Contos de Santa Fé

3 "Ando leva Gina para o quarto e pede beijo"


Notas iniciais
Minha versão pelo menos

Nando já havia se acostumado às distrações de dirigir com Gina ao seu lado desde sua última visita as antas, mas dessa vez parecia um pouco pior e ele não entendia bem ao certo por que. Ela usava o mesmo vestido negro com os olhos contornados com lápis escuro e os lábios de um vermelho provocante, ah claro! Dessa vez ela não havia deixado Juliana prender-lhe os cabelos de modo que eles caiam irresistivelmente sobre os olhos, mas havia algo mais, uma tensão que ia além de sua aparência.

Gina estava sentada reta, sem falar nada desde que eles saíram da cidade das Antas. Ela simplesmente ficou ali encostada contra a lataria enquanto Ferdinando guiava o carro por aquelas estradas enquanto tentava assimilar tudo que havia acontecido até ali.

Nando havia mandado o ônibus ir à frente por que, aparentemente, ainda tinha coisas a resolver na cidade e convidou a moça para lhe fazer companhia por um passeio. Até ai ela não havia reparado em nada diferente do convencional, ele era candidato a prefeito e sempre tinha algo a resolver. Foi só quando ele a deixou em frente a sorveteria por alguns instantes que começou a perceber que algo estava errado, quando ele voltou com um sorriso nos lábios e uma mão no bolso do casaco e se sentou ao lado dela, foi inevitável perguntar.

– E o que c’ocê foi fazé? – perguntou antes que ele pegasse uma pazinha de sorvete e roubasse um pouco do creme, ela tentou deu um tapa de leve na mão dele, mais para implicar do que por se importar com a atitude, pois estava muito mais preocupada com o fato dele ter saído e depois voltado alegrinho.

– Eu fui pegar algo minha cara – respondeu colocando uma mecha de cabelo ruivo para trás da orelha dela.

– E o que ocê foi pegá? – perguntou insistente.

– Mái ocê está com pressa hoje não? – perguntou saindo do banco e parando em frente a ela – Então vamos lá.

– Vamo lá onde Ferdinando?

– Gina – ele agora estava de joelhos e boa parte da cidade os olhava – Ocê casá comigo?

– Ará... – balbuciou ela enquanto tentava formar algo coerente, uma de suas vontades era se jogar nos braços dele e aceitar, mas a outra... bem, a outra estava constrangida por toda aquela atenção – Mái ocê dexa de se besta Ferdinando – disse caminhando a passos largos até o carro.

E mesmo depois de relembrar tudo isso, ainda não tinha uma resposta para a pergunta dele e ele sabia.

– Ocê num vai responde meu pedido? – perguntou com um sorriso de canto.

– Eu já respondi – disse sem olha-lo diretamente.

– Ará, ocê só disse que era para eu deixa de se besta. – respondeu ele – Não disse nem que sim nem que não.

– Pois agora eu lhe digo – respondeu ela finalmente cruzando seus olhos castanhos com os hipnotizantes olhos azuis de Ferdinando – Eu tenho que pensá.

– Está bem, está bem – disse ele voltando a prestar atenção no caminho com um sorriso estampado no rosto – Mái ocê vai armoça comigo hoje – definiu ele.

– E nóis armoça adonde? – perguntou intrigada com a decisão dele.

– Na minha casa ora – respondeu como se fosse algo extremamente óbvio – Eu quero muito que todos lá do sitio conheçam a primeira dama.

– Ará Ferdinando, eu já disse que pra ocê para co’ssas cosa que ieu...

– Não primeira, não é segunda, não é terceira e nem é dama – respondeu ele repetindo o que ela havia dito na última viagem as antas – Eu já sei Gina, eu já sei. Mesmo assim, ocê é minha princesa e minha primeira dama, sim – respondeu dando um beijo de leve em sua cabeça.

Durante todo o jantar, o que pareceu uma eternidade, Gina pode sentir os olhares de Epaminondas e da espoca sobre ela e mesmo os da pequena Pituquinha, mas ela parecia gostar da presença da filha de seu Pedro e até tentava fazer a moça se sentir confortável. Epaminondas a incomodava profundamente, ele a olhava como se não aprovasse o que o filho fazia e a culpa fosse dela o que, na verdade, estava certo.

Mas quem mais a incomodava era Catarina, já havia ouvido diversas vezes como ela era simpática e zelosa, mas naquele momento parecia zelosa até demais para com Nando, quase enciumada e não parecia nem um pouco com o tipo de ciúmes que o pai sentia por ela, mas algo muito mais profundo, era quase como o ciúmes que a própria sentia de Ferdinando quando ele só tinha olhos para Juliana.

