Contos de Santa Fé
4 Cabocla
Era uma noite linda aquela. As estrelas e a lua brilhavam com uma incrível intensidade contra o céu escuro da noite, não havia uma nuvem no céu para encobrir tanta beleza que era completada pelo doce som da viola de Viramundo e a doce música que saia pela voz do violeiro.
Juliana estava debruçada no espaldar da cadeira, admirada, dona Tê acompanhava o jovem em sua gaita e seu Pedro se recostava fumando seu cachimbo. Todo pareciam estar se divertindo bastante naquela noite, menos Gina, está tinha a cabeça há quilômetros e quilômetros de distancia, dentro da escola.
Ela ainda tinha na cabeça as provocações e, principalmente a maciez dos lábios do candidato a prefeito. Quando ele avançou contra ela o primeiro instinto que tivera fora... Nenhum, ela simplesmente não pensara que ele fosse desafia-la de novo, mas poucos segundos depois havia decidido cumprir sua palavra e fechou levemente os dentes em volta do lábio inferior dele e, então, compreendeu que, como a professora havia dito uma vez, morder era bom.
Ferdinando não havia parado depois daquilo e isso a alegrava mais do que gostaria de admitir e mais ainda quando ele escovou a língua contra seus dentes. Na hora ela não entendeu muito bem o porquê, mas abriu a boca para ele, agora chegava à conclusão de que fora muito melhor assim. Ela não percebeu quando um sorriso sorrateiro escorregou pelos seus lábios com o pensamento, mas tinha plena ciência de morder o lábio inferior na tentativa inútil de reter cada uma das memórias, primeiro, por medo de lembrar e em segundo, por medo de esquecer.
Naquele momento foi possível ouvir batidas na porta da frente. Juliana foi a primeira a se levantar.
– Ará fia, ocê num precisa i atende a porta não – disse ele.
– Ah não, imagina, seu Pedro! Eu já estou indo para a escola que amanhã eu tenho que acordar cedo – respondeu ela – Não é qualquer incomodo.
– Então se é assim tchau pru’cê – respondeu ele sento seguido por um coro de despedidas, menos de Gina.
– Tchau Gina – disse a professora chamando a atenção da amiga.
– Ah? Tchau Juliana – respondeu ela ainda um pouco aérea.
A professorinha apenas sacudiu a cabeça e seguiu seu caminho até a entrada principal da casa, apenas para dar de cara com um Ferdinando que já se encontrava ali há alguns segundos e parecia bastante nervoso pela forma que segurava a cartola.
– Doutor Ferdinando – disse ela com um largo sorriso no rosto – Isso são horas de fazer uma visita? – ralhou de brincadeira.
– Admito que não é o melhor dos horários, mas meu assunto com seu Pedro é sério – respondeu ele.
– Se você não veio aqui só para ver a Gina e tem um assunto sério, acho que não faz mal deixar você entrar – respondeu ela deixando um espaço entre ela e a porta para que Ferdinando passasse – Então acho que não há mal algum em deixa-lo entrar, eles estão lá na cozinha.
– Muito obrigado professora – respondeu ele beijando os dedos da amiga – Mas e a Gina, ainda está acordada?
– Eu sabia que você não havia vindo apenas pelo seu Pedro – respondeu ela com um sorriso – Boa noite Nando.
– Boa noite professora – respondeu ela fechando as grandes portas e andando até a cozinha.
De longe era possível ouvir o som da viola de Viramundo, mas só quando chegou na cozinha foi que sentiu a raiva ardendo dentro de si, como se não bastasse dona Tê tocando e cantando com ele, seu Pedro parecia estar gostando e o pior é que Gina parecia pensar o mesmo que o pai. Ele não podia culpar ninguém, Vira tocava muito bem, mas a letra o incomodava, ela falava mais ou menos assim: “Como eu vou dizer/Que um raio de luar/Não brilha mais do que/A luz que vem do seu olhar”, Ferdinando conhecia bem a moda que falava sobre uma bela cabocla.
Como Gina poderia estar encantada com uma coisa tão claramente cheia de segundas intenções?
– Noite seu Pedro, dona Tê, Viramundo – disse depois de limpar sonoramente a garganta a fim de chamar a atenção dos moradores – Gina – ele se demorou uma pouco mais antes de cumprimentar a jovem, apenas para poder observa-la um pouco mais.
– Ieu posso sabe que c’ocê tá fazenu aqui uma hora dessas migo Ferdinando? – perguntou seu Pedro.
– É um assunto importante seu Pedro – respondeu ele.
– E que cousa mais tão importante que precisa se resolvida a essas hora dotó Nando? – perguntou dona Tê enquanto observava os olhos de Ferdinando correr entre Gina e Viramundo.
