Contos de Santa Fé

7 "Conto sem titulo e sem numero por que eu perdi as contas já!" 2


Notas iniciais
Desculpem qualquer erro, é que estou muito, muito feliz com essa semana maravilhosa (:DD) e acabei não revisando o texto

A neve ainda caia branca e preguiçosamente para se acumular em montes fofos no chão e nas dobras das capas. Apesar do frio era inegável que o tempo não podia ser mais perfeito. Pelas manhãs as crianças brincavam na vila e todos se recolhiam para o conforto das lareiras e dos fogões de lenha assim que possível. Mas, naquela tarde de domingo, quatro figuras caminhavam bem agasalhadas sobre a neve.

Gina e Ferdinando vinham logo atrás de dona Tê e seu Pedro e estavam prestes a subir a escada que dava para a varanda quando a ruiva o puxou.

– Que foi? – perguntou ele olhando com carinho nos olhos dela.

– Ará, se o seu pai não deixa nóis casá? – perguntou baixinho, ela já sabia que o pai não aprovava o namoro por conta própria, mas ele também a havia alertado daquela possibilidade uma vez.

– Ocê confia em mim Gina, meu pai vai pedi sua mão hoje – ele disse beijando os dedos dela suavemente – Agora vamo entra,que eu to congelando aqui fora.

– Mai i se – ele sabia que devia tê-la parado ali, mas queria muito ouvir o que iria dizer – Não deixa Nando, ocê ainda vai me roba? – ele não sabia exatamente por que ela falava isso, quando contará para ela a possibilidade daquele encontro nunca acontecer e dissera que a roubaria se o pai não deixasse eles casarem, falou de brincadeira (mais por que acreditava que não ia ser preciso) e ela rira, mas agora parecia estar levando a sério o assunto.

– Ará, se isso acontece – ele fez uma pausa e ressaltou – E não vai acontece, eu roubo ocê e nóis vamo pra bem longe, mai ocê num pode atira em mim — respondeu rindo.

– Eu não vo atira em ocê – ela respondeu batendo de brincadeira no braço dele – Eu fujo c’ocê Ferdinando, eu fujo c’ocê – respondeu, ele sabia que não seria preciso, mas aquilo lhe aliviou, ela ainda não havia dito que o amava, mas só a perspectiva de que ela poderia largar tudo para fugir com ele já era quase uma declaração e ele a beijou ali mesmo, no frio e na neve, esquecendo-se momentaneamente da casa aberta e a sua espera.

– Eu amo ocê, Gina – declarou ele outra vez, mas ela simplesmente se afastou.

– Ará, vamo entra que eu já to com frio Ferdinando – respondeu ela , era sempre assim, toda vez que ele se declarava ela dava um jeito de fugir do assunto.

Ele simplesmente passou um braço por seus ombros e a conduziu para dentro da casa onde todos haviam se sentado para esperar a comida e a entrada dos dois, quando isso aconteceu o coronel e Catarina se levantaram.

– Ará e não disse pr’ocê que ela era bunitona – sussurrou Catarina aos ouvidos do marido enquanto via os dois entrar pela sala.

– Ela tá parecendo uma princesa – respondeu Pituquinha, mas Gina limitou-se a fitar o chão deixando claro que não sabia como responder a todos os elogios.

– Tarde família – respondeu Nando alegremente .

– Tarde – Gina acompanhou a saudação dando uma rápida olhada tímida em todos no local.

– Boa tarde – responderam os três – E bem-vinda – emendou dona Catarina.

Depois daquela pequena eternidade de comprimentos, todos voltaram a suas conversas até que o almoço fora servido. Aquele era um momento crucial, todos comiam calados, mas a tensão era palpável. Pedro Falcão desviava o olhar de Ferdinando para Epaminondas enquanto comia e era observado por dona Tê, enquanto Ferdinando encarava o pai e segurava firme a mão de Gina sob a mesa e Catarina observava os dois homens mais velhos e a menina Pituca olhava a todos buscando entender o que estava acontecendo, só Gina parecia alheia a tudo aquilo e encarava o prato em ansiedade.

– Bem, eu acho que já num dá mais para adiar esse assunto – disse o coronel depois de todos terem terminado o almoço – Mância, ocê pode traze a sobremesa – disse ele e Ferdinando sentiu os dedos de Gina apertarem os dele – Então migo Pedro Farcão – disse ele – Eu acho que todo mundo sabe por que eu chamei o’cêis aqui – começou ele – Ocê sabe também que eu não fazia a menor questão desse casamento – Gina apertara um pouco mais a mão de Nando e ele, em resposta, acariciou e deu um beijo leve na mão dela – Mais depois de muito pensar e refleti cá com meus botões eu cheguei a conclusão que isso seria uma boa ideia. Então migo Pedro, e o que que ocê me diz, ocê deixa sua fia casa com meu fio Ferdinando?

– Ará mais é craro migo Epanimondas – respondeu o homem feliz da vida, com um sorriso que quase não lhe cabia no rosto.

– Ocê viu? Eu disse que ia da tudo certo, não disse – sussurrou o moço para a namorada.

Depois, os dois homens mais velhos foram para o escritório falar de política e beber em comemoração ao noivado, enquanto Catarina e dona Tê conversavam na sala sobre qualquer assunto que não dizia respeito aos jovens e Pituquinha escapulira para contar tudo a Serelepe, mãe Benta e Zelão, não era preciso que se fosse adivinho para saber isso. Se aproveitando do momento de distração dos mais velhos, Ferdinando levou Gina para o andar de cima como já havia feito antes.

– Ará Ferdinando, porque que ocê me trouxe pra cá? – perguntou ela se aproximando do armário em que ele havia encurralado ela da primeira vez em que estiveram sozinhos ali, aquele momento de nostalgia o fez se aproximar.

