Contos de Santa Fé

5 Conto sem titulo e sem numero por que eu perdi as contas já!


Ele havia mais uma vez tentado convencer Gina de que a amava, mas ela, mais uma vez, o havia afastado e, o pior, havia pedido para nunca mais o ver e foi ali, sentado tomando pinga na venda de seu Giácomo que tomou uma importante decisão.

Antes do almoço já havia estado em casa e se despedido do pai, da irmã e da madrasta que chorava copiosamente enquanto balbuciava qualquer coisa sobre partir corações. Também se despediu de Rosinha, Izidoro, Rodapé, Mãe Benta, Zelão, Serelepe e Amância, que também soltou sua cota de lágrimas antes de voltar a preparar o almoço dos Napoleão.

Já na vila, ele se despediu de Seu Giácomo, da filha Milita e do amigo Renato que até o convidaram para almoçar, mas ele negou veemente e seguiu o seu caminho até a casa dos Falcão, no caminho aproveitou para se despedir de Padre Santo.

– Juliana – cumprimentou ele enquanto via a jovem de cabelos cor-de-rosa saindo de sua escolinha para o destino do rapaz – Ocê tá indo para a casa do seu Pedro.

– Estou – respondeu ela estendendo o braço para ele – Por quê? Precisa falar com seu Pedro ou com a Gina? – perguntou provocando o amigo.

– Eu preciso é me despedir Juliana – respondeu ele.

– E porque Ferdinando? – perguntou ela surpresa com a revelação do amigo – Para onde você vai?

– Para lhe ser bem franco minha cara, eu não sei – respondeu ele – Mas eu não tenho mais o que fazer por aqui. Eu não quero mais sabe de politicage e não tenho mais lugar na casa de seu Pedro e já começo a achar que a Gina não gosta d’eu o tanto que eu gosto dela.

– Isso não é verdade Nando – respondeu ela – A Gina só está confusa, ela acha que não é boa o suficiente para você.

– Ará, e por isso ela prefere pasá o dia todo cum aquele tar de Viramundo? – disse ele comum ar desolado – E de qualquer forma, ela já disse que não quer mais me ver e eu não posso força ela a gosta d’eu.

Juliana odiava ver o amigo daquele jeito, mas sabia que nada do que falasse diminuiria a miséria que ele sentia dentro de si e pensava se, no fim das contas, não estaria fazendo o mesmo com outra pessoa. Enquanto caminhavam a professora se deixou perceber as pequenas semelhanças entre a situação de Nando e Gina com a que passava com Zelão e se perguntou se, sem querer, não estava descriminando o amor do sertanejo por conta de sua pouca escolaridade, mais tarde teria tempo suficiente para pensar sobre isso depois de mostrar a Gina a besteira que a amiga havia feito.

– Dotô Nando – disse dona Tê ao ver o rapaz entrando – Eu não sabia que ocê vinha come por cá, se não eu tinha de colocado mais um prato pro sinhor.

– Não carece disso dona Tê – respondeu ele – Eu só passei por cá para despedi da senhora e do seu Pedro.

– Despedi? – perguntou seu Pedro quando chegou na sala com Viramundo logo atrás de si – E pra mode que?

– Eu só não tenho mais porque fica por cá seu Pedro – falou ele sem pensar muito, mas Juliana podia perceber a melancolia quando Viramundo entrou na sala e Gina não seguiu os dois – Mai onde que tá a Gina?

– A Gina fico prá trás – respondeu o dono do local – Se o cê quinze ieu posso chama ela pr’ocê, ou cê pode espera e armoça com nóis.

– Não seu Pedro – respondeu ele depois de um suspiro longo – Eu prefiro partir de uma vez.

– Mái ocê já tem onde trabaia dotô? – perguntou dona Tê com toda a preocupação que Nando tanto gostava nela

– E ocê já tem onde mora tumém? – perguntou seu Pedro.

– Não, nenhum dos dois, mas isso é só uma questão de tempo – respondeu o engenheiro

– Mái ocê pode fica e tabaia nessas roça tudo seu Nando – falou Viramundo – Eu vi que c’o senhor fez lá naqueles trigal e aposto que seu Giáco não ia te quarque problema em ocê fica lá na casa dele.

