Contos de Santa Fé
2 Capitulo 2: ...Et toi tu t'aime un peu plus fort
Notas iniciais

Juliana estava contente com o que havia acabado de fazer na verdade, sabia que Gina provavelmente iria querer mata-la depois, mas agora, descendo de sua escola até a casa de seu Pedro Falcão, sentia uma leveza única que nunca pensara em sentir e então deixou que o sorriso inundasse os grossos lábios rosados.
Estava inegavelmente feliz. Ferdinando estava apaixonado por Gina e vice-versa e Juliana os estava ajudando, antes mesmo que estes percebessem. Ela quase podia sentir os pés levitarem quando deixou a escolhinha sem olhar para trás, sabia que a discussão seria grande, mas esperava que ninguém saísse ferido, muito menos Ferdinando. Ah! Ferdinando, ela percebia os olhares dele para a amiga e só aquilo já era o suficiente para deixa-la arrepiada sem precisar ouvir as declarações e semelhantes.
Ás vezes ela se perguntava como seria ser beijada por alguém que a amasse tanto quanto o amigo amava Gina. Claro que Renato já havia feito aquilo, mas não fora a mesma coisa, era inegável que ela havia gostado do beijo, mas não fora algo que dominara sua cabeça dia e noite e arrancasse seu chão e a fizesse voar como tinha escrito nos livros que lera durante toda a sua vida, ela também não era uma criança tola ou uma adolescente para acreditar naquilo, mas esperava, no fundo de si, que pelo menos a verdadeira sensação ficasse em algum lugar entre isso e o que sentira com o beijo de Renato.
Se perguntou se haveria alguém que pudesse despertar aquele tipo de sensações nela. Renato a amava sem dúvida, mas não de forma arrebatadora e incondicional como nos livros, tanto que, pelo que corria a boca miúda pela vila, ele já estava arrastando asa para Milita na quitanda do seu Giácomo. E se o amor do doutor não era como o dos livros de longe não era como o de Ferdinando, que passava seus dias suspirando pela ruiva, não que Juliana quisesse comparar, mas era algo inevitável de se fazer.
Ela suspirou alto, perdida em suas reflexões deixando que sua mente vagasse entre Renato e o namorado que deixara para trás em São Paulo, não sentia falta dele em nada, nem mesmo se lembrava que gosto tinha seu beijo, mas então algo puxou uma nova lembrança para sua mente.
Não era de qualquer um dos dois, mas de alguém muito diferente. Não era um homem letrado e, na verdade o mais longe disso que poderia haver.
“É que ieu, porfessora, ieu num vejo essa hora do dia chegá” Disse ele uma vez quando tornou a encontra-la em frente à escola para acompanha-la até a casa de seu Pedro, naquele dia, como em tantos outros, ela esnobara o amor que ele jurava sentir por ele, mas sabia que no fundo havia algo que a intrigava: um brilho no olhar, um carinho na voz, qualquer coisa que a encantava. Ela olhou para os lados em busca de ver o chapéu vermelho ou mesmo a crina que se lembrava tão bem.
Fora preciso muita força de vontade para não rir consigo mesmo das belas investidas e declarações do capanga do General Epa, era tudo uma graça pela simplicidade e pela paixão que ele botava em cada palavra que dizia a ela, mesmo quando elogiava o seu “fedor de cheiro bom”. Um sorriso cruzou o rosto da professora, maior e mais brilhante do que fora ao perceber o amor de seus amigos, fazendo com que ela deitasse a cabeça para olhar o céu azul que se estendia sobre a sua cabeça, um gesto que indicava a felicidade quase ingênua em seus lábios.
– Ai Zelão – sussurrou consigo mesma enquanto seguia seu caminho a passos curtos e sonhadores.
– Ocê chamô porfessora? – chamou ele com seu jeitinho.
– Onde você estava? – perguntou ela se aproximando do capataz.
– Ieo tava por cá a lhe esperar. Ieo num fui lá por causa que eu vi a dona Gina subindo esses morro tudo apressada e num quis atrapaia a prosa da inhora – respondeu dando o braço para que a moça do cabelo rosa o segurasse.
– Pois você fez muito bem Zelão – respondeu ela segurando, de bom grado, o braço do homem – E como vai as aulas com o menino Serelepe? – perguntou querendo afastar os pensamentos de sua cabeça, qualquer um deles.
– Vai muito bem porfessorinha – respondeu ele – Ieo inté que já escrevi uma carta.
– Uma carta? – respondeu com um sorriso iluminando as feições para que Zelão soubesse o quão orgulhosa estava de seu avanço, mas para ela era um pouco mais difícil definir se o sorriso era por conta disso ou pela expectativa de, finalmente, ler as belas palavras que Zelão ditara para Roda lhe escrever – E posso saber para quem é esta carta? – perguntou olhando para as mãos colocadas sobre o braço do capataz
– Pra ningum arguém porfessora, fpi só uma indéa do porfessozinho Lepe – respondeu ele olhando para os pés – Bem, na verdade, era para a inhora, mai, eu ainda tenho vergonha por demais – respondeu ele.
– Bem, isso é o de menos – respondeu ela tocando de leve o braço de Zelão – Porque eu adoraria ler as suas cartas, mas quando você estiver pronto, tenha certeza, eu vou ficar muito feliz em lê-las.
– E ieo vou fica muito do feliz de tira todo esse amor de dentro do meu peito – respondeu ele tocando de leve os dedos finos da professora que foi obrigada a recuar a mão por conta do arrepiou que lhe percorrera após aquele pequeno gesto. Nunca havia sentido algo semelhante, nem mesmo com seus namorados.
– Zelão, eu já lhe disse para não alimentar esperanças, porque eu não lhe amo da mesma forma – ela respondeu mirando-o diretamente com os grandes olhos azuis.
– Eu sei que a inhora já disse que num me ama – respondeu ele – Mai é que a inhora num sabe como dói aqui no meu coraçonzinho, sabe que a porfessora num gosta d’eu.
– Eu de você Zelão – respondeu ela tocando o rosto do peão – Eu gosto muito de você, por isso eu fico tão feliz que você esteja aprendendo a ler e a escrever e é por isso que eu deixo você me acompanhar até a casa do seu Pedro – agora os dedos dela roçavam de leve a barba do capataz, um roçar tão leve que era quase inconsciente – Apesar de ninguém naquela casa gostar disso – alertou ela enquanto lembrava de uma vez em que ele havia ido busca-la para leva-la até a casa do Coronel e Gina o havia ameaçado, naquele dia, quando ele a ajudou a descer do cavalo, haviam ficado tão próximos quanto agora, com a diferença que, naquele dia, sentia medo dele e agora apenas um carinho que ela não conseguia explicar a si mesma de onde vinha. – Eu gosto muito de você Zelão.
– Mai não tanto quanto gosta do dotó Renato – respondeu ele apoiando a mão grande e grossa sobre a mão delicada dela.
– Eu já lhe disse que não sei o que é o amor Zelão – respondeu ela, mas havia algo naquele sorriso triste que a impedia de deixa-lo. – Então eu não posso gostar mais de você ou do Renato.
– Mai a inhora não beijaria ieo – afirmou ele olhando para baixo, direto para Juliana que desviou o olhar para os dedos, seguros, entre as mãos do capataz.
– Ele ainda me ama Zelão, mas você me ama um pouco mais forte — mais tarde ela não saberia bem o porque, mas deixou que seus lábios roçassem os do capanga. Não mais do que um carinho afetuoso, antes de se afastar.
– Eu preciso ir, se não seu Pedro ficara preocupado – disse por fim antes de sumir da vista de Zelão.
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