– Nóis tá noivo agora Gina – respondeu ele baixinho.

– Ará, mai nóis num caso ainda, é errado eu fica aqui sozinha c’ocê – rebateu ela, mas não o impediu que se aproximasse e agora eles tinham nariz com nariz.

– Eu só quero ficar um pouquinho c’ocê – respondeu ele a beijando.

Gina se deixou levar, ela não tinha muita explicação para aquilo, apenas sabia que havia algo em Ferdinando que a deixava mole e totalmente sem reação e quando percebeu já estava deitada na cama do rapaz.

– Ferdinando, ocê pare – disse ela o empurrando para junto da parede ao lado da cama.

– Para o que Gina? – perguntou ele com um sorriso maroto nos lábios.

– Isso Ferdinando, isso.

– Mai ocê fique carma Gina – agora ele ria de verdade – Que nóis não tamo fazendo nada de errado.

– Ará como é que não, Ferdinando – respondeu alarmada enquanto se levantava.

– Ocê fique aqui, que eu só quero que ocê sestei cá com eu – respondeu ele a abraçando e puxando de volta para a cama – Não foi ocê merma que disse pra dona Tê que queria dormi abraçadinha com eu? – isso era outra conversa que haviam tido um dia e sabia que ela havia falado aquilo apenas para incomodar a mãe.

– Ará Ferdinando aquilo foi só brincadeira – respondeu ela se virando e batendo com as mãos em punho em seu peito.

– Mesmo assim minha querida, agora eu quero dormi abraçadinho com ocê – respondeu simplesmente.

– Ará Ferdinando, mai ocê para com isso – ela tentou se levantar novamente, mas ele já a havia segurado com força o suficiente para que ela não conseguisse e nem quisesse ir embora.

– Ocê não confia em mim meu amor? – perguntou ele com a cabeça escorada contra a massa de cabelos ruivos.

– Num é isso Ferdinando – disse baixinho enquanto se aconchegava mais perto dele: “Eu não confio nem ocê e nem em mim” pensou sem coragem de colocar aquilo em palavras.

E então o silencio se abateu sobre o quarto, Gina havia deitado a cabeça contra a curva do pescoço de Ferdinando e ele tinha o nariz enterrado em seu cabelo, a cena era simplesmente intima e nenhum dos dois, jamais, havia se sentido tão confortável.

– Ferdinando – sussurrou ela, para não atrapalhar aquele momento único e foi respondida apenas com um “aham” – Eu te amo – disse ela baixinho, mas aquilo fez com que ele se afastasse e a encarasse por um longo tempo.

O coração do engenheiro parou ao ouvir aquilo, era tudo o que sempre esperava que ela dissesse e agora ela havia dito e ele nem sabia como responder, não podia simplesmente dizer “eu te amo” parecia tão repetitivo, ele já havia dito isso tantas vezes antes. Não, um “eu te amo” era fraco e não tinha nem metade do que ele sentia agora, ele queria apenas abraça-la e nunca mais deixa-la ir.

– Eu não sei o que disse Gina – respondeu ele e ela simplesmente abaixou os olhos e apoiou a cabeça de novo no local onde estava antes, fazendo uma cosquinha gostosa subir-lhe o pescoço.

– Ocê num precisa dize nada Ferdinando – respondeu ela se aninhando mais perto dele.

– Ará, é claro que eu preciso Gina – ele a puxou de volta para olhar dentro dos olhos azuis dele – Ocê num sabe como que eu to feliz de ouvi isso do’cê. Isso é a melhor coisa que já ouvi e eu não quero que ocê pense o contrário.

– Mai eu não penso – disse simplesmente – Eu sei que ocê me ama.

Mais uma vez ele parou, mas dessa vez agarrou o rosto dela entre as mãos e a beijou com uma vontade única, dessa vez era mais do que desejo, era uma necessidade. Quando deu por si, já havia puxado Gina para cima de si e tinha as mãos enroladas no cordão do vestido.

– Agora eu acho que ocê tá certa meu amor – respondeu ele, parando de repente – Não acho certo ocê fica aqui mais tempo, Gina – aquilo pareceu machuca-la um pouco, mas logo ela se recompôs.

– Ará, não foi só culpa sua! – disse se levantando corada e indo até a porta

– Eu trouxe ocê aqui – respondeu ele beijando de leve o topo da cabeça dela – Deixa eu leva ocê lá embaixo.

Os dois desceram as escadarias da mansão em um silencio sepulcral, nenhum dos dois queria falar sobre o que quase ocorrera no quarto, mas Ferdinando observou que a namorada já estava bem mais corada do que quando saíram de lá.

– Onde ocês dois tavam? – perguntou dona Tê assim que chegaram na sala.

– Ará, dona Tê, os dois são jovem e tem um casamento para organiza, deviam de tá conversando lá no corredor – respondeu a madrasta – Num é mermo Mância? – perguntou a criada.

– É madama, dona Catarina – respondeu a criada – Os dois tava lá em cima de converse.

– É, só de converse dona Tê – respondeu o jovem observando que Gina não conseguiria falar, ela parecia bastante mais corada, mas não podia culpa-la, pela forma que Amância falará, quase dava para suspeitar que ela sabia de alguma coisa.

– Bem, -disse a senhora olhando de canto para a filha – Então eu acho que nóis já vamu, num é mermo fia, se não seu pai fica é muito do alegrinho. Inté dona Catarina, Ferdinando.

– Inté dona Tê – respondeu ele – Até depois meu amor – disse ele em um sussurro para Gina – Eu amo ocê.

– Eu também amo ocê – ela disse com um sorriso nos lábios antes de ir se despedir do resto da família dele – Eu amo ocê, Ferdinando, eu amo ocê.