– Não... Bem, não é nenhum segredo – respondeu ele – Eu só vim devorve os título dos empregado aqui do sitio pro seu Pedro
– Entoces, se é só isso, ocê pode dexa os titulo aqui que ieu intrego amanhã cedinho – respondeu ele.
– Bem seu Pedro, má não é só isso que ieu tenho para falá c’ocê – disse ele se voltando para o dono da casa e entregando os títulos.
– Ará fio, mai intão digue – respondeu seu Pedro.
– Na verdade seu Pedro, esse assunto eu prefiro trata em particular com senhor – respondeu ele.
– Ará – respondeu ele se levantando da cadeira em que se encontrava – Entoce se é assim, vamo conversa.
Os dois saíram lado a lado em direção ao escritório de seu Pedro, Ferdinando podia sentir os olhos de Gina em suas costas a encara-lo com insistência, mas sabia que nao poderia provoca-la ali em frente aos pais e ainda mais com o tal de Viramundo por perto e conquistando tanto terreno com os Falcao. Nao agora corria o risco de perder sua Gina e esse era um risco que evitaria correr se tivesse escolha.
– Mái o que que o dotó Nando qué cum seu pai, Gina? – perguntou dona Tê se aproximando da filha discretamente.
– Ieu que sei mãe – respondeu a moça ainda olhando para o local por onde haviam saído – Eu não falo cum o Ferdinando ah ó... – respondeu fazendo sinal com a mão – Mó tempão.
– Noite dona Tê – disse Vira se levantando com a sua viola – Noite Gina.
As duas responderam e dona Tê puxou algum assunto, mas Gina estava mais encafifada era com o assunto que Nando tinha para tratar com o pai.
– Eu tumem já vo dormir – respondeu ela se levantando de repente – Noite mãe
– Noite fia – respondeu dona Tê dando um beijo na cabeça da filha.
Enquanto isso Ferdinando sua tão cobiçada conversa com seu Pedro, mas não sabia o que falar. Tentou montar o que era preciso na cabeça: em primeiro lugar, não queria Viramundo perto de Gina, mas não podia falar isso, a filha era do homem e se ele não via problema, não era Nando quem iria mandar na moça.
Em segundo, queria se casar com a filha dele, mas, apesar das ameaças, jamais pediria ela em casamento para o pai, sem a permissão da mesma.
E em terceiro, simplesmente não podia pedir abrigo porque o pai ameaçara deserda-lo por conta de Gina, isso era algo que preferia manter para si por um tempo.
– Então ocê veja seu Pedro — começou ele — Eu comprei uma briga dos diabos com meu pai por conta destes titulos que o senhor tem nas mãos — o moço tomou assento em frente ao dono da casa para só então falar — E retirei a minha candidatura.
– E que isso quer disser fio, é que seu pai num fico nem um pouco alegre cum isso — concluiu o homem.
– Isso mesmo seu Pedro e justamente pra móde evita confronto é que eu vim lhe pedir abrigo e trabaio — respondeu ele cruzando as pernas e entrelaçando os dedos.
– Ieu adoraria recebe ocê por cá de novo — respondeu ele com um semblhante sério — Mai ocê tem que vê que com Viramundo por cá, só me sobra apenas o quarto da minha fia Gina e eu num posso coloca cê lá.
– Eu entendo perfeitamente seu Pedro — na realidade tudo o que queria dizer é que ficaria feliz em dividir o quarto com amada, mas controlou a lingua a fim de não ofender o homem — Bem, então era meu assunto com senhor. Ieu já me vou indo pra num te que infrenta essas estrada a noite. Noite seu Pedro.
– Noite fio, mai se ocê quinzé, ocê ainda pode trabaia por cá que vai uma alegria das mais grande pra nóis tudo.
– Obrigado seu Pedro, noite — respondeu ele pensando seriamente no assunto, podia não dividir a casa com Gina, mas pelo menos na roça havia uma chance de controlar melhor os avanços de Viramundo para cima da amada.
Ele saiu pela porta do escritório apenas para encontrar uma subindo apressada os degraus da escada.
– Cuidado para não escorrega e se machucar meu amor — respondeu ele apenas para receber uma resposta dela.
– Do que ocê me chamo? — perguntou ela incrédula descendo a escada para encontra-lo na base.
– Ará, ocê num vai mais se a minha primeira dama, mai ainda é meu amorzinho — respondeu ele direto — Boa noite, querida — disse ele ao pé do ouvido — Ocê sonhe comigo visse, porque eu vo sonha c'ocê — disse antes de sair pela porta da frente com um suspiro e u. sorriso realizado, semelhante ao que Gina tinha quando deitou a cabeça no travesseiro para dormir naquela noite.
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