se afastou para dentro do quarto. A primeira reação da ruiva fora olhar para o corredor a fim de ver se alguém se aproximava, mas não e então olhou para ele e saiu a passos largos até o quarto onde se atirou na cama, sem se importar com Juliana que se encontrava na janela olhando para fora.
– O que aconteceu? – perguntou à amiga.
– Ará, nada Juliana, nada – respondeu irritada.
– O Ferdinando tentou lhe beijar de novo? – perguntou, mas não recebeu nenhuma resposta – Então ele não tentou te beijar de novo?
– Sim e não – respondeu a ruiva.
– Agora você me confundiu Gina – disse ela.
– Ará, mai num tem importância mermo.
– Então está bem – respondeu ela – Vamos descer e ajudar sua mãe a por a mesa, vamos.
Depois que todos já estavam sentados na mesa para o jantar, era difícil ignorar o clima entre Gina e Ferdinando. Ferdinando parecia tranquilo, se sentara de frente para a geniosa e flertava abertamente com ela, como era seu costume, mas ela não parecia tão bem e depois de um ou dois elogios dele ela se levantou dizendo que ia comer na cozinha deixando todos estáticos.
– Ará doto Nando, ocê descurpe a Gina, mai o senhor sabe como ela é, num sabe? – perguntou dona Tê preocupada com o que ele iria pensar.
– A senhora não se preocupe dona Tê, com a sua filha, eu mesmo me resolvo – disse ele se levantando da cadeira como fizera uma vez, tanto tempo antes. – Eu posso come aqui c’ocê Gina? – perguntou quando chegou ao lado dela.
– Ocê já tá’qui
– Ará, ocê tá brava porque eu não beijei ocê? – perguntou simplesmente
– Ará, é claro que não – respondeu ela no susto – Eu não queria que ocê me beijasse.
– Então porque ocê tá tão brava comigo? – perguntou ele simplesmente
– Ará, mais ocê num me faça pergunta difícil Ferdinando ou eu vo m’imbora e não como – respondeu ela – E ocê sabe que eu faço isso.
– Tá bom, então nóis comemos em silencio, meu amor – disse ele com um meio sorriso nos lábios ao ouvir o “Ará Ferdinando” que ele tanto gostava.
– Ará, mai ocês dois ainda tão comendo? – perguntou dona Tê mais tarde quando foi lavar a louça de família.
– Ará, a sinhora deixe ai que eu lavo quando terminá – respondeu Gina.
– Mai, ocê só pode tá com o coração mole mermo fia – respondeu dona Tê enquanto a filha corava sob o olhar atento e persistente de Ferdinando.
– Ará, a sinhora sempre com’ssas suas bobajadas, eu já disse que num é nada disso que a sinhora qué – respondeu se levantando repentinamente para fugir do olhar de Ferdinando.
– Ará fia, intão se ocê vai lavá os prato, eu vo subi com seu pai – respondeu – Boa noite fia, boa noite doto Nando.
– Boa noite dona Tê – respondeu ele se levantando também – Ocê qué minha ajuda Gina? – perguntou se aproximando do ouvido dela, fazendo com que a mesma se assustasse e pulasse para trás.
– Não carece disso não doto – respondeu depois de se afastar dos braços dele que a seguraram – O sinhor pode í dormir.
– Então boa noite pr’ocê, meu amor – respondeu com um sorriso depois deu um beijo leve na bochecha dela e subiu as escadas com um sorriso satisfeito.
Gina subiu logo depois de terminar a louça, era verdade que não gostava do trabalho doméstico, mas era bom para pensar na vida e quando terminou de lavar e pensar finalmente chegou a conclusão que a havia perturbado desde a hora que deixara Ferdinando sozinho no quarto: Sim, ela queria que ele tivesse a beijado, não fora nem um pouco justo o que ele fizera a deixando na expectativa e depois se afastando sem mais nem menos, mas não iria admitir isso, nem mesmo para Juliana, apesar de achar que a professora já sabia disso.
Quando subiu as escadas se surpreendeu, das três portas que constituíam o segundo andar, só duas estavam fechadas, a de seus pais e a de seu próprio quarto, não que isso fosse estranho, Juliana ia dormir cedo para dar aulas de manhã e a mãe havia se despedido muito tempo antes. Mas a porta de Ferdinando estava aberta e uma luz tênue escorregava para o corredor.
– Ferdinando? – perguntou se aproximando para espiar, o rapaz estava deitado na cama de pijama e com os olhos fixos no livro que segurava – Ocê num vai dormir.
– Ará Gina, nem ouvi ocê chegando – respondeu enquanto se levantava um pouco para olha-la, emoldurada pela porta com detalhes vitorianos quase parecia uma visão – Eu vou sim, assim que termina esse capitulo.
– Ará, mai esse livro é tão bão que ocê num pode í dormi?
– Ocê já leu Gina? – perguntou ele
– Ará eu aprendi a lê, sim! – respondeu parecendo um pouco irritada com a pergunta.
– Isso eu sei, que sua amiga Juliana me conto que ocê lê de carrerinha – disse ele com um sorriso bobo de orgulho nos lábios – Eu perguntei se ocê já leu, livros.
– Ará, eu li um ou otro – respondeu simplesmente — Mai num gosto.
– Ará, mai então vem cá – respondeu ele batendo de leve no colchão ao seu lado.
– Ocê tá mais é besta se acha que ieu vo deita co’cê – respondeu ela ríspida e depois olho para os lados para ter certeza que não havia acordado alguém.
– Ará, mai ocê deixa de se boba Gina – respondeu ele se endireitando na cama – Eu só quero lê pro’cê, num vo faze nada.
–Mai ieu num quero nem que ocê leia para ieu – respondeu. – Boa noite
– Boa noite – respondeu ele simplesmente.
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