– Gina, pelo que eu me alembro d’ocê – começou o coronel – Ocê num usava sses vestido não – disse ele – E tamem num era tum queta assim.

– Ará pai – respondeu Ferdinando segurando a mão da amada para evitar que falasse qualquer coisa que estragasse a conversa quase civilizada que estavam tendo – Porque falar disso agora, não? A Gina tá quieta e comportada, mai dexá ela voltá lá pro sitio que ocê vai como ela vorta ao normal rapidinho, rapidinho – respondeu – Ela só tá é tímida, não é querida – concluiu beijando a bochecha da jovem como havia feito antes.

– Ará, Ferdinando – respondeu ela ainda tremendo sob o olhar raivoso da madrasta de Nando – Eu já disse pro’cê pará de me chama dessas cosas.

– I é verdade que ocê curda daquele sitio, tar como se forse a pórpria dona? – perguntou Catarina balançado o como entre as mãos, firmes como Ferdinando, Pituca e seu Epa nunca viram.

– Ará, mai ieu gosto é muito de trabaia naquele sitio só – respondeu Gina com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos que deixou Nando encantado e perdido. – E o Nando deixo aqueles campo lá tudo lindão.

– Não Gina – respondeu ele acariciando de leve a mão da jovem enquanto tentava controlar o coração que quase explodira de felicidade ao ouvir a filha de seu Pedro chamando ele de Nando – Eu só o meu trabaio, ocê é que cuida muito bem daquelas terra lá.

– E ocês dois vão casá – perguntou Pituquinha com seu jeito entusiasmado, fazendo Gina congelar.

– Ará, se ocê consegui convence essa uma – respondeu de forma segredada para a irmãzinha e depois de uma gargalhada, que não foi acompanhada pelos outros na mesa exceto pelo olhar encantado da mais nova.

Depois do almoço Nando levou Gina para cima, ela não sabia o porquê e não gostava da agitação em seu estomago que a ideia lhe causava, mas segui-o sem protestar, por qualquer motivo desconhecido ela queria muito causar uma boa impressão para a família dele. Ele a levou até um quarto e fechou a porta enquanto ela examinava o lugar, havia uma cama de solteiro, um armário e muitas coisas, coisas que cheiravam a Ferdinando.

– Por que ocê me trouxe prá cá? – perguntou ela, deixando claro que não gostava nada da ideia de ficar sozinha no quarto com ele.

– Porque eu preciso conversa com ocê oras – respondeu como se fosse a coisa mais óbvia enquanto se aproximava dela.

– E o que c’ocê qué cum eu? – perguntou com mancinha por conta da proximidade e por algum motivo não consegui tirar os olhos dos lábios de Ferdinando que estavam tão próximos de si.

– Gina – disse ele de mansinho colocando as mãos nos braços dela como se estivesse prestes a lhe pedir algo – Ieu quero um beijo – disse ele olhando direto nos olhos dela – Mái eu quero um beijo que ocê quera me dar, eu não lhe roubar mais nada – um formigamento se ergueu nos lábios da ruiva como se estivessem sendo atraídos para os de Ferdinando e ela se aproximou como havia feito no carro na outra viagem até as antas.

– Ará, mai ocê tá mais é besta – respondeu quando sentiu o corpo bater contra a armação da cama, talvez houvesse caído sentada se não o tivesse afastado a tempo – Eu não quero lhe beijá e a única cosa que eu quero é sair daqui – respondeu – E se ocê num deixá, nóis vai ter que rolá nesse chão.

– Então nóis vai rolá no chão Gina, porque daqui ocê num sai – respondeu ele com aquele jeito decidido.

– Ará, Ferdinando, o que ocê quer? – perguntou ela já sabendo a resposta – Ocê disse que num qué roba mais nada, mas qué me força a lhe beija?

– Eu quero que ocê diga que me ama pombas – respondeu ele sem pensar duas vezes.

– Ará... – havia tanta coisa que ela queria dizer, mas as palavras haviam ficado trancadas em sua garganta e não queriam sair de jeito nenhum, ela gostava quando Nando dizia que a amava e sempre tinha vontade de ceder depois disso e era exatamente o que estava acontecendo agora – Mái ocê me deixe passá – respondeu ela o empurrando e passando pela porta.

Nando não conseguiu segurar o sorriso quando a viu passar pela porta de seu quarto, daquela vez havia sido por pouco que não conseguira seu beijo dessa vez – Mái da próxima, ará, dá próxima eu beijo aquela uma. – sussurrou para si mesmo.