Contos de Outubro
7 Profundezas
Era outubro, e o clima quente de primavera estava especialmente severo naquele mês, especialmente naquela pequena cidade praiana onde um grupo de jovens discutia sobre alternativas para suportar o calor. Quase que por unanimidade, os cinco amigos decidiram que a solução mais obvia seria visitar a praia.
No carro conversível do rapaz de cabelos azuis, os cinco amigos antecipavam a chegada á seu destino. No banco de trás, um rapaz de cabelos negros, uma jovem de vestes brancas e uma moça de olhos verdes cantavam animadamente a música que saía em volume alto do rádio do carro, sentido as ondas sonoras ressoarem com seus batimentos cardíacos. O vento jogava seus cabelos para trás, os ajudando a se refrescar um pouco dos rigorosos raios de sol que reinavam implacáveis sobre suas peles. O cheiro de mar adicionava á antecipação, deixando um clima de animação no ar.
Exceto para um deles.
O rapaz de cabelos cacheados no banco do passageiro não estava nada contente com a situação. Não era de agora que ele sentia que não fazia mais parte do grupo. Todos os seus amigos estavam arranjados em pares, com seus estúpidos romances de primavera, e ele estava sobrando ali. Mas não conseguia recusar uma viagem á praia, então aceitou o convite sem reclamar, porém se sentia um intruso em seu grupo de amigos.
Quando chegaram, após montar seu pequeno espaço na areia, o grupo foi direto mergulhar na água marinha da praia.
Enquanto os dois casais brincavam e se refrescavam na parte rasa da água, o rapaz novamente se sentia excluído. Decidiu, então, apenas nadar um pouco mais para o fundo.
Sempre havia sido fascinado pelo oceano, e se sentia muito bem estando no mar. A água da praia em que estavam era particularmente translúcida e limpa, sendo bem fácil enxergar o fundo. Quanto mais longe de seus amigos ele nadava, mais distantes suas vozes se pareciam e mais paz ele sentia, estando em um ambiente em que ele realmente se sentia em casa.
Olhando para trás brevemente, viu que talvez houvesse se afastado um pouco mais do que planejava. Seus amigos pareciam pequenos no horizonte, sendo agora apenas silhuetas na distância. Mas ele não se importou muito com isso. Olhando para baixo, o rapaz conseguia ver seu corpo, mas já não era possível enxergar com clareza o fundo do mar, apenas aquela imensidão azul sob seus pés. Aquela visão o deu leves arrepios e um certo frio na barriga, mas ele continuou nadando.
Em certo ponto, ele já não conseguia ouvir as vozes de seus amigos, pois o som das gaivotas e das ondas do mar abafavam os sons, além da grande distância que ele estava do grupo. Ele ficou um tempo parado, apenas curtindo o balançar das ondas. Até que ele sentiu algo tocar em seus pés, sutil como um leve afago de uma pluma.
Sem pensar muito sobre o assunto, ele mergulhou para ver mais claramente o que poderia ter sido. Talvez um pequeno peixe, ou uma alga marinha sendo levada pela correnteza. Naquele momento, ele se arrependeu de ter ido tão fundo.
Abaixo do rapaz, havia apenas um vasto oceano, em uma profundidade muito maior do que ele previu, e uma grande silhueta se movendo um pouco mais a fundo. Um grave som pode ser notado, como um choro distorcido e demorado, tão grave e profundo que não parecia ser algo natural. E a silhueta estava começando a se mover. As ondas que reverberavam seu movimento ressoavam junto com seus batimentos cardíacos.
Olhando para cima, o rapaz viu o sol sobre a água, cada vez se distanciando mais. Ele estava afundando. Ele tentava nadar para cima o mais rápido possível, mas parecia que quanto mais ele lutava, mais ele era puxado para baixo. O desespero começou a invadir seu emocional e a adrenalina nadava por suas veias com tanta veracidade quanto o rapaz nadava em direção á superfície.
Ele olhou brevemente para baixo, vendo aquela criatura grotesca e colossal lentamente se aproximando. O rapaz nunca havia visto tantos olhos e tantos dentes em um só lugar. A pele daquela coisa era brilhante e parecia gosmenta, exalando uma sensação nauseante. Era algo tão horrendo e grotesco que não parecia real, não podia ser real. Mas era real o suficiente para estar bem de frente a ele, lentamente abrindo uma de suas gigantescas bocas. Era tão gigantesco que o rapaz não conseguia enxergar o fundo de sua garganta, era apenas um grande abismo, o encarando de volta. Os milhares de dentes circundando aquele abismo eram vinte vezes maiores do que o rapaz, talvez até mais.
Ele se sentia extremamente minúsculo diante da grandeza daquela criatura. E ele já sabia que não iria mais voltar para a superfície.
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