– Eu sei Viramundo, eu sei – respondeu ele, pelo menos Vira estava tentando ser um bom amigo, esmo que isso não diminuísse a vontade que Ferdinando tinha de bater nele – Mai eu prefiro i me embora e não arranja mais problema por essas bandas.

– Ará fio, mai que problema ocê pode arranja por cá? Um minino bom com’ocê fio?

–Ará dona Tê – respondeu ele – Sem quere se grosso com a senhora, mai é um assunto meu.

– Mai intão tá bão fio – respondeu a senhora de cabelos cinzentos – Mai nóis vai senti muita farta d’ocê por cá.

– Eu também vou senti falta d’ocê dona Tê — respondeu enquanto a abraçava.

– Nóis tudo vamo senti muito da sua farta aqui fio – respondeu seu Pedro enquanto tentava impedir que as lágrimas rolassem por seu rosto.

– Eu também vou sentir falta d’ocês tudo – respondeu ele se aproximando do amigo para lhe dar um abraço – Não é preciso chorar.

– I quem que tá chorano por cá? – perguntou ele com aquele jeito orgulhoso e bronco que a filha parecia ter puxado tão bem – Isso foi é um cisco que caiu no meu oio lá pelas prantação.

– Está bem seu Pedro – ele se dirigiu para Juliana que lhe deu um abraço apertado.

– Eu vou sentir sua falta meu amigo.

– E eu a sua – respondeu simplesmente – Tchau Viramundo – falou enquanto se aproximava do violeiro e lhe dava um abraço. – Se ieu souber que ocê fez quarquer coisa que a Gina não gostou, mai eu voltou, entendeu – disse sussurrado no ouvido do moço.

– Ieu não vou fazer nada contra ela não, seu Nando – respondeu o cantor da mesma forma.

– E cuide dela – disse enquanto tentava lutar contra os olhos lacrimejantes – Que aquela uma vale ouro.

– Ieu num sei disso doto? – perguntou o sertanejo, pouco antes que o engenheiro o soltasse.

– Bem! Então eu já me vou que eu não quero perder o trem – respondeu ele enquanto pegava as malas que havia deixado no chão e se dirigia para a porta, naquele mesmo momento Gina apareceu na porta que ficava sob a escada.

– Ará pai, pra onde que o Ferdinando tá indo de mala e tudo? – perguntou assim que ele passou pela porta, depois de cumprimenta-la com um simples aceno de cabeça.

– Ele está indo embora Gina – respondeu Juliana e ao ver a boca da amiga se abrir em um grande “mas” de interrogação continuou, sem papas na língua – Sim, e ele foi embora por sua causa que disse que nunca mais queria vê-lo.

– Mai eu não queria que ele fosse embora – disse mais para si mesmo que para qualquer um que estivesse ali – Ará, e prá onde ele vai?

– Nem ele sabe fia – respondeu seu Pedro limpando os olhos úmidos – Como nóis vai sabe?

– Ará, mai e ocês vai dexa ele i assim? – perguntou desesperada correndo até a porta.

– Fia, o doto Nando é um moço grande, formado, bunito – disse a mãe, mas Gina já não escutava direito e saiu correndo porta a fora – Ará fia, ocê vorta aqui, fia

– Deixa dona Tê – disse Juliana – Talvez ela até consiga trazer ele de volta, se dermos sorte.

– Ocê acha, Juliana?

– Eu acho que só ela consegue isso – respondeu.

A essa altura a ruiva já estava esbaforida de tanto correr e gritar, mas havia perdido o engenheiro de vista há muito e ele não parecia ouvir os apelos. Havia um trem parado na estação quando chegou, mas não tinha certeza se era o que Ferdinando iria pegar, olhou para os lados buscando por ele, mas não conseguia enxergá-lo no meio de tanta gente.

– Ferdinando? – o engenheiro ouviu ao longe no meio das conversar que o cercava enquanto tentava subir no trem.

– O senhor ouviu alguém gritar? – perguntou para o homem que estava ao seu lado, mas ele apenas assentiu sem falar mais nada.

Ferdinando chegou a colocar um pé para poder erguer sua visão por cima do mar de cabeças que infestava a estação de Santa Fé, era incrível como uma cidade tão pequena podia ter uma estação tão lotada, e só assim pode ver uma massa de cabelos ruivos se arrastando com a multidão enquanto olhava para os lados e tentava olhar por sobre as cabeças.

