Não há lugar como o lar.
O expediente daquele pai de família estava quase no fim, em uma bela noite de sexta-feira de outubro. Ele estava ansioso para chegar em casa, para voltar para sua amada família.

Sua maior alegria era passar o fim de semana com sua família. O trabalho durante a semana era cansativo, mas os fins de semana compensavam todas as horas no escritório. Ele passava seu fim de expediente pensando em sua família. Sua doce esposa Ashley, seus dois filhos, Gabriel e Rosa, e seu fiel companheiro Blue, o pastor alemão. Ele era extremamente grato por ter uma família tão linda e feliz.

Seu horário não demorou a chegar, e logo ele já estava retornando para sua casa.

Sua empresa não era tão longe de sua casa, então ele geralmente optava por voltar a pé para casa. Porém, era necessário que ele estivesse atento ao seus arredores. Seu expediente acabava tarde da noite e a onda de crimes aumentava mais a cada semana em sua cidade. Mas ele não se abalava pelas notícias no jornal, caminhando com confiança nas ruas escuras e desertas durante a noite. Sempre tendo em mente que sua família esperava por ele em casa, o que o deixava muito mais calmo.

Era pouco dizer que ele amava sua família mais do que qualquer coisa em sua vida. Durante sua caminhada, ela era tudo no que ele conseguia pensar. Pensava em seu filho mais velho, Gabriel. Ele era o orgulho da família, jovem porém muito maduro. Estava cursando o ensino médio e já era certo de seu objetivo de cursar arquitetura. O homem se perguntava que carreira Rosa seguiria. Para ele, Rosa era a alegria da família. Com seus recém feitos seis anos, tinha toda a fofura e alegria de uma criança, sempre sorrindo e animando qualquer lugar onde passava. Seu sorriso era o mesmo sorriso doce de sua mãe, Ashley. Ashley era a pessoa mais amável que ele conhecia. Era por ela que ele trabalhava a semana toda, por ela que ele se levantava todas as manhãs com um sorriso em seu rosto. Todos os dias, ele fazia questão de que ela soubesse o quanto ele a ama.

A rua estava deserta. O suave soprar do vento frio da noite sussurrava verdades que o homem não ouvia, pois estava muito entretido por seus pensamentos sobre sua família. As luzes dos postes faziam um leve chiado, também ignorado por ele. Apesar do ambiente sombrio e perigoso, o homem não teve problemas para chegar em casa, são e salvo.

Com um sorriso no rosto e alegria no coração, ele abriu a porta da frente, esperando ser recebido com o doce sorriso de Rosa como sempre, porém o corredor de entrada estava vazio.

"Devem estar assistindo filmes na sala de estar" pensou, já que não era incomum que Ashley decidisse fazer pipoca e assistir filmes na sala com as crianças. Com isso em mente, o rapaz se dirigiu até a sala de estar, pronto para se reunir com sua família.

Porém, ao abrir a porta da sala de estar, o homem se deparou com algo que nem seus piores pesadelos seriam capazes de recriar.

A sala estava escura e um forte cheiro de podridão enfestava o local. O som da estática da tv ligada preenchia a cena, adentrando por seus ouvidos como um parasita. A luz do aparelho era a única coisa que o possibilitava de ver aquele cenário desfigurado. A sala estava uma bagunça, com móveis quebrados e jogados por toda a parte. O vermelho do sangue manchava o chão e paredes, pintando a cena com ainda mais horror. No sofá, descansava a visão mais horrenda que o homem já havia visto em sua vida.

Sua família estava lá, todos reunidos. Cobertos em seu próprio sangue. Seus olhos revirados em uma expressão de horror e medo que estava estampada em todos os rostos presentes, decorando suas peles acinzentadas de seus corpos que já entravam em decomposição.

Estavam todos mortos.

O coração do homem falhou uma batida, enquanto o choque descia por todo o seu corpo. Arregalou os olhos, cobrindo sua boca em descrença, não acreditando no que estava presenciando. Em um momento, as lágrimas desciam de seus olhos com tal velocidade quanto seu coração pulsava em desespero, horror e tristeza. Não podia acreditar no que via.

Ashley, Gabriel, Rosa, e seu fiel companheiro, Blue. Todo o seu mundo estava diante de si, deteriorando.

Ele não conseguia aceitar aquilo.

Suas pernas se moveram de forma automática, indo em direção ao armário de remédios. Sua mente não conseguia processar o que havia acontecido, então seu corpo apenas fez por ele o que ele não podia pensar em fazer. Sua mão alcançou o frasco de remédios para dormir, e sua boca fez questão de engolir todos os comprimidos que estavam nele.

Voltando para a sala, ele se sentou ao lado de sua amada esposa, pegando sua linda filha no colo. Já conseguia sentir a overdose de remédios fazendo efeito, ao que seu corpo relaxava, suas pálpebras pesavam e seu coração começava a bater cada vez mais lentamente.

De olhos fechados, ele segurou pela ultima vez a mão de sua amada. A mão dura e fria de sua bela esposa.

Afinal, o lar é onde a família está, não é?

Então logo ele também estaria lá.

Não há lugar como o lar.