– Gina? – ele gritou de volta um pouco em duvida fazendo com que ela olhasse em sua direção e seu rosto se acendeu em um sorriso, então a maluca havia ido atrás dele no fim das contas. – Gina, o que c’ocê tá fazendo aqui há essas horas?

– Ocê num pode i embora Ferdinando – respondeu ela se atirando nos braços dele e impedindo que outras pessoas entrassem no trem. Nando teve que puxa-la para longe da entrada para que a grande quantidade de pessoas pudesse embarcar.

– Eu pensei que ocê num quisesse mais me vê, o que que ocê tá fazendo aqui? – perguntou ele olhando nos olhos dela.

– Ocê é que num pode i embora assim – respondeu simplesmente – Ocê não tem onde mora e nem onde trabaia – respondeu ela com toda a razão que sabia que tinha – Ocê vai vive de que? Ocê só pode tá meio pã das ideia.

– Mai ocê ainda não me respondeu que que ocê veio faze aqui – retrucou ele

– Ará, eu vim busca ocê – respondeu ela como se fosse o mais óbvio do mundo.

– Mái eu não vo vorta – respondeu sério olhando nos olhos dela e quase pode ver algo se partir lá dentro.

– Ará, mai com’assim num vai vorta? – perguntou incrédula enquanto ele a soltava, pois ainda tinha as mãos dela enroladas em seus braços.

– Eu não vou – respndeu ele – Eu vou para São Paulo e de lá vou achar um lugar para viver e trabaia. E agora eu tenho que i, ou eu perco o trem – respondeu ele – Tchau Gina.

Ela observou ele lutar contra a multidão para chegar até o trem, antes que resolvesse o que tinha de fazer para impedi-lo de partir.

– Mái como nóis vai casá se ocê for embora – aquela frase parece ter o efeito desejado, pois ele parou e se virou para ela.

– O que ocê disse? – perguntou enquanto todos os olhavam

– Ará Ferdinando, eu disse o que ocê ouviu, e não digo de novo – respondeu decidida, fazendo com que ele risse.

– Ocê espere aqui Gina – disse ele se afastando dela de novo e a ruiva quase imaginou que ele iria abandona-la, mas ele voltou pouco depois com uma mala em cada mão. – Se ocê repeti, eu vorto pra casa do seus pais, se não eu vorto pr’esse trem – disse simplesmente observando ela de canto.

– Ará Ferdinando – respondeu ela se virando de costas para que ele não visse o medo em seus olhos– Se ocê não vorta eu não caso ora.

O sorriso se alargou ainda mais quando ouviu a segunda vez, agora sim parecia real. Ele soltou as duas malas e abraçou a moça – Eu amo ocê Gina – disse antes de beijar a grande massa de cabelo – Ocê num sabe como eu ia sentir sua farta.

– Eu também ia sentir a sua farta – respondeu ela simplesmente.

– Então porque pediu para eu não te ver mais? – perguntou ele enquanto caminhava em direção a casa dos Falcão.

– Ará Ferdinando – respondeu ela olhando para os próprios pés – OcÊ é um home letrado e inteligente, um doto. – disse baixinho – Perto d’ocê eu sou ningum arguém.

– E quem foi que te disse isso? – perguntou ele parando e fazendo com que ela seguisse o seu movimento.

– Ará, eu num preciso que ninguém me diga Ferdinando – respondeu ela – Eu sei, eu vejo como a professora encara o Zelão e eu sei tumém que ocê merece uma princesa e um só uma rocera.

– Ará, ocê num é nada disso Gina – respondeu ele – Ocê é linda e eu amo ocê por demais, justamente por ocê cuidar da roça e dos bicho do seu pai e eu já lhe disse isso um monte vezes.

– Eu sei, disso eu sei – respondeu tristemente.

– Eu amo ocê, sua porquera – respondeu ele colocando um beijo na testa dela – sua rocera – ele beijo a bochecha – sua muié-omi – beijou a outra bochecha – sua princesa – beijou a ponta do nariz fazendo ela se contrair com uma risada simples – Meu amor – foi a última coisa que disse antes de beijar os lábios dela.